terça-feira, 5 de agosto de 2014
O Incidente 666- Tomo 77 /Salão nobre Unicruz
Os Mortos estão de volta. Mas por pouco tempo...
O mais prazeroso no teatro é ver um ator entrar para ganhar, pisar no palco com uma pitada de arrogância e prepotência. O teatro é também a arte da oratória, o ato de impor-se. Não é possível que o ator tenha medo da assistência, ou que se coloque na humilde postura de inferior. O ator deve sentir-se um pouco semideus, ele está sendo um outro, ele está saindo de sua realidade e se colocando em uma realidade subjetiva, não ocorrida, mas existente em um universo paralelo ao seu. Isto é, quando o ator esta em cena, interpretando o individuo x, ele olha para dentro de si e as lembranças do passado que vê não são as suas, mas as desse ser aqui chamado de "x". Ora, esse processo de dar espaço dentro de seu existir, para um outro existir, é um processo de generosidade e técnica.
O Incidente do Grupo Máschara não mais é um espetáculo, tem ares de performance. E aí cabe muito bem. Os sete atores estão a serviço de uma homenagem póstuma ao escritor Erico Verissimo, o público está mais interessado no visual do que na historia. O intelecto da obra chega menos do que se propõe. Não por culpa dos atores, mas pela forma como se propõe. Na obra literária os mortos aparecem depois de mais de cem páginas de leitura. O ambiente é preparado. Quando eu me deparo com eles, já estou tão interessada na corrupção daquela cidade que é na verdade um microcosmo do país da época, que os mortos passam a ter um outro efeito. Em O Incidente da Cia. Máschara, os sete mortos tomam força de personagens de um filme do terror. As pessoas da região, tão pouco acostumadas ao teatro, estão mais interessadas em rir das escatologias propostas e fotografar o visual marcante do que prestar atenção nas chocantes frases pronunciadas pelo elenco.
Cléber Lorenzoni reúne a duras penas o elenco de mortos entre sua trupe para poder manter acessa a chama tão bela de um espetáculo que já completa quase dez anos. Em cada apresentação praticamente um novo ator embarca nesse carrinho de trem fantasma. O ator da vez é Fabio Novello, que vem para dar vida à João Paz, o jovem revolucionário, que sofreu torturas inumanas durante uma semana e que foi jogado em um caixote com o ombro fora do lugar e com o rosto desfigurado. Fabio Novello faz dentro de seu pouco conhecimento da obra o suficiente para preencher o palco. Para essa pequena performance foi o suficiente, a ultima frase de seu texto conseguiu chegar bem próxima do público. Tocar-lhes as ventas, acredito que é exatamente aí que Novello deve aprofundar-se, o que lhe será útil em muitos outros trabalhos. Cuidando sempre para sua impostação não se gessar demasiado. Souza e Casagrande, as duas torres*, não alcançaram o desejado, suas interpretações ficaram aquéns, a primeira se enrolou e essa enrolação apareceu para fora do palco. A emoção foi prejudicada e o olho quase fechado não deixou a dor chegar na platéia. O Incidente é um realismo fantástico, que emprega um pouco de teatro do absurdo, interpretações expressionistas, etc... Alessandra Souza é uma atriz dedicada mas que tem como principal dificuldade a necessidade da repetição, precisa de continuidade no trabalho para manter a perfeição.
Casagrande propõem-se sempre, esforça-se, mas Menandro Olinda é um homem velho, introspectivo, prostrado, frágil. Muitas características que o jovem ator ainda está forjando. Seu bife tem uma leveza de quem não passou realmente por tantas dores como a personagem, como alcançá-las?
Ricardo Fenner compõe visualmente algo legal, mas Barcelona é "anarquista, atirador de bombas e subversivo", Dona Quitéria o está ofendendo com verdades. E essas verdades deveriam estar presentes, mas em cena o que vemos é algo muito próximo do Conde de Belmont e do vilão Rubenci. É preciso para sentir mais prazer no teatro, virar-se pelo avesso. Dentro de nós, há vários! Claro que a triangulação entre Barcelona e as outras personagens ocorreu, mas a perfeição deve sempre ser buscada.
Chegamos à Albuquerque e Ertel. Ele longe do teatro há quase um ano. Ela longe de O Incidente há dois anos. Ainda assim, pelos mistérios que rondam o palco, foram os que mais produziram algo de encantador aos olhos. Dona Quitéria estava completamente viva, ainda que morta. Contam as observadoras línguas, que Albuquerque no camarim aprumou-se sozinho sem pedir auxílio. Que não ensaiou uma única vez e que preencheu o palco solidamente.
Lorenzoni aficou aquém de seu anterior mergulho pelo universo de doutor Cícero, devia estar lá em seu lugar, em professor Menandro Olinda. Logicamente Cléber Lorenzoni triangula muito bem com a platéia e com o restante do elenco. mas a falta de ensaios da PERFORMANCE também o prejudicou.
A trilha foi operada a contento e o mise en scene ocorreu. Graças aos deuses.
Angélica Ertel (***)
Cléber Lorenzoni (**)
Alessandra Souza (*)
Ricardo Fenner (*)
Renato Casagrande (*)
Fabio Novello (**)
Cristiano Albuquerque (***)
Evaldo Goullart (**)
A Rainha
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
sábado, 2 de agosto de 2014
quarta-feira, 30 de julho de 2014
terça-feira, 29 de julho de 2014
O Santo e a Porca/665 - Tomo 8 - 64º Cena às 7
O TEATRO UNE AS PESSOAS
Para alguns, o Suassuna que subiu no palco ficou aquém das anteriores apresentações de O Santo e a Porca. Para mim, nunca antes a trama ficou tão clara. Senti falta sim do personagem Pinhão, uma criação perfeita do dramaturgo. no entanto dentro da nova proposta do Máschara, sua ausência não interfere na compreensão da trama. É preciso entender que o dramaturgo escreveu seu texto para falar algo, e que a Cia. que decide dar vida ao texto, vem contar outra historia, de acordo com sua realidade, necessidade e ação universal a sua volta. Ou seja, não vou ao teatro ver o Shakespeare Elizabetano, vou ver o roteiro escrito por ele mas revivido de outras tantas formas atualmente.
A composição de Cléber Lorenzoni era muito autêntica, natural, sem grandes exageros, e praticamente simples, por isso mesmo tão verossímil. Dulce Jorge, atriz dramática, tem de ser lembrada numa Caroba excepcional, esperta, sestrosa e ágil. O espetáculo desenrola-se rapidamente sem cenas monótonas. Na verdade os cortes são muito bem feitos. Sem falar nos improvisos tão orgânicos que o diretor usa e que torna tudo tão claro. Plasticamente também aprecio o trabalho, há um cuidado que parte dos pés dos atores e espalha-se pelo cenário. Embora eu implique com o cabelo proposto para o personagem de Euricão. Alessandra Souza nos dá uma Margarida pouco romântica, coesa com a visão da direção. É conhecida a opção do Máschara em seus trabalhos, pelas mulheres fortes. Caroba, Benona e Margarida são a razão e ação em O santo, enquanto que aos homens, Dodó, Eurico e Eudoro resta o desejo e a vontade. A feminilidade é quem vai decidindo os traçados da historia. Se somarmos aí, a Porca e o disfarce de Dodó (ambos femininos), percebemos que a feminilidade é a vencedora na trama.
A composição de Ricardo Fenner é interessante e oferece contraponto à interpretação de Eurico. Uma construção mais imponente ou bruta, poderia não gerar o efeito que vemos, no entanto não sei até que ponto seria o caminho pelo qual eu me enveredaria. Talvez um verdadeiro "coronel" com todos os arquétipos imaginados, nos ofereceriam um outro olhar a ação.
Angélica Ertel volta ao palco com o Máschara, o que muito me agrada. É uma atriz muito forte, viva. Sua principal qualidade é a rapidez com que descobre na assistência a triangulação e sabe usa-la a seu favor. Ertel substitui outro interprete em Benona, e parte de uma cópia para algo muito seu. No entanto, somente após mais algumas inserções é que descobriríamos que mares navegaria em sua interpretação.
As vezes alguns atores pecam não sabendo ser escada para os "altos comediantes", interessante que em O Santo, como em toda boa comédia, todas as personagens tem seu momento. Muitas piadas se perdem. Algumas escorrem pelas mãos de Souza e de Fenner. Lorenzoni e Jorge criam muitas no decorrer, usando principalmente o recurso fônico para isso.
Renato Casagrande e Angelica Ertel carregam as criações mais expressivas dessa montagem de O Santo e a Porca, o Dodó dessa proposta traz a tona o assunto do preconceito, quando introduz na vida familiar do turrão Eurico uma figura supostamente homossexual. Por um momento a caminhada se complica e parece que vai se embrenhar por uma área perigosa, no entanto cumpre a função. Para Eurico o problema não é ser homossexual, mas não ter caráter. Benona carrega uma plástica quase à parte, que mal administrada pode atrapalhar a trama.
O cenário é criativo, auxilia e não atrapalha, no entanto o uso de cortinas em relação às portas dos quartos onde os casais são fechados, me incomoda um pouco. Mas é filigrana apenas. Não irei me ater à iluminação ou outras perfumarias, o que posso dizer quando sei que o trabalho acontece em um local adaptado? Apenas que torço para que o Máschara volte com o Cena às 7 para a Casa de Cultura. Preciso elogiar o trabalho de equipe que merecia uma análise à parte. Muitos trabalham durante dias, outros durante horas, para que às 19 horas tudo esteja a contento. O Máschara segue lutando e enquanto uma pessoa apreciar o teatro, haverá motivo para se alegrar.
Cléber Lorenzoni - (***) Pela sempre dedicado trabalho e pela luta em manter o Cena às 7.
Dulce Jorge - (***) Pelo excelente trabalho que arrancou risadas e marcou como a atriz que é, unificando cenas de Caroba e do ausente Pinhão.
Alessandra Souza - (**) Pelo belo trabalho continuado de Margarida.
Renato Casagrande - (**) Pelo conjunto, Cena às 7 & atuação como Dodó. Pela capacidade em adaptar-se rapidamente e seu trabalho no cena às 7.
Ricardo Fenner - (**) Por sua divertida atuação como Eudoro Vicente.
Evaldo Goullart - (***) Pela extrema preocupação em acertar como operador colaborando no melhor pelo espetáculo.
Fernanda Peres - (**) Por sua dedicação em mais um dia de Cena às 7.
Fabio Novello - (**) Por seu desprendimento em auxiliar de todas as formas o cumprimento do Cena às 7.
Angelica Ertel - (***) Por sua capacidade em assumir com profissionalismo em pouquíssimos ensaios um personagem complexo e conseguir extrair graça e vida próprias dele.
Vida longa ao Cena às 7
A Rainha
segunda-feira, 28 de julho de 2014
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