Lili Inventa o Mundo, completou esse ano, 20 anos de trajetória. Mais de um cento de apresentações, uma escola de teatro para atores e atrizes. Em Lili, o público entra em contato com o clichê do teatro infantil, "palhaços", bruxas, feitiços e ouras peripécias que faziam muito sentido no universo fantasioso de Quintana do século passado. Talvez seja exatamente essa energia que prende o espectador, como se fosse uma festa dos anos oitenta, ou um revival. Na primeira inserção do dia, os atores pareceram fazer um esforço, quase sobre humano para que suas vozes alcançassem todos na sala de espetáculos. As vozes de Cléber Lorenzoni e Renato Casagrande sobressaíram-se, com potência e desenho, no entanto o restante do elenco precisa trabalhar as técnicas, aquecer as cordas vocais antes do Mise em scène. Existe uma voz própria que é de palco, é preciso encontrar em si essa voz. Sai-se do teatro bastante satisfeito com o visual colorido de Lili Inventa o Mundo, figurinos com uma coerência na união entre tantas texturas, a iluminação de Junior Lemes, o cenário, tudo casando perfeitamente. Claro que havia no iluminação um problema de mapeamento de palco, com praticamente duas áreas a serem iluminadas. Os atores sofreram com isso. Alguns atores e atrizes não percebem a luz, mas ouvem a trilha sonora, mas aqueles que são mais sensíveis a estética ao seu redor, acabaram por ficar divididos, procurando o melhor foco. O ponto alto, no entanto, foi o jogo cênico, com canções que embalaram a narrativa de forma inteligente e viva. A primeira apresentação do dia, nos pareceu um ensaio geral bem feito. Ouviu-se de boca pequena, que a equipe estava receosa, com pouco ensaio, com medo de não dar conta. Deram! A segunda apresentação foi também virtuosa, nessa a atriz Roberta Teixeira conseguiu aparecer na cena, seu olhar e a tentativa de uma expressa malícia, contrastaram com seus primeiros momentos no palco, quando é uma contadora/boneca. Faltou desenho em Serquevitio e talvez, se essa fora a escolha da direção, falsete. A cena de transformação nos ganha, pela ludicidade e simplicidade com que Casagrande conduz a personagem Mathias. Sinto falta de mais versos e rimas do próprio Quintana. Cada ator e atriz poderia decorar as rimas de Pé de Pilão e usar em improvisos: "Fazia tanto barulho, que o pato ficou engulho. Pisou no bico do pato: - Eu também quero retrato! - No retrato saio eu só, para mandar a minha vó! A discussão não parava e cada qual mais gritava.
Lorenzoni usa muito o público a seu favor, Devi pode ouvir mais, ouvir é a palavra do dia. Quando você respira e ouve os colegas, o jogo teatral e estabelece. A encenação com microfones deve ter sido extenuante aos atores, ruídos, fugas de ar, ruídos abruptos, tudo colaborava negativamente. Somente na terceira apresentação do dia, nos foi possível embarcar na aventura, e ainda que tenha sido um pouco longa, nem a saída do público em função de ônibus, diminuiu a funcionalidade cênica do espetáculo. Ouvi alguém dizer que Lili pode estar chegando ao fim, uma pena. É um desses espetáculos que sempre toca, sempre chega, sempre tem algo a dizer.
Eu quero ser para sempre criança. Para sempre criança... Engraçado, que essa frase se conecta com a cena da avó de Jesus em A paixão de Cristo. Acredito que o dramaturgo esteja tentando dizer algo para o público. Será que a vida adulta o abala? Será que o menino não quer crescer? Sabe-se que o velho solitário que andava pelas ruas de Porto Alegre com um jornal embaixo do braço, nunc apode ser realmente uma criança...
A arte do Máschara cumpre sua função, como um teatro que usa da variedade para engrandecer seus artistas, que cria desafios para alcançar o aprimoramento do trabalho. O elenco que participou das três apresentações de Lili, certamente não será mais o mesmo. Na ultima apresentação do dia, Clara esteve no ritmo necessário. Não sei se foi de proposito interromper Lorenzoni quando ele e Malaquias estavam se preparando para dormir, mas a cena funcionou muito bem. Guma pode se abaixar mais para a esquerda quando adormece e Teixeira ficou atrás de Devi na "dança velha". Clara precisa se ater às curvas do espetáculo.
Parabéns por esse retorno, acredito que Lili não subia aos palcos desde 2024, foi um presente à Soledade e um presente necessário à poesia!
Lili Inventa o Mundo
Texto : Livre adaptação de Cléber Lorenzoni e Dulce Jorge, a partir da obre de Quintana.
Cidade: Soledade
Elenco: Clara Devi, Cléber Lorenzoni, Renato Casagrande, Carol Guma, Antonia Serquevitio e Roberta Teixeira
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