segunda-feira, 11 de abril de 2016

O Castelo Encantado (730) Tomo 104 (09/04/2016)

As maravilhas do terceiro teatro



            Quando Eugênio Barba criou a nomenclatura para terceiro teatro, certamente referia-se a grupos como o Máschara. Claro que o conceito criado na década de setenta, dirigia-se a algo muito mais antigo, algo que surgiu ainda nos primórdios do século XVIII, despontando de várias partes do mundo. É somente  no terceiro teatro que se pode ousar sem o medo de destruir-se uma carreira sólida. É no terceiro teatro que surgem ousadas teses e argumentos inspirados principalmente na especulação. 
                  O Máschara, apesar de seus vinte e quatro anos de caminhada, Mantém sua sombra de teatro marginal, não aceito por uma parcela da sociedade, que enxerga nos atores um tipo de jovens revoltados, ou encrenqueiros. Longe disso, o que o público não parece enxergar algumas vezes, é a capacidade criativa de um grupo de pessoas auto didatas e instintivos.

O Terceiro Teatro vive na franja, frequentemente fora ou na periferia dos grandes centros e capitais da cultura. É um teatro criado por pessoas que se definem como atores, diretores, trabalhadores do teatro, embora tenham raramente tido uma formação teatral tradicional e, portanto, não são reconhecidos como profissionais. Mas não são amadores. Seus dias são preenchidos com a experiência teatral através daquilo que chamam de treinamento, ou na preparação de trabalhos que eles terão dificuldades para conseguir espectadores3 (BARBA, 1999, p.169, tradução livre).

                              O mais maravilhoso para mim, é a formula não empedrada com  que essa Cia. promove suas ações. Quem assiste a um determinado espetáculo do Máschara em Santo Angelo hoje, verá em Panambi, daqui há um mês, um espetáculo totalmente diferente. E ainda assim com a mesma "alma", mesma direção. Essa versatilidade libertadora, gera atores melhores, improvisações ousadas e uma vivacidade que seduz quem presencia. Ora, no primeiro teatro, ou também chamado de "teatrão", a fórmula tende a ser expressada como norma. Um iluminador não ousaria pensar em ver sua luz adaptada em outra cidade. Uma atriz que entra pela esquerda em um espetáculo, precisa entrar por ali até o fim da temporada, ou colocará em risco o trabalho do iluminador, dos colegas e ainda receberá altas criticas da direção. O teatrão é quadro pronto, fechado, já o terceiro teatro se destaca por uma nova tela a ser pintada em cada apresentação. Isso repercute em criação e pesquisa. Os atores do terceiro teatro estão descobrindo algo novo mesmo no final de uma temporada. 
                       O Castelo Encantado, montado em 2005, não se parece em nada com O Castelo Encantado atual, no entanto o âmago a ser levado ao público, ainda é o mesmo. Elenco e público ainda bebem da mesma nascente. O passeio da menina Rosa Maria pelo castelo encantado do Sr. Mágico, de onde surgem as mais estranhas e divertidas criaturas. 
                               A Rosa Maria de SOUZA é criação redonda, pronta. Sabemos de onde vem e para onde vai, sabemos quem é e o que quer. A personagem nos convence da idade e da personalidade da criaturinha apontada por Verissimo. O elenco na verdade não tem grandes aquéns, apenas Douglas Maldaner pode e deve buscar mais relevância em sua interpretação. Mas nada que não consiga com um pouco de esforço, já que a certamente as conquistas do Máschara são galgadas em trabalho de equipe. 
                              Casagrande dança pelo palco, com volatilidade de bailarino. Aconselho apenas à conter um momento que nos faz lembrar do Chaves, Esse momento ocorre logo no começo quando encontra Rosa Maria.  Lorenzoni brincou com o público, tirou sarro do elenco, enfim, liderou o show, claro que para chegar a isso precisa de escadas. Renato Casagrande e Alessandra Souza são cúmplices, Poderiam se opôr, atrapalhar... Mas optam pelo melhor à todos. Jogar.
                                  Goulart vem se destacando na nova Geração do Máschara, uma geração que não passou pelos festivais ou pelo excessivo trabalho corporal. Evaldo Goulart entrou no Máschara já na fase das descobertas teóricas. Na fase do surgimento da ESMATE, e na época das Matinês. Sendo assim a preparação desse ator, tem tudo para ser muito mais profunda. Dependendo claro de seu esforço. Os deuses do teatro não dão nada de graça. Em troca do respeito e admiração do público, em troca do aplauso da vida eterna sobre o palco, os deuses exigem sacrifícios, dificeis de serem cumpridos. Evaldo Goulart é muito talentoso, mas talento sem técnica é como pedra bruta. É necessário lapidá-la. 
                                   Maldaner tem quatorze meses de Máschara, por isso precisa de muito esforço e busca, para poder alcançar o patamar do restante do elenco. Em cena Douglas cumpre, no entanto o teatro deve estar em tempo integral na mente do ator. O teatro não acontece naqueles 60 minutos sobre o palco, ali é apenas a exposição do artesão. Mas o artesão começa a moldar o barro muito antes! 
                                   A técnica vocal e a expressividade do ator devem ser somadas através da dança, do canto, da descoberta da criatividade e da busca pelo conhecimento. Quando alguém erra, não cumpre as regras nas primeiras vezes, achamos curioso, relevamos uma, duas e até três vezes. No entanto quando isso ultrapassa a paciência da equipe devemos nos perguntar por que continua acontecendo e sendo tolerado. Teatro é algo serio, e se escutarmos alguém dizendo, "nem é para tanto", ou "não gosto de regras", deve-se afastar essa pessoa, pois prejudicará o todo e frustrará a si mesma. 
                                   Fabio Novello e Gabriel Giacomini compuseram a equipe técnica do espetáculo, e estavam ali como toda a equipe técnica, para organizar o cenário, montar a luz, preparar a sonorização, etc... Gabriel precisa aprender, observar, compreender como se faz cada parte do proceso se quer ser um ator. Fabio Novello não pode "brincar" na luz como faz com tanto talento, tudo por que iluminação não havia ali. Mas ainda assim deu todo o apoio a equipe. 
                                               Algumas cenas foram impagáveis, como por exemplo quando um dos "três porquinhos pobres" encontrou o "lobo" mau na platéia, e mais tarde até mesmo o Elefante Basílio tentou triangular com a presença do mesmo. Os volumes de voz e suas impostações forma dignas dos atores do Máshara. Foi por fim um dia de louros para o Máschara e o Máschara é a união de seus atores.                   

                               O Terceiro Teatro seria composto pelos descendentes de uma mesma tradição ou, como diz Barba, “mutação bioló- gica” (WATSON, 2002, p. 186), com indivíduos em diferentes tempos e espaços almejando por transformar suas necessidades em trabalho. Assim, Stanislavski, Brecht, Artaud, Craig ou Grotowski, entre outros, estariam interligados, na medida em que criariam um legado próprio ao enfrentar questões pessoais, em busca da construção de uma trajetória artística. Ou seja, eles compreenderam o teatro não como profissão apenas, mas como vida. 

Que cada ator do Máschara valorize a vida teatral que há em seu colega.


Como sempre digo "Arte é vida"

Alessandra Souza (eloquência)***
Cléber Lorenzoni (triangulação)***
Renato Casagrande (comprometimento)**
Evaldo Goullart (esforço) **
Douglas Maldaner (atraso) *
Fabio Novello (prestatividade)**
Gabriel Araujo (disponibilidade)**

A Rainha

                                    

Nenhum comentário:

Postar um comentário