terça-feira, 14 de abril de 2026

´1337- O Incidente (tomo 101)

                  Veríssimo e Quintana foram do interior, para a capital, fizeram suas carreiras na área da literatura, conheceram-se, tornaram-se amigos e prosperaram. Ambos trabalharam na editora globo, nasceram um em 1905, o outro em 1906. Vi várias vezes Érico caminhando pelas ruas do bairro Petrópolis com sua esposa Mafalda. Mario, eu vi andando pela praça da Alfândega, com seu jornal abaixo do braço. Desde 2006, para o Máschara, ambos sempre andaram muito próximos, muitas vezes em um mesmo dia, o grupo levou ambos para o palco. Dois escritores gaúchos, com seus trabalhos valorizados e sua literatura respeitada sobre o sagrado tablado. Em Soledade, Mario foi honrado à tarde, Érico à noite. Os sete mortos subiram ao Palco do Centro Cultural, vindos por um corredor escuro, com uma plateia curiosa e interessada. A Shirley Terezinha de Clara Devi já havia aberto a cena, com um bife bem pronunciado, mas fora do microfone. Aliás, quase todo o elenco teve problemas com os microfones, e ao mesmo tempo tem dificuldades em manter a estrutura da voz, com estrutura suficiente para alcançar o fundo do auditório. A ideia não é gritar até a voz chegar na última parede do prédio, mas imaginar que a voz é uma pedra, que deve cair lá no centro da plateia como se caísse em um lago e ir esparramando-se em pequenas ondas. Atores e atrizes não se acostumam com a possibilidade de aquecer a voz antes de entrar em cena. Porque?

         O teatro, difere-se das outras artes por que é mutável. A bailarina tenta a cada noite acertar seu solo, sua coreografia... A cantora tenta alcançar a nota mais aguda, o pintor tenta aperfeiçoar o traço, já o intérprete, deve trocar, comunicar, sentir o espaço, sobretudo, viver o momento. Ora, apresentar Verissimo para um público de adolescentes em uma escola na capital é muito diferente de apresentar o mesmo Verissimo em uma escola agrícola no interior, e diferente de apresentar no teatro São Pedro para público de teatro, é apresentar para  professores do interior que não tem costume de ir ao teatro. E essa é a peça fundamental para compreender o que é o teatro, qual sua função na sociedade.

                 Dunga, Antônio Carlos Brunet, um grande crítico teatral, dizia que se o ator ficar omisso a um holofote que cai durante uma apresentação, se ele não se manifestar, fingir que não viu ou não envolver o holofote em sua cena, o público pode ir embora, não são atores preparados. É preciso sentir o público indo embora, sentir quando as pessoas perdem o interesse na cena, perceber um balão que estoura, perceber uma luz que muda. É essa falta de percepção que faz tantos atores e atrizes permanecerem no escuro em cena. Eles simplesmente não sentem a luz, o brilho, o calor do holofote. Digo holofote por que em meu tempo de jovem, dizia-se holofotes. Hoje em dia há uma infinidade de novas possibilidades, ainda assim atores são mal iluminados.

               Exemplo disso, foi a cena de Erotides que deveria ter ficado toda iluminada de verde, no entanto a geral acessa manteve-se aberta. O incidente de Antares está acontecendo no palco de um teatro de Soledade, ou em Antares? O ator que pensa que está em Antares, está seguindo Stanislavski de forma equivocada. Esse é o grande metateatro do existir cenicamente. Os atores abrem uma comporta, um portal, que conecta o aqui e agora com o momento narrado na história e esse ato cria a força de um hiato na existência. 

                 Lorenzoni tem uma perspicácia em trazer um mundo de signos para a cena. Isso lhe dá uma camada a mais de atuação. No entanto, o percebi cansado, distante. Casagrande fez uma cena linda, que poderia ter mais silêncios; a trilha sonora ficou toda abaixo do volume necessário para auxiliar na catarse; o sutil novo visual de Pudim, foi muito expressivo. A pausa de Maldaner após sua fala, poderia ter sido mais longa, mas Guma perdeu o tom da piada. 

                     Em 1923, Ricciotto Canudo propôs o Manifesto das sete artes, a partir da hierarquica visão de Hegel; para o teórico as sete artes são: arquitetura, escultura, pintura, música, poesia, dança e cinema. Anos mais tarde ao ser questionado quanto a ausência do teatro  na lista, ele respondeu: O teatro não é uma das sete artes, não pode ser visto como uma delas, pois ele carrega em si, a cada espetáculo, estudo, ou ação, códigos universais de todas elas. Há em um simples espetáculo: o estudo da escultura no físico dos atores; há a pintura, no banho de luzes e no figurino dos atores; o texto do dramaturgo é recheado de poesia; parte da musicalidade o próprio texto em consonância com as canções empregadas; as linhas geométricas da arquitetura passeiam por cenários; e é uma dança que movimenta atores de um lado ao outro pelo palco. O cinema, é interpretação com suas regras de Stanislavski; ou seja, o teatro é a mãe de todas as artes, ele tira a arte de seu lugar muitas vezes inerte e a trás até o peito, à mente, à alma do expectador. O teatro é como José do Egito, cercado por seus irmãos, transmutados em feixes de trigo, em seu sonho.

                     Para encerrar, quero elogiar a postura, a entrega e a força dos atores de O Incidente, carregando um espetáculo há mais de vinte anos em cartaz. Vida longa ao texto de Verissimo! Vida longa ao Máschara!


O Incidente (2005) - Texto e Direção Kléber Lorenzoni

Dr. Cícero Branco(-)

Dona Quitéria Campolargo (**)

Professor Menandro Olinda (-)

Barcelona (**)

Erotildes da Conceição (*)

João Paz (**)

Pudim de Cachaça (**)

Shirley Terezinha (**)


Equipe técnica 

Kleberson Ben (*)

Ana Clara Kraemer (**)

Roberta Teixeira (**)

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