sexta-feira, 16 de junho de 2017

Crítica da esquete Eu quero ser criança - Tomo 1 (771)

Uma singela Estréia 

             Assisto todos os espetáculos possíveis, se me falam que haverá teatro, vou... Amo o ator, amo o palco, amo as confusões criativas, as dúvidas, as incertezas. Amo os atores começando e respeito profundamente os atores maduros com suas historias de superação e sucesso. 
           Quando vejo jovens atores iniciando uma carreira, fico orgulhosa e penso na jornada positiva do Grupo Máschara. um trabalho dedicado em preparar o amanhã. Na ásia muitos agricultores cultivam o Damasco, fruta típica daquela região. Sua árvore leva setenta e cinco anos em média para dar o primeiro fruto. Ainda assim o agricultor planta para que seu filho ou seu neto possam colher a fruta. Assim funciona o Grupo Máschara em Cruz Alta, semeando para colher atores e muito teatro no futuro.
        Durante três dias, professores, membros da comunidade e funcionários da secretaria de desenvolvimento social, debateram a situação da criança e do adolescente na nossa sociedade. Exploração infantil, abuso infantil, prostituição infantil foram alguns assuntos levados a apreciação. Para encerrar a programação os alunos da ESMATE - espaço Máschara de teatro, apresentaram a esquete Eu quero ser criança. O Tema era audacioso e interpretado por atores e jovens aspirantes ao palco. Para a platéia não haviam alunos, para a platéia haviam atores. E incrivelmente eu os vi, ainda que alguns fossem extremamente jovens ou tivessem assistido pouco mais de oito aulas de teatro. 
              "As boas ações caem bem no jardim de infância, o palco é o lugar da gangrena". Essa frase de Nelson Rodrigues me parece muito de acordo ao que vi, devemos sempre levar ao palco assuntos que levantem a critica, que espelhem nossas angustias, anseios, etc...
            A esquete chocou e fez pensar. Mergulhei na historia das crianças que acabam roubando motivadas por famílias desestruturadas. A mulher que apanha do companheiro ou a travesti agredida verbalmente apenas por incomodar com sua presença são temas constantes e devem ser debatidos. 
             "É preciso haver regras para a coletividade". A canção de Hércules Grecco, musicada por Leonardo Diaz caiu como uma luva e sublinhou a proposta. 
                 O elenco feminino marcou muito por suas construções, Raquel Arigony e Alessandra Souza como as genitoras das duas protagonistas conseguiram passar exatamente o que a direção esperava. Raquel foi intensa no jogo com Renato Casagrande e deixou a personagem extremamente redonda. Laura Hoover e Kau Silva deram vida a meninas introspectivas, cada uma com uma historia bem diferente da outra. Laura é muito detalhista o que lhe acrescenta profundidade na criação. Kau é observadora e instintiva o que lhe acrescenta muito. Ambas devem sim trabalhar muito a dicção, e o tom vocal de Kau precisa ser trabalhado, no entanto ambas comoveram o público, iniciando com pé direito o trabalho cênico. 
                 Marcelo e Felipe abriram a boca e alcançaram uma boa proporção vocal, falta apenas mais concentração e jogo. O mesmo jogo que Gabriel Giacomini vem alcançando mais e mais com seus colegas do Máschara. Gabriel como protagonista foi muito bem, só precisa ter mais calma, respirar mais em cena. As vezes acelera o texto e embola um pouco as palavras, deve ir com calma pois tem um timbre lindo para palco. 
                  Douglas Maldaner alcança exito com sua presença e composição mas sempre se prejudica com sua dicção, o problema da gagueira nervosa que o ataca em cena precisa ser trabalhado e ataco, correndo o risco de se não resolvido, tornar-se um hábito. Nicholas Miranda foi corajoso e improvisou bem quando resvalou, precisa trabalhar mais a energia, ter mais "mordida" em cena. Renato Casagrande por sua vez, assim como Raquel Arigony começou por outro trabalho, mas como camaleão que é, arranca aplausos em qualquer papel. Por um único momento esperei que ambos, Raquel e Renato solucionassem o conflito físico de Marcelo que acabou emparedado de costas para o público. 
                  Quanto ao trabalho de composição, direção e instrução de Cléber Lorenzoni, foi bastante pontual, a direção aparece muito nas cenas, ainda que a esquete tenha sido apresentada em um espaço nada estruturado. Mas a marca, a ideia, a linha de trabalho, a curva. Tudo ali emanava Cléber Lorenzoni, achei ousado envolver o menino menor tão pequeno na cena, mas enfim, se alguns temas fossem falados abertamente junto as crianças na tenra idade, talvez o mundo não tivesse chegado onde chegou.
             Foi sem duvida, uma encenação marcante que ainda pode crescer muito se todos os envolvidos se dedicarem e escolherem levar esse trabalho adiante, o tema é atual e precisa ser debatido. Eu voltei agradecida para casa e na certeza de que a nova geração de atores cruzaltenses está sendo bem preparada...




                                    A Arte não pode morrer.    






                                                                      A Rainha



Alessandra Souza (**)
Cléber Lorenzoni (**)
Douglas Maldaner (*)
Gabriel Giacomini (**)
Kau Silva (***)
Marcelo Padilha (**)
Felipe Padilha (**)
Laura Hoover (***)
Raquel Arigony (***)
Renato Casagrande (***)
Nicholas Miranda (**)

               
      
              
             

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