terça-feira, 3 de junho de 2025
1242/1243 - O Castelo Encantado (tomos 138/139)
Indo para a centésima quinquagésima, com frescor de primeira...
Um dos maiores destaques dos espetáculos do Máschara é sua capacidade de reinventar, de renovar, e isso se dá muito possivelmente, devido a renovação de elenco. Com exceção do ano de 2005, ano da concepção desse espetáculo, tenho sempre a sensação de que o elenco nunca é o mesmo. Isso também mantém atores muito focados, sempre preparados para contracenar entre nova escalação de elenco.
Quando eu era muito jovem, saía de casa para assistir espetáculos no circo, que vinham a minha cidade e o que me chamava muito a atenção, era o clima que se estabelecia, quando a cidade recebia artistas, carroças com animais, pessoas diferentes. Os jovens ficavam excitados, os adultos atentos, as crianças agitadas... Principalmente, todos pareciam tocados por uma aura diferenciada. Assim também é o dia em que um grupo mambembe chega em uma cidade do porte de Tapera/RS. Essa sensação de agente transformador, precisa estar na bagagem dos artistas. Na hora de sair de suas casas é preciso organizar a lista: alegria, arte, ânimo, um pouco de militância, gentileza, dedicação, coragem, sacrifício, português correto, boas historias... É preciso ainda acrescentar um colorido interessante... VIDA!
O Colorido de O Castelo Encantado, está nas personagens de Erico, suas historias, seus enfrentamentos, a capacidade do autor em unir mundos muito distintos. A direção do espetáculo conseguiu construir um espetáculo muito ágil, que durante quase uma hora, vai nos enchendo de códigos, imagens, historias, signos... As crianças se mantém muito atentas, salvo alguns curtos momentos em que o ritmo parece cair. Palmas para a energia, acelerada, rápida, firme. Talvez alguns membros precisem canalizá-la. A própria Rosa Maria, precisa de mais volume e de mais estudo como protagonista. Ana Kraemer triangula bem, no entanto em alguns momentos precisa se colocar, se posicionar como líder. É um grande desafio claro, no qual uma atriz deve investir. Serquevitio e Ben precisam mergulhar mais, ele com canalização, ela com descerrando a máschara.
O espetáculo é composto por quadros, que vão se ligando através da personagem central. Palmas para a atuação do interprete do menino Fernando. Renato Casagrande consegue se comunicar com o público, consegue tocar a plateia. Algumas interpretações ficaram aquéns do que o espetáculo precisa. Atrasos, buracos nas cenas, ou seja, um produto bom que merece ser mais afinado. A meu entender, os personagens, que atuam como contadores de historias, deveriam estar trajados todos da mesma cor, para que quando usassem os adereços, esses fossem realçados. Da forma que se apresenta, temos três códigos, os atores com suas personalidades cênicas, os contadores cada um com a personalidade emprestada pela cor que está usando, e mais a personalidade das alegorias da narrativa de Erico. Uma bagunça! Entendo que grupos do interior, costumem improvisar, em nome dos gastos, em nome da praticidade, no entanto, nesse caso, é uma escolha investimento que precisa ser feita.
A trilha tocada em instrumento musical, valoriza e muito o espetáculo, mas seria muito legal se mais momentos surgissem. Talvez musica ao vivo. A iluminação é funcional, embora apenas sublinhe. O cenário embora carregado, componha muito bem o quarto, que é coberto pela cortina dos sonhos.
O Castelo Encantado é um ótimo produto, para se pesquisar teatro, para se encantar as crianças e para falar de Erico. Seguimos!
O melhor: A capacidade de adaptação de alguns atores que conseguem adaptar-se aos espaços e aos públicos mais diversos.
O Pior: A falta de senso de equipe, percebível quando você vê um mesmo ator interpretando tantos papéis em uma peça de contadores de historias. A situação que se estabeleceu da equipe de apoio, sempre esquecer algo.
O Castelo Encantado - Tapera/RS
Elenco: Cléber Lorenzoni
Renato Casagrande
Clara Devi (*)(**)
Antonia Serquevitio (*)(***)
Gabriel Ben (**)(***)
Ana Kraemer (*)(**)
Equipe Técnica: Carol Guma (**)(***)
Junior Lemes (***)(**)
Roberta Teixeira (**)(**)
segunda-feira, 2 de junho de 2025
sábado, 31 de maio de 2025
sexta-feira, 30 de maio de 2025
1240/1241- O Incidente (tomos 90/91)
A aposta em uma narrativa que deu certo
Se você entrar em um cemitério, imagine as criaturas que vivem ali, levantando de suas covas, não seus entes queridos, outrora vivos, mas aquilo no qual eles se transformaram. Pútridos, arrastando-se, decompostos... Certamente suas carnes estariam murchas, e já haveriam começado a desprender-se dos ossos. Haveria possivelmente larvas caminhando entre suas roupas, e portanto algumas gosmas ou fluídos escorrendo. Esse, supostamente é o visual que Erico Verissimo pensou ao narrar as peripécias dos sete desterrados de O Incidente. Veja bem, desterrados são aqueles que estão sem uma terra, uma cidade; os sete mortos de Antares foram desterrados de seu necrópole.
Incidente em Antares choca, seja pela interpretação calcada na pesquisa antropológica, seja pelo texto, pronunciado com uma excelência de vocábulos e uma batida rítmica magistral. Acontecem é claro alguns escorregões, perde-se a compreensão devido a momentos de pronuncia embolada. Com direção pontual que valoriza todos os artistas de modo igual, valorizando mesmo os atores em principio de carreira, o espetáculo imprime uma corporeidade que prende o expectador do inicio ao fim. Na primeira intervenção da manhã, não houve grandes destaques, todos pareciam muito equivalentes, bons, na segunda intervenção por outro lado, Renato Casagrande e Junior Lemes cresceram muito. A frase tenebrosa sobre a morte, ditada pelo interprete de João Paz, foi arrepiante e muito bem carregada de emoção.
Dona Quitéria e Erotildes comovem, embora possam ir mais fundo na intensidade das coisas, é importante lembrar que contar sua vida é sempre algo doloroso, muito doloroso. As maquiagens e a iluminação são muito funcionais, se bem que o vermelho do olho escoriado de João Paz, era vivo demais, destoando dos tons das feridas e inchaços do restante do elenco. Em um palco tão grande, os nichos iluminados conseguiram ambientar climas e sensações, ainda que as trocas pudessem ser melhor operadas. É preciso laurear o trabalho em equipe de Junior Lemes, Roberta Teixeira, Ana Kraemer, e Gabriel Ben. É muito importante valorizar equipes técnicas, são e coluna que mantém um espetáculo na vertical, vertical, uma palavra simples que o interprete de Doutor Cícero trocou por Horizontal, mudando o sentido de um texto que não poderia ser mudado. É preciso tomar cuidado!
Clara Devi, é sem dúvidas uma grande atriz, há porém uma certa ansiedade em concluir coisas que devem ter seu próprio tempo. É preciso ter mais auto confiança para merecer pisar nas sagradas tábuas, é preciso lembrar que no palco não somos nós, estamos encobertos por uma "máschara" que nos liberta de quem somos...
O que mais marcou a plateia da cidade anfitriã, foi justamente a capacidade de preencher um palco inteiro apenas com interpretação, e rica em ações que assemelhavam os atores à marionetes, até por isso sempre me pergunto por que os responsáveis pela trilha não optaram por Marche funèbre d'une marionnette de Gounod, muito a calhar.
A obra de Erico é catalogada como Realismo Fantástico, gênero que surgiu no século XX, especialmente na América Latina, como uma forma de expressar a realidade social e politica de forma mais abrangente e crítica, utilizando a fantasia como um meio de contornar a censura e denunciar a violência e a opressão, até por isso, talvez, seja tão salutar, levar esse tema, através do espetáculo, até o público adolescente.
Em meio ao espetáculo, quedas de ritmo, apontadas por sinais que o próprio diretor da em cena; alguns comentários da plateia e principalmente, ao final o aplauso de um público muito disposto. Como diz o próprio diretor: são dois espetáculos acontecendo, um do elenco em cena, outro do público, ambos atuaram bem...
Não costumo endossar espetáculos que ao final contam com uma explanação que nos reconta tudo o que acabamos de ver e que nos parece limitar a um grupo de idiotas medíocres, no entanto por se tratar de uma feira de livros e de não se tratar apenas de um espetáculo teatral, acho extremamente pertinente debater, falar de Erico e principalmente motivar os alunos a algo mais.
O Melhor: Sem dúvida a disponibilidade de Junior Lemes, artista que se destaca.
O pior: A falta de energia na primeira apresentação.
O Incidente - Tapera/RS
Cléber Lorenzoni
Carol Guma (**)(**)
Renato Casagrande
Ricardo Fenner
Junior Lemes (***)(**)
Antonia Serquevitio (**)(**)
Douglas Maldaner (**)(**)
Clara Devi (**)(**)
Roberta Teixeira (**)(**)
Ana Clara Kraemer (***)(**)
Gabriel Ben (**)(*)

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