quinta-feira, 17 de março de 2011

Artigo publicado no Jornal estilo em 4 de fevereiro

Henrique Madeira

Burro enterrado de patas para cima

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Henrique Madeira: Para aqueles que não me conhecem, serei o pária responsável por assinar esta coluna venenosa e espinhenta, a partir de hoje. Sou professor, escritor romancista, roteirista, nasci e resido a três décadas em Cruz Alta. E, justamente, por ser um homem amante das belas artes, gostaria de começar falando sobre a cultura, ou melhor, a falta de cultura de nossa gente. Gostaria de compartilhar com vocês a questão que tanto me assola: “O que os cruz-altenses fazem quando não estão trabalhando?
Não seria interessante ir ao teatro? Temos o Máschara, um grupo fantástico que encena desde Shakespeare à Erico Verissimo. “Não. Teatro é bobagem”. É o que um cruz-altense da gema responde. E quem desmentir o que digo, sei dizer se é, ou não é, um hipócrita, pois vou ao teatro e já decorei o semblante de todos os trinta expectadores que estão sempre por lá. Ah, mas quando o pessoal da Pop Rock/Porto Alegre ou o Guri de Uruguaiana vem para cá o teatro lota, pois para um verdadeiro cruz-altense, o que é de fora é sempre melhor.
E que tal um cineminha? “Pra quê pagar 10 reais quando posso comprar um filme nos camelôs por 5 pila?” É o que um cruz-altense da gema responde. Como se a emoção fosse a mesma. Ah, quanta saudade do Cine Rex e o Ideal!
Que tal ler um livro? Bem, cruz-altense que se preza só lê jornal e bula de remédio, pois não sei da onde surgem tantas farmácias. Se as duas livrarias da cidade vierem à falência, garanto que 90% da população não terá nem reparado que elas fecharam. Por falar nisso, quantos livros do Erico Verissimo você já leu?
E que tal uma exposição de quadros ou esculturas? Retiro o que disse, pois nesta cidade agrária ainda ouço pessoas (supostamente instruídas) chamarem pinturas de “desenhos”. E quando falamos em esculturas, o que lhes vem à mente são aquelas estátuas de anão de jardim. O cruz-altense Saint Clair Cemin é um dos maiores escultores do mundo. Alguém saberia me dizer, de cabeça, o nome de alguma obra sua? Se tu és um cruz-altense da gema, sua resposta é, obviamente, NÃO.
Ah, mas, pelo menos, o bom cruz-altense aprecia a música. Não faltam idiotas circulando pelas ruas principais em seus veículos com o som no último volume, a escutar música eletrônica, vanerão e sertanejo universitário. E para os ofendidos, digo que gosto não se discute, mas qualidade, sim. Sem mencionar a falta de educação e respeito ao próximo com todo aquele exagero de volume.
Agora voltemos para a questão que não quer calar: “Como não há interesse pelas artes, o que os cruz-altenses fazem quando não estão trabalhando?” Ora, a resposta é simples: um cruz-altense que se preza assiste telenovelas e futebol para comentar com o colega de trabalho no dia seguinte; os mais arrojados praticam algum esporte e, a maioria esmagadora, coloca aquelas cadeirinhas dobrável na porta da casa, preparam o mate e assistem a vida passar.
Há uma lenda que diz que tudo dá errado em Cruz Alta, pois, há muito um burro foi enterrado de patas para cima. Assim como uma corajosa professora respondeu numa entrevista de rádio, farei delas as minhas palavras: “Não existe nenhum burro enterrado de patas para cima. O problema da cidade é que existem muitos burros soltos, que circulam diariamente pelas ruas da cidade”. Mea culpa, páter. Mea culpa.
PS: Por falta de espaço, darei continuidade ao assunto na próxima semana, abordando-o de forma mais incisiva e abrangente.

Henrique Madeira – Professor, escritor romancista e roteirista.
Maiores detalhes: www.cruzaltino.blogspot.com / www.henriquemadeira.com

quarta-feira, 16 de março de 2011

Esconderijos em Porto Alegre

Gabriel Wink e Cléber Lorenzoni recebendo troféu de coreógrafos 2010

Comissão de frente 2010 Imperatriz da zona norte

Entrevista feita por Cristiano Lopes para o blog da Imperatriz


 1- conte um pouco o processo de produção da coreografia
Bom, a gente começa sempre em janeiro, com atores do Grupo Máschara , que são também bailarinos, e inclui alguns membros da comunidade, que vão dar uma injeção de garra para defender a escola. A partir do tema que a escola se propôs a trabalhar na avenida, eu e meu parceiro, Gabriel Wink, criamos o desenho da movimentação, e após debater com o carnavalesco e diretoria da escola, desenhamos também as fantasias. Isto é, depois de tantos anos temos carta branca para fazer o que acharmos mais conveniente. São quase sete dias por semana de ensaios, não aceito apenas uma coreografia bem ensaiada, quero também expressão facial e alma na avenida. Como nem todos os integrantes são artistas da um pouco de trabalho até que fique interpretativa. 


2- quais os anos e o que representou a comissão de frente nos desfiles da Imperatriz
Bem tudo começou em 2004, ano em que a Imperatriz homenageou a UNICRUZ, a convite do Thiago Amorim desfilei na comissão de frente, nesse ano ainda não havia a participação do Máschara.  Em 2005, não houve carnaval na avenida, apenas uma representatividade em frente a prefeitura, ai sim participei com o Máschara e fizemos uma coreografia reprisando o samba da UNICRUZ. Em 2006 voltamos a desfilar no Sambódromo Mestre Vidal, nesse ano ainda desfilamos em mais duas agremiações. Levamos para a avenida os navegadores em busca de um mundo melhor. Nese ano participaram da comissão de frente cinco integrantes. Em 2007 foi a vez do "Casamento do Leão com a Imperatriz" Eu fazia a Imperatriz. eram cinco casais, todos integrantes do Máschara. Em 2008 foi o ano em que a Imperatriz cantou "Espanhóis e Portugueses"... Foi a primeira vez que a Imperatriz teve uma alegoria na comissão de frente, era uma capela, de onde saíam os bailarinos. Em 2009, Gremio e Inter trouxe a avenida os cupidos do futebol, era uma coreografia divertida, onde os anjinhos jogavam flechas imaginarias no público, a alegoria era uma bola gigante que também podia representar o planeta. 2010 foi o ano da curiosidade, a comissão de frente representava a serpente do paraíso e Adão e Eva. Os bailarinos trabalharam uma figura da mitologia indiana, em um gestual que foi muito aplaudido. Finalmente 2011 com a procissão do sírio de nazaré, trazendo o andor com Nossa Senhora Aparecida, e ainda os bailarinos levavam às mãos, uma peneira representando o seringueiro que encontrou a imagem da padroeira do Brasil.


3- como o grupo se sente representando a comissão de frente de uma escola tetra campea?
Na verdade nossa alegria é por termos sido escolhidos pela Imperatriz para sermos a comissão de frente da escola. Costumo dizer que fazemos pensando antes da pontuação ou dos premios, no público, que é como agimos no nosso grupo de teatro e por isso suponho que tenha dado tão certo. Antes do Júri e da nota, vem toda a platéia sentada na avenida que pagou para ver algo que fique registrado em sua memória durante o ano inteiro. Claro que por estarmos tão ligados a escola vemos a garra com que se trabalha e por isso acreditamos que ser campeã tantas vezes é completamente merecedor.



4 - fale um pouco sobre o grupo maschara
Bom, são 19 anos completados agora em Janeiro. Poderia dizer milhares de coisas, mas acredito que o mais importante é que assim como a Imperatriz da Zona Norte, nosso grupo tem uma historia de garra e de conquistas batalhadas. Para se fazer teatro no interior é preciso vencer um leão por dia. Lutar com a falta de apoio, com a descredibilidade das pessoas, com a ignorância. Mas o teatro vem conquistando seu espaço e espero que as pessoas que nos aconselham a irmos embora para centros maiores para fazermos sucesso, compreendam que fazemos teatro aqui por que acreditamos em nossa terra, fazemos por elas, para elas, e continuaremos fazendo, em troca pedimos apenas que assistam nossos espetáculos, aplaudam quando gostarem e critiquem quando não gostarem. A arte é maravilhosa exatamente por ser democrática. E uma cidade melhor é feita sim com cultura, com o brilho e a beleza do carnaval e da arte.

Cléber Lorenzoni diretor do Máschara