sábado, 11 de junho de 2016

Complexo de Elecktra - tomo 4

 A repetição leva a perfeição
                      


                           Essa premissa é completamente correta, e todos que somos do ramo sabemos disso, afinal, é por isso que repetimos, repetimos e tornamos a repetir nos ensaios. E após estrearmos um trabalho vamos continuar ainda melhorando, descobrindo, aprendendo; salvo os atores gelo, aqueles que não querem aprender mais nada, pois já estão satisfeitos após uma estreia, acham-se tão superiores e capazes que nem sequer tentam buscar, melhorar ou descobrir algo novo. O teatro é uma arte de auto descobertas. Queremos nos aprimorar, nos desafiar, revelar um mundo novo dentro de nós mesmos, até que começarmos a perder o interesse naquela personagem e então recomeçarmos com novo trabalho.
                        Na Sessão Maldita desta quinta-feira, alguns atores foram mais fundo em suas capacidades e na cobiçosa ânsia  da plateia em receber mais e mais do interprete.   O elenco com mais tempo de teatro, Cléber Lorenzoni, Renato Casagrande e Alessandra Souza(***), começam a mergulhar nas nuances, nas outras variantes de suas personagens. Douglas Maldaner(*), Evaldo Goulart e Raquel Prates, podem mergulhar por esse oceano de opções e há muito a se descobrir. Quando pensamos que encontramos o interior de um personagem, podemos e devemos esticar as fibras de tecido e partir para as descobertas de suas linhas mais finas. Essa construção é que interessa a nós atores, pois assim estamos revelando o mais complexo da vida humana.
                      A cena do casal antagonista está cada dia melhor, mas Renato Casagrande (**) tem arroubos juvenis que o prejudicam. E Alessandra Souza e Douglas Maldaner não campeões em atropelos e gaguejos.
                      Nessa ultima inserção de Complexo de Elecktra, ocorreram vários deslizes técnicos e por outro lado novos detalhes, novas improvisações. Lorenzoni (**) precisa tomar mais cuidado com sua energia em cena. Energia acentuada provoca um certo temor na plateia que pode afugentá-lo da narrativa.
                      O visual do elenco vem melhorando, embora Maldaner ainda possa com o auxílio da direção do espetáculo, descobrir traços novos. Prates (**) esteve meio ausente, e gostaria de ver mais sua expressão, sustos, talvez até o toque de suas mãos nos pés do público. Goulart (**) também esteve um pouco distante, e assim como Maldaner pode acentuar seu tom de voz em timbres graves.
                  Cléber Lorenzoni cantando e Alessandra Souza muito mais feroz na cena da cozinha, deram uma curva muito interessante. Veja bem, mãe e filha se embatem durante todo o espetáculo, mas sempre fraquejam, na cena ante final, as duas não tem mais nada a perder. A mãe sabe que está no fim de suas forças, a filha sabe que a mãe irá morrer. Então não há mais medo, apenas o ódio de ambas.
               Durante a cena do bife de Ereda, algo saiu errado e até mesmo um som eletrônico foi percebido. Que terá acontecido? Sonoplastia de Gabriel Giacomini? (**), ou alguém mais precisava de mais cuidado?  Felizmente a atriz conseguiu manter a chama da cena acesa, mas tanto Ereda quanto Ulrica, podem sofrer mais. “Sofrer”, não “gritar”!
            Foi definitivamente uma agradável noite de teatro. Que elas continuem e perpetuem-se. Teatro é vida!


Arte é vida!


A Rainha




terça-feira, 7 de junho de 2016

matéria do jornal Diário Serrano


Reportagem sobre Complexo de Elecktra


Alessandra Souza e Cléber Lorenzoni em cena no Complexo de Elecktra


Alunos da Esmate em técnica samurai


Complexo de Elecktra - (tomo 3) 733

De volta à tragédia

           Depois de mais de uma década, o Máschara volta a mergulhar no mundo trágico. Em 2000 havia interpretado Antígona de Sófocles e em 2003 Bodas de Sangue de Lorca. Claro, podemos incluir aí a tragédia Rodriguiana A serpente(2013) ou ainda a farsa trágica Dorotéia(1998) do mesmo autor. O fato é que o Máschara passeia por várias linguagens e estilos. A escolha de Complexo de Elecktra é bem acertada e casa com a equipe que veio trabalhando durante algumas semanas para por sobre o palco, o texto inspirado na Trilogia Perversa do escritor gaúcho Ivo Bender. Escritor esse que aliás já tinha sido visitado pela Cia. Em 1992 quando recorreram a seu conto Casinha Pequenina, para dar vida à montagem Um dia a casa Cai, sob direção da professora Giane Ries.
         Na ultima quinta feira, aconteceu o segundo tomo do espetáculo, dez pessoas da comunidade, passearam pela casa dos membros da família Átrida, aqui representados com nomes alemães, dando mais regionalismo e modernidade à obra.  O que se mantém é o mito e portanto as noções aristotélicas da tragédia. O público identifica-se com o problema apresentado na ação encenada, por empatia, este sofre a tensão, chegando ao desfecho. Quando o problema é resolvido, o público alcança a catarse que libera as emoções.
             A tragédia surgiu do embate entre a mítica e a racionalidade.  A noção de destino (moira) e necessidade (ananké) vão se perpassando e fazendo-nos questionarmos até os dias atuais. Ou seja, essa incerteza que se embate com o mundo racional gera o trágico.
           A plateia divide-se entre essas duas forças, o instinto sexual e o desejo de Ulrica, e ao mesmo tempo o senso de justiça e desejo de vingança de Ereda. Duas anankés que se chocam. Em meio a isso ainda a forte conexão entre essa herdeira que deseja o pai  mais que tudo, de forma não natural Ereda alimenta certas libidinosa atração que transfere para o irmão. Essa relação incestuosa culmina com a ligação de ambos sobre o cadáver da mãe.
           Ereda tem como atenuante em sua problemática psique maniqueísta, apenas o fato de que sua mãe decididamente é uma assassina calculista passional.
          O frio de 7 graus não impediu que as cenas subissem aos extremos. Principalmente nos embates entre Ulrica e Ereda. Lorenzoni e Souza contracenam bem, embora aguardamos o brilhantismo da atriz mais jovem. Quando a cena da despensa chega ao extremo, Ereda deveria ficar mais frágil, afinal ele quase mata a mãe sobre a mesa de corte, e se lhe é tão fácil assim ir contra Ulrica, por que diria logo depois que não consegue dar conta da mãe? Alesssandra precisa investir mais em seu virtuosismo vocal. A tragédia precisa de mais sussurro, texto entre dentes e menos gritos. Há também a questão da fúria e essa fúria precisa estar presente na cozinha. Ulrica avança, perde a postura esguia para ir se transformando, sua voz torna-se um tanto animalesca na cena, mas precisamos ver o embate final mais forte do que no sótão, e isso depende muito mais nessa cena da interprete de Ereda.
        A cena inicial do espetáculo sofreu uma triste castração, horas de trabalho foram jogadas fora com a extirpação do personagem Seminarista/amigo. Por outro lado a narrativa não chega a perder. O teatro é um força perigosa e em suas entranhas correm paradigmas perigosos que afetam o homem. Questões familiares, sexuais, politicas, sociais, morais, etc... Por isso mesmo o teatro é confrontado continuadamente. No fundo ele deve ser banido, esse é o ponto de vista de grande parte da sociedade. O teatro só é visto com bons olhos, quando está longe, quando conta vaudevilles engraçadinhos e despreocupastes. Quando pagamos o ingresso, rimos e vamos para casa nos fechar com nossas grades protetoras. Por isso mesmo o Máschara foi sendo calado e hoje restringe-se à uma sala onde cabem dez pessoas.
              Evaldo Goulart vem crescendo a cada apresentação. Claro, precisa amadurecer muito, mas eis aí a escola: Um grande espetáculo trágico. Douglas Maldaner precisa de concentração. Precisa buscar dentro de si o Werner que havia encontrado há alguns dias. Precisa ser mais forte, um animal reprodutor! Fica uma pergunta, qual é afinal o presente que ele quis dar a Ereda? Ninguém sabe, e isso prejudica muito o espetáculo.
            A plástica cena da banheira é linda, com elementos perfeitos, melhor ficará no dia em que o ator responsável pela cena, posso expor-se lindamente da forma mais correta. Teatro não tem meios termos...
             Raquel Prates e Renato Casagrande são dois coadjuvantes muito bem encaixados. As cenas de Renato Casagrande podem ainda ficar mais sinistras. Há muito mal dentro de Bertold, a diferença é que a maldade de Ulrica é assumidamente reconhecida, mas a de Bertold tem a ver com nossa capacidade de dissimular nossa própria maldade em meio a nossa covardia. Será que ele foi motivado pelo mal a sua volta ou será que esse mal estava lá dentro esperando para sair?
Raquel Prates é visceral em sua interpretação, precisa cuidar para não ficar robotizada, gessada. Pode investir ainda em sons animalescos, salivação, gritos, contorcimentos, etc... Sua cena é decididamente uma das mais gostosas do espetáculo.
            Ao final do espetáculo, a morte de Ulrica pode e deve ser mais marcada.
            Complexo de Electra é dos grandes espetáculos do Máschara, um momento divisor da Cia. Algo que começou a ser trabalhado ainda na oficina que o grupo fez no começo do ano e que rendeu bons frutos. Parabéns ao elenco e que sua força não se acabe.
           Na plateia desta quinta a presença honrosa da cantora Fabi Lamaison, e das bailarinas Julia Duda e Karen Costa...
         

Alessandra Souza (**)
Douglas Maldaner (**)
Renato Casagrande (***)
Evaldo Goulart (**)
Cléber Lorenzoni (***)
Raquel Prates (**)
Gabriel Araujo (**)


Arte é vida

O corpo do Pai - Complexo de Elecktra


Foto Alexandre Giacomini

Depoimento da bailarina Karen Costa



Depoimento de uma amiga do Máschara