Desde que surgiu em 1992, o Máschara sempre teve que se adaptar, adaptar às lutas, as mudanças... Em 1999, Lorenzoni passou a dirigir espetáculos, era ainda muito jovem, e não imaginava tudo o que viria pela frente. O Máschara desenvolveu em meio a muitas batalhas, a capacidade de estar em quaisquer palcos, com quaisquer públicos. Isso oferece a capacidade rápida de os artistas mais velhos adaptarem-se. Ao chegar em um espaço, eles rapidamente compreendem os déficits do local, em instantes soluciona-se muitas coisas. Já vi o grupo distribuir mais de 500 cadeiras em uma apresentação em Vicente Dutra. Já vi o grupo cobrir janelas com tecidos e muito papel pardo. Já vi o grupo improvisar figurinos em Caxias do Sul. Já vi o grupo ensaiar em uma praça, quando ficou sem espaço em 2000. Essa capacidade, faz com que o teatro desses artistas consiga estabelecer-se em qualquer situação. E isso deve ser buscado e aprendido pelo elenco mais novo, que pode esquecer que teatro é luta...
Quando os atores se veem e veem seu público, o espetáculo cresce, e toma conta de todos, envolve e interessa. Na manhã de sábado, Lili Inventa o Mundo subiu ao palco, do Centro Cultural de Soledade, e a absorção do clima do espetáculo, foi viva, plena. Lili é uma peça para crianças, no entanto o histrionismo de alguns integrantes (personagens) consegue prender a atenção de todos. Ao longo de quarenta e cinco minutos, versos e prosa e Quintana, são executados em forma de canções e o resultado não poderia ser outro, que não longos aplausos sem fim. As crianças brincam com cores e movimento, os adultos se envolvem e o espetáculo acontece. Com um cenário simples, figurinos multicoloridos, e detalhadamente planejados, toda a atenção vai para o lúdico proposto pela direção.
Entender um elemento cênico como código teatral, é vê-lo, ao mesmo tempo, de duas formas: como parte de um sistema com outros códigos e como, o próprio elemento. Esses momentos perpassam muito o trabalho do Máschara. Códigos humanos, elementos não concretos as vezes, mas muito vivos na psique humana. Lili Inventa o Mundo usa muito do conhecimento universal relacionado à literatura. Bruxas, feitiços, heróis... tudo vai se misturando em uma salada mista, que carrega códigos talvez não compreensivos a um primeiro olhar. Assim é por exemplo com a "santa", que na verdade é a maior de todas as fadas, mas que fica muito claro que estamos falando da "mãe de Jesus". O espetáculo tem uma simplicidade muito efetiva, vê-se isso na transformação de Mathias, e deve ser assim por que a poesia também é simples, tanto em pronuncia quanto em criação.
O elenco tem um trabalho corporal formidável, colunas que sobem e descem, usando níveis, trabalhando assim ritmo energia e força, condensados em narrativa física. O trabalho vocal criativo de Renato Casagrande salta aos olhos, e a técnica fonética de Lorenzoni, seguram momentos em que suas cordas vocais tendem a falhar.
Interessante lembrar aos artistas, que seu corpo, voz, expressão, energia, são seu equipamento de trabalho, por isso, Stanislavski já aconselhava atores e atrizes a cuidarem profundamente de seus corpos. Ele é o maior elemento cênico.
Guma esteve mais calma na ultima apresentação, mais inteira. Teixeira esteve muito bem como Rainha das Rainhas, mas pode trabalhar mais a expressividade facial. Devi deve continuar buscando o âmago de liderar um elenco. Serquevitio deve encontrar mais recurso de sua personagem.
Foi sem duvidas uma linda manhã de espetáculo.
Arte é Vida
A Rainha
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