sexta-feira, 9 de junho de 2017

O Incidente, texto

O Incidente
Personagens  :                                            Shirley Terezinha
Dr. Cícero Branco
Quitéria Campolargo
Barcelona
Menandro Olinda
Erotildes da Conceição
Pudim de Cachaça
João Paz
Tibério Vacariano
Rita Paz
Beatriz
Rosinha

(Entra a radialista, está vestida de forma de forma muito chique como se fosse apresentar um vaudeville burlesco).
Shirley: Boa noite! A historia que vou lhes contar,  mais parece um ato burlesco de uma historia de uma comédia de horrores, peço por tanto, sua total atenção. Trata-se de nossa querida e pacata Antares, no alto Uruguai, fronteira com a Argentina, população 2000 almas. Aqui, na noite anterior da sexta feira 13, de dezembro de 1963, sete caixões foram deixados insepultos por causa de uma greve que assola o nosso município. Segundo testemunho dos grevistas, cerca de sete horas da manhã, eles viram erguerem-se de seus féretros os sete mortos insepultos que desceram pela avenida principal espalhando o pavor e agora encontram-se enfileirados no coreto da praça. Vinham quais bonecos de mola, mas regidos por Deus, ou pelo Diabo? Não sabemos, o que sabemos é que foram muitas as vítimas que sucumbiram perante agourenta cena. A desgraça parecia estar presente após esse primeiro ato, mas o verdadeiro desfecho macabro ainda está por vir.

(Sete mortos entram em cena caminhando do meio da plateia).
Erotildes: Doutor, nós estamos no céu ou no inferno?

Cícero: Nem num lugar nem noutro, estamos do lado de fora do cemitério municipal.

Quitéria: E como se explica isso?

Cícero: Não se explica, deve ser por que ainda não fomos enterrados. (dirigindo-se ao público). Pelo visto nossa sutil presença já foi notada... Cidadãos de Antares, observem esses cadáveres, esses úteros abertos, úteros podres. Antes de apresentar um a um dos meus companheiros, apresento-me a mim mesmo. Dr. Cícero Branco, advogado traído pela mulher, morto a dois dias de derrame cerebral, corno póstumo.  (Os outros mortos riem, Cícero os encara revelando irritação). Pelo visto já conhecem José Ruíz, vulgo Barcelona, que morreu de ruptura de aneurisma.
(Quitéria Campolargo se desconcerta e tirando os algodões das narinas grita:)
Quitéria: Mas é o sapateiro comunista!

Barcelona: Alto lá minha senhora, não confunda o anarco-sindicalismo com o comunismo, detesto esse sistema capitalista explorador e desumano. No meu tempo de vivo ficava furioso quando o delegado Pigarço e o Coronel Vacariano me confundiam com esses comunistas esses piolhos de Marx, essas lombrigas de Lenin. Lá da minha sapataria eu espiava a cidade e muitos de vocês vinham me contar novidades, de modo que eu ficava a par de tudo que acontecia em Antares, tanto da vida pública quanto da vida secreta...

Cícero: Basta Barcelona você já falou demais!

Barcelona: Quem o senhor pensa que é para me dar ordens?

Cícero: Hora criatura, não vê que estamos mortos e que a susceptibilidade dos vivos acabaram para nós? Mas já que você insiste eu reformulo o pedido... Quer fazer a fineze de voltar para o seu lugar? Passemos ao defunto seguinte...

Quitéria: Não diga essa palavra horrível diga pessoa!

Cícero: passemos então para a pessoa do Pudim de Cachaça, o maior beberrão de Antares que morreu envenenado pela esposa!

Pudim: Doutor, eu sempre fui uma peste não ajudava a minha Natalina, chegava tarde em casa e até batia nela... Sei que nunca tive muito valor nessa vida, mas queria pedir que não coloquem a minha amada Natalina na cadeia.

Cícero: Tarde demais Pudim, ela já está presa e vai ser julgada no mês que vem.

Pudim: Mas que bosta Doutor! (olhando para Dona Quitéria) Me desculpe Dona o nome feio me escapou...

Cícero: Você quer falar alguma coisa aos próceres Antarenses?

Pudim: Quero, não vou acusar ninguém só quero pedir ao meretício  juiz que não condene a natalina. (Se dirigindo a assistência) Povo de Antares, ajuda a... a... absorvê a minha mulher! Era só isso doutor.

Cícero: Vamos animar um pouco as coisas neste picadeiro da morte, a próxima figura que eu chama aqui é do sexo feminino. Erotildes da Conceição, ou melhor Erotildes de tal. Os de tal são uma numerosa família que está presente em todos os cantos do nosso país, uma família que não importa muito para os da sociedade... Pois então, entre noites de 1925 e 1945, ela foi uma das mais belas prostitutas de Antares, a fêmea mais procurada do bordel da Venusta, a carne mais cara daquele verdadeiro açougue humano. Erotildes virou a cabeça de muitos homens casados, senhores considerados virtuosos. Conte a sua historia, sai ser surpreendente...

Tibério:  Mas ninguém está interessado no que vai dizer essa decaída!

Cícero: Ora Coronel Tibério, estávamos estranhando a sua ausência. Mas porquê decaída? Diga logo puta! Acho que choquei algumas das pessoas presentes com a palavra horrível que acabo de pronunciar, o que é isso?! São apenas quatro letras P U T A!  O meu colega professor Mirabô, gaba-se de conhecer os quarenta sinônimos que o Imortal Rui Barbosa descobriu para prostituta, mas não parece se preocupar com a prostituição propriamente dita. O delegado Pigarço está sempre pronto a prender como subversivo, todo aquele que escreve, pensa ou fala sobre as misérias humanas,  mas as nossas favelas não preocupam a burguesia, afinal aquilo sobre o que não se fala não existe, se um espelho reflete um ato escandaloso quebramos o espelho e damos as costas para o ato, é simples!  Caro Professor Mirabô esteja onde estiveres vai falar agora a puta Erotildes.
Erotildes: Oh! Eu sou natural do Rincão Verde, tinha 15 anos quando meu padrasto se passou Comigo, não aconteceu nada mas a minha mãe era muito ciumenta e me botou para fora de casa. Aí eu vim para a cidade, mas como não sabia ler nem escrever e não queria pedir dinheiro na rua não, ai eu cair na vida...
( Quitéria se incomoda com a colocação)
Erotildes: Fui pra cama com o primeiro que me ofereceu dinheiro...

Cícero: E você lembra Quem foi esse homem? Ele está de vista para o Coreto?

Erotildes: Aqui tem muitos doutor...

Cícero: O primeiro Erotildes...

Erotildes: Mas o senhor quer que eu aponte?

Cícero: Quero que diga o nome! Não tenha medo, eles nada podem contra nós!

Erotildes: Mas o primeiro foi o coronel Tibério Vacariano durante 5 anos ele até montou uma casa para mim só que depois eu fui ficando velha e ele nunca mais me deu um triste vintém...

Tibério: Eu não tenho que prestar contas da minha vida particular para ninguém, não admito que coloquem cadeado com chave na minha... no meu... a... nessa bosta que hoje em dia chamam de sexo mas que no meu tempo tinha era outro nome! Sou dono de todas as minhas partes!

Erotildes: Não tive outra escolha senão sair para pescar homem na rua. Ia com qualquer um,  cheguei a ser mulher de cinco mil réis,  até que numa noite de agosto, panhei uma chuvarada, comecei a sentir uma dor no meu peito que me arrespondia la nas costas... A Rosinha, uma companheira de lida minha, me conto que eu até variei...

Rosinha: Ero...

Erotildes: Rosinha, tu veio... sobe aqui...

Rosinha: Posso?

Erotildes: Claro, tu viu só quem ta no nosso grupo? O adevogado bonitão

Rosinha:  Que chiques... E como você ta?

Erotildes: To morta né... Engraçado tu não tem medo de eu?

Rosinha:  Ia ter graça eu ter medo de ti...

Erotildes: Mas eu devo de tar medonha...

Rosinha: Não, até que você ta bem... Quando tu morreu eu que te arrumei direitinho, passei batom, ruge na cara e até esmalte nos pé...

Erotildes: É, e a lida, como ta?

Rosinha: Tudo igual, sabe, o que falta ca em antares é uma guarnição militar, uns home diferente...

Erotildes: Mas tu não arrumou nem um amiguinho fixe?

Rosinha: Que nada, um dia desses uns meninos me arrastaram pruns matos, rasgaram a minha roupa, e não teve porcaria que não fizessem comigo, depois me bateram, chutaram e me deixaram la... mas sabe, se tivessem me pedido, eu dava de graça...

Erotildes: Por isso que eu digo, que eu prefiro ta morta, fico longe dessas desgraça...

Rosinha: Pois é eu queria até tomar veneno, mas não tive coragem

Erotildes: Não! Quem se mata vai pro inferno...

Rosinha:  Mas e o inferno não é aqui mesmo amiga? Erro, tu já viste Deus?

Erotildes: Não... Na certa só vou ver depois que for enterrada...

Rosinha: Se tu ver ele me faz um favor? Diz para ele me dar uma morte buena, já que me deu uma vida tão desgraçada...

Erotildes: Adeus amiga...

(Rosinha troca a roupa de Erotildes)

Erotildes: Foi então que me levaram para o hospital, um que eu nem lembro o nome...

Cícero: Salvador Mundia, ala dos indigentes...

Erotildes: eu tava tísica. Eu ia morre, morre, morre...

Barcelona:  E a Erotildes poderia estar viva, se o Doutor Lazaro tivesse mandado buscar um certo antibiótico que ele prometeu. Prometeu mas de certo esqueceu, afinal de contas quem é erotildes de ta? E que importância tem a vida de uma horizontal, ah,  mas se ela fosse uma cliente pagante,  importante,  ia ser bem diferente!

Cícero: basta Barcelona! Eles já entenderam...

Tíbério: eu queria fazer um apelo principalmente é distinta a Dama Dona Quitéria Campolargo ao meu amigo e colaborador doutor Cícero, para que voltem sem mais delongas para o lugar de onde vieram e la esperem  quietos como convém aos mortos que se prezam o momento de serem enterrados. É desnecessário dizer que a prefeitura vos oferecerá transporte gratuito até o cemitério. ( mortos riem)

Cícero: Senhor Prefeito Municipal, povo de Antáres, em meu nome e em nome dos meus constituídos, recurso por absurdo o pedido do coronel Tibério, exigimos o nosso sepultamento imediato, se não formos atendidos ficaremos aqui empesteando o coração da sua Antares.
Tibério: Mas isso é que nuncaras! Quero dizer, contemplai  os urubus que já voam agourentamente pela praça atraídos pela vossa carniça. VocÊs estão pondo em Perigo a vida do povo de Antares, em breve essas aves negras estarão arrancando o olhos de nossas criancinhas com seus bicos e garras... (mais risos dos mortos) Nosso dever para convosco é sepultar-vos e se não o fizemos até agora, foi por causa da atitude impatriótica desses grevistas... (aponta para Barcelona que avança).

Cícero: Não façam nada, não digam nada, é só o principio...

Tibério: O vosso dever para com essa comunidade é o de aceitar a vossa morte. Em nome do governo, da decência humana, da pátria e dos sentimentos cristãos eu vos exorto, eu exijo que voltem imediatamente para seus esquifes e esperem a hora de vosso sepultamento.

Cícero: Hipócritas, impostores, simuladores eis o que sois!  Vista deste Coreto do meu ângulo de defunto, a vida mais do que nunca me parece um baile de máscaras, ninguém usa sua verdadeira face. Faça-se Justiça ao truculento coronel vacariano, ele sim, ostenta com naturalidade cívica o manto antipático que herdou de seus ancestrais uma estirpe de assassinos e contrabandistas históricos.

Tibério: Façam esse cão maldito calar a boca! Onde está a polícia?

Cícero: Isso, chame a policia...

Tibério: Doutor, o senhor está se incriminando a si mesmo e em público!

Cícero: Ora, a morte me confere todas as imunidades. Estou completamente fora do alcance das leis humanas, quanto as de Deus, O velho lá em cima está cansado de saber de todos os meus podres, tanto os grandes como os pequenos; tanto os do corpo como os da alma.  A esta hora, minha sentença já está lavrada no livro divino, nada do que eu fizer modificara minha situação na eternidade! Quando vivo senhoras e senhores, fui não só advogado e Conselheiro dos Senhores dessa cidade como o seu testa-de-ferro factótum, factótum , juntos lesamos incontáveis viúvas ausentes e até presentes. Protegíamos assassinos e contrabandistas, quando isso nos convinha política ou economicamente.

Tibério: Mentira, mentira, você não tem autoridade para falar pois está morto e podre! Para falar tem que mostrar provas!

Cícero: Provas eu as tenho. Atenção povo de Antares,  o que vou contar é muito importante e talvez seja a última oportunidade que tenha para falar pois é saprófitas já me devoram boa parte das entranhas...

Tibério: Quita, Quita. Nâo te lembras desse velho amigo? Está sendo explorada por um Patife sem escrúpulos, tu és das nossas. Conta ao povo de Antares que ele é um intrigante um mentiroso.

Cícero: A senhora quer falar Dona Quitéria?

Quitéria: Quero!

Cícero: pois tenha a bondade! Afinal aqui na nossa tanatocracia é permitido falar, diferente do que acontece na nossa tão amada América Latina.
Quitéria: Tibé, tibé, nada mais tenho a ver com vocês, entre vivos e mortos não há entendimento possível.  (levando a mão ao peito percebe algo) Cadê as minhas jóias, fui roubada doutor, joias caras de família...

Cícero: Desculpe-me mas asseguro-lhe que a senhora foi colocada em sua esquife sem nenhuma de suas joias adornando-a.

Quitéria: Mas como o senhor sabe?

Cícero: Simples eu estive em seu velório uma noite antes de meu falecimento, até levei flores e não havia nenhuma joia com a senhora. Seu amigo Tibério testemunha.

Tibério: É verdade Quita...

Quitéria: Mas eu deixei com as minhas filhas e genros disposições escritas muito claras, queria trazer para a sepultura todas as joias que herdei de meus antepassados. Tratantes, gananciosos...
(a filha invade o coreto, cobrindo o rosto com um lenço)
Beatriz: Mãe a senhora foi enterrada viva? Que cheiro insuportável...

Quitéria: O cheiro é muito do meu cadáver, mas é mais dos seus pensamentos! Trapaceira, ordinária, você tuas irmãs e seus maridos. Pedi para ser enterrada com as minhas joias e vocês desobedeceram as minhas ordens...

Beatriz: Mas mãe eu sempre...

Quitéria:  Da cá, da cá as minhas joias! (arranca colar, e brincos)O anel também sua imprestável... Pronto a divisão está feita o Rio Uruguai herdará as minhas joias! (a filha sai correndo) Viu Tibet as minhas filhas não tiveram para comigo sequer uma palavra de afeto ou de saudade.  Não queria levar as joias por birra ou vaidade mas para evitar que fossem o pomo da discórdia, mas agora percebi que daria no mesmo. Por um pedaço de terra, uma cadeira ou uma vaca, eles brigam. É triste, hoje em dia as pessoas prezam mais os objetos do que os outros seres humanos. Não tibé, diz a Lanja, tua esposa e minha querida amiga, que não se iluda, que se habitue a ideia de um dia passar para o outro lado e ser completamente esquecida pelos filhos. E tu também toma nota. Os moços não só esperam que os velhos morram, como até desejam que isso aconteça o mais depressa possível. É a lei da vida. Assim para as pessoas de idade como nós, morrer não é apenas uma fatalidade biológica, mas uma obrigação social. (mortos aplaudem)  E tu também toma nota, a magra já ta no teu cangote!

Cícero - Pois amigos, aqui temos Dona Quitéria Campolargo, uma das damas mais ilustres de Antares. Ela que levava em frente o nome das Legionárias da Cruz, e que morreu de infarto de miocárdio.
Erotildes - A senhora não imagina a honra que é para mim estar do seu lado, Dona Quitéria!
Quitéria - Não fale com a boca em cima da minha cara, mulher!
Barcelona - Não me diga que a senhora ainda tem medo dos bacilos da tuberculose?
Cícero - Toma nota João, nem depois de mortos a gente se livra dos reflexos condicionados. Me digam uma coisa, alguém conhece nessa face quase reduzida a uma mingau de carne batida a fisionomia do nosso Joãozinho Paz?! Dr Falkenburg! Dr. Lázaro! Médicos de Antares, será que é assim que ficam as pessoas mortas de embolia pulmonar? Num certo dia desse mesmo dezembro, João Paz foi preso sob falsa acusação de estar treinando secretamente dez guerrilheiros, do qual ele era supostamente o chefe. Sua prisão foi efetuada e João acabou morrendo vítima das mais brutais torturas.
Tibério - Eu não sei de nada...
João - Mentira! Todo mundo sabe que o senhor sempre deu carta branca ao delegado, que por sua vez dava a carta branca aos seus carrascos...
Tibério - Está bem, eu confesso, mas tu poderias ter evitado a tortura e a morte se tivesse revelado o nome dos guerrilheiros de Antares.
João - Mas eu não sabia de nenhum! E se soubesse não denunciaria!
Tibério - Ora existem uns sessenta comunistas fichados na polícia de Antares. Você poderia ter apontado dez deles como integrantes do grupo e safar-se com vida.
João - Isso seria uma indignidade, eu jamais pagaria esse preço pela minha vida.
Tibério - Todo mundo tem um preço, não se faça de santo João Paz, qual é o seu?
João - A Justiça! (pausa) Doutor, que foi que fizeram com minha mulher depois que me assassinaram?
Cícero - O delegado mandou prendê-la para interrogá-la.
João - E ela foi maltratada grávida como está?
Cícero - Você quer a verdade ou prefere uma resposta piedosa?
João - Quero a verdade, sempre quis.
Cícero - Tudo indica que foi ameaçada de tortura.
João - Canalha! Pústula! Bandido! Os bandidos podem ter assassinado nosso filho que ainda nem nasceu...
Rita - João?!
João - Auto Rita, não te aproximes.
Rita - Mas eu queria te abraçar João, te beijar...
João - Escuta Rita, não penses que a morte me destruiu amor próprio. Não quero que guardes essa horrível lembrança.
Rita - Está sofrendo muito?
João - Não Ritinha, não sinto nenhuma dor física. Mas agora escuta. Se vim com os outros mortos foi para te ver... E principalmente fazer alguma coisa para te salvar desses bandidos, a ti e a nosso filho. Depois, pouco me importa o que farão com meu cadáver.
Rita - Meu pobre querido!
João - Nosso filho ainda se mexe?
Rita - Sim.
João - Se eu pudesse sentir os movimentos dele!
Rita - Podias encostar a tua mão no meu ventre...
João - A minha mão podre?
 Rita - Não, a tua linda mão. Vem, pelo amor de Deus, vem... Sente o teu filho?
João - Sinto! Sinto nosso filho! Perdoa querida, não devia ter feito isso. Um Morto devia saber o seu lugar. Mas é que a morte não me tirou o amor que sinto pelo mundo, nem pela vida! Agora escuta, a tua vida e a do nosso filho correm perigo, quero que saias o quanto antes de Antares. Está entendendo? Agora vai...
Rita - João espera, tenho uma coisa horrível para te contar. Não sou quem tu imaginas, sou uma covarde.
João - Não sabes o que diz...
Rita - Na manhã em que te prenderam eles me levaram também, me atiraram num quarto escuro, e lá me deixaram um dia inteiro, uma noite inteira. Depois me levaram para uma outra sala, me fizeram sentar numa cadeira, e me faziam perguntas, queriam saber o nome dos outros dez, dos quais eles diziam que tu eras o líder... Eu disse que não sabia...
João - Disseste a verdade.
Rita - Mas eles não acreditaram. Repetiram a mesma pergunta. Jurei por Deus que não sabia. E então aqueles animais ameaçaram me torturar. Um deles falou que se eu não confessasse pisariam na minha barriga. Então eu... eu... confessei.
João - Impossível, tu não sabias de nada, como eu também não sabia. Pois não existe bando nenhum.
Rita - Perdoa João, eu estava apavorada, comecei a dizer nomes, os primeiros que me vieram à cabeça, nomes de companheiros nossos... Espera, eu podia dizer que fiz isso pensando no meu filho, mas não, fiz pelo medo, eu tenho horror a sofrimento físico.
João - Não pense mais nisso. Eu teria feito o mesmo no teu lugar...
Rita - Não, tu não disse nada, por isso eles que mataram, te torturaram e te mataram
João - Eu não sou um herói, Rita... Sempre foste e continuará sendo uma mulher de valor... Às vezes nesse mundo é preciso ter mais coragem para continuar vivendo do que para morrer. Irás em exílio para Argentina, criarás o nosso filho com o suor do teu rosto e farás dele um homem, para que ele ajude a tornar o mundo um lugar melhor e mais justo. (pausa)Rita, tu lembras daquele domingo, quando saíamos a passear no rio, tinhas ido ao médico no dia anterior sem me dizer nada. E no meio do rio, enquanto remava, tu me revelavas que estavas grávida... Te lembras...
Rita - Como poderia esquecer? Eu lembro do teu rosto no sol...
João - E eu fiquei tão contente com a notícia que me ergui e atirei longe o remo, sem me preocupar com a correnteza... Íamos ter um filho, éramos donos do mundo! Quero te fazer mais um pedido, esquece que me vistes, guarda apenas a lembrança daquele domingo, do meu rosto no sol... (pausa) Tenho a impressão de que somos passageiros sem bagagem, que perderam o trem e estão à espera do próximo, que ninguém sabe quando irá passar. Como nossos bilhetes estão em branco, não sabemos qual é o nosso destino.
Quitéria - Ah! Isso é que não, os hereges, os ateus, esses não sabem para onde vão. Mas quem tem fé em Deus e na sua igreja, conhece seu destino depois da morte, da Moura torta.
Barcelona - A senhora passou a vida inteira pagando a passagem para o céu, com obras de caridade, missas, rezas, promessas...
Cícero - Não seja mal educado, Barcelona! Devemos respeitar as convicções alheias.
Barcelona - Me diga uma coisa Dona Quitéria, agora que a senhora está morta, já viste Deus como lhe prometia a sua igreja, seu padre e seus livros de rezas?
Quitéria - Minha alma está a caminho de Deus. O que tu vês aqui é meu corpo, que está sendo comido pelos vermes. Mas como é que vou fazer um renegado, um anarquista, um atirador de bombas, um subversivo compreender essas coisas espirituais?
Barcelona - Está bom, não vou mais discutir com a senhora. Estamos todos no mesmo barco, não é mesmo doutor Cícero?
Quitéria - Mas graças a Deus em camarotes separados!
Barcelona - Prometo-lhe não esquecer da minha condição de passageiro de segunda ou terceira classe.
Pudim - E nós moça, estamos no porão do navio.
Cícero - Nem depois de morto as pessoas perdem o gosto pela metáfora.
Olinda - A vida bem pode ser uma metáfora do Estro de Deus.
Cícero - Abram as cortinas, aí está o nosso maestro, o professor Menandro Olinda, que suicidou-se abrindo as veias dos pulsos.
Quitéria - Me diga uma coisa Professor Menandro, como foi que o senhor teve a coragem de matar-se? Não sabes que só Deus é capaz de nos dar a vida, e só Ele pode tira-la?
Olinda - Foi a hora do diabo, dona Quitéria. Do diabo... Eu estava em minha casa sozinho, tentando tocar a Appassionata, e mais uma vez falhei. Compreendi que estive enganado a vida inteira, que jamais haveria concerto público, fama. E a quem cabia a culpa do meu fracasso? As minhas mãos, estas ingratas! O que fiz não foi matar-me, se eu quisesse teria tomado veneno, ou me dado um tiro na cabeça, mas não, queria castiga-las. Uma se prestou para matar a outra. Depois que seccionei as veias dos pulsos senti dor, e quando vi o sangue tive um momento de pânico. Vi os retratos na sala, o piano, a máscara mortuária de Beethoven... Minha visão foi esfumaçando e de repente foi como se eu estivesse no útero da minha mãe. Mãe... Depois o momento em que eu nasci, minhas mãos podiam se mexer. Até o dia que eu toquei pela primeira vez nas teclas de um piano, ah, a música era minha, o mundo era meu. Vieram os cursos, os recitais e à noite de Menandro Olinda no teatro São Pedro. Eu tentei tocar a Appassionata, e as minhas mãos me atraiçoaram. Os risinhos, as vaias, o silêncio caridoso da plateia. Aí tudo foi silenciando, percebi que morrer deveria ser doce, ficar para sempre longe da angústia, da solidão... De tudo!
Quitéria - Professor, o senhor já está morto.
Olinda - O senhor é um homem bom, seu Barcelona.
Barcelona - É a tal coisa maestro, quem fica olhando para o céu perde de ver as coisas boas da terra.
Cícero - Povo de Antares, nada mais temos a dizer. Ficaremos em silêncio esperando que vós venhais a decidir o que é melhor para nós e para vós.
Shirley - Foram dois dias de caos em Antares, a política estava desacreditada, os poderosos temerosos, desespero, orações. Na praça o odor era insuportável, moscas, urubus e ratos pareciam como atraídos e segundo testemunho dos mais sensacionalistas esses pequenos roedores já roíam os pés dos mortos, enquanto eles permaneciam estáticos como figuras de um museu de cera. A coragem dos Antarenses falou mais alto que o medo, e eles resolveram pôr um fim em tal sacrilégio tomando de assalto o coreto.
Povo - Fora, fora. Pro túmulo!
Cícero - Basta! Dona Quitéria, agora mais do que nunca estou convencido de que somos considerados indesejáveis em Antares. Os vivos nos repelem. Nossa presença, na realidade, só tem trazido desavenças, desuniões e dissabores para nossos conterrâneos.
Quitéria - É triste, muito triste a gente descobrir que depois de morta não é mais querida nem respeitada na própria terra natal.
Barcelona - E o que é que o senhor propõe?
Cícero - Voltemos imediatamente para nossos caixões, que os vivos cuidem dos vivos. Cavalheiros, compreendemos vossa insinuação. Comunico-vos que vamos voltar imediatamente para nossos lugares. Queiram pois abrir caminho...
Shirley - Teria sido um sonho mal sofrido por toda uma população, ou antes um pesadelo que oprimiu nossa cidade como uma nuvem de escuro chumbo? Rapidamente os antarenses trataram de concordar que tudo não passara de uma ilusão, afinal a verdade era por demais pavorosa e inédita nos anais da humanidade. O fato é que a julgar pelas aparências, pelo progresso visível a olho nu, Antares foi feliz e ninguém mais ousou contar tal história. Aliás, essa é a nossa história, que em forma de metáfora Érico Veríssimo soube contar com maestria. Se não compreendemos é porque esquecemos, ou então, sabemos fingir muito bem...

Fim

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