domingo, 21 de outubro de 2018

Cléber Lorenzoni e Raquel Arigony em Complexo de Elecktra


Turma da ESMATE em Lendas da Mui Leal Cidade


Ulrica - Complexo de Elecktra


Cena de Rosaura e Trufaldim durante a Arleccinada de Clara Devi


825- Olhai os lírios do campo (tomo 8)

Resgatando uma obra

Dizer que o teatro tem que ser feito, apresentado, mostrado e pronto, pelo simples motivo de que é importante, é uma ideia vazia e simplista. O teatro deve ser feito sim, mas por motivos específicos. A escolha do texto, ou a obra plástica, ou o questionamento estético, ou a crítica social, ou a discussão científica... Enfim, a equipe, a produção, o elenco, ou a direção precisam saber qual o objetivo pelo qual uma obra teatral será levada à cena. 
Nesta quinta-feira, o espetáculo Olhai os Lírios do Campo subiu ao palco do colégio Santíssima Trindade. Tentei elencar os motivos. Erico Verissimo na escola? A adaptação do diretor Cléber Lorenzoni? O trabalho de atores brilhantes? A arte na escola? Olhai os Lírios do Campo como fonte de estudo para aula de literatura? Arrisco até a dizer: Uma mensagem sobre egoísmos e complexos para adolescentes filhos da classe mais abastada de Cruz Alta...
Será que o teatro transforma quem não quer ser transformado? Será que o público não se deixa observar o teatro como quem olha para a parede de um muro? Será que a catarse acontece? Poderia dizer que quando o espetáculo é bom a catarse acontece. No entanto seria esquecer que um terço do espetáculo é de responsabilidade única da forma como a platéia se coloca, anceia, observa, concentra-se, emana. A platéia do colégio Santissima Trindade foi educada, fez tudo direitinho, mas me entristece ver o quão pouco preparados os jovens dessa faixa etária estão para o "acontecimento artístico", para a obra teatral em sua frente. E então chegamos a uma conclusão, o teatro deve ser levado a qualquer custo para o palco, espetáculos infantis, juvenis e adultos, a toda hora, repetidas vezes. Se o Máschara continuar durante bons dez anos, sem parar, fazendo talvez o triplo do que faz, talvez, somente talvez, daqui há dez anos, o teatro finalmente será prato de necessidade extrema na mesa do público. Por isso que surjam mais atores, mais espetáculos, mais diretores, mais cenas. Cléber Lorenzoni é um druida do teatro, há anos ele planeja, cria situações, busca jovens, prepara o futuro para o teatro. E nós? Qual nossa contribuição?
Olhai os Lírios do Campo está muito mais maduro, ao menos o elenco principal. Alessandra Souza embora não estivesse em um bom dia, talvez seja uma atriz que o cansaço atrapalha em cena, esteve mais serena. Dulce Jorge pareceu nervosa e falou um pouco baixo. Cléber Lorenzoni sempre dirigindo enquanto atua. Não quero ficar elogiando o ator, mas me agrada muito um ator que sabe o que está fazendo, que vai cortando, adaptando, resolvendo, solucionando durante a cena. Renato Casagrande também está se tornando um ator-diretor, ser ator-diretor confere aos atores o domínio perfeito da cena. 
No elenco de volta Raquel Arigony, mais madura, mais triangular, faltou-lhe um pouco de volume, na sala tão sem acústica. Kauane Silva nos brindou com boa energia, um arrojo.  Ricardo Fenner, e Douglas Maldaner cumpriram direitinho, embora o ultimo parecesse um tanto gessado. De volta a cena Evaldo Goulart que pensei ter se retirado da Cia. 
Olhai os Lírios do Campo não é uma grande obra artística, na verdade é até um pouco simplória, dividida em dois quadros, a infância sofrida da família Fontes, responsável por tantos complexos no jovem Genoca e a vida amorosa de Eugênio, outro grande fracasso humano, que termina com a decisão de recomeçar. 
Como todo o drama, Eugênio perde tudo o que realmente descobre importar e tem sua catarse de forma simples, tornando-se um homem melhor. 
No salão de eventos da escola, nada de iluminação complexa, cenário levemente amontado, cortina marrom ao fundo do palco. Os atores precisam e devem adaptar-se para que o teatro aconteça, nos toca porém, o fato de algumas vezes as obras serem prostituídas, enfraquecidas. 
Era teatro, mas os sensíveis devem se perguntar: A que preço?!


                 O melhor: Ver os atores Raquel Arigony e Evaldo Goulart de volta ao palco, além do trabalho louvável de Kauane Silva.
                      O Pior : O olhar quase compadecido com que os alunos olharam para o espetáculo.


                                 Arte é Vida

Alessandra Souza (**)
Renato Casagrande (**)
Kauane Silva (***)
Dulce Jorge (**)
Raquel Arigony(**)
Evaldo Goulart (**)
Cléber Lorenzoni (**)
Ricardo Fenner (**)
Douglas Maldaner (**)
Laura Hoover (**)
Stalin Ciotti (*)
Felipe Padilha (***)
Fabio Novello (**)
Colégio STS (*)

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Irmã Isolda ao Lado da Madre Madalena Damem fundadora da congregação das Irmãs Franciscanas de Penitencia e Caridade


824-A Roupa Nova do Rei - tomo 3


Tempos obscuros



Em tempos em que o maior medo da sociedade passa a ser a incerteza se a democracia respeitará os direitos dos cidadãos, se a empáfia, a prepotência e a  soberba não acabarão por escravizar a liberdade conquistada depois de tanto esforço. No palco, um déspota de estatura paradoxal, Cléber Lorenzoni compôs um reizinho que nos parecia tão pequenino ao lado dos colegas de cena e ao mesmo tempo tão grande devido a seus desmandos e postura ditatorial. Tao pequeno, tao filhote quando o descobrimos um menino e tao grande pelo domínio de cena do interprete. Andersen em sua seu conto original, criara uma metáfora à sociedade da época onde todos vivem em função de modismos e não questionam os modos  comportamentais da circulo social que os rodeia. Esta postura pode até ser explicada  sob o aspecto da psicologia evolucionista, parece mais fácil seguir o grupo do que questiona-lo. Certamente no tempo das cavernas, se um grupo de pessoas estivesse correndo em uma direção, a atitude mais sensata seria a de se unir ao grupo. Os que ficaram para saber o porquê, terminaram sendo comidos por um leão e, consequentemente, não passaram o gene do “questionamento” para as gerações seguintes. Olhando por essa ótica, pode parecer extremamente normal e pouco condenável a postura do reizinho e de seu fiel conselheiro. Mas como não questionar então as qualidades pouco sensatas de um homem que ocupa um cargo de poder e que deveria em suma representar o juízo e a segurança de seu povo.

O público de A Roupa Nova do Rei do Grupo Máschara era formado por famílias e adultos e crianças divertiram-se, o cenário muito simples não atrapalhava ou sublinha coisas desnecessárias, na verdade era um trabalho muito limpo, bem a meu gosto. O texto muito bem pronunciado, me dava prazer em ver as crianças vendo teatro. Em nenhum momento bitolava ou subestimava os pequenos, ao contrario a qualidade da farsa, muito bem colocada principalmente pelos protagonista e antagonista, nos prendia minuto a minuto. Não deu para perceber o espetáculo passar, quando nos damos por conta havia acabado. Uma das maiores satisfações em ver um espetáculo desse porte, é perceber o quanto o elenco é coeso. Todos me pareceram atores muito capazes, dignos de uma grande turnê.

Que prazer depois de quase um ano voltar a ver a atriz Raquel Arigony em cena, tao solta, tao entregue, tao viva ao lado de seu partner. Casagrande e Arigony dialogam no palco sem deslumbres de atores que apenas querem exibir-se. O fazem, mas com domínio de palco. Assim como no outro time Giacomini e Lorenzoni trocam boas gags e pontuam brilhantemente as cenas.

O mais incrível é que tomada por uma epifania momentânea compreendi aquelas duas forças se revelando em minha frente. Aquele que tira dos ricos e dá aos pobres, que vai salvar a todos, e que ironicamente ou por coincidência ou por perspicácia da direção está de vermelho, ao lado de uma companheira do sexo feminino, preenchendo um personagem que pela tradição  do conto seria do sexo masculino. Do outro lado o ditador que manda e desmanda, as vezes com violência e sem domínio nenhum do que comanda. Assim como na vida, nenhum é do bem ou do mal, ambos passeiam pelos tortuosos caminhos da existência tentando sobreviver e fazer o que julgam ser o melhor. Em meio as duas forças está Lady Zuzu, o povo. Que tudo vê, mas acaba por dominado assim mesmo, por aquelas duas forças. Grita, corre, choraminga, mas o poder não é seu. 

Ao final, lições, catarses, mas o prazer de ver as crianças acompanhando uma historia onde no final tudo fica bem. Não é preciso romper amizades no face, ou ainda se julgar mas certo que outrem. O poder matriarcal sobre o trono, está acima de todos e nos acalenta, a rainha, a imperatriz, a dama encerra o espetáculo não punindo, não berrando, não judiando, mas contando uma historia. Nesse ano de exercer o sufrágio, podemos escolher entre duas forças, quem é capaz de dizer qual é a certa?

Lady Zuzu?





                  O melhor - O jogo do elenco.

                  O pior - a necessidade de se trabalhar e aperfeiçoar cada vez mais a equipe técnica.



                                  Arte é a vida!



                  A Rainha

domingo, 14 de outubro de 2018

zah zuuu no colégio Santíssima Trindade


823- Zah Zuuu (tomo 7)

Clown

É definitivo, ou você ama clown ou você odeia. Eu particularmente acredito muito na frase de Henry Miller, Clown é a poesia em ação. Delicado, milimetricamente intenso, totalmente conectado. Mas de onde vem o clown? O termo Clown vem de clod, que se liga etimologicamente ao termo inglês "camponês" e ao seu meio rústico, a terra. Por outro lado palhaço vem do italiano paglia (palha) material usado  no revestimento de colchões, porque a primitiva roupa desse cômico era feita do mesmo pano dos colchões: um tecido grosso e listrado, e fofo nas partes mais salientes do corpo, para proteger nas constantes quedas. Quedas essas que não faltaram em Babah. Mas o que envolve o clown nessa redoma de mistério, como chegar até ele? Há no clown algo que nos desafia, essa ingenuidade provocadora.   Se observarmos a historia veremos que sempre houve nas festividades religiosas e apresentações populares da antiguidade, uma alternância entre o solene e o grotesco. Essa combinação do cômico e do trágico, acentua a percepção das emoções contrapostas e é muito peculiar ao clown. O clown faz tudo seriamente. Ele é a encarnação do trágico na vida cotidiana; é o homem assumindo sua humanidade e sua fraqueza e por isso tornando-se cômico.
Zah Zuuu me parece um exercício onde os interpretes buscam algo que ainda não encontraram. Há é claro, uma proposta, uma triangulação típica em atores de domínio. No entanto o espetáculo é delicado demais para uma plateia tão grande como a da primeira sessão. O âmago da encenação é a relação entre pais e filhos, as vezes em alguns momentos Cléber e Renato até conseguem relativizar algumas normas de comportamento e verdades sociais, o que torna ainda mais contundente a encenação. O quadro final, já muito conhecido na historia do teatro, não é muito aproveitado, talvez pelo ritmo que se instale, nossas crianças tão pouco habituadas ao teatro, querem berrar e opinar sem parar. O espetáculo merecia mais silêncio. Aliás merecia muitos cuidados, sutilezas. Sutileza na trilha sonora que infelizmente foi tudo, menos delicada. Merecia uma contra-regragem também sutil, víamos constantemente a pessoa atrás das coxias alcançado coisas, andando. O que denota falta de ensaios e falta de comprometimento.  Eu particularmente fico muito revoltada quando vejo os atores se esfalfando no palco e a equipe que deveria dar todo o apoio técnico mais atrapalhando do que ajudando. As equipes que circulam por trás das rotundas, tem a seu favor, o anonimato, ninguém está com os olhos cravados em si. 
Zah Zuuu carrega uma linda proposta mas acaba se impondo como uma animação. Renato Casagrande traz como carta na manga sua capacidade de mergulhar no ridículo, palhaço realmente. Ele é sem dúvida o branco, o inteligente, o líder, a pessoa cerebral. Cléber é o Augusto, o ingênuo de boa fé. Nessa dobradinha rimos, rimos da fraqueza, da ingenuidade, da pequenez, e talvez, se tivermos pensado um pouco mais profundamente, talvez tenhamos alcançado a catarse necessária e proposta. 

Arte é Vida


O melhor: A iniciativa dos dois atores em embrenhar-se por um mundo tão pouco desconhecido e cheio de significados.
O pior: A equipe técnica que deve sempre ser profissional.