segunda-feira, 6 de julho de 2026
terça-feira, 30 de junho de 2026
ARTIGO II - Para atores e gente do Ofício
MANIFESTO DO SISTEMA MÁSCHARA
Durante
uma reunião dos professores do Dia D, enquanto analisava o olhar que cada um
tem sobre o teatro do Máschara, me dei conta de que precisava trazer para o
papel algo que há muito tempo habita meus pensamentos. Precisava escrever sobre
o sistema. O sistema Máschara de teatro.
Não um
método fechado. Não uma fórmula pronta. Não uma receita capaz de transformar
qualquer pessoa em ator. Pelo contrário. Talvez a primeira característica do
nosso sistema seja justamente compreender que cada ser humano é único. No
Máschara, cada um é um. Todo ator não fará todos os papéis. Existe um papel que se conecta contigo! Esse olhar pode parecer simples, mas ela
sustenta boa parte do que fazemos. Há um respeito profundo pela individualidade
criativa de cada aluno, de cada ator, de cada pessoa que cruza o caminho do
grupo. Não buscamos fabricar artistas em série. Não queremos que todos pensem
igual, interpretem igual ou criem igual. Queremos que descubram sua própria
voz.
Afinal, o teatro não nasce da repetição. O teatro nasce do encontro
entre diferentes formas de enxergar o mundo. Talvez por isso nosso trabalho vá
muito além dos espetáculos. Quem entra no Máschara precisa compreender que faz
mais do que teatro. Faz um trabalho social. Quando um ator visita uma escola,
quando participa de uma atividade em um bairro, quando sobe ao palco de uma
comunidade distante, quando conversa com uma criança que nunca havia assistido
a uma peça ou com um idoso que carrega décadas de histórias para contar, ele
não está apenas representando. Está construindo pontes. Está ajudando a
transformar vidas. E, inevitavelmente, também está transformando a própria.
O sistema Máschara acredita na arte como
ferramenta de crescimento humano. Por isso buscamos constantemente a técnica e
o conhecimento. Estudamos. Pesquisamos. Experimentamos. Erramos. Recomeçamos.
Aprendemos com os livros, com os mestres, com os colegas e, principalmente, com
o palco.
Não vamos
esquecer, queridos palacianos, que talento sem estudo, se acomoda. Não importa
quantos livros tenhamos lido, a partir do momento que paramos de estudar, enferrujamos.
E além disso, cabe a premissa de que técnica sem humanidade perde o sentido.
Mas
há, ainda, um outro valor que sustenta o nosso sistema: o respeito. Respeito por
aqueles que vieram antes de nós. Nenhum ator sobe sozinho ao palco. Atrás de
cada espetáculo existem gerações de artistas que abriram caminhos, enfrentaram
preconceitos, carregaram cenários, escreveram textos, construíram grupos e
defenderam a cultura quando isso parecia impossível. Somos herdeiros dessas
pessoas, Helquer Paez, Dulce Jorge, Cesar Dors, GIane Ries, Seu Jorge... Mais tarde, aprendemos e vimos artistas como Alexandre Dill, Simone De Dordi,
Angelica Ertel ou Gabriel Wink, criando, produzindo... Temos a responsabilidade
de honrar esse legado, que não ficará em museus, que não estará em livros, ele
se perderá... Ou ficará vivo, em nós.
Visualizar tudo isso, refletir sobre, nos torna seres pensantes.
Mas
o teatro não nos dá respostas prontas, ele nos ensina a fazer perguntas. A
observar. A refletir. A compreender que o mundo é maior do que nossas certezas.
O teatro nos ensina a olhar para o outro. E é justamente esse olhar que conecta
tudo aquilo que fazemos. As aulas com idosos. As aulas com crianças. Os
espetáculos. Os festivais. As oficinas. As turmas que acompanho em Alegrete. Os
ensaios no Palacinho. À primeira vista, tudo isso pode parecer atividades
diferentes. Mas não são. Tudo faz parte de um grande projeto de vida. Um grande
projeto de cultura. Um grande projeto de gente.
Porque o sistema Máschara não foi construído apenas para formar atores.
Foi construído para formar cidadãos sensíveis, criativos, conscientes e
comprometidos com a comunidade onde vivem. No fim das contas, é isso que nos
move. Estamos a serviço das gentes. Porque o teatro só faz sentido quando
encontra alguém. E talvez o verdadeiro sistema Máschara seja exatamente isso:
colocar a arte a serviço da vida.
segunda-feira, 29 de junho de 2026
Família Máschara
quarta-feira, 24 de junho de 2026
segunda-feira, 22 de junho de 2026
Artigo I - Para atores e gente do oficio
Texto para ser lido sob bambolinas
Enquanto caminho em direção ao Palacinho para
mais um ensaio, vou tentando construir uma boa cena dentro da cabeça. Às vezes
ela já nasce quase pronta. Outras vezes vem aos pedaços, como quem não quer se
revelar de uma vez. Nesse trajeto, porém, me divirto me colocando no lugar dos
atores. Eu sou ator antes de ser diretor, essa é minha natureza e um ator carrega
dentro de si dezenas de vidas, centenas de emoções e uma capacidade
extraordinária de emprestar o próprio corpo para que, alguém que não existe
possa existir diante do público. Mas também sei que, muitas vezes, eles não
sabem por onde começar. O teatro, as
vezes parece grande demais para caber numa definição simples.
Volta e meia me pergunto
o que é, afinal de contas, o teatro. E quanto mais penso, menos consigo
reduzi-lo a uma técnica, a uma arte ou a um espetáculo. Para mim, teatro é
comunicação. É o encontro mais antigo e mais sincero entre alguém que tem algo
a dizer e alguém disposto a ouvir, por isso acredito que o teatro precisa ser
atraente. Não no sentido superficial de apenas divertir, mas no sentido de
capturar a atenção das pessoas para então provocar reflexão, despertar
sentimentos, informar, transformar ou até mesmo incomodar. Um espetáculo pode
arrancar gargalhadas e ainda assim fazer pensar. Pode emocionar e, ao mesmo
tempo, ensinar. Pode entreter e transformar uma comunidade inteira.
O público não se senta
diante de um palco para assistir a um exercício de vaidade. Ele vai em busca de
uma experiência. E cabe a nós oferecer algo que dialogue com a sua realidade,
com seus sonhos, seus medos e suas perguntas. É PRECISO SE COLOCAR NO LUGAR DAS
PLATEIA “O QUE VOCÊ TEM A DIZER É MUITO IMPORTANTE PARA ELA”. Talvez por isso o primeiro trabalho que
costumo indicar aos meus atores não seja decorar o texto. Claro que decorar é
importante. O texto é a estrada. Mas não é a viagem. O primeiro exercício é
ouvir. Ouvir de verdade.
Escutar o parceiro de
cena. Escutar as pausas. Escutar os silêncios. Escutar até aquilo que não foi
dito. Porque quando um ator está realmente ouvindo, ele deixa de apenas repetir
palavras decoradas e passa a reagir ao que acontece naquele instante. A cena
fica viva.
E a resposta surge quase
como um mecanismo de defesa. Alguém lança algo no palco e o personagem
responde. Não porque chegou a sua vez de falar, mas porque algo o atingiu. E
quando isso acontece, o público percebe. Talvez não saiba explicar, mas
percebe. Existe uma enorme diferença entre dizer uma fala e responder uma
fala. Dizer é reproduzir. Responder
é viver.
É por isso que sempre
insisto que as personagens não são construídas apenas pelos seus discursos.
Elas nascem da troca. Das réplicas. Das reações. Do que recebem e do que
devolvem. Um personagem é aquilo que fala, mas principalmente aquilo que escuta.
Quando dois atores realmente se ouvem, o texto ganha respiração. As palavras
deixam de ser um monumento imóvel e passam a ser uma conversa. E o teatro, que
às vezes corre o risco de virar mera repetição, volta a ser aquilo que nasceu
para ser: UMA CERIMÔNIA!
Talvez seja por isso que
sigo pensando em teatro enquanto caminho para os ensaios. Porque cada cena
ainda é uma pergunta sem resposta definitiva. E porque acredito que o palco
continua sendo um dos poucos lugares onde seres humanos podem se reunir para
ouvir e serem ouvidos.
No fim das contas, talvez o
teatro seja exatamente isso: uma conversa que nunca termina. Agora eu, diretor,
te pergunto, você ouve o outro em cena?


.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)




