A régua
do teatro
Volta e meia me pego
diante do espelho. Não para conferir o figurino ou repetir um texto, mas para
encarar uma pergunta que todo ator deveria fazer a si mesmo: Será que sou tudo aquilo que imagino ser?
O espelho é um
sujeito curioso. Ele costuma concordar conosco. Se acreditamos que somos
grandes atores, ele nos devolve um grande ator. Se pensamos que merecemos
sucesso, ele também parece confirmar. O problema é que existe um espelho muito
mais honesto do que aquele pendurado na parede.
Esse espelho se chama teatro.
E esse não mente!
O teatro devolve
exatamente aquilo que recebe. Nem mais. Nem menos.
Às vezes
temos a impressão de que estamos nos sacrificando. Que fazemos grandes
esforços. Que ensaiamos bastante. Que abrimos mão de muitas coisas. Que somos
dedicados. Mas será mesmo?
Quem responde essa
pergunta não somos nós. Quem dita a régua é o próprio teatro. Façamos o seguinte: Olhemos para o lado...
Quase sempre existe
alguém chegando antes do ensaio. Alguém estudando mais um texto. Alguém
pesquisando uma referência. Alguém treinando o corpo enquanto os outros
descansam. Alguém disposto a fazer um pouco mais. Há alguém que corre ler um
livro, quando o diretor dá um tema. Pessoas que não ficam se revoltando, ao
contrário, baixam a cabeça e trabalham. Não pelo dinheiro, não pelo sucesso, mas
pelo teatro. Quando percebemos isso, entendemos que talvez o nosso máximo ainda
não seja o máximo.
O teatro tem uma
personalidade complexa. Eu costumo dizer que ele é ciumento. E também
possessivo. Ele não aceita ser apenas mais um compromisso na agenda. Não gosta
de ficar atrás da preguiça, do ego, da vaidade ou das desculpas.
O teatro exige
prioridade! Presença, disciplina e entrega.
Para merecer o
aplauso não basta decorar falas. Não basta vestir um figurino bonito. Não basta
acreditar que se tem talento. É preciso colocar o palco em primeiro lugar, colocar
o ofício acima do orgulho.
Compreender que amar
o teatro não é dizer que o ama. É demonstrar isso todos os dias.
Claro que não é
fácil escolher o teatro, já que ele cobra tempo. Cobra renúncias. Cobra estudo.
Cobra cansaço. Cobra finais de semana. Cobra a coragem de continuar quando
ninguém está olhando. E é por isso que eu digo que o teatro é tão justo. Já vi
atrizes esperando por troféus, se esforçando, mas depois reclamando desse
esforço já que não ganharam nada. O teatro conhece nossos sonhos e desejos. Sabe
quando mentimos. Sabe quando fazemos por obrigação e não por amor ao público,
ou ao chão sagrado do palco.
Então, no fim das
contas, o espelho pode até nos convencer de que somos grandes atores, mas é o
teatro quem decide se estamos prontos para sê-lo. Não, não é o diretor, é o
teatro dentro de cada um de nós! E prestem atenção, essa decisão nunca será
tomada diante do reflexo, diante de uma expectativa baseada em likes.
Ela será tomada
diante da entrega. Porque, no teatro, o aplauso não pertence a quem sonha com
ele, mas pertence a quem fez por merecê-lo.