domingo, 28 de outubro de 2018

829- A Maldição do Vale Negro Osório - (tomo 27)

            A maior gratificação que o teatro pode dar aos homens de teatro, àqueles que dedicam sua vida ao palco é o reconhecimento, o aplauso, o carinho da platéia e o respeito dos colegas de profissão. Em Osório por ocasião do 13º Art in Vento, o Máschara recebeu de presente tudo isso. No palco um texto cômico de Caio Fernando Abreu, fazendo homenagem ao Melodrama e apresentado de forma bastante escrachada pela direção criativa de Cléber Lorenzoni, com apenas três atores em cena. Um trabalho que no ano da montagem foi concebido há várias mãos. No elenco tinha Cléber Lorenzoni, Gabriel Wink e Ricardo Fenner, na direção Cléber Lorenzoni e Dulce Jorge, na assistência, Angélica Ertel, na sonoplastia: Roberta Queiróz e na contra-regragem Alessandra Souza e Renato Casagrande. Estreou em Maio de 2009, por ocasião do Cena às 7 e durante seus nove anos de historia, foi apresentada tão somente vinte e seis vezes. Além de um belíssimo exercício para três atores, Maldição também diverte e nos faz admirar as potencias e capacidades artísticas de como contar uma historia com trocas de roupas e de personagens em uma velocidade elogiável. 
              No decorrer de sua trajetória o espetáculo foi mudando, com novas piadas, gags, improvisos, mas mantendo seu âmago. Sua direção firme não permite que aconteça o efeito geleia, tão comum em espetáculos em cartaz por tanto tempo. Renato Casagrande também teve a humildade e capacidade de vestir a personagem criada por outro ator, mantendo muito da composição original. Sendo assim, não resta muito a observar, mencionarei então a postura dos três grandes atores, que por escolha própria e muito pensada optaram por piadas que reconheço não me agradam muito, mas que fizeram a plateia rolar de rir. Aplaudidos em cena aberta por várias vezes, Casagrande, Lorenzoni e Fenner conseguiram empenar muito precisamente a curva dramática. O beijo na cena final, o lenço que caiu e serviu para muitas piadas, a peruca voando longe, a tocha tão bem aproveitada, seja pela iluminação de Fabio Novello, seja por Rosalinda se queimando ou por Úrsula acendendo o cigarro. Noite de bom teatro. 
             A partir de hoje em cada crítica vou tentar mencionar um pouco da historia de nossos atores. 
Ricardo Fenner, o interprete de Jezebel e Conde Maurício é o escolhido de hoje. Não sei se todos sabem, mas estreou como ator em 2002, interpretando vez ou outra o vovô de Feriadão. Sua primeira oficina se deu em 2001, há dezessete anos atrás. Ricardo Fenner é um ator que sempre se dedicou ao Máschara, apoiando e se esforçando para que o Grupo crescesse e se tornasse o que é hoje, tanto que criou uma produtora para poder vender os espetáculos. A Script produções. Ator cômico de natureza, tem uma facilidade para o escracho e o pastelão. Foram muito marcantes suas participações em O Incidente como o Coronel Tibério Vacariano, que triangulava como antagonista direto dos sete mortos de Antares e em Bodas de Sangue como o pai da emblemática noiva de García Lorca. Em o Santo e a Porca(2012) Ed Mort (2008) e Deu a Louca no ator (2011), Ricardo Fenner pode mostrar várias faces de seu talento cômico. Mas foi em 2015, como o Angelo Fontes, que Ricardo alcançou outro grande passo em sua carreira nos oferecendo um personagem sofrido, provando que também tem em sua bagagem o talento para o drama. Confesso que em minhas críticas várias vezes peguei em seu pé, mas sempre em prol do aprimoramento de suas capacidades e de sua técnica. Em 2015, Ricardo foi premiado com o troféu de Melhor Ator Coadjuvante no melhores do Ano do Máschara e  em 2016,  ganhou o troféu de Melhor Ator Coadjuvante por Olhai os Lírios do Campo no festival de Santa Rosa. 
Ricardo Fenner ao lado do primeiro elenco de O Incidente

             Não podemos deixar ainda de mencionar suas substituições em TArtufo, Os Saltimbancos e como Pudim e Barcelona em O Incidente. Ricardo Fenner fez muito pelo Máschara e pelo teatro em Cruz Alta. Aqui fica todo o meu respeito e admiração por um ator que consegue provar que dá sim para casar o teatro com uma vida paralela de trabalho e administração familiar. Todos ganhamos com seu esforço  e determinação. 
                                
                                 Arte é Vida


                 O melhor: O trabalho de equipe que se estendeu por camarins, palco e mesa de operação. 
                 O pior: Talvez a trilha sonora em alguns momentos um pouco alta. 

Cléber Lorenzoni ao lado de Sandra Dani E Arlete Cunha


sábado, 27 de outubro de 2018

Com o público do 13º Art in vento


Momento de reconhecimento no 13º Art in vento


Rosalinda e MArquês Rafael em A MAldição do Vale Negro


O elenco de Lili Inventa o Mundo


Ao lado de mais uma turminha em Nova Ramada


828- Lili Inventa o Mundo (tomo 109)

                         O que é o teatro infantil? Uma preparação para o público, para que quando crescerem queiram ver, assistir espetáculos adultos? Ou o teatro infantil tem dogmas próprios, um objetivo específico diferente dos objetivos do teatro adulto? Ou é uma forma de ganhar dinheiro, mais fácil do que com o público adulto? O que me irrita um pouco no que diz respeito ao teatro infantil é o fato de os pais jogarem os filhos lá como se isso tirasse sua obrigação de também ir ao teatro.
                          Eu sempre gostei de ir com a família, e sempre mergulhei nas narrativas como se criança fosse. Penso que se for bom os adultos também vão gostar, pois trata-se de arte, de alma. Os espetáculos infantis do Máschara não tratam as crianças como idiotinhas, ao contrário exigem sempre raciocínio e quebram conceitos, saem do dito lógico. Criam mocinhos e vilões e os desestruturam. 
                             Os poemas de Mario Quintana são poderosos e muito bem aproveitados para dar vida às peripécias de Mathias e Lili. Ela uma protagonista observadora, sem muitos quereres, Lili nos representa, somos nós entrando em contato com a  poesia. O desconhecido mundo da poesia nos carrega, nos puxa pela mão e quando nos damos por conta estamos apegados ao delicioso Senhor Poeta e seu ajudante Malaquias. A interpretação de Cléber Lorenzoni é clownesca, viva, divertida. Senhor poeta tira sarro até mesmo da menina Lili. São doze anos de espetáculo. Doze anos que Cléber brinca, soma, aprende e descobre com sua personagem. Isso o torna cada vez melhor na cena. Teatro é técnica, é dom, mas também é pratica. Maturidade. 
                                Enquanto assistia, me recordava muito do Palhaço Bozo e de sua partner Vovó Mafalda, palhaços famosos, saídos do teatro, que fizeram grande sucesso na tv dos anos 80. O que mais gostava neles, era exatamente o mistério, quem seriam aquelas pessoas, de onde vinham, e seu elemento surpresa me dava medo e de mantinha presa a tv. Elemento surpresa o espetáculo Lili tem de sobra. Sr. Poeta e Malaquias surgem de todos os lados. Kauane mais madura agora, mais preparada, vem construindo delicadamente uma bonita caminhada. Sem pressa, sem dar passos maiores que pode alcançar. Quando o teatro vai nos tomando devagarinho, apodera-se mais intensamente de nossa alma, e fica lá grudado para sempre. Kauane jogou bastante, mostrou força e não se desestabilizou quando seu lenço caiu. Honrou seu oficio, como toda a atriz deve fazer. Aliás falando em atriz, Alessandra Souza acertou a mão e muito. Não gosto da confusão de vestidos. Desnecessária e confusa. Mas esteve cheia de equilíbrios e desiquilíbrios, precisa, e engraçada. Souza é uma atriz de construções detalhistas, que vai aos poucos desabrochando. 
                                 Renato Casagrande carrega o espetáculo, levanta a bola para todo o elenco. Pontua com Cléber Lorenzoni mesmo que os personagens não troquem uma única palavra, a não ser um "quá" em determinado momento. Não é a toa que Cléber já fez Lili interpretando ao mesmo tempo os dois personagens. As vezes senti que Clara era meio levada por Mathias e deve ser assim, mas a atriz tem que parecer espontânea fazendo isso. Casagrande tem ritmo e time precisos e dessa vez fez tudo direitinho. Parecia ter onze anos em cena.  Clara Devi recebeu de presente essa personagem. Lili é uma relíquia para atrizes novas, principalmente por que vem carregada de uma historia antológica. No entanto senti Clara tão frágil em cena. É necessário ensaiar mais, as vezes a linha se arrebentava, o fio de ariadne que conduz a cena ficava solto e Renato ou Cléber precisavam agir. A mim pareceu nervosismo, o que muito admiro em atrizes, quem não fica nervoso, quem não sente um frio antes de entrar em cena talvez nem mereça estar ali. Mas Clara já tem bagagem e trajetória. Ensaios! Ensaios! Ensaios!
                                       Maria Antonia é muito novinha, deve ter calma, e ao mesmo tempo aproveitar, a infância é a melhor época para se aprender o oficio. Você ainda está desprovido de muitas manias e vícios. pode aproveitar cada pedacinho. Guardá-los no banco da Memória Emotiva. Maria tem aquele tipo que entra em cena e o público para, quer ouvi-la. Mas precisa lembrar de ser mais próxima do público na hora das fotos. É ali que os atores carimbam o documento, que mostram ao público que seu carinho em cena era verdadeiro.
                                         O cenário de Lili cumpre-se, apaixona pela simplicidade e poder, parece que de traz das cortinas poderá sair qualquer coisa. Teatro, teatro do bom para firmar a tradição das cênicas em Nova Ramada.  O Máschara criando plateias e dando sua contribuição para melhorar o mundo.  Aos que estão começando a fazer teatro, mais ensaio, mais dedicação, mais intuição, mais estudo, mais coragem, mais iniciativa, mais seriedade. Mais humildade para atrizes, observar os mais velhos, fechar a boca, pedir conselhos, fingir que não sabe para ser gentil em certas ocasiões é bom e nos faz crescer como seres-humanos. Há sempre o que aprender. Quem tudo pensa saber, nada sabe. 
                                       O melhor: O jogo de Cléber, Alessandra, Renato e Kauane.
                                       O pior: O despreparo da equipe técnica de Lili Inventa o Mundo.


                             Arte é Vida


Maria Antonia Silveira Netto - (**)
Kauane Silva (***)
Clara Devi (*)
Felipe Padilha (**)
Stalin Ciotti (**)


                                       
               

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Com as crianças em Nova Ramada


827- Esconderijos do Tempo (tomo 89)

                      Quando assisto um espetáculo de teatro, tento estar bastante aberta, disposta mesmo a receber toda e qualquer ideia que o espetáculo queira me passar. Quanto a interpretação dos atores, tento ser tocada pelo dom, pela alma dos atores, ou pela técnica. No espetáculo Esconderijos do Tempo, o que sempre me surpreende, é a formalidade, a direção de Cléber Lorenzoni, precisa, sagaz, firme. Cada gesto, cada ação, cada momento possui uma escolha muito firme, embasada em técnica. Talvez por isso esse espetáculo seja um dos melhores dramas que já assisti, carregando aliás consigo algumas características de tragédia. 
                         É interessante analisar a quantidade de técnicas que há em um espetáculo, muitas vezes de forma intuitiva, o que prova que teatro tem dogmas milenares, estabelecidos há muito tempo de uma forma universal, ou seja você pode fazer teatro em qualquer lugar do mundo, a base será sempre a mesma, a ideia, o objetivo do teatro estará la. As formulas, as regras, os gráficos, os estilos, tudo se cruza, se mistura. De forma que é impossível dizer quem aprendeu o que, com quem e  onde. 
                          Esconderijos do Tempo fala das dores humanas do personagem central, desde o dia em que é surpreendido por uma criatura estranha, que lhe prende a atenção e que permanece presente em sua existência até o momento de sua morte. Se observarmos o período em que o espetáculo foi criado, em 2006, com roteiro de Cléber Lorenzoni e Dulce Jorge, vemos ali muito forte o MÉTODO de Stanislavski. Memória Emotiva, Ações Físicas e Analise ativa. Importante pensar como Grotowski e Brecht que em algum momento se deram conta de que tudo na verdade passeia de algum momento pelos métodos de Stanislavski, tão abrangentes e poderosos. 
                              A curva dramática que começa a curvar-se com maior intensidade na segunda entrada do espectro da musa vai afunilando a narrativa, dá uma pausa cômica em Gouvarinho para novamente intensificar-se com anjo, visita de Dona Glorinha e finalmente o clímax máximo na morte do poeta. Cléber Lorenzoni nos da no mínimo quatro Mários. O adolescente, o homem adulto, o senhor de meia idade e finalmente o idoso que vê a iminência da morte. O senso de humor de Quintana é transformado aqui em força contrária e o Máschara nos apresenta a complexidade de uma vida celibatária, na qual um homem solitário tenta viver com toda a sua tristeza recolhida e a devolve em forma de poesia lírica ao mundo. 
                                 O público de Nova Ramada, tão acostumado às comédias do Máschara deve ter estranhado tanta tristeza explícita, tanta dor, e me questiono quanto a isso, o teatro deve ser levado aos públicos todos, mas deve haver uma escolha, uma decisão bem tomada, ou será que todos os espetáculos são para todos os públicos? Talvez, mas talvez quando o assunto tange aos pequenos, as crianças, deve haver uma boa escolha, pensada, baseada na transformação que se quer alcançar. 
                             No elenco a veterana Dulce Jorge dominando sua cena, fazendo cortes precisos no texto para não alongar uma cena tão triste perante as crianças. Cléber Lorenzoni em um dia fraco, sem a grande interpretação pela qual é conhecido. Volume, técnica, mas pouca alma. Cléber Lorenzoni tornou-se um ator que sente demasiado o público e isso o atrapalha. Cléber Lorenzoni atua com toda a platéia em seu bolso. 
                                Alessandra Souza esteve muito bem, mas ao vê-la em Lili senti vontade de dar um conselho a atriz. Não está na hora de dar o papel de Lili para uma atriz mais jovem, que esteja começando. E mergulhar integralmente na personagem da Musa? Renato Casagrande cumpre sua função, mas tem talento para muito mais que aquela pequena participação. Fabio Novello vem melhorando sua interpretação, seja como Gouvarinho, como o contador de historias em O Castelo Encantado ou tio Bertold em COmplexo, é gostoso ver o ator ir se dando mais espaço no palco, só acho que Novello pode e deve trabalhar mais a interpretação dramática, praticar mais as construções dolorosas.. Laura Hoover esteve linda com penteado de Renato Casagrande. Uma verdadeira mocinha ilustrada nos manequins dos anos quarenta. No entanto Laura pareceu um pouco cansada, cumpriu sua função. Uma bela atriz no palco, mas aquele vigor, aquela alma, aquele prazer que causava em quem assistiu das outras vezes não esteve presente. Uma pena. Atrizes que estão começando devem sempre se dar ao máximo em cena. 
                                  Não dava pra fazer muita coisa em um espaço tão desimpossibilitado como aquele de Nova Ramada, mas a cena final no escuro, foi ato muito penoso e incompetente. Em pleno final, quando todos deviam ver o olhar agradecido do interprete. Uma pena. 
                                     As "gentes" do teatro devem sempre fazer o melhor, pois nossa luta é apra criar o hábito, a tradição e o respeito pela categoria. Falhas não são, não devem e não precisam ser permitidas. Stalin Ciotti deixou muito a desejar. Primeiro escureceu o ator, depois quando o espetáculo acabou quando deveria ter tudo escurecido, deixou tudo iluminado de forma que a plateia não sabia se havia acabado ou não. Devemos cumprir aquilo que nos propomos ou declarar que não podemos assumir certas responsabilidades.
                                          

                                           O melhor: A madura e lúcida interpretação de Dulce Jorge.
                                           O pior: A escuridão no rosto do interprete na ultima fala da peça.

Laura Hoover (**)
Clara Devi (**)
Maria Antonia (**)
Kauane SIlva (**)
Stalin Ciotti (*)
Felipe Padilha (**)


                                         Arte é Vida
                                   
                                
                             
                           

Renato Casagrande = A noiva zumbi


Equipe de Lili Inventa o Mundo -2018 - Quinta geração

Camarim de Nova Ramada


Elenco de Esconderijos do Tempo 2018

Alessandra Souza - Dulce Jorge - Laura Hoover - Fabio Novello - Renato Casagrande e Cléber Lorenzoni