domingo, 2 de julho de 2017
sábado, 1 de julho de 2017
sexta-feira, 30 de junho de 2017
Mas o que realmente é o "trabalho do ator" desenvolvido no Máschara
O que é o TREINAMENTO?
Ora, grande parte dos grupos que surgiu nas décadas de 80 e 90, praticou e ainda pratica o treinamento do ator. Porém tanto naquele período como ainda hoje, atores e coletivos teatrais oscilam entre uma aceitação cega e apaixonada, e uma negação total e absoluta. No entanto é necessário esclarecer qual o sentido do treinamento. O termo training surge com intensidade nos livros de Grotowski, Barba, Brook e Oida. A noção de treinamento, está ligada às transformações que ocorreram no campo teatral, as quais envolveram igualmente o ator e sua formação. As práticas de treinamento romperam com a formação dada nas escolas, por intermédio do trabalho de numerosos diretores pedagogos como Stanislavski, Meyerhold, Vakhtangov, Craig, Copeau, Jouvet, Decroux, Lecoq, entre outros. Esses diretores pedagogos, desde o inicio do século 20, ofereceram novas bases pedagógicas para o aprendizado do ator, incluindo nessa nova pedagogia, não apenas uma preparação física para o ator, mas também uma educação mais completa capaz de desenvolver o corpo, o espirito e o caráter dos atores. Esses reformadores objetivaram ainda, permitir ao ator, por intermédio do treinamento, um estado de criatividade sobre a cena. Assim, para o trabalho do ator, nasceu a noção de treinamento que se confunde com a da pedagogia, um espaço que possibilita a exploração e a construção de novas formas de criar. Era nessa linha que Burnier conduzia seus estudos.
Sendo assim sempre procurei um desenvolver técnicas, exercícios, dinâmicas que oferecessem aos meus atores além da descoberta física e mecânica, algo capaz de trabalhar o universo interior do ator, e sobretudo os canais de comunicação entre eles. Isso de maneira sistemática e disciplinada.
O teatro compreende muito mais que o exercício da cena ou a encenação propriamente dita. O ator atual, quase sempre em idade muito jovem, precisa desenvolver todos os sentidos, sofrer uma chuva de questionamentos, debater-se e embater-se em possibilidades físicas. Analisar a psicologia dos que o cercam e de certa forma ser um ser melhor. Não basta para falar da humanidade ser um grande ator, é precisos ser um grande homem.
Sete troféus representando Cruz Alta
Mais uma conquista dentre as tantas que a Cia. Máschara
de Teatro sempre alcança quando
representa Cruz Alta pelos palcos mundo a fora. Dessa vez foi no Cena Viva,
festival de teatro de Santa Rosa organizado pelo SESC daquela cidade em
parceria com o IEACEN- Instituto Estadual de Artes Cênicas. Durante uma semana
grupos de teatro de vários lugares apresentaram o que de melhor vem sendo
criado nas artes cênicas. Castelo Encantado, texto de Cléber Lorenzoni e Dulce
Jorge que homenageia Erico Verissimo foi premiado com sete troféus, Melhor
Figurino, Melhor Maquiagem, Melhor Sonoplastia (Gabriel Giacomini), Melhor Ator
Coadjuvante ( Renato Casagrande) Melhor Ator (Cléber Lorenzoni), Melhor Diretor
(Cléber Lorenzoni) e ainda Melhor Espetáculo (Castelo Encantado). As atrizes Raquel Arigony e
Alessandra Souza também foram mencionadas por seu trabalho belíssimo no
espetáculo. Segundo Cléber Lorenzoni, troféus não são coisas de suma importância
para o grupo. O importante mesmo é o trabalho realizado junto ao público. Por
outro lado os troféus solidificam nosso trabalho com embasamento técnico e
teórico, provando que nosso teatro é serio e de primeira qualidade.

quarta-feira, 28 de junho de 2017
O Castelo Encantado - tomo 127 (772)
Mais teatro infantil, pois é preciso...
Infelizmente quando um adulto constata algo que não lhe agrada, diz logo:"É muito chato, é bom para criança". O teatro infantil, ou melhor dizendo, o teatro para crianças, é um instrumento da maior significação na formação cultural e artística do indivíduo, e é preciso que o teatro apresentado às crianças seja da melhor qualidade possível para que não se comprometa de forma permanente o critério de qualidade que está em formação.
Os pais deveriam se perguntar quantas vezes levam os filhos no teatro em busca de uma atividade de contribuição positiva na formação da criança como individuo e quantas vezes os levam puramente por que não sabem o que fazer com eles em um sábado ou domingo a tarde.
O critério escolhido para a ida ao teatro, naturalmente, é muito importante, pois não só a participação consciente e responsável do adulto seria muito mais requestada como também deveriam ser exigidos muito mais ainda critérios de qualidade nas produções de teatro para crianças...
O Máschara por exemplo sempre teve um cuidado muito grande com tudo o que leva a cena, exemplo disso é o trabalho delicadamente orquestrado em Castelo Encantado. O espetáculo que recentemente esteve no palco do Cena Viva - Festival de Santa Rosa - nos ofertou uma belíssima construção dramatúrgica e cênica. As vezes o dramaturgo nos oferece um lindo texto, mas o encenador/diretor estraga-o com suas ideias mirabolantes, outras vezes o encenador se descobre totalmente prejudicado por um texto vergonhosamente escrito por um dramaturgo despreparado. Cléber Lorenzoni e Dulce Jorge arquitetaram o texto de Castelo Encantado na década passada e muitos foram os atores que já participaram da montagem. (Gelton Quadros, Miriam Kempfer, Roberta Corrêa, Gabriel Wink, Cristiano Albuquerque, Kelem Padilha, Lauanda Varone, Newton dos Reis, Nando Lara, Alexandre Dill, Rafael Aranha, e talvez outros que posso ter me esquecido. O fato é que o espetáculo que vemos hoje em cena, é reflexo da criatividade e talento de muitos atores.
A premissa é simples, uma menina, Rosa Maria, apresenta dificuldade em imaginar, tão logo, um grupo de contadores de historias conduz a menina pela obra de Erico Verissimo. Personagens vão criando vida de uma forma lúdica e bastante simples e alcançam grande mérito nas mãos dos criativos atores da Cia. Máschara, embora o universo inicial seja o quarto da menina, rapidamente parecemos viajar pelo mundo, Asia, África, Índia...
Rosa Maria certamente está sonhando, algo que se comprova na ultima cena, quando ela volta a dormir enquanto os contadores desaparecem. Durante os quase cinquenta minutos de espetáculo, animais, crianças, vilões e mocinhos vão interagindo, quebrando a quarta parede e divertindo a platéia que ainda que estivesse formada em sua maioria por pré-adolescentes, deixou-se levar pelas divertidas peripécias dos contadores de historias.
Assim como as heroínas Alice e Doroty em outras obras famosas, Rosa Maria vai tentando compreender uma gama de criaturas fantásticas que enquanto divertem, questionam o mundo a sua volta. Egoísmo, ciúme, solidão, vaidade, medo, e até diversidade, são alguns dos temas abordados pelo espetáculo. A catarse de Rosa Maria reside em acreditar que podemos ser/ter qualquer coisa. E assim deve ser, as crianças precisam ser motivadas a crer em seu potencial. A não ter medo de errar, de ousar...
A mensagem, o olhar emocionado da criança cumpre a função do teatro, mas falta ainda a técnica. O teatro é feito de técnicas, pois ainda que seja arte, seus operários precisam estar bem preparados, e estão. Cléber Lorenzoni encabeça o time, e consolida-se como ator infantil, apresentando personagens inesquecíveis como o Elefante Basílio e o Ursinho com música na barriga. Acredito, aliás, que o mais interessante no que tange esse ator, é analisarmos seu trabalho corporal, a forma como diferencia cada uma das cinco figuras que carrega. Cléber ainda apresenta sonoridades muito especificas em cada criatura, nos lembrando que interpretar está completamente ligado à transformação. Casagrande é o ator mais esforçado da Cia. e segue os passos de seu mentor. Iniciado pelo antigo Núcleo de Teatro da Casa de Cultura, Renato aprendeu a fazer teatro com o mote: O ator nasce do cansaço (Artaud). Seu trabalho de comunicador é muito eficaz, o que se percebe através da triangulação direta com o público. Renato só não pode relaxar na busca pelo saber teórico. Teatro tem muito a ver com compreensão humana, com psicologia, com intelecto.
Evaldo Goulart adentrou a cena cheio de garra, algo indispensável para um bom ator. Deve no entanto nutrir-se sempre de conhecimento, de perícia no que faz. Ser um bom ator, está totalmente conectado à maturidade, com prática. Quanto mais itens há na esfera pessoal de cada ator, mais preparo ele terá para cumprir sua sagrada função.
O trabalho de Raquel Argony e Gabriel Giacomini traz à cena o novo, percebe-se as vezes um pouco da insegurança de quem está há pouco dando vida as personagens de Erico, no entanto ser bom ator é saber alcançar o ritmo dos colegas de cena. A presença de Arigony como a Dona do Circo é impagável, falta um pouco talvez de acabamento, e jogo com a colega Alessandra Souza, algo que certamente com mais apresentações será alcançado. Raquel denota insegurança apenas nos momentos de canto, algo que percebo inclusive em Giacomini. O jovem ator trouxe um colorido todo especial para o espetáculo. Sua trilha presente, seus instrumentos sendo tocados no palco, acrescentam um vigor muito especial, não é nada vanguardista, porém é novo no trabalho do Máschara, isso se não levarmos em conta o coral presente em cena em Bulunga o Rei Azul. Gabriel é cheio de intuição e vimos muito disso em sua interpretação, mas é preciso aprofundar a técnica.
Alessandra Souza é a protagonista, durante muitos anos os protagonistas do Máschara foram apenas Dulce Jorge e Cléber Lorenzoni. Por que? Por que um protagonista precisa dar o lastro para toda a equipe a sua volta. Precisa ser escada e precisa aceitar escalar as escadas propostas pelos colegas. É preciso conhecer cada cena, uni-las. É preciso construir a curva dramática. Souza lapidou sua técnica já há muito tempo, precisa apenas tomar cuidado para não estagnar. Nunca é tarde para aprender, e um ator deve aprender sempre. Lidamos com a vida humana e a vida humana é constante de mudança, evolução. Aprecio o espetáculo e gosto muito da personalidade que a atriz construiu para Rosa Maria, no entanto a curva dramática precisa ser mais apurada, é preciso dar acabamento a interlocução entre a menina e as criaturas fantasiosas. Talvez um pouco mais de introspecção, características de Alice e Doroty, ajudassem Rosa Maria. Há em alguém capaz de tanta imaginação, algo de misterioso, algo que os outros não compreendem.
O Castelo Encantado é a quinta montagem infantil do Máschara e se mantém evoluindo. Aliás cada ensaio, cada performance, cada encenação é momento para aprimorar. Essa é nossa busca, diária, eterna. Lapídar-se em prol do maior.
Fabio Novello não conseguiu repetir seu brilhante trabalho como em ocasiões anteriores, possivelmente devido a pouca parafernália teatral presente no local dessa ultima apresentação, mas sua correria em busca de um cenário ao lado de Douglas Maldaner e uma luz precisa foram percebidas.
Castelo Encantado é um desses espetáculos que sempre dá vontade de ver novamente, com direção cuidadosa de Cléber Lorenzoni e trabalho de cena bem observado por Dulce Jorge, uma aula de criação sutil, feita ali, atras da cortininha de retalhos, comprovando o ponto de vista do Senhor Grotowski, que para acontecer teatro precisa apenas de bons atores e boa historia.
Alessandra Souza - **
Cléber Lorenzoni ***
Reanto Casagrande ***
Raquel Arigony **
Gabriel Giacomini ***
Evaldo Goualrt **
Douglas MAldaner ***
Fabio Novello **
Arte é Vida
A Rainha
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