terça-feira, 19 de novembro de 2024

1206 - Complexo de Electra - tomo XXII

O MOTE BALIZADOR

                                      Até onde um grupo de teatro pode ir? Até onde uma narrativa pode ousar? De quais temas pode fazer uso para tocar o público? Um jovem ambicioso e sem noção, pode dizer:- Qualquer assunto, tema, ou ousadia... -Estará errado e ainda colocará em risco sua carreira, pois poderá chocar ou subestimar seu público. O balizador de tal conexão arte x público, é exatamente sua auto percepção cultural e a compreensão do habitat cultural ao seu redor. Ou seja, é preciso perceber a capacidade de absorção do público, compreender sua própria capacidade e entender para onde se quer levar o público. Ora, se eu passar uma vida inteira dando teatro de comédia para o público, como chegarei um determinado dia e lhes obrigarei a assistirem drama?

                                              Ou, chegar a uma cidade onde nunca se viu teatro e oferecer um espetáculo como Complexo de Electra. A maioria dos artistas sempre se coloca em um lugar onde julga que sua arte é muito importante, que deve ser vista e que as plateias tem obrigação de aceitar. Não é verdade. Quando pensamos em toda a historia do teatro, suas linhas de pensamento, precisamos compreender que houve um teatro para cada época, para cada ciclo, houve uma linguagem que prevaleceu em cada época, e houve uma capacidade de compreensão diferente em cada época e em cada lugar do mundo.

                                                 O   que mais admiro no Máschara, é a curva organizada que seu diretor, ou seus diretores planejaram. Primeiramente comédias (Um dia a Casa Cai, Dor de Dente, Bruxinha e Júpiter) logo depois uma tragicomédia (Cordélia Brasil), então um grande teatrão infantil-(Bulunga), Para então ir para Nelson (Dorotéia) Aí tivemos um clown [palhaço (Conto da Carrocinha)], para só então chegarmos aos clássicos: (Antígona, Tartufo e Macbeth) - Ou seja, primeiro preparou-se o público, para o que viria a seguir. Isso quer dizer, balizar, entender, estabelecer. É preciso saber se o público terá capacidade de fazer a leitura semiótica de um tipo de teatro, e é preciso não superestimar também o público. Se nem mesmo alguéns atores conseguem compreender as linguagens empregadas por diretores, por que o público conseguiria tão facilmente tal façanha? 

                                                                       Por isso senhor artista, leia, leia muito, jovem ator, busque, pergunte, indague, sacrifique-se um pouco... A arte não é somente algo bonito, não é apenas o ato de satisfazer a ambição própria de receber aplausos, ela é um dever junto ao tecido social, e precisa ser baseada também nos princípios filosóficos de um povo. É preciso codificar as linguagens, compreender e saber, por que determinada obra será levada à assistência. "Gosto muito de Maria Stuart de Schiller"!- Problema seu, por que esse texto sobre duas mulheres, duas rainhas, que brigam pelo poder, seria importante para o público de Cruz Alta? Eu vejo vários motivos, me digam os seus!

                                         O Complexo de Electra enquanto exercício ( é isso que seu diretor sempre fala), pode encontrar virtuosismo junto aos públicos, Cléber Lorenzoni, Renato Casagrande e Fábio Novello estão muito bem em cena. Muito embora o mergulho nas profundezas do ser humano ainda pode ser maior. Clara Devi parece ter iniciado uma caminhada nesse universo psicológico, Douglas Maldaner precisa por para fora um grito interior que para esse tipo de teatro é extremamente necessário. Leonardo Teixeira e Romeu Waier fazem pequenas participações funcionais, e no caso desse último plasticamente linda. 

                                        Um dos grandes méritos do trabalho, é que apesar da mudança de elenco, a construção e o braço firme da direção continuam na direção certa. Uma pena claro não ser um mergulho da Cia. inteira. Ainda há muitos atores que quando não fazem parte de um elenco pensam: -No que isso diz respeito a mim?  Palmas para a cena da curra, palmas para o embate entre mãe e filha, palmas para o bife de Úlrica e palmas para a desconstrução que Casagrande vai propondo em Henrique. O Ritmo esteve um pouco letárgico, mas obviamente a jovem protagonista tenha muitas preocupações em cena, no futuro não pode esquecer que ritmo e curva dependem muito dos protagonistas. 

                                           Um acerto a plateia em pé na segunda sala, gente bem acomodada não mergulha tanto. Quanto ao aplique nos cabelos de Clara Devi, cabe uma pergunta, por que Lorenzoni não usa peruca? Certamente por que o ator sabe a diferença entre teatro adulto e teatro infantil.  

                                           Parabéns ao esforço de cada um, e o que cada um colheu. 


Arte é Vida



                                    A Rainha


equipe de prometheus


 

Henrique e Ereda - Complexo de Elecktra


 

Grupo Máschara recebendo Grupos Toob Loook e Vemeve


 

domingo, 17 de novembro de 2024

1205- Complexo de Elecktra (tomo XXI)

                             Na década de 60, do século passado, eu ainda era adolescente, surgiram alguns pequenos grupos de teatro em Cruz Alta, motivados certamente pelas grandes Cias. teatrais que visitavam o Teatro Carlos Gomes, localizado em frente a praça General Firmino. Artistas famosos desembarcavam dos trens que chegavam à Gare, que era ponto de encontro de uma sociedade que fervilhava e que hoje infelizmente está abandonada. Bibi Ferreira, Procópio Ferreira, Cia Eva Todor, Cia. Nicete Bruno e outras tantas trupes, passavam as vezes um fim de semana, as vezes dois, com casa lotadas. Isso explicaria porque nos anos seguintes, o jornalista Paulo Pinto e o senhor Amparo Bálsamo, criaram uma Cia de artistas cruzaltense que levou ao palco dentre outros: Édipo de Sófocles. Alguns anos depois, um jovem Luíz heitor Ribas, inovava com um grupo de jovens que tentava dar vida a um teatro que banhava-se em uma linguagem e visão, muito parecidas com a do pesquisador Augusto Boal. 
                                        Foi somente em 1992 que surgiu uma turma de jovens, disposto a criar realmente um grupo, que se propusesse a pesquisar e ser bastante atuante na comunidade. Como qualquer grupo de jovens que surge, ficamos felizes, mas receosos de que fosse algo passageiro, afinal jovens tendem a mudar muito rapidamente de paixões. E de certa forma isso é comprovado visto o número de passantes que fica não mais do que um ano ou dois no Máschara e em qualquer outro grupo que conheço.
                                         Despontou logo de inicio a maravilhosa Dulce Jorge, que em papéis como Cordélia Brasil e Dorotéia, além de Antígona e Lady MAcbeth marcou a historia do teatro do interior. Outros grandes artistas surgiram, e por muitos motivos desistiram no caminho, e embora o Máschara tenha exportado grandes talentos, muito pouco fica guardado de seu trabalho para a posteridade. Em 2000 desponta o diretor Cléber Lorenzoni, com uma energia motivadora, capaz de atuar, dirigir, coreografar, impulsionar muitos que vieram com ele, e confesso que durante muito tempo me frustrei um pouco ao perceber que sempre ele era o único que ocupava esse lugar de prima dona. Quem amis perto chegou até os anos 2010, foi Angélica Ertel, também com uma atuação forte, intensa, impecável. Há sim lugar para todos, no entanto vejo que os jovens querem logo ocupar os podiums, sem se indagar se merecem realmente esses lugares. Não é sobre fazer uma cena bonita, não é sobre usar uma maquiagem inesquecível, ou decorar um longo texto... É sobre personalidade cênica, sobre querer melhorar, crescer, transformar pessoas, abrir caminhos, defender as artes...

“O ator deve trabalhar a vida inteira, 
cultivar seu espírito, treinar sistematicamente os seus dons,
 desenvolver seu caráter; jamais deverá desesperar e 
nunca renunciar a este objetivo primordial: 
amar sua arte com todas as forças e amá-la sem egoísmo.”
Constantin Stanislavski
                                     

                    

                           No entanto nos ultimos anos, começaram a se estabelecer talentos, forças que marcam por sua entrega, por sua busca intensa e quase paralela à do diretor. Há alguns anos Alessandra Souza  (que aliás estava na plateia), despontava  como  grande interprete,  e hoje no  palco do Palacinho  revi  um elenco forte, com grandes nomes do atual   teatro cruzaltense. Renato Casagrande,   Fabio Novello e  Douglas  Maldaner marcam por sua intensidade, por sua entrega. E apesar dos   problemas de cena que percebi,  é preciso mencionar a força de Casagrande, a potencialidade de Novello e a disponibilidade de MAldaner. É difícil lutar com nossos vícios, com os desafios que o teatro impõe, estar sempre, sempre, sempre disponível. Até por isso essa senhora nunca se disponibilizou a teatrar. Tomei outro caminho, embora jovem tenha por algum momento me deixado tocar pela arte, rapidamente meus pais me levaram ao altar e me tornei mãe. Hoje em dia certamente escolheria o palco.

                             A atuação de Clara Devi foi digna de uma grande atriz, da grande atriz que se tornou, e que devemos respeitar, por uma trajetória que vem sendo construída há um bom tempo. Romeu Waier esteve fascinante, com um controle cênico perfeito, a caixa fonética em perfeita ressonância, e achei incrível a menção às tantas heroínas do teatro grego. Sempre impliquei com lentes assustadoras com esse clima halloween infantil, mas a prótese de Romeu Waier foi perfeita.  Leonardo Teixeira merece aplausos pela força e energia, não parece que estamos assistindo um novato, ao contrário, parece que estamos a frente de alguém que tem muito teatro dentro de si. A equipe técnica estava tão ensaiada, preparada, que não víamos de onde vinham luzes e sons, perfeito. 

                               Ao final vemos os mais jovens, Ana Clara Kraemer, e Kleberson Ben correndo para lá e para cá, quais formiguinhas, parabéns a esse "estágio" que o Máschara oferece, dando possibilidades de aprendizagem aos jovens que chegam para teatrar.

                             Parabéns ao Máschara pela energia, pelo respeito ao teatro, por não se permitir fazer qualquer coisa de qualquer jeito, isso mostra o cuidado com o público, o respeito pelas plateias. Deveria falar sobre a mise en scène, falarei na próxima análise. 


                            O melhor: Os embates entre mãe e filha

                            O pior: os imprevistos de última hora que pegam a todos de surpresa e que podem colocar todo o trabalho em perigo.


Complexo de Electra- 

Direção e dramaturgia - Cléber Lorenzoni

Elenco- Clara Devi

             Cléber Lorenzoni

            Renato Casagrande

            Fabio Novello

            Douglas Maldaner

           Romeu Waier

           Leonardo Teixeira


Operador de Som - Ellen Faccin

 Contra-regras Kleberson Ben

                        Ana Clara Kraemer

Recepção-       Antonia Serquevitio

                       Carol Guma

Apoio-            Dulce Jorge


  Arte é Vida

                          


                               A Rainha

                                   

Elenco e público de Complexo de Elecktra reunidos após espetáculo