De volta ao ninho...
O cinema sempre teve um fascínio especial pelo retorno à casa, às origens, àquele lugar onde, de alguma forma, deixamos um pedaço de nós mesmos. Foi assim com Scarlett O’Hara, em E o Vento Levou, quando, depois de tantas perdas e tormentas, retorna a TARA, a fazenda que representa sua força e a possibilidade de recomeçar. Foi assim também em E.T. – O Extraterrestre, com a saudade do pequeno visitante por seu planeta, e em De Volta para o Futuro, quando Marty McFly precisa reencontrar o caminho de casa atravessando o tempo e as próprias raízes. Em cada uma dessas histórias, voltar não significa simplesmente chegar a um endereço conhecido, mas recuperar a identidade, reconhecer o que nos constitui e compreender que, por mais longe que a vida nos leve, há lugares, pessoas e memórias que continuam nos chamando. Talvez porque, no fundo, todos nós carreguemos essa inquietação: a de partir para descobrir o mundo e, um dia, precisar voltar para entender quem somos.
Essa é a proposta da COARTE com Quintanares, um retorno às origens de Quintana. O poeta que sai do Alegrete muito garoto e agora retorna ao seu pago através da fábula do menino pássaro. Uma pena que a arte sempre acaba sendo prostituída de alguma forma. Um espetáculo pensado com tanto carinho, cor e delicadeza, acaba se adaptando as relações humanas e trancos da vida real. As dificuldades do acesso a cultura e principalmente à arte, vão cerceando as possibilidades de um bom aproveitamento da obra. Horários, ambiente, falta de diálogo entre equipes... Alegrete é bem aventurada por ter em sua grade de artistas, a equipe da COARTE, com um espetáculo que não deixa nada a desejar para outras montagens. O sul do Brasil, e do estado, embora esteja vendo um crescimento palpável de possibilidades culturais, ainda recebe e produz, em escala muito pequena. Nosso público ainda assiste muito pouco teatro, e a tendência é que isso diminua ainda mais. Sei que estou sendo pessimista, mas o mundo capitalista corre a passos largos e cada vez há menos espaço para quem pensa "fora da caixa". Por isso é preciso criar uma corrente, um esforço coletivo. Estar nos espetáculos, assistir, divulgar, debater, ou seja, fazer uma força tarefa para que as próximas gerações continuem tendo acesso ao teatro.
Quando eu ainda era jovem, havia em minha cidade, dezenas de pequenos grupos teatrais, nas escolas, no grêmios, etc... Hoje em dia, nossas crianças continuam sendo desincentivadas. Uma lástima. Meus netos todos fazem teatro e isso me enche de alegria. A arte, seja ela qual for, sempre propulsiona o mundo para o âmbito do questionamento.
Paulo Amaral e Rosiane Teixeira obtém resultados excelentes em cena. Nas suas performances enquanto Poesino e Prefácia/Virginia, ao espectador é servido um arsenal de trabalho corporal muito bem desenvolvido. A dupla representa agregando valores à produção, ao espetáculo, ao teatro que constroem. Durante todo tempo, desejamos ficar um pouco mais com eles, devido a leveza e energia do espetáculo. Maico, como personagem título, tem um físico formidável, uma leveza louvável. Atrás deles e com eles um grupo de atores também cheio de virtudes: Lully Nicoli, Adrieli DallAgnol e Antonia Serquevitio. No palco também está Junior Lemes (outro empréstimo do Máschara).
É ponto pacífico: o uso de microfones em teatro é sempre um problema. Embora passível de serem contornadas, as dificuldades trazidas pela ampliação artificial da voz do ator quase em sua totalidade traz prejuízos ao espectador e à produção.
Dramaturgia e direção se encontram numa produção que se divide em dois atos, em dois climaxes: a batalha de Limeriques e a partida de Quintanares. Uma avaliação criteriosa há que apontar, entre tantos aspectos positivos, a perda do ritmo momentos antes do segundo clímax, que carece de um pouco mais de emoção, e a não recuperação do excelente ritmo inicial nas cenas finais do espetáculo. Em outras palavras, as cenas vibrantes do início não encontram par nas mais próximas do final, o que é uma pena, se esquecermos o que foi dito na abertura dessa análise: trata-se de um excelente espetáculo. O Figurino é um elemento tão coerente e delicado, que parece uma pintura. Sinal de que há uma criteriosa produção por trás do espetáculo. Lorenzoni deve rever algumas questões como o violão nas mãos da interprete de Virgulina e os textos esquecidos em alguns momentos. A trancada de todo o elenco no final, manchou um pouco a beleza do espetáculo. Junior Lemes também poderia estar mais dentro da peça, com mais ruídos, mais sons.
Pode se tomar um pouco mais de cuidado com pequenos erros de concordância nas falas do elenco e preciso aplaudir Antonia Serquevitio por fazer todo o espetáculo com um microfone da mão. Uma lástima para um espetáculo tão lindo.
Para encerrar, minha gratidão pela COARTE falar de poesia e minha frustração em ver um público tão pequeno em uma Feira de Livros.
ARTE é VIDA
A RAINHA
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