segunda-feira, 20 de agosto de 2018

816 - Lendas da Mui Leal Cidade (Tomo 1)

Lendas da MINHA mui Leal Cidade....


                                               Depois de preparar-me uma semana inteira para uma esperada estréia da ESMATE (assisti Bruxamentos e Encantarias, e aguardava ansiosa por outro sucesso), foi com tristeza que vi a intempérie produzir seus efeitos típicos do inverno e atrapalhar, mas jamais tirar o brilho de uma sagrada noite de teatro. Ao lado de duas amigas pus-me em marcha em direção a antiga capoeira, hoje a imperial Justino Martins. Cléber Lorenzoni estava no foyer do teatro, recebendo a platéia de forma muito gentil e carinhosa. Fiquei receosa, em 2017 senti sua falta no palco, mais uma vez não estaria ele sobre o palco? Ele é um homem de teatro, lá é seu lugar.
                                       Após uma espera tolerável, enquanto via amigos do teatro, a porta finalmente descerrou-se dando espaço a uma cena aberta com várias imagens interessantes e muito imaginativas.                  
                                              O clima estava estabelecido, figurino cuidadoso, talvez as crianças com o vovô não devessem estar congelados, aquele quadro poderia ser uma lembrança do passado. Fiquei muito surpresa com o tempo que todos suportaram. Aos poucos a imagem foi se desfazendo e mergulhamos em uma trama muito bem costurada. 
                                             No palco crianças e jovens, o que as vezes me preocupa, principalmente por dois erros básicos que costumam acontecer, típicos do teatro infantil mas que se presta mencionar aqui até pelo número de crianças no palco e na platéia. Ambos os erros costumam se originar no desconhecimento da natureza do teatro como arte independente e legítima, bem como de suas características essenciais. Abandonando o caminho do teatro, os que erram  descambam para dois campos opostos: o da suposta pedagogia e o da exacerbação emocional gratuita, ambas esquecidas de que o teatro é uma experiência artística, estética, uma experiência independente, autônoma, ligada ao que é definível especificamente como uma ação dramática. Que o teatro educa não há dúvida - ou melhor dizendo, pode educar - , mas educa por seus próprios meios, pelo aprimoramento de conceitos estéticos, pela ampliação da experiencia de conhecimento humano, e nunca pela lição de moral impingida, soletrada e empurrada goela abaixo a qualquer preço.
                                         Não vi no entanto em Lendas... nenhum desses erros que me incomodam e perturbam, vi ao contrário um apelo louvável ao apreço pela cidade de Cruz Alta e e pela historia do povo gaúcho, o espetáculo não se aprofunda em temas específicos regionalistas, mas com bom humor trata da honra, das bravuras, e por que não dizer das idiossincrasias do povo do sul. 
                                          A trama localiza-se na Cruz Alta do século dezoito, escravos, índios, e até uma governanta passeiam pelas terras demarcadas pelo padre Antonio Sépe. Representado aliás de alguma forma no espetáculo pelo ator Ricardo Fenner. Pouco se guarda dessa época em livros de historia, mas a direção do espetáculo assinada por Casagrande e Lorenzoni vai nos dando um panorama transitável com facilidade. Do estabelecimento de Serafina, até o casarão de Dona Isaura ou a fazenda conceição. Tudo estava ali, e agora quando as professoras ou crianças contarem as lendas de Cruz Alta, ficará mais fácil imaginar a dor da chinoca que tem seu filho jogado nas águas da lagoa do cemitério. Sim,  pasmemo-nos, havia uma lago no meio de Cruz Alta. 
                                            Diverti-me muito com os três momentos cômicos do espetáculo, muito bem colocados pela carpintaria dramatúrgica exatamente onde deveriam estar. As lavadeiras faceiras, os tropeiros patolas, e as carolas viperinas. A Serafina de Alessandra Souza repleta de energia conduz o primeiro grupo e a discussão ferina e mordaz nos dá o tempo exato das jovens casadoiras do passado. Martha Medeiro e Elen Faccin são os dois grandes destaques com desenvoltura e ritmo. Aliás ambas tem se destacado muito na ESMATE de 2018. A figura de Helena é linda na cena como a lavadeira encrenqueira. E Catharina arrancou gargalhadas da platéia com suas gags. Eduarda embora mais silenciosa, esteve muito concentrada e peitou Serafina com muita força. No ramo dos alunos aprecio muito a figura de Laura Hoover,  Em uma mesma semana a atriz nos presente-ou com duas personagens muito distintas em suas composições. A jovem interprete é muito talentosa e instintiva. Nas duas vezes em que saiu carregada, senti eu e minhas amigas, vontade de protegê-la da ruindade do pai carrasco. Em mundo de homens, onde pouco ou nada a mulher era  possibilitada de reagir, Lívia domina a cena com sua força.  O que falta à todas as meninas, com exceção das duas atrizes do Máschara na cena, é a capacidade de triangular, esperando o tempo da platéia para reagir as piadas, mas isso certamente virá com tempo e prática. 
                                               O elenco masculino tem bons acertos. Stalin Ciotti tenta nos dar um mocinho, que soaria melhor caso o ator parecesse mais bruto, mais rustico como um tropeiro. Douglas Maldaner também passa longe da figura do homem macho do século dezenove. Mais brutalidade, mais agressividade, dariam aos homens um contraponto. Mulheres do século dezenove entregavam-se a homens suados, fedendo a esterco, com mãos ásperas e barbas espetantes. Cléber Lorenzoni tentou compensar essa ausência percebida pelo diretor nos dando um coronel jovial e rufião, o que foi bem pontuado pela Carolina sisuda de Clara Devi. Essa jovem já havia preenchido o palco de forma positiva em Bruxamentos, e aqui torna a fazer um bom trabalho que poucas atrizes com seu tempo de teatro seriam capazes. Os rapazes ainda precisam se esforçar na cena das costureiras, seus rostos es~toa cobertos por véus, e se sua dicção não melhorar, mal compreenderemos a cena.
                                           Aliás preciso a pedidos, elogiar Clara Devi e Kau Silva por seu trabalho na rotunda, por sua percepção de grupo e por sua dedicação com o todo. O Máschara precisa de nais pessoas assim. 
                                       A plástica do espetáculo é soberba, a palheta de cores, gelatinas/costumes, maquiagens foram muito bem escolhidas, implico apenas com o vestido de LArissa e com a roupa das índias. É preciso sujar mais, mais e mais, é preciso parecer sujo, velho, puído, descascado e antigo.                                  
                                            Nikolas Miranda, Laura Heger e Felipe Padilha cumprem decididamente suas funções. NiKolas ainda tem quatro apresentações para construir muito e fazer descobertas, essa é a função do teatro. Pesquisar-se e dar ao público cada vez mais o seu melhor. LAura tem uma presença muito bonita, pode falar mais alto como os outros mencionados. mas é muito agradável ver sua entrega, dedicação, concentração. 
                                          A interprete de Cecília é bastante jovem, deve amadurecer mais no palco, no entanto a forma desinibida e a inflexão correta dos verbos é digna de aplauso. Pode nas próximas apresentações interpretar coim mais calma e dor a despedida de Joca. As crianças, levando-se em conta suas idade, se saíram muito bem, mérito de como são acolhidas, tratadas e ouvidas na ESMATE. Yasmim e Alana contracenam com Elen de igual para igual. A cena ao lado o vovô de Renato Casagrande foi divertidíssima e todos os mais velhos da platéia devem ter se sentindo um pouco no corpo do vovô, conversar com crianças na era da internet não é tarefa fácil. Ainda no elenco mirim, a pequena Jacy foi de uma doçura inesquecível, uma fidalga do antigo pouso da Cruz Alta. Contracenando com Cléber Lorenzoni com muita serenidade e calma como se fosse atriz há muito tempo. 
                                               Dulce Jorge e Ricardo Fenner, baluartes do Máschara deram vida a dona Isaura, e ao cura Antônio Sepe, muito bem caracterizados e em cenas pontuais, ambos foram essenciais para grandes cenas de emoção. Ricardo apenas precisa se controlar mais na cena de Lívia. A cena precisa de muita introspecção para funcionar com maestria. A cena da tortura da o tom exato de uma época tão sem leis em um povoado no meio do nada. Gabriel Giacomini pode erguer mais o tom e Felipe Padilha esteve ótimo como a boa alminha que vem salvar o padre. 
                                             Dulce Jorge acerta o tom da mulher de cabeça baixa, treinada desde a tenra idade para ser submissa. Pode ainda ao lado do colega de cena subir mais a tensão para que fiquemos com ainda mais pena dessa mãe, cujo mundo desmorona aos pés. 
                                                Kau Silva saiu da freira de Olhai os Lírios do Campo e sonorizou além de dar vida à misteriosa Anahí.  A sensibilidade de sua operação de som, a capacidade de observação de percepção indica uma pessoa cheia de vigor para a vida da "gente de teatro". 
                                                 A curva dramática pode ser mais inclinada e talvez o retorno de Jacy possa ser melhor trabalhado. O texto final tão lido extraído de Eclesiástes, precisa e deve ser bem assimilado pelos atores. 
                                                 O apelo regionalista, bairrista no epílogo me fez pensar em Erico, e ví uma das companheiras de teatro chorando na poltrona ao lado. Lorenzoni mais uma  vez emocionou e teatro precisa, já que concorre com tanta coisa, filmes, internet, novelas, cinema, acertar sempre, prender. Fui presa, arrebatada. 
                                                 Não era a historia de Cruz Alta, mas era a historia popular herança da ancestralidade de nossa cidade. Era um quase um conto de fadas, com princesas, mocinhos, feras perigosas, bem aos moldes das novelas de cavalaria. A Lagoa do cemitério tomou forma nas mãos das atrizes e Anahý tomou forma sagrada enquanto acordava todos os seres da floresta. Atrás das cortinas ouviam-se ruídos provenientes de faunos e musas da floresta.
                                                   Foi sem dúvida noite de sucesso, mais um espetáculo para ficar na memória dos Cruzaltenses e para termos orgulho do máschara. Obrigado a essas crianças que deram a essa velha, orgulho e a certeza de que ainda haverá teatro em Cruz Alta e de Cruz Alta por muito tempo.
                          

                                   Inesquecível- O trabalho de percução de toda a equipe que era enviado para a platéia. 
                                       Esquecível- O fato de um grupo tão grande, não ter a quem confiar a iluminação do espetáculo a ponto do diretor somar além das funções de maquiador, costureiro, cabeleireiro, porteiro, bilheteiro, relações públicas, ator, a função de iluminador. 


                                                   A Rainha 
      

                          Teatro é arte, arte é vida.

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Espetáculo: Lendas da Mui Leal Cidade
Direção Cléber Lorenzoni e Renato Casagrande
Adaptação: Cléber Lorenzoni e Renato Casagrande
Divulgação: Cléber Lorenzoni, Ricardo Fenner, e Renato Casagrande
Produção: Cléber Lorenzoni e Ricardo Fenner
MAterial de Divulgação: Renato Casagrande
Assessoria: Alessandra Souza
Iluminação - CLéber Lorenzoni
Trilha Sonora; Renato Casagrande
Operação de Som- Kauane Silva
Elenco:  
               Vovô Menelau- Renato Casagrande  (***) - ainda pode melhorar a cena do estancieiro
               Lívia-Laura Hoover   (***)  -  Esteve ótima, mas pode estar melhor nas próximas pois descobriu muitas coisas durante a apresentação.
               Cecília- Lavínia Antonely
               Jacý- Maria Eduarda Jobim
               Anahy- Kauane Silva   (***) Brilhante 
               João Eulaio- Stalin Ciotti   (*)  Ouvir a direção e não tentar se auto dirigir.
               Joca Ramiris - Douglas Maldaner (**) bem na cena, mas pode lembrar de trabalhar em equipe e não cuidar apenas do próprio umbigo, use como exemplo Kauane Silva e Clara Devi
               João Rodrigues - Cléber Lorenzoni
               Serafina  - Alessandra Souza
                Padre Antonio Sepe - Ricardo Fenner
                Amélia - Martha Medeiro
                Anita - Elen Faccin - 
                Catarina - Maria Antonia Silveira Neto
                Helena - Laura Coracini
               Isabel- Maria Eduarda Tolentino
                Carolina  - Clara Devi
                Delegado Zé Eleotério - Gabriel Giacomini (***) salvando cenas e criando ótimos improvisos
                Francisca - Larissa Oryane Soares
                Sexta Feira - Laura Heger
              Índias - Laura Heger, Larissa Oryane Soares, Maria Antonia Silveira Netto, Alessandr Souza
                 Estancieiro - Renato Casagrande 
                 Fátima - Yasmim S. Ribeiro
                 Abgayl - Alana Ramos
                 Expectro e menino - Felipe PAdilha
                 Atriz Convidada - Dulce Jorge
                
  

Nominata de análise das apresentações 813/814/815

Renato Casagrande (**)(***)(**)
Laura Hoover (***)(*)(**)
Douglas Maldaner (    ) (**)(**)
Evaldo Goulart (    ) (**)(***)
Kauane Silva (**)(**)(***)
Gabriel Giacomini (  )(**)(**)
Stalin Ciotti (**)(*)(**)

              * Os membros anciãos (mais de dez anos no máschara)  não terão mais aqui sua classificação de céu e inferno.


                                   

                                                
                                              
                                            
                                                   
                                                 
       

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