quinta-feira, 26 de outubro de 2017

791 A Roupa Nova do Rei- (tomo 2)

A Arte de conseguir fazer Arte com quem não sabe para que serve a arte...

                     Há algum tempo que acompanho as atividades do Grupo Teatral Máschara, e fico muitas vezes gratamente surpresa pelo que é apresentado, pelo nível alcançado por aqueles que realmente se dedicam ao teatro com seriedade. Na verdade são poucos os atores realmente aptos a se dizerem profissionalmente atores, com capacidade, versatilidade e talento. Agora, com o amadurecimento da ESMATE escola de teatro do Máschara, talvez surjam novos atores, para aumentarem nossa galeria de estrelas. Muitos atores saem de uma oficina, ou ostentam o diploma de um curso, ou ainda participam de alguma pequena esquete performática e já se acham capazes de se dizerem atores. Realmente o teatro confere a seus frequentadores essa equivocada capacidade de com apenas um ou outro pequeno salto ao palco se dizerem atores. Não nos cabe julgá-los ou culpá-los, isso é reflexo de uma platéia pouco exigente, reflexo da falta de escolas direcionadas e a falta de frequência em assistir teatro. 
                    A Roupa Nova do Rei de Andersen, foi uma montagem ousada, não por que trate de assuntos complexos, ou por qualquer outro motivo paradoxal, ao contrário, a narrativa é simples e de certa forma fácil de ser levada ao palco. A ousadia está em o Máschara conseguir aventurar-se em montagens quando possui em seu elenco um número pequeno de grandes atores. 
                         Uma companhia que alcançou vinte cinco anos, precisava ter paralelo a essa historia o crescimento de uma situação propicia a ela. Cursos de teatro, escolas de atores, crescimento de plateias, aberturas de salas de espetáculos, etc... É difícil dar vasão a uma historia de sucesso se a luta parece ser contra o todo a sua volta. Muito pouco foi feito para auxiliar a historia do Máschara. Os atores e diretores da Cia. lutaram, esforçaram-se em criar subterfúgios, locais alternativos, projetos. No entanto isso acaba por ser muito pouco. O teatro precisa se tornar uma realidade, ou haverá sempre o fantasma da evasão humana, a falta de estimulo por parte das familias, o desinteresse, o desrespeito, etc...
                     Cléber Lorenzoni, Dulce Jorge, Ricardo Fenner, Alessandra Souza e Renato Casagrande, de certa forma a atual diretoria do Máschara, vêm há mais de cinco anos lutando em todas as frentes para manter viva a chama. Aí acrescenta-se, Evaldo Goulart, Douglas Maldaner, Fernanda Peres, Raquel Arigony, Fabio Novello e Gabriel Giacomini que pulsam a sua volta.Parece um grupo grande, e é, mas é pequeno para esses vinte e cinco anos e para o que se almeja ainda alcançar. 
                      O Máschara viajou recentemente para mais uma das tantas cidades que vez ou outra decidem consumir teatro sem antes preparar a platéia para isso. As crianças tão acostumadas a redes sociais, videos do youtube e etc, não compreendem muito bem o que é teatro, para eles é algo entre cinema e uma recreação divertida. Alguns ousam pensar que atores são como aqueles palhaços que animam festas infantis, nos quais deseducadamente dá-se beliscões e empurrões. 
                           A Roupa Nova do Rei é um espetáculo que não subestima o público infantil, ao contrário, ele percebe a capacidade da criança em compreender as coisas, em pleno século vinte um, não poderíamos tratar nossas crianças apenas com marionetes falando com vozes debiloides, estaremos assim esquecendo de prepará-las para o mundo violento e competitivo que as aguarda. 
                            O Rei de Fan Fin Fon quer roupas novas, odeia roupas velhas, reclama do que tem e praticamente enlouquece seus fiéis puxa sacos, Flabeur e Lady Zuzu. Eis a ação inicial, um pouco longa, mas belissimamente costurada por Cléber Lorenzoni. Na principal circunstancia dada o Rei anuncia que costureiros devem ser procurados em todo o mundo. Está armado o imbróglio do espetáculo. E as crianças compraram a ideia. Compreenderam os perigos pelos quais o reizinho se arriscava. Maluc e Mulec, agora com nomes respectivamente corretos conseguiram apoderar-se do dinheiro dos cofres. 
                             O teatro tem essa força poderosa que parte do homem sobre o palco, a criatura humana atuando sobre o tablado decide os rumos do espetáculo. E isso se dá por questões filosóficas, sociais e orgânicas. Bom, foi dia de Cléber Lorenzoni comandar o rumo do navio. As crianças amaram o reizinho e quase demoliram com as cenas dos vilões. Merito logicamente também de Renato Casagrande que consegue vestir o manto da vilania. No entanto, o ator pode e deve saber abrir mão textos e cenas. O ator não é escrevo do texto, o texto, a palavra, está a serviço do interprete. Deve por tanto ser bem pronunciada, e ao mesmo tempo dispensada quando desnecessária. 
                               A partir do momento em que as crianças começaram a gritar que compreenderam o que acontecia, era hora de abrir mão, de pular para a parada real pelas ruas do reino. Elas estão ansiosas por ver se cumprir a charada que elas já mataram. Aí sim entra novamente a subestimação do público. 
                             Raquel Arigony e Alessandra Souza não estavam em um bom dia como na estréia. Raquel parecia tensa, preocupada. Talvez o pequeno espaço da coxia tenha feito com que ela soltasse ZuZu antes de sair completamente do palco rumo ao calabouço. Souza não se comunica. Alcança isso gritando ou mandando as crianças ouvirem, mas isso não é comunicar-se com a platéia, isso é apelar. Gabriel Giacomini dialoga muito bem com o reizinho e tem se mostrado ótima escada, mas precisa aprender também há abrir mão de coisas, a resumir cenas, etc.
                             A Roupa Nova do Rei aconteceu, graças a uma equipe inteira. Deve ser apresentado muitas vezes, e que sirva de estimulo para seus atores desafiarem-se e vencerem muitas outras barreiras que precisam ultrapassar para se tornarem grandes atores. 
                               O espetáculo tem um doce cuidado nos figurinos, uma limpeza de cenários, uma luz muito sutil, mas peca quando deixa o volume muito alto no palco. Atores berravam ao não conseguirem ouvir a própria voz. As vezes, quando apresentado em locais sem acústica, o operador precisa ter a sensibilidade de abrir mão de momentos sonoros em prol de que o público consiga ouvir a cena. Porém nos momentos finais do espetáculo algo aconteceu que quase não se ouviam algumas faixas. 
                               
                             Para lembrar: O teatro profissional não é algo para se fazer nas horas vagas, ou quando não tenho nada melhor para fazer. O teatro é escola, é profissão, é trabalho, é auto-conhecimento, precisa de dedicação, sacrifício e estudo.
                                  Para esquecer: O momento em que alguns atores continuam dando seu texto, teimando com a platéia, mesmo não sendo mais ouvidos por ela.

Texto: Adaptação do conto de Hans Cristhian Andersen por Cléber Lorenzoni. (**)
Direção:Cléber Lorenzoni (***)
Elenco: Cléber Lorenzoni (***)
             Renato Casagrande (**)
             Raquel Arigony (**)
             Gabriel Giacomini (**)
             Alessandra Souza (**)
Trilha Sonora: Renato Casagrande  e Cléber Lorenzoni (**)
           Operação  : Stalin Ciotti(*)
Contra-regragem: Laura Hoover (**)
                             Stalin Ciotti (**)
                             Evaldo Goulart (***)
 Iluminação : Fabio Novello (***)
Figurinos: Cléber Lorenzoni e Renato Casagrande (***)
Montagem de Palco: Evaldo Goulart, Fabio Novello, Laura Hoover, Cléber Lorenzoni (**)
Comercialização: Ricardo Fenner (**)
Cenário: O Grupo (**)
Produção: Grupo Máschara (**)
Condução: Pampa Turismo (***)



 Arte é vida

                                                           A Rainha


As peripécias de A Roupa Nova do Rei - A decima peça infantil do Máschara


O Aborígine de A Roupa Nova do Rei, Renato Casagrande


terça-feira, 24 de outubro de 2017

O Ator e Performer Fábio Novello e suas incríveis caracterizações


O palco pronto para o IIº Tomo de A Roupa Nova do Rei


Os super heróis do Máschara interagindo com os filhos dos funcionários da COPREL (*)


O ator Evaldo Goulart ciceroneando o público do Cena às 7 (***)


790 - o Incidente 81

               
                            Erico Verissimo foi um dos maiores romancistas brasileiros. Embora também tenha sido traduzido para várias outras línguas.  Em meio à Nelson Rodrigues, Caio Fernando Abreu, Ariano Suassuna, Gianfransesco Guarnieri, Plínio Marcos, Arthur Azevedo, Pedro Bloch, Martins Penna, Erico também tem uma grande visão da alma humana. A apesar de não ter sido jamais um dramaturgo. Erico funciona muito bem no palco. Literatura e teatro são duas artes distintas. Enquanto a literatura tem signos próprios (as palavras e suas articulações em meio a frases e textos), o teatro é feito de tornar seus os signos que são dos outros, amarrando-os em uma estrutura em que um ator interprete um personagem (ou figura) diante de alguém. Lê-se um livro sozinho, mas é raríssimo assistir sozinho a uma peça. Um livro escrito há três mil anos pode ser lido hoje. Quem mergulha no intento de adaptar uma obra de uma arte para outra não pode desconsiderar as realidades de cada uma, as dificuldades que cada uma oferece para esse processo e a forma como elas podem re-hierarquizar os elementos construindo uma nova estrutura. Cléber Lorenzoni e Dulce Jorge adaptaram o texto de O Incidente em 2005 e conseguiram transpor para o palco com exatidão o clima politico e humano da pacata Antares. Uma qualidade de Cléber Lorenzoni é sempre tentar envolver a plateia na ação. Como acontece em Um Inimigo do Povo (2007) e mais recentemente em A Roupa nova do Rei. Estamos na praça de Antares, um de nós é Professor Libindo, outro é Dr. Falkemburg, outro é o Prefeito.  
                       A discussão que se desenrola entre os mortos e a relação de revolta deles para com a plateia, fica muito verdadeira, pulsante em personagens com Barcelona, Menandro e Dr. Cícero.  Eu já assisti O Incidente dezenas de vezes. E o Máschara sempre nos presenteia com novidades, com novas versões ou por mérito ou por necessidade merituosa. Impliquei apenas com a velocidade com que o espetáculo de repente acabou, sem uma curva bem estabelecida, possivelmente devido a falta de conflito e dos personagens “vivos”.
                       Já disse que o que mais me anima, envolve, atrai, é essa capacidade do máschara, não que outros grupos não a tenha, mas essa preocupação com a plateia, esse desejo de ir criando todo o ambiente. Sentada em meio há tantos jovens, professores quase dormindo e alguns brincando com seus celulares, os professores, não os alunos. Fui me deixando encantar pelos atores da Cia. Que caracterização perfeita, embora algumas maquiagens pudessem ser aprimoradas, a pesquisa de época me toca muito. Acredito que o calçado do professor também seja um aquém dessa perfeição.
                     Sobre o palco Fabio Novello e Dulce Jorge foram magistrais. O ator de Ijuiense nunca disse seu texto contra os comunistas com tanta veemência. Desta vez eu vi vivas as suas convicções. A impagável Dulce Jorge fez escolhas, se reinventou e criou novos traços para Dona Quitéria. Detalhes que enriqueceram e trouxeram graça. Não importa há quanto tempo se faz um papel, sempre se pode criar algo novo, atuar, interpretar!
                 Erotildes também perdeu a chorosa interpretação comovente para dar espaço à chocante vivencia trágica, tão necessária na personagem, tão necessária em todo o elenco. Aliás esse clima trágico inspirou alguns colegas e pode e deve estabelecer-se ainda mais na atriz e em todo o espetáculo. A situação a que se encontram os mortos de Antares é trágica. Não é dramática.  O Pudim de Stalin pode e deve ser mais presente, os momentos quase performáticos em que o ator está ao fundo, na meia lua, mostram-no vivo, intenso, mas quando há flexões de texto, ele deve trazer mais força e ímpeto. A qualidade de sua pronuncia, a potência vocal, a força de seu olhar, tudo deve ser trabalhado pela direção.
               Arigony, Lorenzoni e Giacomini cumprem suas funções sem grandes méritos. Embora o timbre vocal da atriz rosariense tenha se elevado bastante, dando-lhe um poder muito maior em sua Shirley e não há como não homenagear o trabalho vocal que Raquel pôs em sua personagem, dando-lhe um sonoridade regionalista. Giacomini pode alcançar mais sucesso e valor com sua cena, se a direção criar um bife a partir da cena de Rita e João Paz. Queremos conhecer mais do jovem e nos falta informações que nos ajudem a construir o caráter da personagem, sua historia. Se pensarmos que o espetáculo está ali como uma mera performance para homenagear a obra, ele cumpre sua função. No entanto teatro é conflito. O Incidente é uma obra com inicio, meio e fim, devemos sair do teatro com uma ideia construída. Ou então a montagem terá cara de mera sinopse introdutiva.
              Casagrande tem nas mãos um grande bife. Supera-se e vários quesitos, mas apreciaria ver a cena mergulhada no silêncio. A Apassionata tem sua força própria e entra em conflito com a forma que o ator projeta sua cena. Acredito que se chegaria muito mais longe se a cena fosse apresentada sem a presença forte de bethovem.
            A trilha operada por Evaldo Goulart teve alguns atrasos e alguns ataques brutos, mas quase imperceptíveis. No decorrer praticamente não se percebeu sua existência, o que sinaliza uma bela operação. Apenas vou implicar com o sonoplasta, pois acho que deveria haver uma trilha para a plateia, não expondo as musicas do espetáculo antes da hora. O que tira seu brilho e força.
            Foi uma agradável manhã de Erico, para que como disse o diretor do espetáculo, não se pense que o autor é apenas o autor de Ana Terra e Dona Bibiana.


                    Para lembrar: Que não se pensa coisas ou as propaga sem ter certeza, correndo-se o risco de ser injusto ou esquecer coisas importantes em dias de apresentação.
                      Para esquecer: Que não houve almoço para os atores e nem água ou lanche nos camarins, infelizmente artistas ainda são tratados assim, não por falta de respeito com o artista, mas por falta de diálogo!


O Incidente

Texto: Adaptação de Cléber Lorenzoni e Dulce Jorge da obra homônima de Erico Verissimo (***)
Direção: Cléber Lorenzoni (***)
Elenco: Cléber Lorenzoni (**)
              Dulce Jorge (***)
              Renato Casagrande (**)
              Alessandra Souza (***)
              Fabio Novello (***)
              Gabriel Giacomini (**)
              Stalin Cioti (**)
              Raquel Arigony (**)
Trilha Sonora: Cléber Lorenzoni (***)
Operação: Evaldo Goulart (**)
Contra-Regragem: Laura Hoover (**)
                                Stalin Ciotti (**)
                                Evaldo Goulart (**)
Figurinos: Cléber Lorenzoni (***)
Camareiro: Renato Casagrande (***)
Iluminação : Fabio Novello (**)
Montagem de Palco: Alessandra SOuza e Raquel Arigony (**)
Comercialização: Ricardo Fenner (**)
Produção: Grupo Máschara (**)
Condução: Pampa Turismo (***)

                    Arte é vida / Venda e comercio de espetáculos é trabalho, profissão!

                              A Rainha

O Incidente em Nova Ramada - Sucesso de elenco e público