terça-feira, 21 de julho de 2026

Artigo para artistas de teatro V

 

                A régua do teatro

                           Volta e meia me pego diante do espelho. Não para conferir o figurino ou repetir um texto, mas para encarar uma pergunta que todo ator deveria fazer a si mesmo: Será que sou tudo aquilo que imagino ser?

                          O espelho é um sujeito curioso. Ele costuma concordar conosco. Se acreditamos que somos grandes atores, ele nos devolve um grande ator. Se pensamos que merecemos sucesso, ele também parece confirmar. O problema é que existe um espelho muito mais honesto do que aquele pendurado na parede.

                           Esse espelho se chama teatro.

                           E esse não mente!

                           O teatro devolve exatamente aquilo que recebe. Nem mais. Nem menos.

Às vezes temos a impressão de que estamos nos sacrificando. Que fazemos grandes esforços. Que ensaiamos bastante. Que abrimos mão de muitas coisas. Que somos dedicados. Mas será mesmo?

                           Quem responde essa pergunta não somos nós. Quem dita a régua é o próprio teatro.  Façamos o seguinte: Olhemos para o lado...

                           Quase sempre existe alguém chegando antes do ensaio. Alguém estudando mais um texto. Alguém pesquisando uma referência. Alguém treinando o corpo enquanto os outros descansam. Alguém disposto a fazer um pouco mais. Há alguém que corre ler um livro, quando o diretor dá um tema. Pessoas que não ficam se revoltando, ao contrário, baixam a cabeça e trabalham. Não pelo dinheiro, não pelo sucesso, mas pelo teatro. Quando percebemos isso, entendemos que talvez o nosso máximo ainda não seja o máximo. 

                           O teatro tem uma personalidade complexa. Eu costumo dizer que ele é ciumento. E também possessivo. Ele não aceita ser apenas mais um compromisso na agenda. Não gosta de ficar atrás da preguiça, do ego, da vaidade ou das desculpas.   

                           O teatro exige prioridade! Presença, disciplina e entrega.

                            Para merecer o aplauso não basta decorar falas. Não basta vestir um figurino bonito. Não basta acreditar que se tem talento. É preciso colocar o palco em primeiro lugar, colocar o ofício acima do orgulho.

                           Compreender que amar o teatro não é dizer que o ama. É demonstrar isso todos os dias.

                           Claro que não é fácil escolher o teatro, já que ele cobra tempo. Cobra renúncias. Cobra estudo. Cobra cansaço. Cobra finais de semana. Cobra a coragem de continuar quando ninguém está olhando. E é por isso que eu digo que o teatro é tão justo. Já vi atrizes esperando por troféus, se esforçando, mas depois reclamando desse esforço já que não ganharam nada. O teatro conhece nossos sonhos e desejos. Sabe quando mentimos. Sabe quando fazemos por obrigação e não por amor ao público, ou ao chão sagrado do palco.

                          Então, no fim das contas, o espelho pode até nos convencer de que somos grandes atores, mas é o teatro quem decide se estamos prontos para sê-lo. Não, não é o diretor, é o teatro dentro de cada um de nós! E prestem atenção, essa decisão nunca será tomada diante do reflexo, diante de uma expectativa baseada em likes.  

                           Ela será tomada diante da entrega. Porque, no teatro, o aplauso não pertence a quem sonha com ele, mas pertence a quem fez por merecê-lo.