quarta-feira, 29 de junho de 2016

Em artigo, músico e escritor reflete sobre o papel e a imagem dos artistas em um momento de crise política no Brasil

A história é mais ou menos assim: Mark Twain, o escritor norte-americano, estava sentado na varanda de sua casa quando passou um vizinho e perguntou "Descansando, vizinho?", ao que ele respondeu "Não, trabalhando". Outro dia o mesmo vizinho o viu cortando a grama do jardim e perguntou "Trabalhando, vizinho?", e Twain respondeu "Não, descansando".
Lembrei dessa historinha para exemplificar a ideia de que o trabalho e o descanso do artista não se parecem com os das demais profissões. Para o senso comum, "artista" nem mesmo parece ser profissão. Para que serve o artista afinal? O sistema não tem, a priori, um lugar para ele. O pintor francês Paul Gauguin trocou uma profissão "de respeito" e rentável para se tornar um pintor destinado a viver e morrer na pobreza e sem reconhecimento. Que julgamento esperar dos contemporâneos de Gauguin senão o de que ele havia enlouquecido, que era um misantropo, um inadaptado?

A sociedade está sempre pronta para receber os engenheiros, os médicos ou os advogados, nunca os artistas. Se um médico pendurar seu diploma em uma parede, entrar e sair rotineiramente pela porta de um consultório em que estiver afixada uma placa com seu nome e especialidade, ninguém dirá que ele não é um médico, seja ele bom ou mau profissional. Para o artista, um diploma e uma porta com seu nome nunca serão o suficiente. Seu reconhecimento dependerá sempre de critérios subjetivos. O que ele faz é artístico? O que é arte afinal? O próprio artista pode passar a vida fazendo-se essas perguntas. O dilema começa cedo. Ninguém pode dizer a uma criança ou a um adolescente se ele é ou será um artista. O artista só ouve a própria voz. Nos tornamos aquilo que somos, disse outro escritor. Mas que difícil é escutar a própria voz, dizer para si mesmo: sou um artista, serei um artista.
Em minha casa estimulamos muito nossos filhos a seguirem o caminho da arte caso se sentissem vocacionados para tal. Para a nossa alegria e a deles, Ian eIsabel são hoje artistas que muito nos orgulham. Mas sei que na maioria das famílias os pais tremem diante do projeto ou da decisão dos filhos adolescentes de quererem seguir esse caminho. O medo dos pais talvez se origine da percepção de que os jovens não têm experiência de vida suficiente para medir os riscos de uma escolha profissional equivocada ou de difícil trajetória – sem falar que, para muitos, escolher a arte significa simplesmente abrir mão de ter uma profissão "de verdade".
A difícil trajetória para um artista pode ser consequência do valor intrínseco do que ele produz, mas pode também, e talvez principalmente, resultar da dificuldade de inserção num sistema em que a arte é menos necessária que supérflua – daí a importância, para todas as sociedades, da existência de instituições culturais sólidas, aquelas que ambicionam dar à arte seu devido e digno lugar no sistema. Mesmo atuando num contexto adverso, o artista pode ser tido em alta estima. Mas é mais comum que enfrente preconceitos de toda ordem. É moeda corrente que seja taxado como vagabundo, boêmio, preguiçoso e/ou desregrado, por exemplo.
Particularmente considero da maior importância a vagabundagem, a boemia, a preguiça e o desregramento para o fazer artístico. Mas sei que um só desses adjetivos poderia destruir a reputação dos profissionais "respeitáveis" das profissões, digamos, convencionais. O artista paga alto preço por levar uma vida não convencional. Além disso, como para as pessoas em geral a arte está ligada aos momentos de entretenimento, prazer ou mesmo de descanso – aos momentos em que saem da "rotina" –, impõe-se a ideia de que o artista vive só nesses, por esses e desses momentos de lazer, que sua vida é uma festa permanente. Pouco se sabe do fazer artístico, do quão difícil e complexo ele pode ser, de quanta transpiração existe para cada inspiração. Quem não conhece a fábula da cigarra e da formiga?
Por mais que pensemos em culturas diferentes, em países em que a arte seja mais ou menos valorizada, nos EUA de Twain, na França de Gauguin, no Brasil de Noel Rosa – aquele boêmio incorrigível que, tendo vivido apenas 26 anos, criou uma obra genial com potência suficiente para moldar nossa identidade nacional –, não acredito que o papel do artista na sociedade mude muito de um lugar para o outro. No caso do Brasil atual, a dita demonização dos artistas me parece pontual, diz respeito à política. As pessoas estão demonizando umas às outras de um modo que acena com a barbárie, com a falência de um projeto democrático para o país. Por que os artistas seriam poupados dessa insanidade se, em sua maioria, eles se situam no espectro político mais à esquerda, justamente o que agora está sendo julgado?
Mas estou seguro de que aqueles que hoje insultam um Chico Buarque ou um obscuro grupo de teatro de vanguarda sabem, no fundo, que o trabalho desses artistas é da maior importância; sabem que, produzindo cada um a seu modo e com liberdade, eles são fundamentais para a nossa constituição como nação. Uso a expressão "no fundo" de propósito. Talvez o foco agora devesse estar no fundo, talvez precisássemos ir fundo nisso tudo. Que tal irmos e sairmos de lá compartilhando a mais legítima alegria cidadã?

terça-feira, 28 de junho de 2016

A entrevistadora do programa Sala de Estar da Unicruz TV - Luciane Dall Soto - uma das grandes apoiadoras de nosso trabalho


Esconderijos do Tempo no Salão de Atos da UNIJUI


Grupo Máschara em performance 833 no ctg Toríbio Verisssimo


IXª edição do Complexo de Elecktra - 739

                    
Não da para exigir reações...ou da para exigir as reações...?



               Quando falamos em adaptação, muitas vezes pensamos o seguinte: determinada pessoa pegou um texto, foi extirpando trechos e o que sobrou, ou o que conseguiu manter, jogou sobre o palco. Não, definitivamente esta é uma visão equivocada do trabalho de adaptação de um dramaturgo. Sim, chamo-o assim, pois o adaptador precisa ter um extensa noção de carpintaria teatral, boas noções de direção, compreensão de curva dramática, e etc...
                  Na adaptação feita por Ivo Bender a partir  de Eurípides, o autor pretendia falar de algo, algo que não é o que o Máschara pretende falar. Em Bender faz-se alusão a grande enchente de 1941, à colônia alemã. Cléber mantém parte disso, no entanto, traz ao pico o tema do complexo e para isso, faz uso de cenas bastante fortes.  Lorenzoni, influenciado pelo contemporâneo a sua volta, faz a  obra caminhar meio como Eugene O’Neill em sua Mourning Becomes Electra. Vê-se nessa histérica Electra um olhar froidiano que felizmente não há nas tragédias gregas, logicamente. O tema universal continua presente, a justiça, no entanto o olhar sobre a vingança mudou. Os gregos de uma Atenas repleta de atos tão bárbaros, aceitavam a vingança, o que acrescia à Electra uma certa razão. O’Neill segue os passos de Eurípides, distanciando-se da religiosidade e da força do divino, enquanto Lorenzoni e Bender seguem pelo olhar de Sófocles. A grandeza é enfraquecida por O’Neill em sua Lavínia, já que ali a heroína não é mais filha de um rei. Em Sófocles todas as personagens pertencem a uma grande dinastia famosa. Agamêmnon é o rei, sua esposa Clitemnestra é a rainha, e os príncipes de direito Electra e Orestes. Isso lhes concede grandeza, nobreza de sentimentos inata e princípios morais altíssimos.  Em O’Neill, o general Mannon é prefeito, em Bender e Lorenzoni, um fazendeiro. A grandeza aqui está na plástica, no porte de cada composição cênica. Os medos impostos pela religião, tem agora, em meio ao mundo moderno, a força do biológico. “Um dia verás que somos iguais Ereda”. Mãe e filha, genética e sangue.
                   Em meio há tantos olhares, sinto falta de compreender perfeitamente qual é o olhar do Máschara. Há uma rixa interna que me faz ver muito forte o texto de Bender. Se essa for a opção não há problemas, mas é preciso assumi-la. O que de certa forma, já não é mais o caso, principalmente por que agora temos três cenas totalmente diferentes da proposta do escritor porto alegrense.  Ora, Bender escreveu um texto realista/regionalista. O Máschara conceituou-o de forma expressionista.
                E esse expressionismo é um logradouro pouco visitado pela população de uma cidade onde o costume de ir ao teatro é algo novo. Nessa tragédia não há o descanso cômico entre as cenas como em tantas outras. Pelo contrário, a tenção e de certa forma o terror, é buscado continuamente. Sendo assim a plateia não pode relaxar suas tenções. Há portanto duas saídas, manter-se tenso até o final, ou reagir a sua maneira no decorrer da ação. Claro que não se dará esse tipo de reação por exemplo em uma apresentação de musica erudita. E por que? Ora, por que no teatro o homem entra em contato com a multifacetada variante de emoções. O teatro possui uma força poderosa, perigosa. O mágico da noite de domingo é que esse poder e esse perigo mostrou-se de forma assustadora também  para os atores.  
               Por que mesmo estabeleceu-se a noção de “quarta parede”? Não serviria ela de proteção? Atores inflamados pelo ódio, colocam em risco o seu trabalho e o trabalho dos colegas. Por exemplo quando ouvi a frase: “Quem mata o amante, não sede nem mesmo ante os próprios filhos”.  Que amante? Quem matou o amante? Isso sem falar nos “vocês” e “tus” tão misturados. 
                      O ator é um profissional paradoxal. Ele inicia a manhã dizendo que faz teatro por amor, por volta das dez da manhã precisa que lhe chamem a atenção ou não produzirá o esperado. No começo da tarde diz que está ali por si mesmo e que não depende do público, já por volta das cinco reclama que os ingressos não foram vendidos e teme a ausência da plateia. Às sete da noite desentende-se com o colega que lhe da um conselho para melhorar a cena e por volta das nove curva-se humildemente sob o aplauso da plateia. Agradece feliz e parece amar há todos.  Ousa dizer ao diretor na saída que a cena é sua e que prefere fazer a seu modo e indo para casa mais tarde percebe que não tem um único tostão no bolso.
                     Humildade senhores, humildade, pois por artistas, serão a vida inteira dependentes dos outros. Leitura e conhecimento para que não sejam nunca dominados, para que sua arte seja alicerçada em uma chancela de sabedoria.

Arte é Vida



                    A Rainha


Alessandra Souza (**)
Raquel Prates (***)
Renato Casagrande (***)
Evaldo Goulart (**)
Gabriel Giacomini (***)
Douglas Maldaner (**)
Cléber Lorenzoni (***)


sexta-feira, 24 de junho de 2016

Depoimento da escritora Greice Pozzatto quanto `Sessão Maldita"


Público da 8ª Sessão de Complexo de Elecktra


Douglas Maldaner e Alessandra Souza em Complexo de Elecktra


Complexo de Elecktra - tomo 8 - 738

A CULPA TAMBÉM É DO PÚBLICO

                                 Sempre que assisto um espetáculo, atento-me à seu autor, seja ele dramaturgo ou não. Aquilo que está sendo dito sobre o palco, foi criado por alguém e merece o mesmo respeito que os atores sobre o palco, ou até mais. O Máschara já levou ao palco os grandes clássicos: Molière, Shakespeare, Lorca ou Sófocles. Já adaptou Verissimo, Quintana e Caio Fernando Abreu e agora parte para algo ainda mais complexo. Mas que obra é essa sobre o palco? Ora, para compreender cada autor/dramaturgo, é preciso compreender seu momento histórico, o panorama politico e social de sua época; pois antes de se tornarem clássicos, foram atuais em seu momento e queriam sim falar de sua então realidade.  Cléber Lorenzoni foi alimentar-se de Eurípides e de Bender para compor Complexo de Elecktra, buscou também em O’Neill e Sófocles e em outros tantos pontos para chegar ao produto. Mas o que mais pesa e aparece na atual composição do grupo é sua realidade atual. Ora, depois de vinte e quatro anos, o Máschara já se formou pelos clássicos, já apresentou suas monografias em Esconderijos e O Incidente e agora passeia pelo mundo adulto. Complexo de Elecktra, bem como A Serpente, ou Deu a Louca no Ator, são textos e posteriormente montagens que revelam uma Cia. decidida a chocar, a levar o teatro pelo seu viés mais serio, o de simplesmente fazer teatro. Isto sem querer agradar, ou sem se vender. Algumas Cias., mal  passam do ensino fundamental e médio. Vagueiam por anos naquela percepção de que teatro é colocar pessoas engraçadas sobre o palco e que no momento que o público der gargalhadas e aplaudir em pé, terão chegado ao topo do que seria fazer teatro. Ora, muitos podem ser os caminhos que levam ao espirito teatral, mas que ele nunca seja medíocre.
                        Outro fator que preciso mencionar é a responsabilidade do público. É muito comum ouvirmos em ambiente de pessoas que se proclamam interessadas pelas artes e por assuntos culturais em geral, que em nossa cidade não há apoio a arte, não há oportunidades. Os argumentos aliás, são sempre os mesmos. No entanto conversando com essas pessoas, quando perguntamos se foram ver este ou aquele espetáculo de categoria, que ficou em cartaz por determinado tempo, muitas e muitas vezes a resposta é: “Não; imagine que justamente eu esteva pensando em ir, o tempo foi passando e quando dei pela coisa já não estavam mais levando a peça”. Nessa omissão, nossa preguiça de se resolver ir ao teatro quando esse apresenta um texto digno de atenção, está o segredo de muitos fracassos injustificados, e não podemos deixar de chamar a atenção do público para sua responsabilidade perante o teatro, se é que quer se dar ao luxo de criticar a falta de opções culturais em nossa cidade.
                      O teatro, senhores, é uma arte cara. Não desejo aqui menosprezar nenhuma outra arte, e nem compará-las como mérito ou significação: Tomemos por exemplo, o caso da pintura. Para que tenhamos um quadro, é preciso o talento de um único individuo que terá como despesa de execução as telas, as tintas, os pincéis, etc..., o que tem certa monta mas não alcança cifras astronômicas. Mas o que é o mais importante no caso, uma vez que o pintor acaba de pintar seu quadro, a obra está pronta, e – desculpem dizê-lo tão prosaicamente -, uma vez vendido, o autor terá recebido a paga pelo seu trabalho. Tomemos por outro lado a realidade teatral e vejamos como a realidade da engrenagem muda:
                       A primeira etapa é a criação do texto por um dramatista ou sua adaptação por um razoável escritor. Mesmo com seu trabalho pronto, precisará de atores para leva-lo ao público, instrumentos humanos que dentro de seus respectivos campos, devem ter talentos e ser adestrados em suas respectivas artes, tanto quanto o autor. A peça para ser levada ao público, precisará do aluguel do teatro, dos faxineiros, bilheteiros, técnicos de som e de luz. O pintor que dependia apenas de si mesmo, aqui enquanto artesão do teatro, precisará de um diretor, um cenógrafo, eletricistas, encarregados do guarda-roupa, contra-regras. E tudo isso visto por alto, não inclui custos com produção. Execução de cenários e figurinos, cuja idealização já custará alguma coisa. Agora veja, para pagar todo esse montante, quantas vezes esse espetáculo precisará ser apresentado?
                      A realidade de um ator de teatro, que o público muitas vezes confunde até por maldade, com um boêmio, vadio, preguiçoso que gosta de dormir até tarde e de não trabalhar ou estudar é muito mais complexa do se pode imaginar. Muitas vezes trabalha em outros setores, e ao sair do trabalho, quando todos vão descansar, ele segue para  essa segunda etapa. Começa a ensaiar por volta de 18 horas, come alguma porcaria, por falta de opções e para não gastar o que não se tem, e então dedica-se a repetições e treinos até altas horas. Volta para casa quando a cidade praticamente já está toda silenciada. E isso repete-se por semanas até que o espetáculo estreie. Quando finalmente está pronto para subir ao palco, trabalha-se o da inteiro e quando o público chega, os atores muitas vezes estão exaustos. Após o espetáculo onde os atores se expuseram a extremos, suas verdades, suas dores, suas compreensões da vida humana, o público vai para casa, mas o elenco precisa guardar tudo, deixar tudo limpo para outra noite de espetáculos. E então tudo recomeça no outro dia. Em meio a isso, há ensaios de outros espetáculos, viagens para outras cidades com outros espetáculos em palcos adaptados, muitas vezes com um público descortês. Trabalha-se, trabalha-se muito por muito pouco. E o público muitas vezes abre mão de empregar suas noites testemunhando a apresentação de um espetáculo que pode enriquecer a cada um de nós individualmente, e a nós todos como comunidade, por apresentar, dentro da disciplina de uma arte, uma parcela do comportamento humano, sublinhá-la, iluminá-la, dar-lhe proporção, magnitude, alargando os horizontes de nossa experiência e levando-nos a considerar, ante a nova visão, a nossa própria posição.
                    Teatro pode ser “gostado”, mas muito além do ato de gostar está o ato de pensar.
Em complexo de Elecktra pensa-se muito. O suficiente para gostar...
                     Na ultima noite de “Complexo”, pensei mais em todas essas coisas do que no que realmente deveria ter pensado, mas o ato de simplesmente pensar justifica-se, afinal pensava em como era um privilégio estar ali, sorvendo o pensar que muitas vezes falta a nós que não somos artistas.
                     As intepretações da noite foram interessantíssimas. Alessandra Souza e Evaldo Goulart diminuíram o tom, o que acresceu uma sonoridade melhor ao espetáculo. Algumas cenas como o bife de Ulrica e o embate final estiveram muito afinados, enquanto que a cena de recordação entre Ulrica e Henrique, foi muito prejudicada. O produto teatral, quando alcançado e “comercializado” precisa ser mantido da melhor forma para o público. O momento de criar, descobrir é o ensaio. Não vou ao teatro para ficar a mercê de atores que querem se descobrir pondo em risco cenas nas quais preciso mergulhar e me questionar. Ou então estarei presenciando um ensaio aberto.
                   A canção interpretada por Ulrica na cena de Werner e Ereda não se faz ouvir, por que a musica eletrônica a abafa. A morte do patriarca poderia ser plasticamente construída. Algo saiu do alinhamento na cena, já que Bertold surgiu antes da mãe fazer o que se propunha. A cena de Ulrica com a velha cega é uma que precisa de ensaios para alcançar o ritmo que possui no inicio, aliás, acredito que o espetáculo todo, ainda que muito bom, esteja carecendo de ensaios. Quando se chama o teatro de trabalho é preciso encará-lo como tal.


Alessandra Souza (**)
Renato Casagrande (**)
Cléber Lorenzoni (**)
Evaldo Goulart (*)
Gabriel Giacomini (*)
Raquel Arigony (*)
Douglas Maldaner (**)


Arte é Vida


                                               A Rainha

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Matéria no Diário Serrano de 21/06/2016


Divulgando o trabalho premiado no Diario Serrano de 21-6-2016


Sessão Maldita - tomo 7 - 739

A vida no teatro


"Se não puder interpretar me suicido"

                  A vida dedicada ao palco é algo quase que uma realidade inconcebível, em um passado razoavelmente distante, ouvíamos falar de grandes atores, de Cias. que moravam no teatro, ou ainda que viviam em carroças indo de um lugar ao outro, levando suas peças em baús. Ao chegar em determinadas cidades, faziam peças nas ruas, nas praças e a noite em teatros.  Assim foi por exemplo a vida de Molière, que durante muitos anos percorreu a França com seu teatro mambembe. Para quem gostaria de conhecer de perto essa realidade basta assistir o filme Marquise (1997). Aliás a vida de Molière foi tão dedicada ao palco, que mesmo sua morte foi em cena, sob altos risos da platéia.
                    Quando vou à Complexo de Elecktra, tenho essa sensação. Ali, no prédio da Andrade neves, no coração de Cruz Alta, onde acontecem as oficinas da ESMATE e ensaios do Grupo Teatral Máschara e agora esse espetáculo, há algo mais. Quando adentras ao prédio, percebes que ali é solo sagrado, templo da arte, aquele espaço foi abençoado por Dionísio. Há um clima misterioso, um respirar diferente.  Claro, não é qualquer um que percebe esse ar diferente, é preciso ter alma sensível.    
                         Complexo de Elecktra começa com um clima sinistro, a trilha sonora vai tomando o espaço e  não se sabe ao certo de onde está vindo, eu arriscaria "terceiro piso", mas não tenho certeza.  Os cenários são vários, e o mais desconcertante é a despensa da casa, embora, a equipe ainda possa buscar mais, aprofundar mais o clima tétrico do espaço. As cenas interpretadas no sótão e no jardim de inverno da casa dos átridas, possui uma iluminação bastante instigante, as sombras projetadas criam um clima desafiador a nossos olhos. Por outro lado, há espaços em que a preocupação com a luz ficou um pouco descuidada. 
                        Tive o prazer de assistir ao espetáculo com atores descalços e posteriormente com costumes nos pés. Fiquei em dúvida, afinal qual é o conceito?
                            Outro ponto a ser pensado é a impostação vocal. Em Complexo de Elecktra grita-se muito. Por que se estão todos praticamente no colo da platéia? Alessandra Souza tende a confundir ritmo com aceleração. Conceda pausas aos colegas. Serão úteis para sua interpretação também. Cabe aqui a já conhecida frase do diretor :" O teatro está nos silêncios". 
                         Cléber Lorenzoni, Alessandra Souza e Renato Casagrande continuam ótimos em cena. Principalmente o jogo dos dois últimos com o intérprete de Ulrica. 
                             Evaldo Goulart tem um olhar muito intenso, vívido em cena e pode extrair ainda mais desse poder persuasivo que possui. Raquel Arigony pode ousar mais, ser mais assustadora. Possui uma figura muito interessante, mas parece ficar distante da platéia. 
                                Complexo de Elecktra é um trabalho para criar, para pesquisar. Complexo é uma oportunidade enorme para os atores se conhecerem, se descobrirem, principalmente por que a direção do espetáculo é generosa o suficiente para permitir a busca e a criação. Para Artaud, o teatro é o lugar privilegiado de uma germinação de formas que refazem o ato criador, formas capazes de dirigir ou derivar forças.   Que o teatro seja para os atores do Máschara tudo, qualquer coisa, menos passa tempo. 
                             Parabéns a escolha das tranças erguidas em Alessandra Souza e a entrada de Ulrica na banheira. Teatro precisa ser verdadeiro, não pode depender de meias verdades, muito menos de amornar a sopa.  Quanto à sujeira proposta por Douglas Maldaner e Raquel Arigony, acredito que ou se embarre o corpo, ou então abra mão do recurso. Nada de meias verdades... Ao mesmo tempo esse barro precisa  ser pensado em forma de não sujar os cenários ou público. Para encerrar parabenizo as duas cenas finais, nas quais a visceralidade de Alessandra Souza e as emoções de Cléber Lorenzoni e Evaldo Goualrt emocionam a platéia. 
 

       Arte é vida


                                     A Rainha



Alessandra Souza (***)
Renato Casagrande (**)
Cléber Lorenzoni (**)
Evaldo Goulart (**)
Douglas Maldaner (**)
Gabriel Giacomini (**)
Raquel Arigony (**)

                             

Texto As Criadas de Jean Genet

As Criadas
(Jean Genet - Tradução de Pontes De Paula Lima)

Personagens
Claire
Solange
Madame


(O quarto de Madame. Móveis Luiz XV. Rendas. Ao fundo, uma janela aberta, que dá
para a fachada de um prédio em frente. À direita, o eleito. À esquerda, uma porta e
uma cômoda. Flores em profusão. É noite)
CLAIRE - (De pé, de combinação, voltando as costas para a penteadeira. Seu gesto, o
braço estendido, é o tom serão de um trágico exasperado) E essas luvas! Essas luvas
eternas! Já te repeti suficientemente que as deixasses na cozinha. É com isso, por certo,
que esperas seduzir o leiteiro. Não, não, não mintas, é inútil. Pendure-as por cima da
pia. Quando compreenderás que este quarto não pode ser enxovalhado. Tudo, mas tudo
o que vem da cozinha é escarro! Sai! E leva os teus escarros! Mas para! (Durante esta
tirada, Solange brincava com um par de luvas de borracha, observando suas mãos
enluvadas; ora em buquê, ora em leque) Nada de cerimônia, faz teu bichinho. E
principalmente não te apresses, temos tempo. Sai! (Solange, de repente, muda de
atitude e sai com humildade segurando na ponta dos dedos as luvas de borracha.