quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O Santo e a Porca 778 (tomo 12)


Quiprocós, Gargalhadas e Armações  


Já assisti quatro montagens diferentes de O Santo e a Porca, bem como outras encenações desse espetáculo. A trama é simples, uma criada, Caroba, organiza um mirabolante prêmio para salvar da opressão os enamorados Dodó e Margarida. Do outro lado, entre os opressores, está o avarento Eurico Árabe, que durante uma vida inteira enfiou tudo o que juntou dentro e uma porca/cobre, percebendo ainda que tarde, a inutilidade de seu gesto. 
Dulce Jorge cria uma Caroba irrepreensível, astuta, divertida. Cléber Lorenzoni adentra o palco sempre com muita energia, preenchendo as cenas com uma força que sai do palco e prende nossa atenção.Ambos são os altos cômicos. Trazem consigo a herança do teatro medieval e ainda das comedias gregas de Menandro. A farsa, (absurdo tratado com naturalidade) perpassa a narrativa, culminando em cenas como a troca de roupa ou o sonambulismo do patriarca. 
Eurico, velho, ranzinza, briguento, orgulhoso. Carrega dentro de si o arquétipo de Pantaleão. Caroba é a Colombina, ou outra criada da Commedia del Arte. Saltos, gestos grandiosos, sussurros e tombos recheiam a montagem de Cléber Lorenzoni como o bom espetáculo que é, e ao final a catarse se estabelece sobre o palco e na platéia. 
Para Cléber Lorenzoni guiar o elenco parece fácil, já que é o diretor do espetáculo, mas me incomodou o número de pauladas e bofetadas que o ator distribuiu, gosto de sentir gosto do verdadeiro, mas  não me aprecia ver o elenco sendo machucado.  Dulce Jorge esteve brilhante, intensa, viva, ágil, apenas em alguns poucos momentos baixou o volume, mas sua presença e ritmo mantiveram suas cenas. 
Nos baixo cômicos, quem se destaca é Ricardo Fenner como Eudoro Vicente, embora o ator não tenha mais se dedicado tanto a vida no palco,  sua noção espacial vem aumentando e seu tom conquista a audiência. Na "commedia dell art" seria o Doutor, homem rico, sem sorte com as mulheres que tenta parecer o que não é. Ricardo Fenner possui uma dificuldade fonética que o atrapalha em cena quando o espaço cênico é muito grande. Claro, o ator já evoluiu muito nesse quesito e encontra alguns macetes. Quando acontece a dobradinha Fenner x Lorenzoni em cena, todos saímos ganhando, isso por que Ricardo consegue se pôr em uma divertida posição de escada, o que é uma ótima qualidade de atores coadjuvantes.
Ainda nos baixo cômicos, como a pobre irmã repreendida, o Ator Evaldo Goulart alcança boa repercussão junto a platéia. Em alguns momentos é apelativo, e isso, a julgar pelo texto de Suassuna acaba sendo um ponto negativo. No entanto sobre o palco sua interpretação é coerente e arranca frouxos de risos. Benona é a "Madame" da Comédia Dell Arte, como tal. se acha superior e é extremamente ambiciosa. Em algumas cenas seu interprete perde o time, mas o mais importante, consegue fazermos esquecer o fato de um ator estar interpretando um papel feminino e nos convence de sua submissa existência.
Os inamorati são Alessandra Souza e Renato Casagrande, ambos não estão ali com a função de serem cômicos, mas conseguem arrancar boas gargalhadas a partir da adaptação que o grupo fez no texto. Ambos passeiam pelo palco com o domínio de grandes atores. Aliás as contemporaneidade que o diretor consegue com a figura de seu dodó, traz ao texto uma frescor maravilhoso.
Por que estou falando da Commedia Dell Arte? Por que é incrível perceber que uma forma de fazer teatro, desenvolvida por volta de quinhentos anos, ainda está presente nas comédias. O que prova que certamente os comediantes dell art da época não criaram algo, mas revelaram algo que sempre transitou pela humanidade. O teatro tem como sua maior função tirar os mantos de sobre as peculiaridades da existência.  Os "animais" que somos, merecem uma deliciosa observação. Somos cheios de duvidas, suposições, rompantes. O teatro nos reflete ora da melhor, ora da pior forma.
A iluminação de O Santo e a Porca, deixou a desejar. Perpassa pelo espetáculo momentos do dia e da noite. Há jantares, passeios obscuros e conversas ao pé do ouvido. A luz pode e deve nos auxiliar nessa compreensão visual e embora se diga que comédia se faça na luz, a boa comédia se faz com a luz coerente!
A curva dramática mais uma vez conseguiu se estabelecer. Não é necessário que o público de risadas o tempo inteiro, é importante contar uma historia e para isso em alguns momentos haverá um fluxo menor de piadas. Foi uma das apresentações em que as confusões de Caroba e as tentativas de alcançar os objetivos de cada personagem, mais claras ficaram. Mérito da equipe da direção.

Para Lembrar - O árduo trabalho do Máschara em levar os jovens para o teatro, desenvolvendo e descobrindo talentos.
Para Esquecer - As dificuldades em se fazer teatro, lutando para se conseguir o minimo de estrutura para ter luz adequada no Cena às 7.

Ficha Técnica
Texto-Adaptação da obra homônima de Ariano Suassuna
Direção: Cléber Lorenzoni (**)
Elenco: Cléber Lorenzoni
Dulce Jorge (***)
Renato Casagrande (**)
Ricardo Fenner (**)
Alessandra Souza (**)
Evaldo Goulart (**)
Sonoplastia: Cléber Lorenzoni
Execução: Gabriel Giacomini (**)
Iluminação: Fabio Novello (*)
Auxilio Técnico: Stalin Ciotti (**)
Equipe de Palco: Stalin Ciotti, Douglas Maldaner. Vagner Nardes e Antonia Serquevittio
Camareiros: Renato Casagrande e Laura Hoover (**)
Portaria: Raquel Prates (**)
Produção: Grupo Máschara




quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O Ataque dos Portugueses à Anay - Lendas da ESMATE


De vento em Popa, os ensaios de O Santo e a Porca


Atores do Máschara em Dancing Queen


A Maldição do Vale Negro - tomo 25 (777) - Colégio Santíssima Trindade

                       O Colégio das freiras em Cruz Alta, depois de mais de cem anos aqui residindo, e ainda que em um mundo evoluído, cheio de tecnologias, continua com seu aspecto sagrado e mítico. A imponência do franciscano na esquina da pinheiro, exala grandeza e parece guardar segredos e historias incríveis do passado de milhares que dentro daquelas paredes buscaram o conhecimento.
                             Toda a sua pompa, as imagens sacras, os genuflexórios, as colunas e vitros, sempre me pareceram teatrais, cênicos. Como a pintura do velho de barbas cinzas na parede dos fundos da capela, Deus. O teatro é a interpretação da vida, o teatro está nas "máscharas" do dia a dia, o teatro são as nossas posturas, são os nossos silêncios, são os nossos amores, são as nossas alegrias, o que nos fascina e o que nos entristece. O Teatro são as invenções, as cerimonias; as nossas dissimulações, nossas pequenas mentiras, nossas gentilezas exacerbadas. O teatro está por todos os lugares.
                             Adentrei ao colégio com aquele respeito teatral com o qual se pisa em solo sagrado, silêncios, cuidados, calmaria; Afinal ali há uma congregação, uma peça sendo representada, uma peça da comédia humana.
                            Quase trezentos alunos, casa lotada, assistiram A Maldição do Vale Negro, uma peça que passa longe do politicamente correto e talvez por isso mesmo não seja a escolha mais acertada a ser apresentada em um colégio. Porém seria equivocado de minha parte ignorar a bonita relação entre Grupo Máschara e colégio das irmãs, de onde advém um jornada de tramas apresentada que de certa forma abre um leque de percepções por parte dos alunos. Esconderijos do Tempo (2007) Lili Inventa o Mundo (2008) O Incidente (2008) Ed Mort (2015) O Incidente (2015) Os Saltimbancos (20015) O Santo e a Porca (2016). Sendo assim, o olhar dessa platéia especifica, pareceu enxergar além do simples texto de Caio Fernando Abreu. Ora, há uma gama de impressões, de mensagens, de signos e símbolos que um espetáculo emana , e quem dita a sua compreensão, é a sensibilidade do individuo.
                              A historia de Rosalinda, Úrsula e O Conde Mauricio do Belmont é contada com todos os maniqueísmos, escapismos, simplismos, e a intervenção decisiva da providência divina. O que surpreende é o culto pagão brilhando naquele teatro de convenções franciscanas. Claro eu respeito, e vou mais longe, sou devota de São Francisco. No entanto o exacerbamento da interpretação, o visual um tanto caricato e até mesmo o retorico parecem nos chocar. Aliás, alguns alunos pareciam debater-se entre rir, chocar-se ou prestar atenção.
                                 Não vou tecer elogios já esperados a Cléber Lorenzoni, que redirigiu mais uma vez algumas cenas, produzindo uma curva dramática muito correta e nos presenteou com uma impecável Úrsula de Beltmont. Alguns atores pensam que quando se interpreta um texto cômico, deva fazer rir o tempo todo, não, ao contrário, deve-se levar muito a serio, sem apelações, sem exageros, para que a graça nassa organicamente, naturalmente. Claro que nessa montagem de A Maldição, onde impera o pastelão, o escracho, técnicas tão próximas, não há como não soar exagerado e apelativo.
                                 Mas la estava uma obra ímpar, com sua versatilidade, energia e interpretação. Casagrande, Fenner e Lorenzoni seguraram a platéia, conseguiram vencer a barreira da falta de acústica, e tocaram mais algumas dezenas de adolescentes com o poder do teatro. Arte não foi feita simplesmente para gostar ou não, ela deve despertar, revolver dentro de nós, buscar nas profundezas. Apear claro de eu ter torcido para ver no palco do STS a peça Olhai os Lírios do Campo.
                                     Cada ator trouxe novas gags, novas piadas, "hoje é como se fosse outrora, e nunca mais outra vez".  Um espetáculo amadurece, torna-se outra coisa, outra obra, conta novas historias, ou as conta de outras formas. A sexualidade quase mundana do espetáculo faz parte de nossa realidade, portanto não há porque sermos hipócritas e pensarmos que as grossas paredes do convento irão proteger nossos filhos, mas esperei que houvesse um debate, um diálogo maior entre equipe e alunos, ou por que não dizer entre professores e atores antes do espetáculo. O público costuma ser leigo, constantemente precisa ser estimulado a raciocinar pois está acostumado com a linguagem televisiva onde tudo é mastigado.
                                      Quando olhamos para o palco vemos um cenário impecável, atores brilhantes, mas as vezes esquecemos que uma enorme equipe pôs tudo aquilo em pé. Alessandra Souza, Evaldo Goulart, Stalin Ciotti, Laura Hoover (esses dois últimos, talvez a nova geração do Máschara), e ainda Raquel Arigony, Dulce Jorge e Gabriel Giacomini, que mesmo não sendo contra-regras do espetáculo acorreram em auxiliar. A trilha sonora bastante óbvia cumpre-se embora em alguns instantes estivesse um tanto acima do volume necessário. A iluminação não pode se mostrar muito eficaz, já que no espaço não há urdimento, varas de luz etc... Contudo, percebe-se a crescente dedicação de Stalin Ciotti.            
                                   E principalmente em meio a fogueira das vaidades que as pessoas que fazem teatro promovem dentro de si, é importante lembrar que é uma arte de equipe, que o que é justo para mim pode não ser justo para meu colega. Façamos nossa parte bem feita, essa é nossa função e que os Deuses imperem sobre nós.
                                   Cléber Lorenzoni guardou-se para o final, apoiou-se em sua bota imobilizadora para fazer gracejos, depenou o Marquês na cena final e foi aplaudido em cena aberta. Não há como não admirar esse momento, no entanto todos sabemos que o teatro tem como qualidade o efêmero, o hoje significa o hoje, o amanhã é totalmente desconhecido. Torçamos para que tudo seja ainda melhor no próximo Tomo.

                                    Para lembrar: Sacrifícios, houveram muitos para A Maldição.
                          Para esquecer: Posturas negativas e climas desagradáveis que põe em risco a harmonia e até mesmo o profissionalismo.


A Maldição Do Vale NEgro
                   Texto : Caio Fernando Abreu
Direção e Assistência: Cléber Lorenzoni e Dulce Jorge
Elenco:
             AI -Cléber Lorenzoni (***)
             II - Renato Casagrande (***)
             AIII - Ricardo Fenner (***)
Auxiliar de cena
             III - Alessandra Souza (**)
Operador de Som:
             III - Evaldo Goulart (**)
Contra-regragem:
             S - Laura Hoover (**)
             S - Stalin Ciotti (**)
Apoio:
             III-Raquel Arigony
             IV-Gabriel Giacomini




                       Arte é Vida
                                                            A Rainha