quinta-feira, 2 de maio de 2013

Incidente em Antares em Tupanciretã

                   Como diz Bibi Ferreria, você não dirige um ator, você dirige um carro, dirige um ônibus, atores são seres, com livre arbítrio, com seus talentos, personalidades. Você apenas guia atores, auxilia-os a compreenderem seu ponto de vista (de diretor) sobre um espetáculo. Os atores gentilmente acrescentam ao seu espetáculo suas vivências, suas potencialidades quanto àquela historia que se está contando.
                  No Máschara existe atores, e existem alunos. Atores são aqueles que tem ideologias formadas ou em encaminhamento. São aqueles que tem instinto, que são capazes de improvisar coerentemente sobre algo do espetáculo. Atores, compreendem sua historia, de onde vieram e para onde vão. Atores tem noção da concepção do espetáculo, opinam e sabem aceitar seu espaço. Alunos são aqueles que ainda não aprenderam toda a organização teatral. Alunos são aqueles que tem preguiça de ler, ou mesmo pouco tempo para isso. Alunos não se importam muito com o público, pois estão mais preocupados em brilhar, em estar bonitos em cena. Alunos não leram o espetáculo do qual fazem parte, ainda são pouco observadores, não tem horário, tem pouca responsabilidade. Não dominam a técnica, são bons em um dia e no outro não conseguem repetir nem 20 % da interpretação anterior. Alunos não tem noção da inter-relação de sua personagem com as que o cercam. Alunos faltam ensaios, alunos não lembram de suas maquiagens, pois não se lembraram de tirar um retrato quando acertaram para depois repetir a mesma maquiagem. Alunos estão aprendendo e precisam que alguém lhes chame a atenção. Que alguém repreenda-os e exija para que se desenvolvam e tornem-se grandes atores... A pergunta é, quais de vós do Máschara, sois alunos e quais, sois atores...
                    Um espetáculo deve ser analisado a partir do que se vê pelo público em determinada apresentação, da repercussão naquela determinada situação. De como toca a platéia e da capacidade em ser verdadeiramente uma obra artística. 
                        Cada apresentação é uma apresentação, e o bom ator sabe adaptar-se a situação, triangular não só com o público, mas com todo o ambiente ao seu redor. O Incidente é o espetáculo mais chocante do Máschara, o que mais chega na platéia. Ofende, choca, surpreenda, agride, diverte. O Incidente completou hoje sua 75ª apresentação, e foi uma das mais incríveis. Na rua, com sol alto, em meio a uma platéia de mais de quinhentas pessoas. Entre um show musical e uma apresentação de CTG. Quando atores tem que fazer seu trabalho em condições precárias, é impossível não sentir pena, mas o que mais admiro no Máschara é essa capacidade louca, doida de adaptar-se aos espaços, solucionar rapidamente, abrir mão do que não é tão importante assim. 
                               Dava para perceber que a platéia estava muito interessada, que o teatro tem o poder de   
 realmente interessar, atrair. Afinal são os atores ali, vivos, próximos passando por algo interno. No elenco Cléber Lorenzoni  3º Cícero, Dulce jorge 1ª de três Quitérias, Ricardo Fenner 4º Menandro, Alessandra Souza 3ª Erotildes , Luis Fernando Lara 3º Barcelona, Diego Pedroso 5º Pudim  e Renato Casagrande 2º João Paz. Sete mortos, sete cadáveres, sete úteros abertos. Mesmo depois de tantas substituições o espetáculo continua firme, mérito de um grupo que trabalha detalhadamente cada construção, Cléber Lorenzoni continua debochado e pontual em seu Cícero Branco. Outro destaque vai para Dulce Jroge sempre muito inteira como Dona Quitéria e Diego Pedroso que mesmo depois de uma temporada afastado volta com presença muito eficaz. 
                                Visualmente Ricardo Fenner e Diego Pedroso compõe muito bem, provavelmente pela proximidade de uma imagem que muito se assemelha a ideia de Pudim e Menandro. Alessandra Souza peca na maquiagem, como se estivesse maquiada para o programa "Pequenos Heróis". Luis Fernando com boa energia mas com dicção prejudicada. As cenas também tiveram o ritmo prejudicado pelos microfones. "Senhores promotores de eventos" Teatro de rua e teatro de palco na rua, não são a mesma coisa! Cícero Branco e Menandro Olinda não chegam a nos dar muito de sua historia, embora claro seja apenas um fragmento do espetáculo, mas sinto falta de conhecer mais e de ver mais do talento de Renato Casagrande. 
                                  Para encerrar o que fica é o visual, o escracho, e a marcha dos mortos. E a pergunta quais são os alunos e quais são os atores?

Conjunto de atores +
Destaque Dulce Jorge e Diego pedroso C

               







E o Cena às 7 continua


segunda-feira, 22 de abril de 2013

Lirismo em Cena - Esconderijos do Tempo 69



             Depois de um mês sem Cena às 7, o Máschara voltou ao palco com Esconderijos do tempo, um espetáculo característico da transição de um grupo formado dentro do teatro amador para o ambiente do teatro profissional.  Um espetáculo com tão pouca preocupação comercial e ao mesmo tempo tão disposto a ousar, só poderia ser feito por um grupo repleto do idealismo do teatro amador, um pouco longe das considerações econômicas que logicamente regem a escolha de um repertório profissional  (Isso em questões de custos, não de qualidade).
            O espetáculo escrito por Dulce Jorge e Cléber Lorenzoni, inspirados na obra de Mario Quintana, é de um talento plástico ímpar e de estremo bom gosto. A direção e a concepção de Esconderijos do Tempo são extremamente felizes. Mesmo após 68 encenações, ainda há no espetáculo um cheirinho de coisa nova, recém-saída do forno. O elenco não parece cansado, robotizado pela repetição, pelo contrário, adentra a cena com um calor todo novo, uma inspiração motivadora.
            O espaço cedido por Marcos Gruhum, a meu ver não é adequado para o teatro, claro que algumas pessoas dizem que o teatro pode acontecer em qualquer lugar. Isso é ignorância certamente, pois logicamente cada espetáculo se presta ao espaço adequado para  aquilo que foi pré-concebido.  A equipe do Máschara consegue rapidamente transformar o espaço, no entanto a proximidade da rua, a falta de acústica, o espaço demasiado grande, são enfim, coisas que atrapalham o espetáculo.  No entanto tudo ocorreu bem, o que é reflexo de uma equipe organizada e  de um planejamento rigoroso.
              Um dos grandes problemas do teatro no interior, é a falta de atores tecnicamente preparados. São raros os casos em que a direção, pura e simples, é suficiente para a realização de um espetáculo.  Via de regra, torna-se necessário que o diretor seja, na realidade, um preparador de atores, quase um professor. Isso valoriza ainda mais o trabalha da direção do Máschara principalmente pelo fato de que com a constante partida de atores, já que a profissão é tão incerta, precisa estar sempre preparando novos atores.  Um desses casos é Fernanda Peres, que as pressas, com nove ensaios, subiu ao palco como “Glorinha”. (**) A atriz já nos é conhecida por outras substituições, mas o trabalho que conseguiu fazer dessa vez é no mínimo surpreendente. Esteve ótima, entregue, e nos convenceu muito bem como a geniosa namoradinha do poeta. Precisa apenas apresentar mais vezes o espetáculo para que a organização flua melhor. Alessandra Souza  esteve plena, a cena do “peixinho” foi delicada e singela. (***)A afinação melhorou muito, os tempos, a noção de espaço e o senso cênico.
              O Mario Quintana que nos foi dado nessa apresentação trouxe um colorido novo, mais cômico e menos depressivo, muito mais interessante, com um senso de humor perspicaz e inteligente. Para os atores do Máschara sempre é um bom momento para descobrir novas nuances em uma interpretação. (**) O volume de voz desse ator deve servir de exemplo e inspiração para os mais jovens. Roberta Queiroz esteve afastada do palco por muito tempo, vejo nela menos de composição, mas muito de postura. Sua passagem pelo palco foi simples mas intensa. Isto sem falar no senso organizacional que essa atriz tem nos bastidores. (***). É preciso estar atento a influência do amadorismo. Não falamos do amadorismo em tom de menosprezo, pois acreditamos que o teatro amador alcança muitas vezes, níveis surpreendentes; mas o que esperamos realmente de um teatro profissional  é uma sistematização, uma segurança, um acabamento técnico de ator e equipe técnica, que nos dê a certeza de que noite após noite, meses a fio, o espetáculo será o mesmo. O ator não pode se dar ao luxo de um dia não estar bem e por isso fazer incompetentemente sua parte, seu trabalho. Principalmente se está comercializando ingresso, cobrando entradas. Luis Fernando Lara não conseguiu grandes proezas em cena, fez sim sua parte, mas poderia ter marcado mais, a figura que compunha era coerente e preenchia as necessidades da personagem, mas ultrapassando a questão física, poderia estar mais dentro do papel. Ora seu Gouvarinho é um ótimo personagem, cômico, marcante. Nando Lara já fez parte do espetáculo no passado e deveria ter trazido mais saudosismo, mais nostalgia para a cena. O longo texto sobre "Bilú" passou mal compreendido e aseu soneto foi um tour de force.(**) Renato Casagrande é um grande ator, em continua ascensão, vem compreendendo melhor o oficio, se dedicando e logo estará preparado para qualquer papel. O anjo Malaquias tem força, presença, mas há algo de equivocado por parte da direção, em sua primeira aparição em cena. (**) 
                          Uma das últimas cenas do espetáculo cabe a Dulce Jorge, uma atriz sutil que sempre alcança o esperado em suas atuações, Dona Glorinha é graciosa e toca sublime o expectador. (**) Essa compreensão vem de sua maturidade cênica, de quem dedica mais de vinte anos ao fazer teatral. Na parte técnica Gabriela Oliveira (**) e Ricardo Fenner (**) não alcançaram grandes picos com luz e som, provavelmente por que também acumulem as funções de Camareira e Empresário. O grupo Máschara tem essa lacuna, um iluminador que assuma a responsabilidade inteira da iluminação, que crie, atue com a luz, cause climas. A sonoplastia agradável com Albinone, Massanet e outros, deveria ser mais sutil,  delicada. Entrar com alma, a alma com a qual Alessandra Souza fazia em outrora, a sonoplastia.
                              Esconderijos do Tempo foi, é e sempre será um grande espetáculo, e jamais deve ser abandonado, é o legado que um grande grupo deixa em prol da poesia.

                              A Rainha

            

Atrizes preparando-se para entrar em cena


Feriadão em Tupã