segunda-feira, 29 de agosto de 2016

748 - Olhai os Lírios do Campo tomo 5

A arte está acima...



                                   “A vida é curta, a arte é longa, a oportunidade fugidia, a experiência enganosa, o julgamento difícil”
Hipócrates


              Ouvindo doutor Eugênio Fontes explanar sobre seus anseios, seus desejos, sua ambição e ainda vislumbrando sua contraditória marcha em busca do reconhecimento e da construção de uma carreira, recordei-me de todos os médicos aos quais recorri até hoje em momentos de dor e mazelas físicas. Curioso como algumas das profissões exercidas pelo homem nos confundem e são vistas não como meras manifestações profissionais, mas como lampejos do poderoso senso de humanismo.
                Doutor Eugênio Fontes descobre talvez da pior forma, e por que não dizer, tarde demais, que pode ser melhor, que pode pôr sua existência a favor do próximo. Há algum tempo perdi uma amiga, uma senhorinha que ficou durante dois dias em coma e nenhum doutor quis atendê-la, após discussões, embates e apelos, um doutor “Eugênio” resolveu tomar alguma providência. Tarde demais, a pobre senhora não resistiu.
               Costumo ouvir muitas pessoas dizerem: “nunca é tarde demais para...”, discordo, as vezes é tarde demais sim! Para Olívia e Doutor Eugênio Fontes, foi tarde demais. Eunice Cintra ainda era jovem, poderia casar-se mais um sem número de vezes, mas Eugênio e Olívia perderam-se no tempo.
               A maior função do teatro não é divertir e fazer rir, a maior função do teatro é fazer pensar. Posso sim, rir enquanto penso, posso rir para pensar melhor, mas jamais, posso concordar em praticar tão sagrado ato com o simples interesse do gracejo vazio, isso seria supervalorizar a transloucada ignorância e a disseminação do supérfluo, tão valorizado nas redes sociais. Aí dirão que essa senhora é velha e quadrada, sim, sou mas o legado de tanta frivolidade é um futuro com cidadãos vazios e pouco preocupados com as questões do mundo.
              Na plateia todos somos pacientes, mas foi a primeira vez que vi nas cadeiras do teatro, tantos médicos, espero que tenham feito o exercício catártico necessário a quem assiste um espetáculo teatral. Sobre o palco ao menos ele foi feito e a curva dramática foi muito intensa. Na verdade Olhai os Lírios do Campo vem crescendo, tornando-se um espetáculo brilhante. Concepção inteligente, Iluminação belíssima, Trilha sonora bem exercida, e uma mensagem que nos faz pensar  e muito.
              Sobre o palco uma constelação. Alguns batalhando há anos pelo respeito, admiração, e aceitação do público. Outros, poucos, tentando aprender, crescer, descobrir, tornar-se  artistas completos. E ainda alguns perdidos entre o amar e o simplesmente estar ali. O Máschara possui um grupo muito versátil e cheio de diversidade. Isso o torna colorido, criativo, cheio de vieses em suas possibilidades artísticas.
                 Foi sem dúvida a melhor interpretação de Cléber Lorenzoni em Doutor Fontes adulto. Dulce Jorge e Alessandra Souza são grandes atrizes mas em alguns momentos haviam escapes de texto, e uma certa desconcentração. Possivelmente reflexos de uma insegurança causada por poucos ensaios. A curva dramática emocionou, e algumas cenas foram brilhantes, principalmente a passagem do tempo sobre o caminho móvel, e a discussão que encerra o casamento entre Eunice e Eugênio.
                  Quando observo um espetáculo como esse sobre o palco, fico fascinada e encantada com a capacidade de uma equipe que pouco apoio tem, e que ainda assim nos emociona e toca a cada apresentação. O olho no olho entre os colegas de cena. A lúdica cena das crianças com dona Alzira, a emocionada cena de Dr. Eugênio no colo de Alessandra Souza, o final tão de bom gosto...
                   Aconselharia a entrada de Seu Ângelo mais rápida com o tarro, foi percebível que Cléber Lorenzoni não tinha o que fazer para impedir estar vendo o colega muito antes desse chegar ao centro do palco. A dicção de Douglas Maldaner como Seu Jango precisa ser melhor trabalhada. Um grupo de atores tão ávidos de brilhar, de contar, afinal somos todos contadores de historias, pode e deve sempre melhorar seu trabalho. Alessandra Souza pode deixar ainda mais interessante a leitura da ultima carta à Eugênio. O Bebê, embora logo transformado em espectro imaginário, pode ser melhor disfarçado, para que possamos acreditar que ali está a pequena Ana Maria.
                    A iluminação e trilha Sonora exercidas por Fábio Novello e gabriel Giacomini, fizeram jus há dois dias de trabalho para se alcançar a maestria. Os tons e sutilezas na operação, renderam momentos lindos no espetáculo.
                 Olhai os Lírios do Campo é um acerto, um libelo à Erico Verissimo e a certeza de que muitos outros grandes trabalhos do Máschara subirão ao palco.
                    


Alessandra Souza  (**)
Cléber Lorenzoni (***)
Dulce Jorge (**)
Renato Casagrande (***)
Fernanda Peres (***)
Ricardo Fenner (**)
Douglas Maldaner (**)
Evaldo Goulart (**)
Raquel Arigony (**)
Fabio Novello (**)
Gabriel Giacomini (**)
         


                                A Rainha

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