quarta-feira, 27 de março de 2024
domingo, 24 de março de 2024
1167 - A Paixão de Cristo - O Julgamento do Messias (tomo I);
Pré - estreia
Sentada em uma cadeira na avenida principal, de frente para a conhecida Matriz São José, pude avaliar cada detalhe de um espetáculo que chega a sua sexta versão, sempre com algo novo, com o frescor de algo não contado, com textos que se cruzam, frases tiradas de inúmeras passagens bíblicas ou litúrgicas, contando passagens simbolistas e com grade licença poética. Não é definitivamente a melhor versão feita pelo Máschara, muito embora, a partir de 2029, o Grupo desenvolveu uma fórmula, muito funcional.
O espetáculo tem como objetivo, fazer refletir, emocionar e dar espaço a novos artistas, além é claro de perpetuar a tradição desse tipo de teatro. Lorenzoni mantém presentes alguns personagens indispensáveis e soma outros novos. Destaque para Junior Lemes, no papel de Tio Labão, com uma presença cênica admirável. O espetáculo é dividido em dois grandes atos: o primeiro voltado para o sermão da montanha e o segundo denominado Julgamento. Envolvi-me do começo ao fim, embora tenha visto alguns deslizes, que vão de detalhes de figurinos à dublagens mal operadas. Os dois Pedros precisam se antenar mais em alguns momentos em que a plateia percebe a inexatidão de suas falas com a movimentação de seus lábios e das palmas de Oriati.
Oriati saiu-se muito bem como Herodes, mas precisa buscar maior comunicação com o público. No aspecto caracterização, o visual do elenco que leva assinatura de Renato Casagrande(Stat.I) e Clara Devi(Stat.III), é muito funcional, e enche os olhos, mas há nos calçados um descuido, uma falta de acabamento que peca e muito.
Todos os anos, um dos exercícios humanos mais interessantes que pratico, e que se estende imagino, a muitos que admiram e acompanham o grupo, é controlar a curiosidade em quais atores, a direção do espetáculo elencará para ocupar as personagens. Poucas foram as surpresas, quando compara-se a outros anos: Carol Guma interpretando Maria de Nazaré, o que faz bem, embora, a atriz ainda seja muito jovem para o papel. Antonia Serquevitio (Stat.IV) elencada para uma Madalena que é espremida entre a cena do julgamento e que a meu ver não deveria ter interpretado a noiva na primeira cena, pois isso confunde a plateia. A repetição de Ricardo Fenner(Stat. III), Fabio Novello (Stat.II), Douglas Maldaner(Stat.IV) e Renato Casagrande (Stat.II) em papeis que já haviam interpretado em edições anteriores. Ninguém tem grande destaque, talvez por que o grande trunfo do ano, sejam as feiticeiras. Essas sim, roubam a cena ao lado de Nicolas Miranda que se destaca como "a tentação", que muitos chamarão de demônio, mas que para mim parece muito mais a "consciência do Cristo".
Jesus interpretado pelo pequeno Ravi Dantas e depois por Cléber Lorenzoni, está diferente, mais leve, mais frágil, diferente das versões de 2022 e 2023. Aliás o prelúdio do espetáculo é de muito bom gosto e o público ao meu redor na plateia, estava completamente seduzido pelas peripécias do pequeno Dantas. Uma pena, Lorenzoni ter ausentado do espetáculo a cena de embate entre Jesus e os velhos do templo, o que temos é um salto temporal que nos tira do Getsêmani direto para o que seria a "Fortaleza Antônia" (local do julgamento). O salto temporal é ditado pela narração das "mulheres de vermelho", que supostamente são algum tipo de pranteadeiras.
Destaque para Ana Clara Kraemer e Ellen Faccin, embora todas estejam muito bem, claro, com mais ensaios podem ficar ainda mais intensas. Preciso elogiar, Felipe Brandão, Valentina Lemes, Kleberson Bem Borges, Bibi Prates, Henrique Arigony, Duda Martins, Ana Luísa Kraemer, Rafaelo Fiuza, Mari Valandro e Anderson Botega, toda uma geração jovem que sobe ao palco com uma garra linda. Ainda em cena a energética Marli Guma e o velho colega Stalin Ciotti (que maltratou o cristo).
Destaque também para a caracterização de Romeu Waier e o jogo entre os velhos do templo, Kaifaz (Renato Casagrande), Anaz (Romeu Waier) e Arimatéia (Pedro Loso).
Lorenzoni e a direção, optaram por uma grande cena, das bodas de canaã, onde acredita-se tenha ocorrido o inicio da vida pública de Jesus. A nível de roteiro, o grupo optou por uma narrativa na qual o jovem Jesus sente o peso em ter que entregar-se ao destino decidido por seu pai. Jesus deixa de ser o herói para ser um homem que teme o que lhe espera na via dolorosa. Isso pode não agradar aos mais religiosos, pois humaniza-se por demais o Cristo.
Arigony e Devi, ficaram com dois destaques: Samaritana e Prócula, amas conseguem bons resultados e alcançam os propósitos.
Finalizando diria que houve um bom equilíbrio de interpretações, o que é bom para o elenco e ruim para a direção desse espetáculo. Meus parabéns a todos que ergueram cada caixote, que desenharam cada mascara, que empacotaram cada figurino, pois eles trabalham silenciosamente, ou não, ano após ano, para que a Paixão de Cristo do Máschara seja um verdadeiro ponto de cultura.
O melhor: A garra de Carol Guma vencendo suas próprias barreiras, interpretando com o pé machucado.
O pior: O final muito repentino do espetáculo, ou seja, após a via dolorosa, tudo acontece muito depressa.
Arte é Vida
A Rainha
Elenco da Paixão 2024
quarta-feira, 13 de março de 2024
sexta-feira, 8 de março de 2024
quarta-feira, 6 de março de 2024
1164- Lili Inventa o Mundo - tomo CXXVI - Humaitá.
O que falar de um espetáculo com mais de cem apresentações? Talvez não haja realmente mais nada a ser dito sobre o espetáculo Lili Inventa o Mundo. Porém o espetáculo tem muito a dizer para o público infantil, afinal de contas, fala sobre leitura, sobre poesia, sobre amizade, sobre coragem, fé, e outros múltiplos temas que são um verdadeiro presente às nossas crianças; O texto de Cléber Lorenzoni, inspirado na obra de Quintana, chega a 125ª apresentação, e é uma porta de entrada para o tipo de interpretação do Máschara. Praticamente todos os integrantes a partir de 2006, vestiram os costumes de Lili Inventa o Mundo.
A inesquecível Angélica Erthel, Gabriel Wink, Gelton Quadros, Tatiana Quadros, são alguns dos tantos talentos que a cada geração agregaram e aprenderam com a cena.
Mas por que Lili nos toca tanto? Porquê nos sentimos crianças?! Porquê o universo do espetáculo passeia pela nossa mente. Mario colocou no texto duas fadas, ao que parece uma boa e uma má. Uma paródia eu diria de O Mágico de Óz, onde há duas bruxas. A boa do oeste e a má do leste.
No tomo da vez, mais uma estreia, Carol Guma, divide o palco com veteranos e jovens atores e prometheus. São mais de quarenta minutos de uma delicada trama que envolve canções, musicadas por Dulce Jorge, brincadeiras, e claro um bufo e um clown. O bufão, apropria-se da cena e comanda visivelmente a festa. Aliás, o prólogo proposto pelo "senhor poeta" nos mostrou a importância do bom diálogo com as crianças, reforçou também o poder do lúdico.
Alguns atores aliás precisam buscar esse lugar, ele é importantíssimo aos bons atores, ele nasce lá na iniciação teatral, ou não. O clown de Serquevitio, pode e deve ser mais efetivo, mais presente, brincalhão. A psique da personagem deve ser mais rápida que sua ação. Malaquias é uma criatura que nos lembra aqueles mascotes de filmes de fábulas. Uma criatura encantada. Indico ao elenco aprender percussão e afinar o ouvido, junto aos expoentes mais antigos da trupe. A rainha das rainhas de Carol Guma é muito doce e tem um gestual encantador, precisa agora apropriar-se do espetáculo como um todo. Torço que a decima segunda rainha das rainhas da peça, permaneça.
Nicolas Miranda pode buscar mais emoção na transformação, mas o mais importante a todos do elenco: ouvir, ouvir, ouvir!!! A ausência de "ouvir", está visível e audível, no fato de que em quase todas as piadas do elenco atropelou-se o riso da plateia. Isso se chama triangulação! A piada é dada, bate na plateia e volta para que o outro ator encerre. Renato Casagrande carrega o mérito de uma personagem bem constituída que não cai no lugar fácil da interpretação infantil.
Lili Inventa o mundo tem uma leveza, um visual delicado, inspirado em cores, movimentos e desenhos vocálicos que nos fazem ver o teatro com outro olhar. Lili é uma menina curiosa, mas intimidada por não conseguir compreender a poesia, talvez por que os adultos a tenham elitizado e a tornado algo quase inalcançável. Porém a poesia está em toda a parte, ela é a natureza versos o homem, vivendo junto e se indagando sobre a beleza e a dor da existência. Tudo é poesia e por isso Lili vai inventando seu mundo.
E pensar que a estreia desse espetáculo foi na cidade de Sinimbu em abril de 2006, o mundo mudou muito de lá pra cá, mas não mudou a certeza de que o bom teatro não passa...
O Melhor: O diálogo entre o Senhor Poeta e o público, mostrando que no palco atores são reis e devem ser respeitados.
O Pior: O ato do elenco fazer perguntas ao público e depois não conseguir dominá-los.
Arte é Vida
A Rainha
LilI Invent ao Mundo (2006)
Direção: Cléber Lorenzoni
Elenco: Clara Devi (**)
Cléber Lorenzoni (***)
Renato Casagrande (***)
Nicolas Miranda (**)
Antonia Serquevitio (**)
Carol Guma (***)
Contra-regragem - Ellen Faccin
Ana Kraemer










