quarta-feira, 26 de abril de 2017

A Paixão de Cristo- Tomo único/2017 - 770

O que é teatro?

                              Essa pergunta me atrai, me atraem as respostas dadas, me atrai a dúvida. Não gosto muito de quem acha coisas, de quem faz suposições das coisas sem analisar a fundo, não gosto de quem sai pronunciando tolices inspirado em sua ignorância. A palavra tem poder! Há de se ter prudencia com ela. Gosto por outro lado de quem produz ideias, de quem pensa o mundo tentando impulsioná-lo. A "instituição" Grupo Teatral Máschara, com seus vinte e cinco anos, pensa, o mundo a seu redor, procura produzir ações que repercutam em algo bom, algo produtivo para o mundo a sua volta. 
                  Assim surgiu a encenação de A Paixão de Cristo. Um espetáculo teatral com interpretação, ação, trabalho corporal, técnica, enfim, tudo o que deve estar presente em uma boa encenação. Porém movidos, ou pela necessidade ou pela criatividade, o diretor do Máschara decidiu convidar voluntários dentre a comunidade para preencherem as fileiras da figuração. Figuração essa muito cheia de vida, muito presente e conhecida pelo público. Ora, a encenação foi concebida em uma grande cidade pequena. Aqui quase todos se conhecem de vista. Sendo assim, grande parte do público divertiu-se reconhecendo entre: apóstolos, romanos, mulheres de Jerusalém, dentre outros, seus amigos, parentes, conhecidos... 
                           No ano do jubileu de prata, a Cia. subiu mais um grande degrau em reconhecimento. Reconhecimento do poder público, reconhecimento das entidades religiosas, reconhecimento de outra grande parcela do público. As pessoas dizem que se conhecem, as pessoas julgam conhecer as outras, no entanto, não se conhece ninguém, nem mesmo após anos de um casamento, pode-se dizer que se conhece alguém. Mas creio que os figurantes/voluntários compreenderam um pouco mais da luta dos atores do Máschara. Muitos atores, poucos atores... Muitos para Cruz Alta, poucos para o que o Grupo se propõe, e então mais uma vez me questiono: -O que é teatro? O que é ser ator?
                              Não sou assídua frequentadora da igreja católica apostólica romana, prefiro buscar Deus (essa complexa invenção humana), dentro do prédio teatral. Ali, na criatividade do ator, na loucura do artista que quer se comunicar com seu público, no sofrido fracasso, ou no passageiro sucesso onde se evoca o deleite humano ou a tristeza da impotência, ali eu encontro Deus. E se ali há tanto desse Deus, então não poderia deixar de haver a presença de uma das mais filosóficas das criaturas: Cristo. 
                            O escritor Oscar Wilde, escreveu que a natureza de Jesus Cristo era igual à natureza do artista. Uma imaginação intensa, semelhante a uma chama. Segundo o escritor, Cristo, essa chama intensa, percebeu aquela afinidade imaginativa, que ao nível da arte é o único segredo da criação. Jesus  foi capaz de compreender a escuridão  do cego, a lepra do leproso,  a angústia dos que vivem apenas para o prazer, e a estranha pobreza dos ricos. Todos questionamentos dos artistas. Jesus era um poeta. Em toda a sua existência, nada se compara , pois em matéria de piedade e terror, nem Sófocles, nem Schiller conseguiram igualar-se em seus escritos. As tragédias gregas não elencaram tramas tão intensas. Aristóteles equivocou-se ao dizer que seria impossível suportar o espetáculo do sofrimento de alguém que não tivesse qualquer culpa. A paixão da ultima ceia, mesmo sabendo da traição. A negação do homem por quem ele construiria uma casa sobre a rocha. A dor da mãe que foi esposa de um Deus, mas que vê seu filho morrer sem apoio divino algum, o poderoso que pede uma bacia com água para tentar tirar a nódoa de culpa em sua alma. A disputa dos soldados pelo manto do beato. Jesus canta sua paixão por todos os lados como o jovem Apolo e então se entrega por esse mesmo amor. Ora eis aí a arte, a filosofia, o humanismo, o onírico. O que mais a platéia humana deseja? 
                          Por volta de quatro da tarde eu estava a postos, ansiosa. E então a atriz Raquel Prates subiu os degraus do primeiro tablado. Estava muito serena, inteira, dando a matiz daquele momento, a ceia, a ultima. E eu via nela, mesmo sem ela saber, o peso de toda uma historia de vinte e cinco anos, ela abria a tarde de teatro. Não podia falhar, não podia cair em meio a insatisfação da platéia. 
                      Ocorreram alguns minutos que pareceram uma eternidade e então o diretor do Máschara apontou travestido de Jesus. Um espanto pequeno e meio preconceituoso deu espaço a curiosidade e admiração. Sobre o palco atores e convidados misturaram-se tornando-se um só corpo. O corpo sagrado da interpretação. Da repetição valorosa de um gesto feito há dois mil anos, e que a repetição/teatro/encenação trouxeram até nós. 
                              Alcides, Guaraci, Jesmar, Roger e Amélio precisam ser mencionados e admirados. Aceitar o palco depois de uma certa idade é tarefa árdua, deveria ser simples e normal, mas vos digo, é preciso coragem. Pois conforme os anos passam, nos cobrimos de atrofiamentos da alma. Deixamos de lado a coragem infantil e nos tornamos escravos de um sem numero de conceitos. O grupo de rapazes sobre o palco, estava despido, estava entregue, e os adorei. Ótima caracterização e singela composição. Gabriel Giacomini me enchendo de orgulho, o menino de ontem, tornava-se o jovem ator de hoje. Mas o que é ser ator?
                            Um tanto atrasado, Ricardo Fenner adentrou a cena cheio de garra e foi no decorrer da encenação mostrando seu talento como sacerdote Kaifaz. Um talento que aflorou nos últimos anos, afinal a arte é a exposição de um sentimento experimentado pelo ator... A confusão na rua irritou alguns dos presentes, mas me ajudou a compreender um clima de desordem, uma certa barbarie que me impulsionou para o velho mundo. 
                              O público amontoou-se para ver a corte de Herodes Antípas, o filho daquele que mandou matar os inocentes na noite da estrela de Belém. Isadora de Azevedo como Salomé, embora atriz inexperiente, nos arrepiou até a alma desafiando João Batista. mergulhamos naquele pré julgamento equivocado e inseguro do rei composto por Fabio Novello, ator e artista plástico que concebeu grande parte dos adereços da encenação. Elisa Iv, atriz ijuiense não nos revelou sua personagem, mas nos instigou com seu talento presente em cada respiração. 
                              A balburdia instalou-se por mais tempo com o despreparo dos jovens lobinhos e com a intensidade do público presente que se acotovelava qual povo da Jerusalém do ano 33. Os integrantes do grupo Gambiarra preencheram a encenação com suas ações violentas como soldados romanos. Todos agregaram mérito ao trabalho, mas preciso elogiar Wesllei, Claudio e Antony, por sua dedicação, talento e interesse em dar o melhor de si. No entanto cada gesto, esforço, pés descalços, foram percebidos pelo público. Espero que desse grupo surjam atores para o Grupo Máschara. O trabalho precisa continuar...
                                Cléber Lorenzoni exorcizou suas dores, suas fraquezas, possivelmente suas mágoas para com cruz alta, sofreu. Eu mesma o vi chorar com o medo de uma criança machucada, com a dor de um velho cansado e com a prostração de um adulto desprotegido. Cada artista sabe as dores que evoca para estar em cena no drama, mas ali certamente havia o peso dos vinte e cinco anos de luta.
                          Renato Casagrande e Dulce Jorge provaram que são grandes atores, ele interpretando com técnica e empirismo grandes papéis, mas principalmente compreendendo a humanidade da proposta e da concepção do diretor. A interprete de Maria foi plástica, sua dor era graciosa, elegante e dolorosa como se esperava. Dezenas de pintores/artistas do mundo antigo foram evocados, homenageados nas partituras que a atriz buscou. 
                                 O público chorou, chorou vendo a maldade que Douglas Maldaner trouxe para seu chefe romano; o público chorou com a dor de Helcy Martins que se desfigurou como uma verdadeira atriz. O público chorou com os crucificados Evaldo Goulart e Cláudio Cirne que estiveram viscerais nas cruzes dispostas pelo palco. O público chorou com as lágrimas de Alessandra Souza como Madalena. O público exorcizou a violência com que a humanidade vem preenchendo os dias na terra. O público chorou em sua pequenez humana, vendo alguém apanhando injustamente e deve ter recordado o quanto apanhamos todos nós nessa confusa existência, onde pouco se sabe e apenas se espera... O público amou o teatro, o público agradeceu, aplaudiu emocionado. Não o Cléber Lorenzoni como Jesus, não a historia contada, mas a força, a determinação com que se fez tudo. E ainda que encabeçados por muitas cabeças, afinal cada um deu um pouco de si, cada figurante sacrificou-se, cada integrante que caiu no chão como Fernanda Peres e Carolina Kolinski, ainda assim, há uma força, uma ceta que luta incansavelmente. Que acorda todos os dias pensando no teatro e vai dormir na madrugada tentando solucionar o entreveiros de se fazer teatro em Cruz Alta. 
                            Cansada já no monumento e cercada por milhares de pessoas, chorei, chorei ao ver os romanos rasgarem os trajes de Cristo. Chorei quando o ator perguntou: -Pai, Pai, por que me abandonaste. Chorei quando aqueles dez homens ergueram seu semelhante, um homossexual assumido interpretando Jesus Cristo e o carregaram com pompa e circunstancia teatral até o sepulcro. 
                              O teatro, com sua existência pagã, dentro de um santuário, dentro de uma cidade pequena, admirado por sacerdotes cristãos. Eis o poder da interpretação, a força da vida humana representada. 
                              Enquanto admiradora do Máschara eu parabenizo cada membro dessa comunidade e principalmente os figurantes e participantes da primeira encenação da Paixão de Cristo feita nas ruas de Cruz Alta. Foi sem duvida uma data inesquecível. 
                               Foi arte em seu sinônimo: Vida!
                               Arte é vida!



                                                                  A Rainha

                                 
                                

                               
   

2 comentários:

  1. Só tenho uma palavra a dizer - GRATIDÃO!!!!

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  2. Momento único em minha vida.Foi uma bênção tudo que vive no anonimato.

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