quarta-feira, 30 de outubro de 2024
Análise do primeiro espetáculo concorrente do Vigésimo Terceiro Rosário em Cena- SCOTCH 33 -COLETIVO KHÁOS
domingo, 27 de outubro de 2024
1201 - Dona Flica e seus dois maridos (tomo 6)
Quando um grupo de teatro, leva ao palco um espetáculo infantil, têm a certeza que sabe tudo sobre as crianças, e sobre o que elas vão gostar. Certamente muitas vezes está errado e não tem a mínima ideia do que as crianças querem ou gostam. Pois bem, quando um grupo de teatro leva ao palco um espetáculo aos idosos, precisa no mínimo ter a coragem a ideia de que estará levando algo seja útil àquela "fase da vida" que assistirá o espetáculo.
Sobre o palco um espetáculo que é dramático e cômico, um pouco trágico, se pensarmos em tudo o que a vida representa para o ser humano, e nas dores da velhice que caminha para o fim eminente. Mas têm seus momentos farsescos e burlescos. E essa percepção me faz admirar ainda mais o teatro que é insano e sem rótulos. Desde muito jovem eu ouvia grandes mestres do teatro rotularem, como tudo na vida, isso é tal linguagem, essa é outra. -Ora isso é postura de tal tipo de trabalho, essa é postura de outro tipo de teatro. -Ei, esse teatro não combina com aquele teatro! - Como se a arte estivesse classificada dentro de escolas, ou que tivesse que ser feita de um determinado jeito para ser considerada. Não! o teatro precisa ser e é, livre!
O que mais nos toca é o arrojo, a vanguarda, o que nos balança nossos alicerces, o que nos chuta para longe de nossa zona de conforto. Eu tive uma amiga, que agora já faleceu. Ela costumava me chamar para assistir sempre os mesmos dois filmes que tinha em VHS, eu lhe perguntava: -Por que ver o mesmo filme outra vez? - Por que sei que é bom. - Ela dizia. Ora, não quero ver o que sei que é bom, quero ver o que não sei, e fazer minhas próprias considerações.
Dona Flica e seus dois maridos é um espetáculo singelo, tocante, sem grandes objetivos comerciais, mas que nos toca pela historia dessa senhora que parece ter desistido. E não dá para desistir, não enquanto houver ar, enquanto houver sengue, enquanto houver um único estampido de vida. Dona Flica fala da lonjura da vida, e ao mesmo tempo de sua celeridade. A vida é intensa, pela quantidade de momentos com que nos desafia: sucessos, fracassos, ganhos, perdas, amores, traições... Carregar tudo isso no peito, somar tudo isso e alcançar o tempo dos cabelos brancos, quando as junta não mais suportam manter-se na vertical. Tudo isso parece um fardo para a velha anciã interpretada por Lorenzoni.
O texto levemente sarcástico que também leva a assinatura de Cléber, nos fala da realidade dos idosos, assistidos por câmeras enquanto seus filhos ou responsáveis vivem suas vidas ocupadas. Tia Flica não compreende de redes sociais e apps, como tantos idosos também não compreendemos. Eu mesma, só consigo fazer algumas transações bancárias via aparelho de celular, quando assistida por meus netos.
Fabio Novello como Gerônimo, esteve impagável, divertidíssimo. Renato Casagrande e Cléber Lorenzoni perderam algumas piadas, descobriram outras. Dulce Jorge começou comedida e foi se soltando, somando vigor à cena. A plateia envolveu-se lindamente o quero dizer é que o espetáculo cumpriu sua função.
Há vários tipos de teatro, de atores, de diretores e de dramaturgos, vários tipos de objetivos, vários tipos de interpretações e de públicos. O teatro precisa dar sempre seu melhor para instigar as plateias a quererem mais e melhor. É preciso saber pelo que se está cobrando, é preciso saber por que se está contando essa ou aquela historia. Não é só teatro, é muito mais que isso. Não é sobre eu ou você, ou ele, ou aquele. Não é para ser "bonitinho", "fofo", "pequeno" e repleto de "boas" intenções. É para transcender, é para chocar, é para derrubar preconceitos. O espetáculo Dona FLica está dizendo: -Sim, velhos fazem sexo e devem e podem fazer sexo, e mandar nuds! Velhos não tem obrigação de ser pessoas boas, são como todos nós, apenas seres humanos tentando sobreviver. Precisam de apoio, de auxilio, como quaisquer pessoas de quaisquer idades em quaisquer momentos podem também precisar de ajuda. Simples assim.
Parabéns ao Máschara por saber o que faz sobre o palco.
O melhor: Ver quatro atores prontos sobre o palco. Quatro anciãos.
O pior: A impossibilidade de apresentar o teatro com toda a mise en scene, uma boa luz, etc...
Dona Flica e seus dois maridos
Direção e dramaturgia - Kleber Lorenzoni
Kleber Lorenzoni
Dulce Jorge
Fabio Novello
Renato Casagrande
Contra-regragem Clara Devi (*)
Antonia Serquevitio (**)
Ana Clara Kraemer(***)
Kleberson Ben (**)
Nicolas Miranda (**)
A Rainha
sábado, 26 de outubro de 2024
1200-O Grande Circo Mágico (tomo 17)
Mas afinal o que é ser bom no palco?
terça-feira, 22 de outubro de 2024
segunda-feira, 21 de outubro de 2024
1199 -Dona Flica e seus dois maridos (tomo 5)
O teatro é sagrado, pois desperta em nós e no outro a reflexão da vida, da existência e da pequenez da humanidade. O palco é um altar, e a palavra hebraica para altar é mizbah, que significa: lugar onde sacrifica. Sempre que atores sobem ao palco, eles sacrificam-se pelo público, oferecem-se para que o público ria às suas custas, para que o público chore ao seu lado, ou o odeie. O público conversa ao telefone enquanto ele se esfalfa sobre o palco. O público tosse, conversa, se meche nas cadeiras. O público o observa durante todo o espetáculo, para talvez criticar sua roupa, sua maquiagem, seu jeito de se movimentar ou a historia que está contando. O ator chega mais cedo ao local, maquia-se, abre mão de sua própria aparência para dar espaço a aparência desse outro ser. O ator oferece portanto a si próprio, e a criação que produziu durante dois, ou três meses. Cobra pouco, mostra-se disposto e humilde a todo tipo de comentários que lhe são disparados... E por que? Não sabemos. Não temos como saber, faz parte do divino, do mistério, dos dogmas sagrados do teatro.
Gosto também da ideia de que palco é monumento, onde ocorre a teofania, ou seja, há nele uma chama, um fogo ininterrupto que arde dia e noite, nos lembrando da necessidade em queimar, arder em expiação aos Deuses. E é assim que alguns atores se sentem, pois dentro deles arde um fogo, uma chama tão forte quanto a vida. Lá embaixo, estão os leigos, aqueles que desconhecem o que acontece sobre o palco. Apenas desfrutam, colhem o produto servido com tanto esforço. É preciso força, é preciso coragem, para subir ao palco todos os dias, por isso mesmo é preciso respeitá-lo. Ver um celular funcionando na coxia, é desrespeitador, humilhante, pois o colega de cena está vivo, entregue e a qualquer momento pode precisar do seu apoio. Atravessar palco e cenários, como se estivesse em uma terra sem lei, ou seja, macular a casa de Dona Flica, ou quaisquer outros mundos que o autor bolou, chega a ser um sacrilégio, se for fazer isso, faça com descrição, rapidamente...
O espaço onde o espetáculo foi apresentado, tratava-se de um salão paroquial, muito bem decorado para um almoço fino, o palco no entanto como sempre, despreparado para teatro, foi entregue ao grupo sem qualquer aparato. Por ser um espaço muito amplo, volumes dos atores foram prejudicados, impossibilitando que a plateia ao fundo tivesse a mesma experiencia. Entre risos e aplausos, os talentos de quatro dos mais maduros interpretes do máschara. Lorenzoni nesse espetáculo da o tom de praticamente toda a narrativa, já que está em cena quase o tempo todo. Dulce Jorge teve alguns esquecimentos mas apesar de pouco ensaio manteve a personagem firme. Sobre o palco ainda, Novello e Casagrande, fortes, intensos e bastante performáticos, nos dando belos contrapontos.
Em alguns poucos momentos ouviu-se os estalos da direção pedindo ritmo, ou seriam outros ruídos quaisquer? Era em suma o único espetáculo do Máschara interpretado em sua totalidade por anciãos.
Trilha, cenários, maquiagem, figurinos, tudo perfeito. Com a cara do Máschara e ai fica a pergunta: -Qual a cara do Máschara?
O Melhor: A percepção do prometheu Kleberson Bem em ir aprendendo o oficio e sua tentativa em solucionar pequenos percalços
O Pior: A falta de acústica prejudicando espetáculos.
Dona Flica e seus dois maridos
Direção: Cléber Lorenzoni
Elenco: Cléber Lorenzoni
Dulce Jorge
Fabio Novello
Renato Casagrande
Contra-regragem: Clara Devi (**)
Antonia Serquevitio (*)
Ana Clara Kraemer (**)
Kleberson Ben (**)
A Rainha

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