Lirismo em Cena - Esconderijos do Tempo 69



             Depois de um mês sem Cena às 7, o Máschara voltou ao palco com Esconderijos do tempo, um espetáculo característico da transição de um grupo formado dentro do teatro amador para o ambiente do teatro profissional.  Um espetáculo com tão pouca preocupação comercial e ao mesmo tempo tão disposto a ousar, só poderia ser feito por um grupo repleto do idealismo do teatro amador, um pouco longe das considerações econômicas que logicamente regem a escolha de um repertório profissional  (Isso em questões de custos, não de qualidade).
            O espetáculo escrito por Dulce Jorge e Cléber Lorenzoni, inspirados na obra de Mario Quintana, é de um talento plástico ímpar e de estremo bom gosto. A direção e a concepção de Esconderijos do Tempo são extremamente felizes. Mesmo após 68 encenações, ainda há no espetáculo um cheirinho de coisa nova, recém-saída do forno. O elenco não parece cansado, robotizado pela repetição, pelo contrário, adentra a cena com um calor todo novo, uma inspiração motivadora.
            O espaço cedido por Marcos Gruhum, a meu ver não é adequado para o teatro, claro que algumas pessoas dizem que o teatro pode acontecer em qualquer lugar. Isso é ignorância certamente, pois logicamente cada espetáculo se presta ao espaço adequado para  aquilo que foi pré-concebido.  A equipe do Máschara consegue rapidamente transformar o espaço, no entanto a proximidade da rua, a falta de acústica, o espaço demasiado grande, são enfim, coisas que atrapalham o espetáculo.  No entanto tudo ocorreu bem, o que é reflexo de uma equipe organizada e  de um planejamento rigoroso.
              Um dos grandes problemas do teatro no interior, é a falta de atores tecnicamente preparados. São raros os casos em que a direção, pura e simples, é suficiente para a realização de um espetáculo.  Via de regra, torna-se necessário que o diretor seja, na realidade, um preparador de atores, quase um professor. Isso valoriza ainda mais o trabalha da direção do Máschara principalmente pelo fato de que com a constante partida de atores, já que a profissão é tão incerta, precisa estar sempre preparando novos atores.  Um desses casos é Fernanda Peres, que as pressas, com nove ensaios, subiu ao palco como “Glorinha”. (**) A atriz já nos é conhecida por outras substituições, mas o trabalho que conseguiu fazer dessa vez é no mínimo surpreendente. Esteve ótima, entregue, e nos convenceu muito bem como a geniosa namoradinha do poeta. Precisa apenas apresentar mais vezes o espetáculo para que a organização flua melhor. Alessandra Souza  esteve plena, a cena do “peixinho” foi delicada e singela. (***)A afinação melhorou muito, os tempos, a noção de espaço e o senso cênico.
              O Mario Quintana que nos foi dado nessa apresentação trouxe um colorido novo, mais cômico e menos depressivo, muito mais interessante, com um senso de humor perspicaz e inteligente. Para os atores do Máschara sempre é um bom momento para descobrir novas nuances em uma interpretação. (**) O volume de voz desse ator deve servir de exemplo e inspiração para os mais jovens. Roberta Queiroz esteve afastada do palco por muito tempo, vejo nela menos de composição, mas muito de postura. Sua passagem pelo palco foi simples mas intensa. Isto sem falar no senso organizacional que essa atriz tem nos bastidores. (***). É preciso estar atento a influência do amadorismo. Não falamos do amadorismo em tom de menosprezo, pois acreditamos que o teatro amador alcança muitas vezes, níveis surpreendentes; mas o que esperamos realmente de um teatro profissional  é uma sistematização, uma segurança, um acabamento técnico de ator e equipe técnica, que nos dê a certeza de que noite após noite, meses a fio, o espetáculo será o mesmo. O ator não pode se dar ao luxo de um dia não estar bem e por isso fazer incompetentemente sua parte, seu trabalho. Principalmente se está comercializando ingresso, cobrando entradas. Luis Fernando Lara não conseguiu grandes proezas em cena, fez sim sua parte, mas poderia ter marcado mais, a figura que compunha era coerente e preenchia as necessidades da personagem, mas ultrapassando a questão física, poderia estar mais dentro do papel. Ora seu Gouvarinho é um ótimo personagem, cômico, marcante. Nando Lara já fez parte do espetáculo no passado e deveria ter trazido mais saudosismo, mais nostalgia para a cena. O longo texto sobre "Bilú" passou mal compreendido e aseu soneto foi um tour de force.(**) Renato Casagrande é um grande ator, em continua ascensão, vem compreendendo melhor o oficio, se dedicando e logo estará preparado para qualquer papel. O anjo Malaquias tem força, presença, mas há algo de equivocado por parte da direção, em sua primeira aparição em cena. (**) 
                          Uma das últimas cenas do espetáculo cabe a Dulce Jorge, uma atriz sutil que sempre alcança o esperado em suas atuações, Dona Glorinha é graciosa e toca sublime o expectador. (**) Essa compreensão vem de sua maturidade cênica, de quem dedica mais de vinte anos ao fazer teatral. Na parte técnica Gabriela Oliveira (**) e Ricardo Fenner (**) não alcançaram grandes picos com luz e som, provavelmente por que também acumulem as funções de Camareira e Empresário. O grupo Máschara tem essa lacuna, um iluminador que assuma a responsabilidade inteira da iluminação, que crie, atue com a luz, cause climas. A sonoplastia agradável com Albinone, Massanet e outros, deveria ser mais sutil,  delicada. Entrar com alma, a alma com a qual Alessandra Souza fazia em outrora, a sonoplastia.
                              Esconderijos do Tempo foi, é e sempre será um grande espetáculo, e jamais deve ser abandonado, é o legado que um grande grupo deixa em prol da poesia.

                              A Rainha

            

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