sábado, 17 de novembro de 2018
sexta-feira, 16 de novembro de 2018
quinta-feira, 15 de novembro de 2018
834 - Complexo de Elecktra (tomo 14)
Noite de tragédia
O que é a tragédia grega, e qual sua função?
Talvez o fato de não se falar mais dos princípios da tragédia, talvez por não se falar de catarse ou mesmo por se compreender tão pouco sobre o universo da tragédia tenhamos perdido a mesma pelo caminho. Isso explica o porque de termos quase ninguém nas plateias de espetáculos intensos, dramáticos, trágicos. A tragédia não ficou obsoleta, mas talvez, esteja morrendo, o universo atual não tem tempo para analisar o porque o instinto humano eleva-se à extremos. Queremos apenas expurgar da sociedade os vilões, sem compreendê-los.
O sacrifico do bode, oferecido à Dionísio, não passa de historia. E as pessoas odeiam historia, não se dão conta de que somos feitos de historia, mais até do que ciência, afinal tudo o que somos, nossos pais, a origem de nossas doenças, tudo é explicado pela historia.
A tragédia grega tem o poder de assumir as capacidades humanas, aquelas das quais nos envergonhamos.
Euripides e Sófocles são homens que ficaram no tempo, ancestrais que contaram tramas incríveis. Talvez eu esteja ultrapassada, talvez o quadradinho ou o funck ou sei lá o que seja a realidade atual. Talvez uma era esteja prestes a se acabar, talvez o teatro do Máschara possa se adaptar ao mundo novo. Talvez o Máschara seja o último refugio onde se ouse falar do homem em sua profundidade.
Sófocles e Eurípides falaram de Elecktra, o segundo influenciado por ideias sofistas tratou do tema com certa piedade, Eurípides trata Electra sempre como uma mulher histérica e egoísta, quase desequilibrada pela ideia do matricídio. Orestes também é um fraco, inspira piedade, precisa ser forçado pela irmã à vingar a morte do pai. Alessandra Souza e Renato Casagrande constroem bons pseudo-protagonistas. Ele com seu tempo de teatro e com sua capacidade de criar tipos, estrutura um ótimo irmão mais novo. Alessandra Souza está em sua melhor investida no palco. Nem sua Olivia ou qualquer outra personagem que já tenha feito tem a relíquia de trejeitos, ou filigranas de Ereda.
A sexualidade confusa das duas personagens, dignas de estudos, encontra eco na direção e no texto de Bender. Gabriel Giacomini completa essa relação ambígua com a composição que deu ao personagem do seminarista outrora envolto em névoas.
Fábio Novello, como deuteragonista faz tudo direitinho, embora Novello tenha muito a arrancar de seu Bertold. Cléber Lorenzoni é um furacão em cena, e o vi tão triste com os acontecimentos do dia , que me questionei do por quê se entregar tanto. Nunca conheci um ator tão passional em cena no Máschara. Um prazer à nós platéia.
O Camponês, noivo de Ereda, aqui interpretado por Douglas Maldaner, alcançou bons resultados e foi para mim o sucesso da noite. Houve ainda a substituição de Raquel Arigony pela madura interprete Dulce Jorge. Uma mudança. Uma construção nova. Para mim um acerto da direção que concebeu a personagem e um mérito da atriz que encarnou o papel. Uma velha crível, que assusta Ulrica e prediz o seu destino. Distante do divino, a velha de Dulce Jorge usa a hereditariedade como motivo do que se seguirá.
Cléber Lorenzoni e seu séquito de atores lutam, lutam pelo estilo, pela estética, pela ética teatral. Deveriam levar complexo a um festival de teatro, onde atores deviam assistir ao trabalho. Faz-se coisas tão incríveis nas catacumbas do teatro cruzaltense, pena o teatro ter valor tão pequeno.
Arte é vida
Douglas MAldaner (***)
Clara Devi (**)
Kauane Slva (**)
Gabriel Giacomini (**)
terça-feira, 13 de novembro de 2018
833 - O Incidente (tomo 82)
Uma pequena prova de que coisas boas não morrem...
Em questão de minutos, os sete mortos invadiram a praça Erico Verissimo, vieram da direção onde a estátua do escritor jaz. Não sei se alguém viu de onde saíram, estabeleceram-se. Do nada. E em um passe de mágicas o público entregou-se. O Incidente é uma daquelas obras que interessam, principalmente quando apresentadas em cruz alta. O texto escrito na década de setenta, fala da ditadura e faz uma crítica tão intensa à sociedade e à politica que chega a melindrar parte da platéia. Os sete mortos deixados insepultos, aqui são interpretados por Cléber Lorenzoni, Dulce Jorge. Renato Casagrande, Alessandra Souza, Ricardo Fenner, Douglas Maldaner e Stalin Ciotti, encontram-se no coreto de Antares. O espetáculo mudou, mudou elenco, foi reduzido, depois aumentado, agora assistimos como uma performance, ou um fragmento, mas sua força continua a mesma. Perde um pouco se levarmos em conta o olhar divertido da platéia que toma O Incidente como um show de Halloween. Cléber, no papel que lidera os mortos, diz o que quer e o público aplaude e assina embaixo. Isso me surpreende mas não tanto, é interessante perceber o quanto a platéia muitas vezes e dependendo de seu grau de ignorância, não capta o que está na entrelinha. Uma pena já que defendo que o teatro não deve ser mastigado como a tv. Se nossa capacidade interpretativa e nossa rapidez de raciocínio começam a decair, logo os espetáculos terão que ser cada vez mais medíocres.
Lorenzoni alcançou um ponto de compreensão do teatro em que o usa para falar o que quer, Acho no mínimo estimulante quando um ator chega nesse ponto, em que sabe que não está mais a serviço do teatro e sim o teatro está a seu serviço de artista.
Durante o espetáculo falou-se dos ônibus, das ruas, do pouco tempo dado à performance, do sol, e até mesmo da impertinente invasão no palco por parte do técnico de som da feira.
A trilha foi um tanto bagunçada, mal operada, não deu para compreender o que se queria, eu aconselharia a usar apenas a trilha tema do espetáculo. Teatro na rua tem várias formas de alcançar o público, as formas de se contar não respeitam as mesmas regras do palco italiano. O Máschara compreende isso, mas as vezes peca.
Dulce Jorge e Alessandra Souza estavam muito bem na cena. Os outros todos fizeram o que se esperava. Ficamos com fome, com vontade de ver mais... Incidente precisa e deve ser reapresentado muitas vezes. Um espetáculo que nos mostra o verdadeiro Erico, aquele Erico critico, que está em O Tempo e o Vento, mas passa meio escondido por causa da saga dos Terra Cambará, aliás na primeira parte de Antares, ele retorna com a mesma linha falando de Campolargo e Vacariano. Mas é ali, no segundo capitulo, ou segunda parte que Verissimo se entrega e nos faz engolirmos em seco...
Foi enfim uma ótima tarde de espetáculo, pena que não foi o espetáculo inteiro.
Arte é vida.
A Rainha
Alessandra Souza (***)
Renato Casagrande (**)
Dulce Jorge (***)
Ricardo Fenner (**)
Cléber Lorenzoni (***)
Stalin Ciotti (**)
Douglas Maldaner (**)
Gabriel Giacomini (*)
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