domingo, 5 de dezembro de 2021

977 - Auto de Natal - Família de NAZARÉ (TOMO VII)'

Novamente grandes espetáculos na rua...

                         A vida brota todos os dias e insiste em se reproduzir e pulsar. Vejam as plantas que nascem nos fios da eletricidade pelas ruas e avenidas, ou as verdadeiras árvores que se desenvolvem entre as telhas das casas. A vida luta todos os dias e  cumpre um sistema que não se sabe como surgiu, mas ele é tão perfeito, tão inequívoco e altamente justo. Observando a praça lotada por meus conterrâneos eu gritei dentro de mim: "Há Vida"!
                      No palco, tantas informações, tantos símbolos, uma verdadeira exposição de centenas de pequenos pontos de vista que se mesclam. Uma força poderosa. Por exemplo: Quando os anciãos do templo vinham em direção ao proscênio, era possível ver  as colunas ao fundo, emolduradas pelo lindo prédio a intendência. Na sacada, uma menina e seu avô (com maquiagem que pode ser repensada), contavam a historia que víamos no palco. O Cenário estava vivo. E esplendido.
                               Claro que se pensarmos em evento grandioso, teríamos que falar da iluminação do prédio da intendência, que deveria ser maior, poderoso, ostentoso até. 
                              Quanto a obra dramaturga que reflete o olhar de uma direção bastante formal, ela mantém muito do original canônico, mesmo que dê àquelas personagens dimensões não encontradas na Bíblia. Escritos entre 40 e 100 d.c, os evangelhos mencionam Maria de forma muito sutil, ou seja, sua apoteose como Mãe de Deus, (visão poética), mãe de Jesus, mãe de rei ou príncipe, foi agregada à sua figura por diretores, escritores, romancistas e historiadores. Depois de dois mil anos, não há como saber realmente como era aquela figura tão cheia de paradoxos. O que temos é a criatividade de um conhecimento coletivo que hora nos dá uma Maria que é mãe, torre de resignação e fé e em outras, coragem e empoderamento de mulher que aceitou se destacar pela eternidade. 
                            Laura Heger e Alessandra Souza interpretam esta curiosa figura, que em três réplicas tenta mostrar ao mundo quem é. Como Maria jovem que ousa ir ao templo, como Maria que recebe a visita do anjo e apregoa que é filha de Deus e que aceita o que esse decidir, ou ainda a Maria que implora compreensão de José. Alessandra Souza trouxe uma calma a personagem e cumpre belissimamente sua parte. Laura Heger está repleta de noção de palco, de ritmo e energias, é uma atriz em acelerado desenvolvimento. Talvez ambas pudessem buscar mais semelhante no desenho físico das personagens.
                                   A mitologia católico-cristã serviu-se em seu princípio, das mitologias do mundo antigo. Zeus também engravidou a mãe de Perseu sem ter um encontro carnal, Héracles ou Hércules também é filho do rei do Olimpo com uma mortal, e como não há um Herói no texto de Lorenzoni, José acaba assumindo o posto de mocinho/herói, eis a fórmula do sucesso. Cléber Lorenzoni com domínio de palco, consegue abrir as cenas e motivar muitas vezes os colegas a atuarem para o público. Destaque também para Isabel (Clara Devi) e Ana (Raquel Arigony) também da casa de Judá  e descendentes de Davi.
                                   O Coro que dança e canta, as vezes peca na dicção. 
                                   O palco era grande, liso, bonito, e pareceu bastante confortável para contar uma historia repleta de ação e interna e externa. Pena o anjo ter ficado no escuro. Problemas na parte técnica que escorriam do palco com problemas de som e luz. Uma lástima. 
                                    Há nesse novo olha sobre o espetáculo, mais crianças, mais colorido e diria que até mais compreensão do que acontece sobre o palco, talvez a presença de Romeu Waier e Nicolas Miranda em papeis de peso tenha somado um novo frescor à encenação. Ambos brilham como Reis Magos e ao lado de Douglas Maldaner triangulam muito com o Herodes de Renato Casagrande. Talvez o intérprete de Belcchior pudesse creditar mais domínio na sua criação. Mais ousadia. 
                                     Em si é um espetáculo lindo, com uma bela pegada de teatro de rua, e eu adoraria ouvi-lo sem as dublagens. Uma amiga que me acompanhava comentou: -Que lindo, parece uma cosia para crianças, mas a gente se apega e depois gosta mais que eles... (os pequenos) E não há como não sentir-se criança, seja na cena dos pequenos comandados pela encantadora Vitoria Ramos, ou naquela abertura lindíssima ao som de Aline Barros. Quem assiste um espetáculo dessa envergadura, não sabe a luta que é para chegar até ele, até vê-lo pronto para pôr-se no palco. O Casal Josafá pode e deve trabalhar muito, sua cena é um presente do diretor, pode ser muito mais explorada.
                                        O final com Noite Feliz entoado por todos a beira do palco, me lembrou a infância, quando em noite de ternos, saiamos às casas cantando juntos e levando o espirito do natal. 

                                 O Melhor: a operadora de som , Ellen Faccin, atuando junto na mesa de som.
                                 O pior: Ver o nervosismo dos atores no começo do espetáculo, quando claramente algo parecia ter dado errado.


Auto de Natal- Família de Nazaré

Direção: Cléber Lorenzoni
Elenco: Alessandra Souza, Renato Casagrande, Fábio Novello, Raquel Arigony(***), Laura Hoover(***), Douglas Maldaner(**), Vitoria Ramos(**), Ricardo Fenner, Antonia Serquevittio(**).
Atores em substituição: Nicolas Miranda(**), Romeu Waier(***), Clara Devi(**), Laura Heger(***), Anita Serquevittio(**), Henrique Arigony(***), Gabriel Prates(**), 
Contra-Regragem- Ellen Faccin(***)


A Rainha


Arte é Vida


                                          

domingo, 28 de novembro de 2021

976-Infancia Roubada - tomo 5

 Basta de Violência


"Você recebe exatamente o que dá ao teatro, nem mais nem menos. As vezes os atores propagam seu sacrifício, que abriram mão disso e daquilo pelo teatro. No entanto é lá no palco que aparece sua entrega".

               A manhã da sexta feira, dia 26 de novembro, foi surpreendente, por que levou ao público uma outra roupagem do Máschara. O pancake branco e as coreografias vibrantes deram espaço a reflexão intensa da luta pelos direitos femininos. A coordenadora do centro de referencia Maria Mulher frisou: - Hoje não é um teatro para rir... é um teatro para chorar... -Chorar sim, pelas famílias, ricas ou pobres, de quaisquer raças, que passam por situações horríveis dentre suas quatro paredes. Quem passa do lado de fora muitas vezes não toma conhecimento, mas muitas familiais estão doentes.

               Uma vez alguém perguntou ao diretor Cléber Lorenzoni, se o Máschara tinha ideologia. Ei-la, presente em vários espetáculos, e aí friso os três últimos: O Menino do Pastoreio, Tem chorume no quintal e Infância Roubada. Os três escritos e dirigidos por Lorenzoni. O público do Máschara tem acesso a vários assuntos, dentre eles, os assuntos atuais em discussão. No compilado de sexta feira, eu vi a homofobia, o abuso infantil, a violência domestica, o conflito de gerações, o abuso de poder... Mas vi também grandes atuações. 

                A notória exuberância de Eliani Aléssio chamou a atenção, e destacou-a e muito dor estante do elenco que acabou por atuar como escada para seu gol. (Não esqueçamos que o teatro, a cena é sempre um jogo! Na dramaturgia de Cléber Lorenzoni, Nice e Flávia são duas mulheres maltratadas por seus companheiros, classes sociais bastante distintas que se encontram nas tramas da vida criada pelo diretor. 

                     O tempo é percebido também através do desenho do espetáculo que nos apresenta uma convenção muito bem traçada. O fator motivador da ação é sem duvida o espancamento de Nice na primeira cena, que vai encontrar desfecho quando a própria retorna para casa e se liberta de suas amarras.

                      No palco Renato Casagrande rouba a cena como Tânia e ao lado de Cléber Lorenzoni, Vitoria Ramos e LAura Heger, conseguem dar um respiro cômico entre tantas coisas terríveis que o espetáculo mostra. Lorenzoni modificou com exatidão a trama, e o olhar sobre Nice também se transformou, já que agora Flávia e Rafaela pressionam para a catarse da primeira. 

                         Adaptar um texto não é tarefa fácil, pois é preciso encontrar um lugar  confortável que toque vários públicos, que seja coerente, que tenha transformações não muito rápidas e nem muito lentas. Talvez o maior mérito dessa versão, é que Cléber queira dizer que todos somos capazes de nos reinventarmos. Fazermos melhor na segunda vez, reconhecermos onde erramos e principalmente percebermos os que nos cercam, e o quanto também dependem de nós. 

                            Transformação e reinvenção são palavras chave do Máschara, o teatro é fruto de reflexões e de estudo, quando se trabalha em comunhão com o mundo ao seu redor e busca-se a mensagem correta, há uma longa trajetória que nos que não somos do palco não percebemos. A preparação de cada artista, sua estruturação em busca do tempo certo para receber um papel. Infância Roubada começou a ser preparada em 2017 ainda e passou por várias formações. Na estreia quem era agredida, era Raquel Arigony e o jovem Nicolas Miranda já dava seus primeiros passos no palco. Mas teatro não é reflexo de "eu quero", "eu acho", "eu sei". Se assim fosse, mais parecia um circo de pulgas formado às pressas em meio a uma quermesse de cidade pequena. O produto sobre o palco precisa ser perfeito, o público, a máquina exigem isso e isso exige maturidade, liderança e prática.  

                            Stalin Ciotti merece palmas pela sutileza com que trabalha, assim como Laura Heger, o teatro vive nos detalhes. 

                             No palco alguns atores podem buscar mais potencia vocal, Antonia Serquevitio pode trazer mais emoção a personagem, e Laura Hoover poderia nos dar o prazer de vê-la em mais espetáculos. A interprete de Nice talvez pudesse acrescer à personagem um tom mais grave na voz, o que a deixaria mais mãe, mais sofrida. 

                            Palmas a quem merece, palmas a quem estuda e trata o teatro com seriedade. Teatro é algo serio, é recurso, é entrega, é estudo.

                              O melhor: O apoio dos artistas Fabio Novello, Raquel Arigony e Romeu Waier para que a apresentação fosse um sucesso.

                                 O pior: a falta de integração entre atores nos ensaios


Casa de Cultura - 26/11/2021

Basta de Violência

Dramaturgia: Cléber Lorenzoni

Eliani Aléssio (***)

Antonia Serquevittio (**)

Samuel Ciotti (***)

Laura Heger (**)

Vitoria Ramos (**)

Laura Hoover (**)

Equipe Técnica:

Clara Devi (**)

Fabio Novello (**)


                                   Arte é Vida

                                             A Rainha