quinta-feira, 5 de dezembro de 2019
terça-feira, 3 de dezembro de 2019
Teatro vanguarda na esmate
Bem correto que tanto Beckett quanto Arrabal, tanto Fim de Partida quanto Pic nic no front não tem nada de vanguarda, pois já se tornaram clássicos e é realmente difícil encontrar novos debates com os dois textos. Ou seja, são atuais e presentes, mas quem senta para assistir já tem uma pré leitura do que vai ver, já chegamos ao teatro com uma experiência imaginada. No entanto para nosso teatro um tanto boutique, ambos os textos são vanguarda quando levantam discussões que ainda eram desconhecidas para alunos ou mesmo elenco. As duas esquetes encenadas por meus alunos e dirigidas por meus assistentes e colegas, é um hibrido de tudo o que foi trabalhado durante um ano de ESMATE e muito mais que vem conosco de outros anos, já que somos antropofágicos e sem aforismos eu diria que em cena vê-se a importância do estudo. E olha que muitos ali nem gostam de estudar.
Não se deve estudar para agradar alguém ou por pensar em uma boa profissão, mas pela necessidade enquanto individuo que passeia pelas discussões da existência sabendo em que terreno está pisando.
Nas ultimas semanas a ESMATE mencionou o naturalismo, e em meses anteriores discutiu-se o simbolismo, e o surrealismo, fala-se há muito sobre teatro do absurdo e salpica-se pontos de vista quanto ao existencialismo, tudo muito sutil, sem carregar muito a cabeça do aluno ou tentar torná-lo mais um acadêmico insuportável. Todas essas linhas se cruzam formando teses, que quando cruzadas com narrativas dramatúrgicas, geram formas, linguagens e intertextualizações.
Ora muitos atores instintivos, não pensam, apenas agem e criam por assim dizer símbolos que estão pairando entre nós mas que quando deparamo-nos com eles, tomam um colorido muito especial e funcional.
A violência foi o substantivo âmago, presente nas duas cenas e sintetiza de certa forma a macroscópica situação ao nosso redor. Os perfis dos diretores ficam muito claros e suas declarações estéticas são muito pontuais. Alessandra Souza é mais clean, ela quase sempre opta por uma escolha única em sua linguagem. Renato Casagrande pincela muitos signos e é preciso ser muito observador para captar tudo o que ele quer nos dizer. Contudo, nessas construções ouve uma desconstrução de posturas, e tanto um dos diretores quanto o outro mostraram-se de outras formas. Souza conseguiu nos apresentar muitos signos e Casagrande afunilou-se em um único contexto.
O minimalismo da tragédia contemporânea de Beckett requer menos sentido e mais neutralidade. Não se pode buscar muito sentido no texto desse dramaturgo, é o sentido que vem até nós. A vida precisa ser extirpada, mas ela insiste em se agarrar as paredes e ali ficará. As interpretações poderiam ter caído no fácil apelo da tragédia, mas o histrionismo ficou de fora. O cenário na boca de cena foi uma escolha ótima que realçou a sensação de aprisionamento que o texto pede. Os sons, os gemidos, os ruídos, a forma sutil com que toda a equipe pronunciou seu texto foi extremamente coerente e eficaz. Como eu disse, talvez algumas coisas sejam mais instinto do que técnica ou talento. Mas então esperamos que os atores as tenham captado e as mantenham salvas em seus arquivos do teatro de beckett. Indico aos atores assistirem o filme O Abrigo (2002) de Xavier Gens, elucidaria ainda mais no contexto de Fim de Partida.
O Teatro do absurdo iniciado em 1952, crítica deveras o realismo, e isso fica muito claro na montagem de Renato Casagrande. O mundo contemporâneo se movimenta de uma forma quase alógica. Nós estamos entrincheirados, nós estamos a beira da loucura e essa hipérbole é o mote central na concepção da equipe. A esquete derrapa um pouco na escolha do ambiente onde a trama se passa, e o lado farsesco quase invade a cena. Mas os cenários e as interpretações fantásticas salvam qualquer equívoco. A maquiagem de Zapo e Zépo é muito funcional e a entrada da personagem de Ellen Faccin é um achado bárbaro. Talvez o final pudesse ser mais explosivo, mas de qualquer forma o corpo sendo levado lentamente, acrescenta uma sensação de terror necessária à proposta.
Foi sem dúvida a prova de que os nove atores da turma e seus dois diretores estão prontos para o palco., claro que a cada novo trabalho acrescentar-se-á a necessidade de estudo, de busca de conhecimento, de discussão sobre determinada obra. Mas Fim de Jogo (ou partida) e Pic nic no front foram trabalhos merecedores de aplauso e respeito por quem faz teatro.
Cléber Lorenzoni - diretor
domingo, 1 de dezembro de 2019
Auto de Natal - familia de nazaré (tomo 5)
De repente uma invenção pequena, uma coreografia, vários ensaios e uma lista de figurinos dão lugar à emoção, candura, e singeleza...
Assim é o Auto de Natal do Máschara, pelo menos para mim que sou diretor. Existe um apelo engraçado, para nós que nascemos em berços cristãos católicos. A historia mitológica de Maria de Nazaré exerce um poder enorme, uma influencia avassaladora em nossas ideias da criação do mundo.
Eu frequentei a igreja por mais tempo que realmente queria. Foi lá, entre velas derretidas, orações que não compreendia direito e lindas imagens cheias de símbolos que pela primeira vez vislumbrei a representação. O incenso das cerimônias, os cânticos, as liturgias repletas de sentar-se, levantar-se, ou ajoelhar-se, me deram a perfeita noção do quanto o cerimonial, o cênico, é necessário, indispensável para o humano. Ao mesmo tempo percebia que o mistério era necessário, o desconhecido. Foi disso que a igreja serviu-se durante quase dois mil anos. Uma instituição necessária, filosófica e poderosa. Finalmente o mundo ocidental começou a compreender a alegoria mitológica do cristianismo, necessária logicamente, mas mutável como a sociedade humana.
Ainda assim, por algum motivo, acredita-se que um anjo visitou uma virgem e lhe descreveu uma gravidez advinda de um espirito santo. Nós queremos mistério, nós queremos encanto, nós queremos o lúdico, nós queremos crer no divino. Talvez esteja aí a explicação para tamanha comoção da platéia ao assistir o Auto de Natal.
Eu dirigi um espetáculo repleto de dança, canto e interpretação. Um espetáculo de quase uma hora de duração que passeia por contos bíblicos e parábolas de conhecimento universal. Um espetáculo tão alegórico que ultrapassa as noções da logica exatamente por que mergulha na arte, visual e semiótica.
A interpretação de Alessandra Souza por exemplo, mostra uma Maria humana, tridimensional. O Herodes de Renato Casagrande é jovem, genioso e tirano. Há um clima jovem, infantil e extremamente harmônico em todo o espetáculo.
A entrega, a dedicação, a energia, o profissionalismo, tudo são itens de um trabalho serio e grandioso. Muitos são os atores que se destacam, mas enquanto diretor, preciso reverenciar Laura Salles Heger pela capacidade de com tão pouco tempo de teatro, estar ainda assim tão intensa, firme no palco qual atriz que sabe o que faz. Anita Coelho, que foi a revelação da noite, corajosa e mesmo com poucos ensaios, tão disposta. Antonia Serquevittio é uma atriz que não tem tido muito tempo livre para dedicar-se a ESMATE, mas quanta entrega, profissionalismo, e a disposição para ensaiar até mesmo com um bebê nos braços. Nicolas Miranda é um jovem que vem amadurecendo, sua prestatividade na hora de substituir a colega foi muito elogiável.
Outro grande exemplo de profissionalismo foi a performance de Ellen Faccin como contra-regra, educada, dedicada, preocupada em fazer um bom trabalho, todas as companhias deviam ter uma Ellen Faccin, claro que ainda lhe falta estudo, compreensão dos macetes técnicos, coisas que aprende-se com o tempo. Este auto de natal é extremamente simbolista, repleto de alegorias, tudo se desenvolve no campo da forma. Minha preocupação com a partitura está mais presente nas personagens masculinas, os velhos do tempo por exemplo e os reis magos refletem uma preocupação física muito bonita. A maternidade, o lirismo e a ardilosidade aparecem de tempos em tempos e somam-se na cena da matança dos bebês.
É engraçado eu falar, analisar meu próprio trabalho, prefiro logicamente ler a crítica de outros. No entanto é necessário elencar, elogiar ou criticar algumas coisas dessa grande esfera. Doroty dizia em O Mágico de Óz, não há lugar melhor que a casa da gente. Pois bem, minha casa é o Máschara, o teatro. Aquelas vinte pessoas reunidas, se ajudando, se maquiando, lutando para fazer o melhor em cena. Por isso fico triste quando atores perdem coisas, esquecem coisas, dizem que irão aparecer mas não vem. É como se a casa da gente de repente estivesse desabando. Nossa estrutura é muito frágil só podemos confiar uns nos outros.
Teatro é vida
Renato Casagrande (**)
Evaldo Goulart (**)
Ricardo Fenner (***)
Kauane SIlva (***)
Laura Hoover (*) *cuidar dos materiais do grupo.
Anita Coelho (***)
Fabio Novello(**)
Alessandra Souza (*) ser mais atenta. (não esquecer coisas de suas funções)
Clara Devi (**)
Douglas Maldaner (**)
Antonia Serquevittio (***)
Ellen Faccin (***)
Laura Heger (***)
Maria Antonia Silveira netto (**)
Stalin Ciotti (**)
Nicolas Miranda (***)
Vagner Nardes (**)
Luis Felipe Padilha (**)
Arte é trabalho!
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