ONDE ESTA A GANGRENA?
Ao conversar com alunos,
enquanto promovo debates sobre teatro, me pego observando suas visões sobre o
nosso ofício sagrado. Essa conversa é muito pulverizada as vezes, a partir do
momento que endossamos a ideia equivoca de que no teatro tudo vale, ou ainda,
de que o teatro não tem um objetivo especifico com a cena, ou seja, que você
pode colocar o que quiser sobre o palco e o público que pense o que bem
entender. Talvez, também, porque nos últimos tempos, as pessoas tenham passado
a acreditar que palco é lugar para conforto. Para afago. Para finais felizes.
Como se o único dever do artista fosse fazer o público sair sorrindo.
Eu discordo profundamente disso!
Nelson Rodrigues dizia que: As boas ações cabem a um jardim de infância. O teatro, é o lugar da GANGRENA.
Sempre achei essa imagem extraordinária.
Gangrena é aquilo que apodrece escondido sob a pele. É a ferida que
ninguém quer mostrar. É o cheiro que denuncia que existe algo profundamente
errado. E talvez seja exatamente essa a função do teatro: retirar as bandagens
da sociedade e obrigá-la a olhar para aquilo que insiste em esconder. Não me
entendam mal, eu não tenho definitivamente nada contra o teatro musical. Muito
menos contra os filmes da Disney. Eles cumprem uma função importante: alimentar
sonhos, encantar crianças, emocionar famílias. Há muita beleza nisso. Sem falar
que essa beleza que encanta, desperta o fascínio pelo faz de conta e pela arte
de interpretar.
Mas isso, sozinho, não
basta ao teatro, porquê, quando o palco existe apenas para confirmar que o
mundo é bonito, ele deixa de ser palco e passa a ser vitrine.
O verdadeiro teatro
precisa incomodar. Fazer perguntas para as quais alguns não se sentem prontos
para responder. Ele coloca o assassino diante da mãe da vítima. Coloca o
corrupto diante do espelho. Coloca o santo ao lado do canalha e, às vezes, nos
obriga a descobrir que ambos habitam a mesma pessoa.
O teatro não foi
inventado para massagear consciências. Foi inventado para desarrumá-las. Não
nasceu para preencher nossa necessidade de aplausos.
Existe, claro, espaço para
espetáculos delicados, doces, poéticos, mas ainda assim, eles estão a serviço
de: através da poesia, questionar algo! Eu mesmo acredito profundamente no
teatro feito com crianças. Acredito no teatro realizado com idosos. Nos dois
casos, muitas vezes, a delicadeza é necessária, sem falar que acolhimento
também é arte. Descobrir a própria voz, e todos temos uma, já é por si só,
revolucionário, vanguardista muitas vezes.
Mas, quando falamos da essência do
teatro, precisamos ir além do bonito. Porque o bonito passa e a pergunta
permanece.
Se o público sair do
espetáculo, exatamente igual ao que entrou, talvez tenha assistido a um bom
entretenimento, mas dificilmente viveu teatro.
O teatro é o lugar onde
as certezas adoecem. Onde os preconceitos são interrogados. Onde a moral perde
a maquiagem. Onde a sociedade é obrigada a contemplar suas próprias gangrenas.
E, meus senhores e senhoras,
é exatamente por isso que o teatro nunca será unanimidade. E nesse caso, ainda
bem! Se todos amassem o teatro, e tudo fosse flores e aplausos, talvez nossos
objetivos fossem outros e nossos desafios nos desmotivassem.
Pensemos bem: enquanto
houver alguém disposto a subir ao palco para dizer aquilo que ninguém deseja ouvir, haverá teatro. O
resto pode sim ser belo, mas não esqueçamos que sozinha, a beleza jamais foi
suficiente para transformar o mundo.
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