sábado, 4 de setembro de 2010

Entrevista feita por Rômulo Seitenfus do Jornal Estilo de Cruz Alta ao ator Cléber Lorenzoni


1- Como foi o início de sua carreira e por que escolheu o teatro como profissão?

O inicio foi conturbado, cheio de dúvidas incertezas, pois sabía que não estava lidando com uma profissão qualquer, e sim com algo que envolvia com princípios, alma! Não fui eu que o escolhi, foi ele que me escolheu... Engraçado por que também não o escolhi como profissão, sei que para atores maravilhiosos não passa de uma profissão, para mim é mais que isso, é uma forma de vida!!!



2 - Você é ator e diretor do grupo Máschara. Como é conciliar as duas responsabilidades e qual delas lhe proporciona mais satisfação?

Certamente ambas já se tornaram uma só para mim, não consigo me imajinar apenas atuando ou apenas dirigindo no máschara. Como diretor organizo as idéias que tenho e que desejo que meus atores passem adiante como comunicador. Como ator eu comunico, alí cara a cara com o público, minhas verdades, sonhos e esperanças...



3 - Você participou de muitos festivais de teatro. Quantos foram no total e as premiações?

Poxa, não ligo para premiação. No principio, quando mais novo, o que importava era o troféu. Com o tempo vc vai percebendo que o troféu significa muito pouco, é apenas o ponto de vista daquelas quatro ou cinco pessoas que estão alí, naquele momento, mas não é como um filme por exemplo, quem julga um filme vê teu trabalho na tela que é um só, não da para melhorar nem estragar. Daqui déz anos o público vê e pensa "Ah! Determinado ator ganhou esse troféu por que estava bem nesse filme... " Mereceu...

No teatro não é assim, cada dia é diferente. Posso estar péssimo fazendo um personagem e nod ia que os jurados vêem, por causa da adrenalina, posso estar maravilhoso. Posso errar a medida no dia em que o jurado vê e depois melhorar e ser sempre incrível em determinado personagem... Então é muito complexo. Claro que um troféu meche com o ego, em uma profissão tão pouco reconhecida e respeitada, é como um carinho caloroso. São muitos troféus, mas acho que o que mais amo é o primeiro que ganhei há 13 anos atráz interpretando meu primeiro personagem infantil.



4 - No último final de semana você interpretou o personagem principal Mário de "Esconderijos do Tempo", uma adaptação de Mário Quintana. Após o encerramento, revelou à plateia que foi a peça mais marcante. Poderia nos falar sobre isso?

Poxa, fazer Mario Quintana no palco é maravilhoso. Primeiro por que o que ele escrevia é maravilhoso, perspicaz, contundente e todo mundo se identifica com alguma poesia, soneto ou prosa... Não procuro imitar ele, procuro interpretá-lo o que é muito diferente... Mas as pessoas dizem: "Poxa até tua voz ficou como a dele" Eu fico muito agradescido, afinal esse é meu trabalho, minha voz, minha postura, tudo é meu trabalho e se me elogiam, é por que sou um bom trabalhador... O problema é que me identifico demais com Mario Quintana então preciso tomar cuidado para não fazer uma viagem dentro de mim e sair de cena deprimido. A arte é assim, ela engrandesce o ator, mas também o judía...



5 - Como é viver de teatro no interior?

Uma droga e uma glória. Tudo é um problema, a falta de dinheiro, a falta de apoio, a falta de público, a falta de espaço adequado, a falta de respeito... Por outro lado, o público do interior é mais fascinável. Eles tem ainda uma sinceridade, uma sensibilidadeque as pessoas das cidades grandes estão perdendo, penso que por isso nos grandes centros o teatro pós moderno seja mais aceito. Ninguém da cidade grande se preocupa em levar teatro ao interior, a não ser que esteja passando fome e querendo ganhar dinheiro fácil. Eles sabem que chegando aqui basta dizer que tem um ator global e todo mundo corre. A gente que tem menos visibilidade em meios de comunicação corre com as próprias pernas. Tem cidade, como Soledade por exemplo, que nos conhece por que já fomos em quatro oportunidades, assim vamos criando um público. Talvez um dia, quando pararmos de fazer teatro, ou formos para a cidade grande como vivem nos aconselhando, ninguém mais faça teatro em Cruz Alta, e talvez mesmo nos esqueçam rápido. Isso é muito triste. Por isso não posso parar. Tenho que fazer o quanto conseguir o maior número de vezes, para que o teatro fique no coração das pessoas.



6 - Fale sobre os desafios da profissão e os prazeres que ela proporciona?

Prazer é o aplauso, prazer é o olhar fascinado da criança, ou o olhar do adulto. Prazer é saber que teu espetáculo gerou discução, mesmo que ninguém tenha gostado. Só não suporto quando alguém trata o teatro como um evento, não é evento, não é para prestigiar, é como ver um filme, vc vai, vê e depois senta no bar ou na lanchonete e discute com teu marido, ou namorada ou familia se entendeu, o que pensa a respeito daquilo etc...



7 - Encarnar um personagem exige além da técnica um envolvimento emocional, vivenciando uma catárse e até mesmo transcendendo ao tempo. Como você encara todo esse processo?

Como eu disse, é dificil, as vezes vc pega uma personagem que em um primeiro momento parece nada ter a ver com você, mas depois vai vendo o quanto tudo tem haver com você. Pois no palco está você falando com a mascara daquela personagem. É um paradoxo, você se veste como outra pessoa para poder ser você mesmo. Por exemplo, as vezes você é muito tímido e não tem coragem de se pronunciar, mas lá dentro você sabe que tem pontos de vista, que quer ser popular etc... Aí você recebe uma personagem que tem o dom da oratória, que se expressa maravilhosamente bem, que é tudo o que você não consegue ser, e aí, no palco, protegido pela quarta parede, pela iluminação, pelo figurino, você torna tudo possível. É um jogo maluco!!!!! E o melhor é que o público leva aquilo para casa, na mente, ou no coração, ou no estômago. Sim tem espetáculos que vão com você em seu estômago. Outros vão no seu sexo. Cada espetáculo vai com você em algum lugar, mas sempre vai...



8 - Quais foram os momentos mais marcantes de sua carreira?

Sempre é marcante, felizmente tudo é tão dificil, tão intenso, nosso grupo tem uma característica de ser um grupo muito intenso, muito verdadeiro em suas ideologias. Isso torna todos os momentos marcantes... Mas principalmente quando estréia um novo espetáculo e vc vê que o público aceitou, aprivou, aí é marcante...



9 - Poderia nos citar os personagens inesquecíveis que você interpretou? E as peças que mais lhe deram prazer como diretor?

Personagens todos são inesquecíveis, sou uma pessoa de museu, carrego tudo comigo sempre em meu coração e falo o tempo todo no passado, nas emoções vividas... Mas penso que o Mario em Esconderijos do Tempo foi maravilhoso interpretar e dirigir. O Dr. Stokmann em Um Inimigo do Povo... Todos..



10 - Considerações finais

O Teatro é complexo demais para tentar falar dele em nove perguntas, e talvez com cinquenta ainda teria o que falar, por isso mais simples é assistir ou fazer. Eu o faço, exerço essa profissão como um sacerdócio. Ao público resta assistir para tentar achar respostas para as milhares de perguntas que não estão nessa entrevista...

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