quinta-feira, 30 de junho de 2016

O Santo e a Porca 740 (tomo 11)

Teatro na escola cumprindo sua função


                           Quando me sento para assistir um espetáculo teatral, o que mais me atrai é a pesquisa antropológica, a compreensão do homem por parte do homem. É o grau de compreensão e espelhamento de uma determinada cultura, quando não se está compondo um novo homem, por exemplo em situações em que a peça não quer retratar o ser humano em sua realidade e sim uma paradoxal visão de uma outra criatura talvez utópica. 
                         O nordestino é um ser sofrido em sua maioria, mas de certa forma, aprendeu rapidamente a luta diária, a sabedoria matuta. Ariano Suassuna em sua perspicácia compreensão do povo sofrido do nordeste, nos dá um texto longo, divertidíssimo e as vezes enrolado demasiadamente. Eu já havia assistido O Santo e a Porca do Máschara algumas vezes, no entanto essa foi a versão mais facilitada do espetáculo. Havia no texto original três linhas: O sumiço da porca, o plano de Caroba, e o relacionamento entre Pinhão e a criada. Cléber começou extirpando  a existência de Pinhão. Agora reduziu a trama do roubo da porca e ainda simplificou todo o plano em relação aos casórios. Ótimo, teatro não deve nem pode ser enrolado. Em uma época que é tão difícil segurar ou atrair as plateias, levando em conta todas as opções que as atraem para outras paragens, uma Cia. precisa saber exatamente o que quer levar ao público. 
                                 O texto teatral é a historia contada pelo dramaturgo dentro de sua visão cognitiva de mundo. Já o espetáculo é a percepção de um diretor sobre aquilo que ele quer contar ao mundo através daquele texto escolhido. 
                                  Claro que não se espera muito no quesito plastica quando um espetáculo precisa ser podado de tantas formas para caber em um espaço adaptado dentro de uma escola. Mas o Máschara consegue manter boa parte de sua intenção durante suas incursões escolares. 
                                   Cléber Lorenzoni dominou a platéia como um bom condutor que é. Abriu espaço para que os colegas se esparramassem. Seu Eurico, talvez por seu  apelo truculento e ranzinza consegue espaço entre os alunos. Diverte ver alguém tão convicto de seu poder sendo enganado por todos a sua volta, principalmente se é alguém prepotente e intransigente. 
                                  Em O Santo e a Porca, os princípios são um pouco manchados em prol de um bem maior. Ao final, no momento da catarse tu te questionas se Eurico não está certo quando diz: Por que vou morar com uma família onde todos mentem para mim? No entanto foi o próprio Eurico que levou a família a mentir. Certo? Errado! Foi Caroba quem meteu os pés pelas mãos. Foi sua ingenuidade que criou grande parte dos enganos da trama. Ao mesmo tempo, a falta de olhar para o outro, para seu próximo é que repercutiu em lição pesada contra seu Eurico. 
                                      Alessandra Souza traz a cena uma margarida muito mais interessante do que da ultima vez que vi. Margarida é uma personagem intrincada, não da para ser mocinha no meio do sertão com a mesma visão de uma mocinha em Molière por exemplo. Aliás todo o elenco esteve muito bem, tanto os altos cômicos quanto os baixos. Talvez Evaldo e Ricardo precisem de mais jogo quando estão juntos em cena. Ricardo Fenner tem surpreendido muito com seu crescimento em cena. Isso se nota em Olhai os Lírios e em O Santo ficou ainda mais nítido. Fenner apenas me confundiu quando saiu pelo lado errado após conversar com Caroba. Deveria ir para o hotel de seu Dadá para voltar mais tarde, no entanto entrou para dentro da casa...
                                      Dulce Jorge se desfigura em cena, as vezes parece um pouco confusa, mas é só impressão, pois passei com muita propriedade pela casa do velho Eurico Árabe e seu jogo com Renato Casagrande denota a intimidade dos atores que reflete uma ótima parceria em cena.
                                         A função do teatro se cumpre envolvendo os jovens e reflete-se na explosão de aplausos na boca de cena. Todo o jovem deve entrar em contato com a arte e de forma facilitada e acessível o Máschara continua oferecendo isso.

Momentos a serem lembrados: 
   - A agradável conversa entre Cléber Lorenzoni e a Irmã Wanda Fronza.
    - A visita da colega e atriz Raquel Arygoni com seus pequenos

                        

O Santo e a Porca de Ariano Suassuna
Direção : Cléber Lorenzoni
Elenco: Cléber Lorenzoni (***), Dulce Jorge(***), Renato Casagrande(**), Alessandra Souza(**), Evaldo Goulart(**) e Ricardo Fenner(**)
Trilha Sonora: Cléber Lorenzoni e Gabriel Giacomini(**)
Cenário: O Grupo
Iluminação: Cléber Lorenzoni
Figurinos: Dulce Jorge, Cléber Lorenzoni e Renato Casagrande
Contra-Regragem: Renato Casagrande
Interpretes Substituídos: Gabriel Wink, Angelica Ertel e Luis Fernando Lara
Data de Estreia: 18 de Agosto de 2012


Arte é Vida


                          A Rainha






                             

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