sexta-feira, 19 de outubro de 2018

824-A Roupa Nova do Rei - tomo 3


Tempos obscuros



Em tempos em que o maior medo da sociedade passa a ser a incerteza se a democracia respeitará os direitos dos cidadãos, se a empáfia, a prepotência e a  soberba não acabarão por escravizar a liberdade conquistada depois de tanto esforço. No palco, um déspota de estatura paradoxal, Cléber Lorenzoni compôs um reizinho que nos parecia tão pequenino ao lado dos colegas de cena e ao mesmo tempo tão grande devido a seus desmandos e postura ditatorial. Tao pequeno, tao filhote quando o descobrimos um menino e tao grande pelo domínio de cena do interprete. Andersen em sua seu conto original, criara uma metáfora à sociedade da época onde todos vivem em função de modismos e não questionam os modos  comportamentais da circulo social que os rodeia. Esta postura pode até ser explicada  sob o aspecto da psicologia evolucionista, parece mais fácil seguir o grupo do que questiona-lo. Certamente no tempo das cavernas, se um grupo de pessoas estivesse correndo em uma direção, a atitude mais sensata seria a de se unir ao grupo. Os que ficaram para saber o porquê, terminaram sendo comidos por um leão e, consequentemente, não passaram o gene do “questionamento” para as gerações seguintes. Olhando por essa ótica, pode parecer extremamente normal e pouco condenável a postura do reizinho e de seu fiel conselheiro. Mas como não questionar então as qualidades pouco sensatas de um homem que ocupa um cargo de poder e que deveria em suma representar o juízo e a segurança de seu povo.

O público de A Roupa Nova do Rei do Grupo Máschara era formado por famílias e adultos e crianças divertiram-se, o cenário muito simples não atrapalhava ou sublinha coisas desnecessárias, na verdade era um trabalho muito limpo, bem a meu gosto. O texto muito bem pronunciado, me dava prazer em ver as crianças vendo teatro. Em nenhum momento bitolava ou subestimava os pequenos, ao contrario a qualidade da farsa, muito bem colocada principalmente pelos protagonista e antagonista, nos prendia minuto a minuto. Não deu para perceber o espetáculo passar, quando nos damos por conta havia acabado. Uma das maiores satisfações em ver um espetáculo desse porte, é perceber o quanto o elenco é coeso. Todos me pareceram atores muito capazes, dignos de uma grande turnê.

Que prazer depois de quase um ano voltar a ver a atriz Raquel Arigony em cena, tao solta, tao entregue, tao viva ao lado de seu partner. Casagrande e Arigony dialogam no palco sem deslumbres de atores que apenas querem exibir-se. O fazem, mas com domínio de palco. Assim como no outro time Giacomini e Lorenzoni trocam boas gags e pontuam brilhantemente as cenas.

O mais incrível é que tomada por uma epifania momentânea compreendi aquelas duas forças se revelando em minha frente. Aquele que tira dos ricos e dá aos pobres, que vai salvar a todos, e que ironicamente ou por coincidência ou por perspicácia da direção está de vermelho, ao lado de uma companheira do sexo feminino, preenchendo um personagem que pela tradição  do conto seria do sexo masculino. Do outro lado o ditador que manda e desmanda, as vezes com violência e sem domínio nenhum do que comanda. Assim como na vida, nenhum é do bem ou do mal, ambos passeiam pelos tortuosos caminhos da existência tentando sobreviver e fazer o que julgam ser o melhor. Em meio as duas forças está Lady Zuzu, o povo. Que tudo vê, mas acaba por dominado assim mesmo, por aquelas duas forças. Grita, corre, choraminga, mas o poder não é seu. 

Ao final, lições, catarses, mas o prazer de ver as crianças acompanhando uma historia onde no final tudo fica bem. Não é preciso romper amizades no face, ou ainda se julgar mas certo que outrem. O poder matriarcal sobre o trono, está acima de todos e nos acalenta, a rainha, a imperatriz, a dama encerra o espetáculo não punindo, não berrando, não judiando, mas contando uma historia. Nesse ano de exercer o sufrágio, podemos escolher entre duas forças, quem é capaz de dizer qual é a certa?

Lady Zuzu?





                  O melhor - O jogo do elenco.

                  O pior - a necessidade de se trabalhar e aperfeiçoar cada vez mais a equipe técnica.



                                  Arte é a vida!



                  A Rainha

domingo, 14 de outubro de 2018

zah zuuu no colégio Santíssima Trindade


823- Zah Zuuu (tomo 7)

Clown

É definitivo, ou você ama clown ou você odeia. Eu particularmente acredito muito na frase de Henry Miller, Clown é a poesia em ação. Delicado, milimetricamente intenso, totalmente conectado. Mas de onde vem o clown? O termo Clown vem de clod, que se liga etimologicamente ao termo inglês "camponês" e ao seu meio rústico, a terra. Por outro lado palhaço vem do italiano paglia (palha) material usado  no revestimento de colchões, porque a primitiva roupa desse cômico era feita do mesmo pano dos colchões: um tecido grosso e listrado, e fofo nas partes mais salientes do corpo, para proteger nas constantes quedas. Quedas essas que não faltaram em Babah. Mas o que envolve o clown nessa redoma de mistério, como chegar até ele? Há no clown algo que nos desafia, essa ingenuidade provocadora.   Se observarmos a historia veremos que sempre houve nas festividades religiosas e apresentações populares da antiguidade, uma alternância entre o solene e o grotesco. Essa combinação do cômico e do trágico, acentua a percepção das emoções contrapostas e é muito peculiar ao clown. O clown faz tudo seriamente. Ele é a encarnação do trágico na vida cotidiana; é o homem assumindo sua humanidade e sua fraqueza e por isso tornando-se cômico.
Zah Zuuu me parece um exercício onde os interpretes buscam algo que ainda não encontraram. Há é claro, uma proposta, uma triangulação típica em atores de domínio. No entanto o espetáculo é delicado demais para uma plateia tão grande como a da primeira sessão. O âmago da encenação é a relação entre pais e filhos, as vezes em alguns momentos Cléber e Renato até conseguem relativizar algumas normas de comportamento e verdades sociais, o que torna ainda mais contundente a encenação. O quadro final, já muito conhecido na historia do teatro, não é muito aproveitado, talvez pelo ritmo que se instale, nossas crianças tão pouco habituadas ao teatro, querem berrar e opinar sem parar. O espetáculo merecia mais silêncio. Aliás merecia muitos cuidados, sutilezas. Sutileza na trilha sonora que infelizmente foi tudo, menos delicada. Merecia uma contra-regragem também sutil, víamos constantemente a pessoa atrás das coxias alcançado coisas, andando. O que denota falta de ensaios e falta de comprometimento.  Eu particularmente fico muito revoltada quando vejo os atores se esfalfando no palco e a equipe que deveria dar todo o apoio técnico mais atrapalhando do que ajudando. As equipes que circulam por trás das rotundas, tem a seu favor, o anonimato, ninguém está com os olhos cravados em si. 
Zah Zuuu carrega uma linda proposta mas acaba se impondo como uma animação. Renato Casagrande traz como carta na manga sua capacidade de mergulhar no ridículo, palhaço realmente. Ele é sem dúvida o branco, o inteligente, o líder, a pessoa cerebral. Cléber é o Augusto, o ingênuo de boa fé. Nessa dobradinha rimos, rimos da fraqueza, da ingenuidade, da pequenez, e talvez, se tivermos pensado um pouco mais profundamente, talvez tenhamos alcançado a catarse necessária e proposta. 

Arte é Vida


O melhor: A iniciativa dos dois atores em embrenhar-se por um mundo tão pouco desconhecido e cheio de significados.
O pior: A equipe técnica que deve sempre ser profissional. 

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Renato Casagrande ao lado da aspirante a atriz Clara Devi


Convite de Maluc e Mulec


Alunos da Escolinha Arco Íris ao lado das personagens de Lili Inventa o Mundo


Rahrí e Babah em Zah Zuuu


Kauane Silva como a enigmática Anahí


822- Lili Inventa o Mundo (tomo 108)

Por que teatro?

Sempre que vou ao teatro, me questiono qual o motivo pelo qual determinado grupo está me propondo seu trabalho. Pelo dinheiro? Nesse caso o trabalho deve ser exímio, para merecer o que me está cobrando. Pela mensagem? Nesse caso preciso compreender muito bem onde querem chegar? Pela proposta técnica ou criação estética? Nesse caso deverá haver algo novo, desafiador ou questionador. Enfim, existe um sem fim de motivos pelo qual poderiam me chamar ao teatro. 
No espetáculo de hoje, Lili Inventa o Mundo, eu me questionei a todo o instante, o do porquê eu estar ali, por que esses atores me contaram aquela historia, que aliás há muito eu já conhecia. 
Depois de muito me indagar, cheguei a conclusão que talvez o teatro tenha se tornado para o Máschara um hábito, fazer, fazer, sem mesmo saber por que... Fazer e pronto. E isso acreditem, também é um louvável motivo. O problema, se é que há um, seria o fato de que o simplesmente fazer pode tornar o trabalho tão corriqueiro que se peque pela falta de exigência. 
Não foi um dia muito bom para a velha guarda do Máschara. Embora, tenham sido eles os motivadores, e preparadores da jovem guarda do Máschara... Cléber Lorenzoni me pareceu preocupado, sua voz estava abatida, prejudicada por algo que parecia ser uma gripe. Tudo bem, atores são seres humanos, acabam por adoecer em dias de espetáculos, no entanto, a equipe poderia e deveria ter preenchido sua fragilidade no espetáculo cantando, segurando as cenas. A partner do senhor poeta esteve fraquinha também, faltou-lhe energia, tônus. Kauane precisa ir atrás do Élan, da  presença. Mas como assim presença? A ideia de que alguém possa ‘ter presença’ como uma qualidade objetivamente verdadeira, pode levantar questões sobre que tipo de qualidade esta consiste, se esta pode ser treinada ou cultivada, e para qual limite esta pode ser aprimorada pelas percepções e expectativas daqueles que a testemunham. Muito se fala sobre a "presença", ela pode advir de "n" lugares, mas algo interessante de se pensar, é através da empatia que o ator deve criar com o espectador. Esse por sua vez vai abrindo a guarda e fica cada vez mais suscetível ao que o ator propõe no decorrer do espetáculo. É aí que tudo toma uma proporção maior para a percepção do público.
Kauane tem tido uma caminhada muito interessante em Lendas da Mui Leal Cidade e mesmo uma participação louvável em Olhai os Lírios, em Lili Inventa o Mundo precisa de mais "mordida".
Clara Devi é uma jovem atriz muito instintiva, o que é ótimo, deve buscar sempre o regramento, ouvir o diretor, ser uma atriz técnica e se policiar. O instinto é ótimo, mas as vezes ele nos leva para caminhos difíceis. É preciso respirar sobre o palco, sentir tudo a seu redor, triangular e manter viva a esfera de energia. Tudo isso se vê em Devi, basta agora canalizar. Tanto ela quanto Renato Casagrande pecaram ao abrir espaço para um público tão pequeno, que não tem o hábito de ver teatro, e acaba pensando que deve participar, gritar, rir, opinar. Mas essa situação ainda que perigosa é boa de se ver, é ela que vai acrescentar mais bagagem aos atores. 
Ainda no elenco estreante, Maria Antonia Silveira Netto foi inserida na cena com tanta graça e delicadeza que toda a audiência quedou-se. Talvez um pouco mais de força na impostação teria deixado Maria ainda mais intensa na cena. Alessandra Souza esteve intensa, viva, mas me confundiu um pouco a confusão de figurinos que usou. Não sei de quem foi a proposta, mas ela mais atrapalhou do que mostrou algo. Alessandra Souza é como já disse várias vezes uma atriz muito técnica, falta-lhe o instinto.
O espetáculo não foi apresentado com o clima poderoso que vi há três  anos atrás na Matinê do Máschara, mas tem tudo para manter-se vivo emocionando e envolvendo.

Felipe Padilha - Dedicar-se sempre, buscar conhecimento, merecer estar no palco, ser discreto quando em contra-regragem. (**)
Kauane Silva - Buscar mais vigor no palco, lutar e desafiar-se sempre. (**)
Maria Antonia Silveira Netto - Estudar, estudar, estudar. (***)
Clara Devi- Estudar, ouvir, aceitar. (***)
Alessandra Souza - Estar atenta sempre, tridimensionalmente, harmoniosamente, cuidando dos colegas e dos figurinos. Não basta dizer "quero o teatro", é preciso estar aberta e "ser o teatro" (*)
Renato Casagrande - Dividir, ouvir, somar, não perder a HUMILDADE, tudo o que sabemos no teatro, se esvai muito depressa e dependendo do olhar, pode significar nada... Aprender a ouvir e receber nãos (*)
Cléber Lorenzoni - Manter-se firme, sem sua voz, não há voz, como vimos nessa apresentação. (**)


Arte é Vida