segunda-feira, 22 de julho de 2024

Grupo Máschara Às portas do Prezewodowski


 Dona FLica e seus dois Maridos

Melhor Espetáculo

Melhor Ator: Cléber Lorenzoni

Melhor Ator Coadjuvante : Fabio Novelo

Melhor Iluminação : Fabio Novelo e Romeu Waier

Melhor Maquiagem : O grupo

Fabio Novello recebendo do secretario adjunto de cultura de Itaqui seu troféu de melhor ator coadjuvante por Dona FLcia e seus dois maridos


 

Equipe do espetáculo Dona FLica e seus dois maridos


 

Grupo Máschara recebendo troféu de Melhor Espetáculo no 21º FIT


 

1182 (tomo 4) Dona Flica e seus dois Maridos

                   Depois de mais de trinta anos, a gente não vai mais ao teatro apenas para ver a historia, a trama, a técnica, nós vamos mesmo para ver determinados monstros pisarem no palco. E ainda para ver a forma como eles pisam, como se comunicam, ver a mágica que se dá. Por decisões do destino, quatro anciãos do Máschara reuniram-se sobre o palco. Cléber Lorenzoni, Dulce Jorge, Renato Casagrande e Fabio Novello. Sobre eles além de suas capacidades interpretativas, há o manto do tempo, das escolhas, das decisões, dos sacrifícios pela arte. E tudo está conectado, pois cada dor se torna gesto no palco, cada perda se torna emoção no palco, cada machucado físico se torna domínio da cena. A jovem atriz que pretendia ser atriz em Porto Alegre, o jovem que queria ser médico, o jovem que muito cedo foi para Porto Alegre, mas que o destino incumbiu-se de trazer de volta. O jovem de Ibirubá que percorreu o mundo e veio parar em Cruz Alta. Todos reunidos, todos cumprindo suas funções para que o teatro seja pleno e vivo. Lá estavam eles, brilhantes, vívidos, intensos, entregues. Naqueles cinquenta e poucos minutos de peça, vale tudo! Vale ser palhaço, vale ser frágil, vale ser ridículo, vale ser grande, vale ser imensamente pequeno. As vozes saem de suas caixas torácicas como se fossem impulsionadas pela eletricidade. Improvisam. Falam longos textos. Movem-se como se em uma dança. Trocam de roupas em segundos... Emocionam, nos fazem rir e nos fazem chorar.. Como? Se são apenas atores, seres como nós. Gargalhamos aponto de correr água dos olhos e essas mesmas águas se tornam gotas salgadas logo depois com uma simples inflexão que parte do palco e crava-se em nós de forma certeira. 

                  Você percebe que eles até tentam ser muito técnicos, é o que se espera, mas há mais, há um respirar, uma inflexão, um olhar, que vem embutido de tanta alma... 

                    Dulce Jorge apreendeu a personagem em uma semana, cinco ensaios, se não me engano. Cléber Lorenzoni dirige e atua, nãos abemos como, deve ter a ver com a estrutura perfeita que ele mesmo compôs. Fabio Novello monta o plano de luz, depois corre vestir-se, Romeu Waier assume a mesa, está aprendendo maravilhosamente, ao seu lado está Clara Devi, que ensinou Ana Clara a arte necessária a uma boa camareira. Clara assume o som, depois de conferir tudo preparado. Ana Clara veste preto, corre de um lado para o outro, aprende coisas no ultimo minuto, cuidará também de alguma tomada, enquanto se move rapidamente por trás das coxias, quase se pecha com Antonia Serquevitio, que posiciona chapéus e adereços pelos corredores do teatro. De uma lado para o outro está também o diretor, Cléber, entre um tempo de maquiagem e uma peça de roupa, anda pelo palco, conferindo com Renato Casagrande a distribuição do cenário. Clara Devi agora descera as cortinas das galerias para escurecer o palco enquanto Ana Clara procura uma vassoura. Romeu Waier acende e apaga holofotes enquanto Fabio Novello tenta pentear os cabelos, andando pelo palco. Últimos ajustes, Cléber Lorenzoni acalma a estreante Dulce Jorge enquanto Renato Casagrande faz pintas de maquiagem nas faces do velho que interpretará. Alguém pergunta se tudo está certo, querem introduzir a plateia... Lorenzoni puxa uma oração, um pai nosso que mais serve de mantra aos Deuses todos, de todos os tipos e religiões, há de haver algo, uma força, alguém em algum lugar, que zela por tudo isso, que torna tudo isso abençoável e sagrado. Precisa ser sagrado, pois comove, arranca risos e lágrimas, deve ser sagrado, como o sexo, como a concepção, como a morte, e como o nascimento. Precisa ser sagrado!!!

              Dona Flica é um espetáculo de apelo popular, para o qual alguns catedráticos do teatro podem torcer o nariz, alguns embustes também; sobre o palco tudo tem um certo ar de sucata, no bom sentido, é ótimo que o teatro reaproveite tudo, afinal de contas precisa ser barato. Percebe-se que as cadeiras são daqui, o abajur dali, os adereços de acolá, e isso concede verdade ao cenário da casa de uma anciã. Os figurinos já conhecidos de Dona Flica entram em contraste com sua roupa de estar em casa na primeira cena. Cléber Lorenzoni nos pega na primeira cena e ao lado de Dulce Jorge contam entre gags e confusões a historia de Dona Flica. A cena dois e a cena três estão nas mãos de Novello e Casagrande respectivamente, cenas perfeitas. |Talvez Novello pudesse mencionar seu aplicativo e talvez Casagrande pudesse aprofudnar seu esquecimento. De qualquer forma as cenas são ótimas. O quiprocó da cena quatro cumpre-se divertidamente e tia Flica opta por continuar só, a vida é muito curta, é preciso amar-se enquanto há tempo.

                 A dramaturgia de Dona Flica é quase perfeita, com curvas corretas, altos e baixos e afunilamento final. o bife final coroou nossa percepção e deixou muito clara a temática do espetáculo. Ainda que haja um clima de realismo fantástico em alguns momentos. 

                  Obrigado aos anciãos do Máschara por nos ensinar tanto e por nos preparar para seguirmos seus passos, que na verdade são os passos de todos que fazem teatro.



                     A Rainha


Dona FLica e seus dois maridos.

Texto: Cléber Lorenzoni

Direção: Cléber Lorenzoni

Elenco: Cléber Lorenzoni, Renato Casagrande, Fabio Novello e Dulce Jorge

Trilha Sonora: Cléber Lorenzoni  - Operação: Clara Devi

Cenário : Renato Casagrande

Figurinos: CRenato Casagrande e Clara Devi

Iluminação: Fabio Novello e Romeu Waier

Maquiagem: O grupo

Camareira: Clara Devi

Auxiliares contra-regras: Antonia Serquevitio e Ana Clara Kraemer





terça-feira, 25 de junho de 2024

1180 - Esconderijos do Tempo - Tomo 94

Quem é o diretor?


                       Quando você saía de casa para ir ao teatro anteriormente ao século XIX, você ia admirar a beleza de um texto, a efervescente mente daquele homem, infelizmente muito poucas mulheres, e suas centenas de possibilidades dramatúrgicas.  Hoje você não mais preocupa-se com o texto, pois é a perspectiva do diretor que reina absoluta. O diretor diz algo que o texto não diz, ele quer expor a obra não apenas à apreciação, mas também à reflexão do expectador. Acredito que tenha sido Jean Jacques Roubine quem disse que o encenador é o gerador de unidade. Ele nos revela a dinâmica daquela determinada realização cênica. Através da direção, conseguimos ver os laços que unem figurinos, cenários, interpretações, iluminação e etc....

                         O público de teatro, a meu ver, já aprendeu a receber o espetáculo como uma totalidade, o que não acontecia nos séculos XVII e XVIII por exemplo. Uma pessoa que tem o costume de ir à casa de espetáculos olha para o palco com olhos rápidos e observadores, ela percebe quando um figurino destoa do cenário, ou quando um ator declama um pouco demais, em comparação aos seus colegas de cena. 

                           Geração após geração do teatro moderno foi ajudando a formatar essa soberania que se apoia na figura do diretor e que emprega a um trabalho teatral o titulo de obra, obra artística que um "obreiro" criou. É portanto, necessário que os atores, as equipes, os técnicos, compreendam o que aquele diretor quer dizer. Com aquela música especifica, com aquele gesto, com aquele caminhar, com aquela interjeição, com determinada réplica. Cada ator ou atriz, ou pessoa de teatro, e aí emprego as dezenas da possibilidades profissionais que consigo pensar quando observo sob a égide de trabalho, entende, pensa, age diferente. Mas é apenas um ser que assina a historia. Ele sabe por que a canção na cena da valsa é o tema de Lara, do filme Doutor Jivago. Por isso ele jamais erraria a musica correta de uma cena. Ele sabe por que um menino entra em cena chutando o chão, ele sabe o que quer passar com o visual da jovem atriz interprete de Glorinha. O público quer portanto absorvê-lo, devorar cada signo, cada símbolo dessa criatura poderosa. Antes disso no entanto, os membros da equipe, do projeto, do espetáculo, precisam compreender o que vai entrar no palco. 

                              Que historia estamos contando? Por que há um  paredão de tule no fundo do palco? Por que aquela atriz está vestida com roupa de baile de gala? Por que a musica ambiente é a de Gustav MAhler? Por que dele e não de Beethoven? O meu receio é que alguém diga: - Ora, por que o CLéber gosta desse... - Essa resposta seria frustrante demais. 

                             A resposta enfim, é essa, saber, compreender, perguntar. É isso que um membro dessa equipe deve sempre pensar. Devo perguntar tudo e possivelmente ter um caderninho para anotar tudo. Do contrario jamais irá compreender por que um ator sobe ou não na complexa porém óbvia hierarquia desse grupo.

                              Constantemente as pessoas dizem que um diretor quer saber mais, se acha superior, é absolutista ou despótico. Ora imaginem você te rum filho, que você se programou para ter, e todos ao seu redor ficarem dizendo como cria-lo, como vesti-lo para a escola, o que lhe ensinar ou não... O espetáculo é do diretor. Por isso há de se tomar muito cuidado quando um ator se apropria de forma equivocada de um espetáculo e acha que sabe o que o diretor quer dizer com aquela obra e ainda fica dizendo o que acha que os outros da equipe devem fazer, ou como devem agir. 

                                O diretor sabe de tudo, sobre o todo, não por que ele é melhor do que alguém, mas por que sua peça é como seu tcc. O Orientador não saberá, o colega não saberá, o cara que foi contratado para digitar não saberá. A única pessoa que compreenderá o TCC é a pessoa que o criou. A função dos atores não é a de ser diretores. A função dos técnicos não é a de ser diretores. A função dos contrarregras não é a de ser diretores. A função de todos é executar bem suas funções e tentar ENTENDER uma obra e não prejudicá-la. 

                                A apresentação no espaço Adão Ortiz, foi linda, criteriosa, elegantérrima. Teve logicamente seus pequenos resvalões, afinal uma equipe é viva e mutável. 

                                 Respeitemos a figura do diretor, ele batalhou muito para chegar onde chegou...



Esconderijos do Tempo

Direção Cléber Lorenzoni 

Roteiro e Dramaturgia - Cléber Lorenzoni e Dulce Jorge

Elenco

Cléber Lorenzoni - Dulce Jorge - Clara Devi (***) - Fabio Novello - Laura Hoover(**) - Renato Casagrande - Antonia Serquevitio (**) - 

Participação Especial - Felipe Brandão

Iluminação - Fabio Novello e Romeu Waier (**)

Sonoplastia - Gabriel Ben (*) e Ellen Faccin (**)

Contrarregragem - Ana Clara Kraemer (***) e Douglas Maldaner (**)