terça-feira, 26 de dezembro de 2017

795 -Auto de Natal - ou Paixão de Nossa Senhora - (tomo 1)

                    Nas bodas de Caná, Jesus, filho de Maria, transformou a água em vinho e todos exclamaram: -Sempre se oferece o melhor vinho no inicio, para que quando se está mais embotado pelos prazeres etílicos se beba o vinho de inferior qualidade. Aqui, ocorre o contrário, guardaram para o fim da festa o melhor vinho da casa.
                             Pois bem, o Grupo Máschara nos ofereceu seu melhor nos últimos dias do ano. É verdade que 2017 já havia tido a  Roupa Nova do Rei, a remontagem de O Castelo Encantado, a encenação de A Paixão de Cristo e Bruxamentos e Encantarias. Mas foi no auto de natal que assistimos dia 22 de dezembro, que realmente me surpreendi. A Roupa Nova do Rei, e a Paixão de Cristo, são historias conhecidas. Tudo bem, contadas de formas únicas. Bruxamentos começou a ser elaborada pelos alunos da ESMATE de 2014. Mas o nascimento de Cristo que subiu a cena na praça Erico Verissimo, esse deu o que falar. 
                               Dezoito atores dividiram-se em dezenas de personagens e tipos, tirados dos escritos sagrados para os cristãos. A narrativa era simples e de fácil acesso com roteiro de Cléber Lorenzoni. Musica, dança, interpretação e até arte circense estiveram presentes. Eu fui criada na igreja católica apostólica romana. Batizada e crismada. O tema tratado sobre o palco não me surpreendeu enquanto texto, mas o que mexeu com a platéia ávida cena após cena, foi a forma como se contou cada detalhe. Deu-me muito orgulho dos jovens do Máschara. A linguagem quase infantil prendeu o interesse da platéia do começo ao fim. Claro que o visto em cena foi reflexo de um ano de muita dedicação por parte dos alunos da ESMATE, que estudaram diversas linguagens e foram organicamente se capacitando para esse gran finale. 
                                       A trama se desenrola a partir da mente de uma menina (Vitoria Ramos) que vai vendo a historia contada por seu avô. Desde a infância de Maria, (interpretada primeiramente por Maria Antonia Silveira Neto e posteriormente pela veterana Alessandra Souza) até o dia em que Jesus nasce em uma manjedoura, em uma estrebaria nos arredores de Belém.
                                         Se engana quem pensa que a arte cênica está centrada apenas no talento do ator, pelo contrário, a obra de arte nos chega através de tudo sobre o palco. Nesse quesito, figurinos, adereços, cenários, tudo trabalha e trabalhou em prol de envolver. 
                                          Não vou entrar aqui nas questões religiosas do roteiro. Talvez seja difícil para alguns comprarem as complexidades da trama, no entanto o dogma cristão deve ser respeitado, bem como os dogmas de qualquer outra religião. Cléber Lorenzoni, como diretor questionador que é, esboçou questionamentos visíveis a assistência mais concentrada. Também fez alusões a questões sociais, tudo muito sutil, sem chocar, pensando muito mais no tocante da encenação. 
                                             A mascara branca proposta pela maquiagem de Cléber Lorenzoni ajuda a imprimir uma neutralidade, que se antagoniza com o figurino marcante. Alguns personagens centralizam em si a historia, Lorenzoni, Souza, Arigony, Novello, Fenner e Ramos. Outros passeiam por várias criaturas. É preciso muita coragem para em frente a uma comunidade religiosa, criar tantos signos na forma de contar algo sagrado. A cena na pousada do casal Josafá beira ao cômico e nos ajuda a relaxar durante a trama, contrastando com a violência da morte dos inocentes. 
                                             Há uma gama de estilos na trilha sonora. Agradando gregos e troianos, e as dublagens denotam falta de ensaios. Ensaios de mesa, ao lado do som e com texto na mão. O máschara é uma companhia que ama ensaiar, que gosta da repetição, mas nos últimos tempos, devido possivelmente ao leque de projetos que vem dando vida, tem deixado a desejar nesse setor. 
                                              O espetáculo é atemporal e sem restrições espaciais. Bem a meu gosto. Maria está em Nazaré, vira-se no palco e já chegou a casa da prima Izabel em Ain Carin. Claro que esse tipo de linguagem vai causar efeitos diferentes na platéia. Há de se ter um minimo de conhecimento para compreender determinadas propostas artísticas. 
                                               Algo que me marcou muito foi o equilíbrio alcançado por toda a equipe, o ritmo das cenas. Não vou dizer que as coreografias são ousadas, já conheço as ideias do diretor. Cléber Lorenzoni sempre teve um olhar meio Broadway, ele tem dividido sua direção com Renato Casagrande nesses últimos trabalhos. Casagrande é muito criativo e também opta por momentos apoteóticos. Alguns atores podem investir mais na leveza, outros na sutileza. Raquel Arigony esteve muito bem como a prima Isabel, embora a direção pudesse garantir uma caracterização mais específica que diferencia-se as personagens Ana e a prima de Maria. Por outro lado, e eu mesma me questiono, a linguagem do espetáculo permite a transformação apenas corporal do neutro ao personagem, do personagem ao neutro e assim por diante. A voz construída pela interprete alcança uma corporeidade muito interessante. A troca de mantos, a entrada do véu, o ventre de Maria representado pela pequena manjedoura iluminada. Signos incríveis. 
                                               A cena dos reis magos se coloca de forma eficaz e Gabriel Giacomini se destaca como Baltazar. Cada personagem foi introduzido de forma muito criativa, como o "Gabriel" de Fábio Novello que chegou do meio do público e emocionou a todos ao som das Bachianas de Villa Lobos, um arrojo aos ouvidos dos transeuntes, vizinhos da praça e platéia em geral. O teatro nasce nos ensaios e muita coisa foi reflexo de improvisações positivas, ocasionadas pela segurança produzida por dedicação nos ensaios. Estudo. Entrega.
                                            O espetáculo precisa e deve ser reapresentado, Há muitos detalhes e eu em minha avançada idade, perdi muita coisa. Gostaria de rever para poder mergulhar mais fundo, bem como os atores mergulhariam também... 
                                              Parabenizo muito a criatividade e dedicação de todos, foi um lindo presente de natal para quem assistiu.

Arte é Vida.



A Rainha

Texto-Cléber Lorenzoni (**) Adaptação da obra cristã
Direção- Cléber Lorenzoni (***)
Assistência de direção - Renato Casagrande (***)
Criação- (cléber Lorenzoni e equipe)
Trilha Sonora - Cléber Lorenzoni e Renato Casagrande (***)
Operação - Evaldo Goulart (*)
Maquiagem - Cléber Lorenzoni (**)
Figurinos e Adereços-Cléber Lorenzoni , Renato Casagrande e Fabio Novello (***)
Elenco- Alessandra Souza (**)
Cléber Lorenzoni (**)
Vitoria Ramos (***)
Ricardo Fenner (**)
Maria Antonia Silveira Netto (**)
Fabio Novello (**)
Raquel Arigony (***)
Renato Casagrande  (**)
Gabriel Giacomini (***)
Stalin Ciotti (***)
Douglas Maldaner (**)
Vagner NArdes (**)
Antonia Serquevittio (**)
Laura Hoover  (***)
Kauane Silva (**)
Nicholas Miranda (**)
Pedro Lucas  (**)
Maria Eduarda Jobim (**)




                          

                                  

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