segunda-feira, 20 de novembro de 2017

793 - Bruxamentos e Encantarias - Tomo I

                                     Sentada aos pés de minha avó ainda muito pequena, minha maior aventura sempre fora ouvir causos antigos, estorias e não historias, da dona carochinha, que aliás para mim sempre pareceu ser uma bruxa. Minha avó punha tocos de angico no fogão a lenha enquanto dava longas pausas em suas tramas misteriosas e fascinantes. Minhas personagens preferidas eram sempre feiticeiras, magas, bruxas velhas; todas elas provenientes de lendas ancestrais. Cresci em uma casa de mulheres, tias, primas, e uma bisavó de quase cem anos. Percebi logo cedo que o feminino rege a vida, traz a luz, acalora, aninha, amansa. A mãe terra gere a vida e vai preparando-nos para um dia nos recolher de volta em seu seio.
                                            Sobre o palco neste domingo, o feminino regia a cena. Fadas, bruxas, mulheres poderosas, dominadores do poder da natureza. Cléber Lorenzoni entende desse poder e gosta desses temas, não é a toa que muitos dos espetáculos do Máschara tratam de grandes mulheres, Dorotéia(1998), Cordélia Brasil (1995), Antígona (2000), e As Balzaquianas (2011). O argumento encontra alguma semelhança com "A Bruxinha que era boa" de Maria Clara machado, mas logo percebemos que Bruxamentos parte de outra fonte. O diretor nos oferece um tema milenar, e ele vem de forma dupla, dois bebes trocados por duendes malandrinhos, a natureza organizando-se, colocando em alinhamento a vida. Não é o laço de sangue que une os seres, até por que todos os nossos sangues partem de um mesmo lugar, somos todos um só. É a afinidade que paira sobre o mundo de Mérida e Folha de Sabugueiro, são os afetos que são postos em jogo. 
                                              Cléber Lorenzoni e seu assistente Renato Casagrande conseguiram criar cenas para um grande elenco e embora um tanto longo, foi possível embarcar na historia e mesmo se emocionar. 
                                          Boas historias deve ser contadas, e o Máschara sempre consegue nos surpreender. Por outro lado o que mais me é louvável, são os alunos da ESMATE estarem aprendido de forma eficaz o árduo oficio de cena. A complexidade em colocar um espetáculo em cena. Tudo isso pode repercutir em novos atores profissionais, novos grupos de teatro, novos públicos. Pequenas sementes que irão certamente germinar. 
                                                 Aprendi com minha avó, que existem dois tipos de historias, as que nos prendem a atenção e as que nos entediam. Bruxamentos nos prende e muito. Os acontecimentos são rápidos, bem contados e atraentes a adultos e crianças. 
                                               O elenco formado por veteranos e principiantes  pecava em alguns momentos pela falta de potencia vocal, em outros enchia-nos os olhos pelo trabalho corporal. Vagner Nardes e Evaldo Goulart encabeçam essa lista com um jogo cênico perfeito, piadas bem pontuadas. réplicas ritmadas e construção coesa. Gabriel Giacomini e Sandra Lazzaria embora muito vivos em cena, falaram baixo pondo em risco suas cenas. Os dois grupos mais fortes, bruxas e fadas, estiveram admiráveis. Gabriela, Maria Eduarda, Lavínia, Jenifer e Raquel entraram em cena emocionando a todos com sua poesia e interpretaram em uma redoma de energia muito bonita. O quinteto de bruxas, Nicholas Miranda, Maria Antonia, Kauane Silva, Vagner Nardes e Evaldo Goulart, acrescentam ritmo delicioso ao espetáculo. Fredegunda tem uma grande presença, mas acaba entrando no pique apenas depois da metade do espetáculo. Gosmênia poderia ser mais aproveitada devido a força que a jovem atriz carrega com sua expressão forte e segura. Crinolina é ainda muito jovenzinha mas demonstra estar  muito a vontade no palco, o que é importantíssimo para uma boa carreira de atriz. Caolha e Fedorilda já mencionadas roubaram a cena entrando do fundo do auditório, uma ótima sacada da equipe.
                                             Alessandra Souza fez um trabalho muito interessante com sua Elvira e acrescentou ao espetáculo, ao lado de Raquel Arigony, o peso dramático necessário para nos emocionar. 
                                                  A caracterização das personagens assinada por Cléber Lorenzoni e Renato Casagrande é belíssima, bem como a iluminação do espetáculo que em um conjunto de cores concedeu poesia e beleza a cada novo quadro. 
                                                  Laura Hoover e Clara Devi foram os destaques femininos. A primeira por sua delicadeza e entrega como Merida. A segunda por sua presença cênica, e a dedicação para compor uma cena tão antológica, digna de uma atriz madura. 
                                                   Ao observar Bruxamentos e Encantarias, estudo-a como um espetáculo estudantil que é o que de fato é. Mas é exatamente aí que paira nossa admiração. A direção consegue unir todas as atuações em um lindo quadro. Os pequenos duendes, são como contra-regras cênicos e ao mesmo tempo são os causadores de uma confusão para a qual não a solução, apenas amenização. Vitoria Ramos esparrama-se pelo palco como uma pequena atriz. Espero que continue nos palcos, nasceu para brilhar. Felipe, Pedro Lucas, Giulia e Maria Eduarda Jobim esmeram-se e conseguem expressar toda a graciosidade necessária à cena. Implico um pouco com seu visual exageradamente natalino. Douglas Maldaner, Marcelo Padilha e Stalin Ciotti formam o grupo das criatura fantásticas, com destaque para a composição desse ultimo, embora os três pudessem estar mais vivos em suas cenas de embates e Stalin deve-se tomar mais cuidado com a cartela e a peruca que lhe cobriram o rosto.
                                                Prólogo e Epílogo foram magistrais, a cena aberta com todos os monstros recebendo a platéia encantou a todos. Os sons dos guizos, os ruídos das folhas, a canção dos lenhadores, cada detalhe acrescentou esmero a produção. 
                                                       Alguns personagens eram como figurantes na cena, mas ainda assim ajudavam a contar Bruxamentos. Renato Casagrande nessa montagem brilhou mais nos bastidores. Sua cena foi das melhores do espetáculo, embora sua canção tenha tido pouca força e a trilha tão bem escolhida poderia ter sido operada com maior sutileza
                                                    A proximidade do fim apertou nossos corações. As revelações. Antonia Serquevitio tirando Merida da torre. As revelações. O congelamento. O poder feminino. O perdão feminino mais uma vez presente. A escolha de Merida. 
                                                         Bruxamentos e Encantarias  merece ser apresentada novamente, talvez com um elenco menor, talvez com mais ensaios. Mas certamente quem assistiu guardará para sempre a lembrança de uma noite de emoção e conquista.
                                             

Alessandra Souza, Vitoria Ramos, Laura Hoover, Clara Devi, Vagner Nardes, Renato Casagrande, Evaldo Goulart e Raquel Arigony
(***)
Todos os outros alunos se saíram bem, certamente os que estiveram mais fracos em cena devem estudar mais e se dedicar bastante. O público merece, vocês mesmos merecem se querem o palco.
Alguns alunos ingressaram há pouco tempo na ESMATE e ainda assim apresentaram-se com coragem e determinação. Outros ausentaram-se em muitas aulas, o que prejudicou suas cenas.

Arte é Vida!!!!


A Rainha


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