-Tinha um rato enorme e um pato maior ainda!"
-Que nojo, eu não quero nem ouvir!
Quando Cléber Lorenzoni há quinze anos atráz, leu a peça "A maldição do Vale Negro", sentiu algo forte no peito, um carinho pelo texto, um apego aquelas palavras "tão dificeis em nossa época", e provavelmente não imaginou que um dia estaría ele dentro das entrelinhas do mais marcante texto teatral de caio Fernando Abreu. Isso deve ter haver com o fato de realmente tudo ter sido escreito muito antes. Maktub. O fato é que agora, anos depois a peça ganha vida e vira um dos espetáculos mais divertidos que tmeos visto em muito tempo e merece integralmente cada um do troféus recebidos no festival em que participou nesse mês de outubro. A Maldição é um exercício, uma maravilhosa resenha sobre o que três atores conseguem fazer com energia e vontade sobre o palco. Tem um pouco de farsa, um pouco de sátira, perpassa o pastelão e o besteirol, em cena vemos até um pouco da velha e boa bufonaria. Tudo isso sobre a égide do Melodrama. Alguém disse que era uma bagunça ordenada, longe da pièce bien-faite, o que discordo, afinal toda confusão alí presente foi ensaiada para assim o ser. E tudo acontece harmoniosamente, freneticamente, absurdamente.
A Maldição do Vale Negro teve tríplice aliança, Cléber Lorenzoni com sua criatividade excessiva, Dulce Jorge perfeccionista no trabalho dos atores e a iniciante diretora Angélica Ertel, repleta de idéias de vanguarda.
Talvez tudo isso faça do Máschara uma equipe mais forte, talvez tudo isso alimente a gana que ocorre no palco. Mas isso também reflete-se na infeliz desprecisão da parte técnica que tanto deixou a desejar. A iluminação e sonoplastia quase colocaram tudo a perder, e só não o fizeram, por que como já sabemos, o teatro está sempre na mão dos atores. Mas o mais triste é a falta de humildade e respeito que se abate sobre alguns integrantes. Quando não há respeito o trabalho vai enfraquecendo. Quando não se reconhece o erro, não se é admirado e não se aprende com ele. Quando só enchergamos os erros dos outros, e nunca os nossos aí fica difícil ter credibilidade para um dia sermos os guias de algum trabalho.
A Maldição do Vale Negro durou pouco mais de uma hora na Câmara de vereadores de Osório, foi noite de Ágatha, Maurício e Rosalinda. Digo isso por que há dias em que a noite é da dupla de ciganos. Cléber Lorenzoni esteve fora de sí, ligado, intenso ao extremo. Surgiram novas piadas, e soube dar a curva precisa do espetáculo. Ricardo Fenner de uma leveza encantadora. Soube aprender muito bem as técnicas de seu grupo e tenho que elogiar seus pés. Ricardo Fenner atua muito bem até com os pés. Gabriel Wink é um ator que me desconcerta, com aquele jeito de "no mundo da lua", é tão sagaz na cena, e tão disposto ao jogo! Não considero nenhum espetáculo pronto, mas se existe essa classificação, A maldição é um espetáculo pronto. Carece claro de uma equipe técnica mais profissional, mas no quesito palco, está pronta! E tudo isso faz do Máschara também um grupo dos sonhos, onde, apesar de ser tão difícil fazer bom teatro no interior, o fazem, onde apesar da ausência de um método científico, há técnica, experimento e arte! Deve ser por isso que o ator Gabriel Wink encerrou a premiação considerando que grupo dos sonhos é aquele onde apesar dos problemas, quando se entra em cena e vê o olho do colega cheio de gana, se percebe que se está no lugar certo! Ao menos para quem valoriza o teatro!