quarta-feira, 21 de outubro de 2026

1397/1398- Quintanares - O menino pássaro (tomos 8 e 9)

 Mas que diacho de crítica é essa?

                    A crítica teatral costuma criar um clima desconfortável para muitas pessoas, mas ela tem uma função fundamental na construção, no amadurecimento e na preservação da arte. Não nasceu para agradar artistas, distribuir elogios ou alimentar vaidades de artistas que precisam receber sempre um elogio que certamente lhes fez falta na infância, mas para observar, analisar, interpretar e provocar reflexões sobre aquilo que acontece em cena. O crítico não é dono da verdade, assim como o artista não é dono absoluto da obra depois que ela encontra o público. O teatro é uma experiência viva, sujeita a diferentes leituras, sensibilidades e interpretações. A crítica participa desse diálogo, amplia a compreensão do espetáculo, aponta caminhos, identifica fragilidades, reconhece qualidades e contribui para que o fazer teatral não se acomode na repetição de fórmulas confortáveis.

              Alguns artistas, quando recebem elogios, reconhecem a legitimidade de quem escreve; quando são questionados, colocam em dúvida a competência, a intenção e até a honestidade de quem ousou analisar seu trabalho. É uma relação conveniente com a opinião alheia: a crítica é excelente quando confirma nossas certezas e se torna injusta quando expõe nossas fragilidades. Eu que sempre assisto aos trabalhos do Máschara e os analiso com muito carinho, fico muito triste quando percebo a arrogância revelando sua face mais evidente: na incapacidade de admitir que aquilo que fazemos com tanta dedicação, suor e entrega também pode apresentar falhas, escolhas equivocadas ou resultados que não alcançam o efeito pretendido.

                Em Bento Gonçalves, os artistas da COARTE apresentaram duas sessões de Quintanares, em um exemplo de união e construção mútua, unindo no palco, atores provenientes de dois grupos. Clara Devi, Junior Lemes, Renato Casagrande e Antonia Serquevitio, brilharam juntamente com Paulo Amaral, Lully Nicoli e  Andriele Dall Agnol. Casagrande tem uma facilidade de comunicação muito delicada com a plateia, o que acresce muito ao seu personagem. Nicoli e Amaral estiveram na primeira sessão, muito conectados e engraçados. Serquevitio propôs uma reflexão muito interessante que me fez pensar muito no local onde vive o espetáculo: Quintanares é uma peça infanto-juvenil, ou seja, os temas perpassam a infância, mas precisam se conectar com o olhar que o adolescente têm sobre a vida. Ir embora de casa é um assunto recorrente entre adolescentes, que estão em época de faculdade, de mudança de escolas ou partida do lar. Muitos adolescentes têm mães "Virginias", que não querem que os filhos saiam debaixo de seus cuidados, por isso mesmo a peça encontra muito eco entre os jovens. Até aconselharia Dona Virginia a questionar a plateia, indagando: -Vocês não acham que os filhos têm que ficar sempre com as mães? - Não para criar alvoroço, mas para fazer o adolescente pensar. Pois bem, Dona Criatividade, diz ter feito um verso de amor para Sonetina, e na segunda apresentação, para Virgulina, tudo muito sutil e muito dentro do atual universo dos adolescentes. Palmas para a equipe pela leveza com que coloca o tema. Um espetáculo teatral é recheado por diversos temas transversais, quanto mais temas transversais, mais de acordo com o mundo contemporâneo em que vivemos. 

                     A primeira inserção do espetáculo foi muito funcional, na segunda talvez o cansaço tenha aparecido um pouco, o que reforça a importância sempre do aquecimento vocal e físico antes de uma apresentação. Dall Agnol cresceu muito no espetáculo, e a dobradinha com Casagrande realçou ainda mais as relações entre cada dupla: Virginia/Mimi Coutinho, Poesino/Virgulina, Sonetina/Pontualdo. É necessário ensaiar mais a frase final. Ainda senti falta de mais ruídos sonoros e Clara Devi precisa de aplausos por adentrar a cena sem nenhum ensaio. Não apenas isso, mas conseguir manter ritmo, energia e élan, algo que sempre precisa de equalização com outros colegas, sem um encontro de "teste", é um grande prodígio. Devi conseguiu desvendar a piada embutida na cena da "dobradura". Outra coisa que devo elogiar é a possibilidade de crescimento e troca que a união de artistas de culturas diferentes propõe. 

                     Ainda no começo da tarde, uma professora anunciou não saber qual a cidade de origem de Quintana, só isso já sublinha a necessidade existencial do espetáculo. Quintana ao lado de Carlos Nejar e Heitor Saldanha, ocupam o panteão dos poetas Gaúchos, e devem estar agora ao lado das musas do Lirismo, Euterpe, Érato e Terpsícore. Foram estes poetas do sul, um do Alegrete, um de Cruz Alta e um de Porto Alegre, que definiram a sensibilidade poética gaúcha nessa era. Impossível vislumbrar uma feira de livros sem eles. 


O Melhor: O Som do violão que agora se tornou audível e deixou o espetáculo tão bonito quanto na estreia. 


O Pior: O uso de microfones que acaba prejudicando a sonoridade do espetáculo, por falta de prática do elenco e por falta de um sonorizador preparado.



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