segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O Castelo Encantado na 16ª Matinê do Máschara - 98º Apresentação

Das obrigações do teatro...

           Quando o público compra seu ingresso, seja antecipado ou no ato do espetáculo, não tem muita noção do todo do produto que está pagando. No interior há uma luta diária para se continuar a fazer teatro. Nas cidades grandes também há essa luta, mas ela é mais equilibrada. Nas grandes cidades, os atores sabem que essa é sua profissão, ponto. No interior você é ator até o momento em que já não é mais, tudo é muito incerto. O ingresso que a platéia está pagando, está pagando partes de coisas que foram feitas muito antes. 
             Nas grandes cidades você tem as estrelas, os grandes atores que já possuem um nome, uma carreira sólida. No interior você muitas vezes tem um grupo de pessoas se apoiando, atores começando, pessoas somando funções, parentes e amigos na platéia, ajudando a segurar as pontas.
              Um exemplo disso foi a estréia na Matinê, do jovem aluno da ESMATE, Gabriel Giacomini. O teatro no interior com o Grupo Máschara, tem uma importante função de motivar, desenvolver novos talentos, Oferecer oportunidades. 
               Gabriel Giacomini começou com Ed Mort no Santíssima, e logo depois participou de O Castelo na escolinha Anjo da Guarda. Mas não se torna um ator de uma hora para a outra. O teatro, a interpretação é uma caminhada, longa! Aprender a portar-se no palco, desenvolver um estilo e só então brilhar. Três fazes bem distintas. Gabriel tem sagacidade, criatividade, e vontade, mas essa vontade precisa ser maior, o teatro exige de nós, naturalmente, para que mais de cem pessoas te aplaudam em pé, emocionadas, te admirando tanto, é necessário que em troca, dê um bom pouco de ti mesmo. Gabriel precisa soltar mais a voz e trabalhar a expressividade em cena. E o que traz tudo isso? Busca, treino, pratica, estudo, e senso crítico.
                 A apresentação na Matinê não foi como a do domingo anterior, havia um certo gessamento nas funções. Uma tensão, provavelmente devido a presença do principiante. No entanto a diversão foi garantida. Prova disso é o carinho com que o público fotografa ao final do tomo. Alessandra Souza tem se mostrado uma atriz muito capaz, falta-lhe no entanto o "estilo", a superação final de suas ações, o tornar-se inesquecível. O final de Rosa Maria no castelo Encantado chega a ser morno. Renato Casagrande foi se soltando mais para o fim do espetáculo e Evaldo Goulart esteve muito intenso em cena. Cléber Lorenzoni continua me parecendo um tanto apagado em seu Senhor Mágico, mas alcança o sucesso em seus personagens animais. 
                     A troca de lâmpada com o público presente, nos realça o quanto faz falta um teatro, uma sala própria para espetáculos, com segurança e conforto. 
                     Ao final da encenação, uma homenagem criativa ao ator Cléber Lorenzoni, não fui cumprimentá-lo, me desculpe, sou tímida. Mas achei digno por parte dos colegas e do público, renderem indulto a uma pessoa tão importante para nosso teatro.


Souza (**)
Malheiros (**)
Maldaner (***)
Novello (**)
Goulart (**)
Casagrande (***)
Giacomini (**)


                                            Arte é Vida


                                                                                  A Rainha
                    
                         
               

Gabriel Giacomini e Bruna Malheiros anunciando o Elefante Basílio


Parabéns ao ator Gabriel Giacomini que vai aos poucos dominando o palco.

16ª Matinê do Máschara- Mais um sucesso


terça-feira, 29 de setembro de 2015

O Incidente - 78/79 - 708,709 colégio Santíssima trindade

Em meio aos protestos e uma cidade caótica, O Incidente.

            Quando saí de casa essa manhã para assistir O Incidente no colégio Santíssima Trindade, me peguei pensando onde os mortos de Antares falariam em Cruz Alta se hoje levantassem de suas esquifes. Caso a historia se passasse aqui. Coreto? Não há mais. Praças? cambaleantes. Se marchassem pelo centro, certamente tropeçariam nos tijolos mal colocados pelo calçadão ou na praça Erico Verissimo. Enfim, Cruz Alta jaz tão desalentada, que não se saberia por onde começar a lavar a roupa suja. 
             Na escola, não era permitido público de fora, mas consegui um indulto, não admito ser proibida de assistir teatro, sou viciada, confesso. Encaminhei-me tão feliz pelo corredor, algumas coisas mudaram, mas o clima de lugar organizado, limpo, iluminado, esse continua. Parei e fiz uma genuflexão rápida frente à capela. No átrio, três imagens que poderiam ser São Francisco, Irmã Clara e Santa Inês de Assis. Nossa, a vida é um grande teatro. 
                   Uma vez dentro do auditório, bem comportadinha em minha cadeira vermelha, não quis sentar-me muito para frente, afinal o "show" era para os estudantes. Não sei quais são as regras da escola, mas não havia nenhum aluno com celular ou quaisquer apetrechos eletrônicos pelas mãos. Um arrojo. Um digno respeito dado aos atores no palco. 
                    O Incidente na velha Antares foi uma revolução, e as revoluções continuam da década de sessenta até hoje. Há as pequenas, as médias e as grandes. as periódicas e as esporádicas, as de armas brancas e as de arma de fogo, as sensacionais e as despercebidas; na verdade elas existem em tal quantidade, que às vezes, é difícil saber, na sonolenta leitura de um matutino, em que direção se deve colocar nossa indignação politica e moral. Erico nos dá em Antares todas as direções. Antares está podre, assim como o reino da Dinamarca em Hamlet, assim como o Brasil, assim como Cruz Alta. Não sei se os jovens entre 14 e 19 anos que estavam dentro daquela sala, seriam capazes de compreender o que estava sendo dito sobre o palco em toda a sua magnitude. Mas se um ou dois se condoerem pelas réplicas das personagens e fizerem uma ponte junto a vida real, isso já terá sido a diáfana conquista do elenco. 
                    Por entre as cadeiras da assistência, surgiu a primeira personagem, uma elegante dama de azul, que nos declamava um resumo do que acontecia em Antares. A essa atriz aconselho mais calma, o público pode e deve compreender sua presença para só então ouvir seu texto. Na segunda sessão, "com dois ss" a atriz deve ter sido instruída, pois melhorou e muito sua primeira colocação. Admiro atores que querem melhorar. Essa  personagem que nunca ficamos sabendo o nome, parece ser uma narradora, algo como uma metalinguagem, não sei, apenas no quadro final compreendo que ela é um ser atemporal, e então aceito, mas ainda sem compreender muito bem. O final pode ser mais intenso, a atriz pode nos convencer de que está realmente vendo mortos vivos. Sabe-se lá o pavor que isso causaria. 
                   Os sete mortos são representados por Cléber, Dulce, Renato, Alessandra, Fábio, Cristiano e Douglas. Do elenco original três, em suas antigas posições dois. Substituindo havia cinco, estreando havia dois. Enfim, uma confusão na dança das cadeiras do Grupo Máschara, que trás ao seu elenco versatilidade. Por outro lado, espera-se que esse mesmo elenco continue junto, praticando esse texto por um tempo razoável, para só então encontrarem a verdade por trás das palavras. 
                     Cristiano e Dulce mantém a base de suas personagens embora muito tenha se perdido. Alessandra Souza estava mergulhada em sua interpretação bem como o Dr. Cícero da primeira "sessão com dois ss". Doulgas Maldaner e Fabio Novello cumpriram, mas podem trilhar longas caminhadas em busca do jovem idealista e do anarco-sindicalista. Arquétipos muito fortes. Douglas Maldaner pode inclusive melhorar o trabalho vocal, elevá-lo a níveis audíveis em um teatro ou sala sem acústica. Cristiano criou nessa apresentação algo novo para compor seu visual, que foi inclusive muito atrativo aos jovens na plateia.
                       Renato Casagrande interpreta meu papel preferido no espetáculo. Mas acredito que a composição visual deva ser revista. Está pronto para fazer uma das personagens do ainda em fase de construção "Bruxamentos e Encantarias". Falta-lhe a compreensão da velhice. O jovem e expressivo ator ganhou um personagem idoso e louco. Uma empreitada digna de uma grande ator. Se pretende alcançar o sucesso deve buscar dentro de si muita coisa, trazer as vísceras à fora. 
                         Não gosto de comparar trabalho de atores, afinal de contar aquilo que fazem é o que fazem, não existe o antes nem haverá o depois. A chance do público conhecer a historia e aquelas personagens, foi aquela. Acabou... Mesmo assim, sempre é momento de encontrar algo. O espetáculo não tem muita ação. A ação é puramente interna, e viva, intensa. Na verdade muito nos lembra a narrativa de um conto, Como em As Intermitências da Morte de José Saramago. Não aprece ter virgulas ou pontos. Uma trama encostada na outra, pois são todos um só. Os sete úteros abertos. 
                         O final foi um tanto súbito, e a cena em que os mortos são atacados pelos ditos vivos, parece não cumprir sua função. O Incidente foi trágico, e bastante visceral nas segunda"sessão com dois ss". Nos prende e choca, mas precisa ser olhado pelos atores não como uma energia sabática que a cada punhado de anos aparece para fortalecer ou trazer ganhos a Cia. O Incidente deve ser olhado sempre como um desafio estético, que ao ser cumprido engrandece o trabalho interno de cada um. Os espetáculos do Máschara que vão ficando para trás e são revisitados sempre, servem como elixires, como cursos rápidos, workshops para a montagem de novos espetáculos. 
                             

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                       Só a arte salva

                                                            A Rainha
        

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

15ª Matinê do Máschara - tomo 97

Sobe a cena uma nova atriz.


               Sempre que surge uma atriz eu me emociono. Me emociono em como o teatro vai escolhendo e trazendo pessoas. Vai pinçando no meio da massa, aqui e ali, um e outro que sabem escutar o vento. Geração vai e geração vem e vez ou outra surge alguém que respeita e ama o palco. Dentre esses aparecem outros que querem se deixar tocar pelo prazer de participar de um espetáculo, ou de criar algumas personagens. Bruna Malheiros apareceu nesse ano, não sei em qual das duas características ela se enquadra., o que sei é que é muito bom ter um rosto novo dando mais energia à luta. 
                        Essa foi a oitava apresentação da atriz em um espetáculo, e ela divide muito bem o palco. Malheiros joga, tem noção de espaços, de triangulação e de time. Aliás o espetáculo O castelo Encantado, como um todo, teve muito time. Dez anos depois de sua estreia em 15 de abril em Pejuçara, o espetáculo ganha um revival tremendamente vivaz. Do elenco inicial, apenas Cléber Lorenzoni. Mas isso não impede que os atores compreendam perfeitamente a base do espetáculo. 
                            Na porta, duas crianças recebem e convidam a platéia. A menina Rosa maria e um menino que poderia muito bem ser seu irmãozinho. Ela é mais contida, ele mais explosivo, intenso e atrai.                      
                            Dentro do teatro, o público adulto se diverte tanto quanto o infantil. O castelo Encantado tem muita ação, animais, super-heróis. Trabalho corporal, falsetes criativos. E o principal, elenco coeso e equilibrado. No entanto preciso elogiar as conquistas de Alessandra Souza na personagem, inclusive seu domínio com o público. Douglas Maldaner e seu prazer em entrar no mundo infantil e ainda sua operação na trilha sonora sem muito ensaio. 
                              Aconselho no entanto a revisão da cena dos brinquedos de Fernando e me pergunto o que a direção quer dizer com o cenário. Um quarto de brinquedos? As vezes é preciso apenas de uma frase para que o público consiga compreender a convenção.

Direção:  Cléber Lorenzoni St. A
Assistência e direção de palco: Dulce Jorge. St. A
Produção:   Ricardo Fenner St. A
Elenco:  Alessandra Souza  St. III (***)
               Renato Casagrande St. II (**)
               Evaldo Goulart St. IV (**)
               Bruna Malheiros  St. IV  (**)
Operação de Som: Douglas Maldaner St. IV  (***)
Contra-regragem :  Fabio Novello St. IV (**)
                



Só a Arte Salva
                              

A atriz Bruna Malheiros que vai conquistando seu espaço no Máschara


Cia. ao lado do terceirão do Colégio Santíssima Trindade- foto de Carmem Maria Coffy Lopes Bisso