quarta-feira, 8 de julho de 2026
segunda-feira, 6 de julho de 2026
Artigo III- Para atores e gente do ofício
ONDE ESTA A GANGRENA?
Ao conversar com alunos,
enquanto promovo debates sobre teatro, me pego observando suas visões sobre o
nosso ofício sagrado. Essa conversa é muito pulverizada as vezes, a partir do
momento que endossamos a ideia equivoca de que no teatro tudo vale, ou ainda,
de que o teatro não tem um objetivo especifico com a cena, ou seja, que você
pode colocar o que quiser sobre o palco e o público que pense o que bem
entender. Talvez, também, porque nos últimos tempos, as pessoas tenham passado
a acreditar que palco é lugar para conforto. Para afago. Para finais felizes.
Como se o único dever do artista fosse fazer o público sair sorrindo.
Eu discordo profundamente disso!
Nelson Rodrigues dizia que: As boas ações cabem a um jardim de infância. O teatro, é o lugar da GANGRENA.
Sempre achei essa imagem extraordinária.
Gangrena é aquilo que apodrece escondido sob a pele. É a ferida que
ninguém quer mostrar. É o cheiro que denuncia que existe algo profundamente
errado. E talvez seja exatamente essa a função do teatro: retirar as bandagens
da sociedade e obrigá-la a olhar para aquilo que insiste em esconder. Não me
entendam mal, eu não tenho definitivamente nada contra o teatro musical. Muito
menos contra os filmes da Disney. Eles cumprem uma função importante: alimentar
sonhos, encantar crianças, emocionar famílias. Há muita beleza nisso. Sem falar
que essa beleza que encanta, desperta o fascínio pelo faz de conta e pela arte
de interpretar.
Mas isso, sozinho, não
basta ao teatro, porquê, quando o palco existe apenas para confirmar que o
mundo é bonito, ele deixa de ser palco e passa a ser vitrine.
O verdadeiro teatro
precisa incomodar. Fazer perguntas para as quais alguns não se sentem prontos
para responder. Ele coloca o assassino diante da mãe da vítima. Coloca o
corrupto diante do espelho. Coloca o santo ao lado do canalha e, às vezes, nos
obriga a descobrir que ambos habitam a mesma pessoa.
O teatro não foi
inventado para massagear consciências. Foi inventado para desarrumá-las. Não
nasceu para preencher nossa necessidade de aplausos.
Existe, claro, espaço para
espetáculos delicados, doces, poéticos, mas ainda assim, eles estão a serviço
de: através da poesia, questionar algo! Eu mesmo acredito profundamente no
teatro feito com crianças. Acredito no teatro realizado com idosos. Nos dois
casos, muitas vezes, a delicadeza é necessária, sem falar que acolhimento
também é arte. Descobrir a própria voz, e todos temos uma, já é por si só,
revolucionário, vanguardista muitas vezes.
Mas, quando falamos da essência do
teatro, precisamos ir além do bonito. Porque o bonito passa e a pergunta
permanece.
Se o público sair do
espetáculo, exatamente igual ao que entrou, talvez tenha assistido a um bom
entretenimento, mas dificilmente viveu teatro.
O teatro é o lugar onde
as certezas adoecem. Onde os preconceitos são interrogados. Onde a moral perde
a maquiagem. Onde a sociedade é obrigada a contemplar suas próprias gangrenas.
E, meus senhores e senhoras,
é exatamente por isso que o teatro nunca será unanimidade. E nesse caso, ainda
bem! Se todos amassem o teatro, e tudo fosse flores e aplausos, talvez nossos
objetivos fossem outros e nossos desafios nos desmotivassem.
Pensemos bem: enquanto
houver alguém disposto a subir ao palco para dizer aquilo que ninguém deseja ouvir, haverá teatro. O
resto pode sim ser belo, mas não esqueçamos que sozinha, a beleza jamais foi
suficiente para transformar o mundo.
terça-feira, 30 de junho de 2026
ARTIGO II - Para atores e gente do Ofício
MANIFESTO DO SISTEMA MÁSCHARA
Durante
uma reunião dos professores do Dia D, enquanto analisava o olhar que cada um
tem sobre o teatro do Máschara, me dei conta de que precisava trazer para o
papel algo que há muito tempo habita meus pensamentos. Precisava escrever sobre
o sistema. O sistema Máschara de teatro.
Não um
método fechado. Não uma fórmula pronta. Não uma receita capaz de transformar
qualquer pessoa em ator. Pelo contrário. Talvez a primeira característica do
nosso sistema seja justamente compreender que cada ser humano é único. No
Máschara, cada um é um. Todo ator não fará todos os papéis. Existe um papel que se conecta contigo! Esse olhar pode parecer simples, mas ela
sustenta boa parte do que fazemos. Há um respeito profundo pela individualidade
criativa de cada aluno, de cada ator, de cada pessoa que cruza o caminho do
grupo. Não buscamos fabricar artistas em série. Não queremos que todos pensem
igual, interpretem igual ou criem igual. Queremos que descubram sua própria
voz.
Afinal, o teatro não nasce da repetição. O teatro nasce do encontro
entre diferentes formas de enxergar o mundo. Talvez por isso nosso trabalho vá
muito além dos espetáculos. Quem entra no Máschara precisa compreender que faz
mais do que teatro. Faz um trabalho social. Quando um ator visita uma escola,
quando participa de uma atividade em um bairro, quando sobe ao palco de uma
comunidade distante, quando conversa com uma criança que nunca havia assistido
a uma peça ou com um idoso que carrega décadas de histórias para contar, ele
não está apenas representando. Está construindo pontes. Está ajudando a
transformar vidas. E, inevitavelmente, também está transformando a própria.
O sistema Máschara acredita na arte como
ferramenta de crescimento humano. Por isso buscamos constantemente a técnica e
o conhecimento. Estudamos. Pesquisamos. Experimentamos. Erramos. Recomeçamos.
Aprendemos com os livros, com os mestres, com os colegas e, principalmente, com
o palco.
Não vamos
esquecer, queridos palacianos, que talento sem estudo, se acomoda. Não importa
quantos livros tenhamos lido, a partir do momento que paramos de estudar, enferrujamos.
E além disso, cabe a premissa de que técnica sem humanidade perde o sentido.
Mas
há, ainda, um outro valor que sustenta o nosso sistema: o respeito. Respeito por
aqueles que vieram antes de nós. Nenhum ator sobe sozinho ao palco. Atrás de
cada espetáculo existem gerações de artistas que abriram caminhos, enfrentaram
preconceitos, carregaram cenários, escreveram textos, construíram grupos e
defenderam a cultura quando isso parecia impossível. Somos herdeiros dessas
pessoas, Helquer Paez, Dulce Jorge, Cesar Dors, GIane Ries, Seu Jorge... Mais tarde, aprendemos e vimos artistas como Alexandre Dill, Simone De Dordi,
Angelica Ertel ou Gabriel Wink, criando, produzindo... Temos a responsabilidade
de honrar esse legado, que não ficará em museus, que não estará em livros, ele
se perderá... Ou ficará vivo, em nós.
Visualizar tudo isso, refletir sobre, nos torna seres pensantes.
Mas
o teatro não nos dá respostas prontas, ele nos ensina a fazer perguntas. A
observar. A refletir. A compreender que o mundo é maior do que nossas certezas.
O teatro nos ensina a olhar para o outro. E é justamente esse olhar que conecta
tudo aquilo que fazemos. As aulas com idosos. As aulas com crianças. Os
espetáculos. Os festivais. As oficinas. As turmas que acompanho em Alegrete. Os
ensaios no Palacinho. À primeira vista, tudo isso pode parecer atividades
diferentes. Mas não são. Tudo faz parte de um grande projeto de vida. Um grande
projeto de cultura. Um grande projeto de gente.
Porque o sistema Máschara não foi construído apenas para formar atores.
Foi construído para formar cidadãos sensíveis, criativos, conscientes e
comprometidos com a comunidade onde vivem. No fim das contas, é isso que nos
move. Estamos a serviço das gentes. Porque o teatro só faz sentido quando
encontra alguém. E talvez o verdadeiro sistema Máschara seja exatamente isso:
colocar a arte a serviço da vida.
segunda-feira, 29 de junho de 2026
Família Máschara
quarta-feira, 24 de junho de 2026
segunda-feira, 22 de junho de 2026
Artigo I - Para atores e gente do oficio
Texto para ser lido sob bambolinas
Enquanto caminho em direção ao Palacinho para
mais um ensaio, vou tentando construir uma boa cena dentro da cabeça. Às vezes
ela já nasce quase pronta. Outras vezes vem aos pedaços, como quem não quer se
revelar de uma vez. Nesse trajeto, porém, me divirto me colocando no lugar dos
atores. Eu sou ator antes de ser diretor, essa é minha natureza e um ator carrega
dentro de si dezenas de vidas, centenas de emoções e uma capacidade
extraordinária de emprestar o próprio corpo para que, alguém que não existe
possa existir diante do público. Mas também sei que, muitas vezes, eles não
sabem por onde começar. O teatro, as
vezes parece grande demais para caber numa definição simples.
Volta e meia me pergunto
o que é, afinal de contas, o teatro. E quanto mais penso, menos consigo
reduzi-lo a uma técnica, a uma arte ou a um espetáculo. Para mim, teatro é
comunicação. É o encontro mais antigo e mais sincero entre alguém que tem algo
a dizer e alguém disposto a ouvir, por isso acredito que o teatro precisa ser
atraente. Não no sentido superficial de apenas divertir, mas no sentido de
capturar a atenção das pessoas para então provocar reflexão, despertar
sentimentos, informar, transformar ou até mesmo incomodar. Um espetáculo pode
arrancar gargalhadas e ainda assim fazer pensar. Pode emocionar e, ao mesmo
tempo, ensinar. Pode entreter e transformar uma comunidade inteira.
O público não se senta
diante de um palco para assistir a um exercício de vaidade. Ele vai em busca de
uma experiência. E cabe a nós oferecer algo que dialogue com a sua realidade,
com seus sonhos, seus medos e suas perguntas. É PRECISO SE COLOCAR NO LUGAR DAS
PLATEIA “O QUE VOCÊ TEM A DIZER É MUITO IMPORTANTE PARA ELA”. Talvez por isso o primeiro trabalho que
costumo indicar aos meus atores não seja decorar o texto. Claro que decorar é
importante. O texto é a estrada. Mas não é a viagem. O primeiro exercício é
ouvir. Ouvir de verdade.
Escutar o parceiro de
cena. Escutar as pausas. Escutar os silêncios. Escutar até aquilo que não foi
dito. Porque quando um ator está realmente ouvindo, ele deixa de apenas repetir
palavras decoradas e passa a reagir ao que acontece naquele instante. A cena
fica viva.
E a resposta surge quase
como um mecanismo de defesa. Alguém lança algo no palco e o personagem
responde. Não porque chegou a sua vez de falar, mas porque algo o atingiu. E
quando isso acontece, o público percebe. Talvez não saiba explicar, mas
percebe. Existe uma enorme diferença entre dizer uma fala e responder uma
fala. Dizer é reproduzir. Responder
é viver.
É por isso que sempre
insisto que as personagens não são construídas apenas pelos seus discursos.
Elas nascem da troca. Das réplicas. Das reações. Do que recebem e do que
devolvem. Um personagem é aquilo que fala, mas principalmente aquilo que escuta.
Quando dois atores realmente se ouvem, o texto ganha respiração. As palavras
deixam de ser um monumento imóvel e passam a ser uma conversa. E o teatro, que
às vezes corre o risco de virar mera repetição, volta a ser aquilo que nasceu
para ser: UMA CERIMÔNIA!
Talvez seja por isso que
sigo pensando em teatro enquanto caminho para os ensaios. Porque cada cena
ainda é uma pergunta sem resposta definitiva. E porque acredito que o palco
continua sendo um dos poucos lugares onde seres humanos podem se reunir para
ouvir e serem ouvidos.
No fim das contas, talvez o
teatro seja exatamente isso: uma conversa que nunca termina. Agora eu, diretor,
te pergunto, você ouve o outro em cena?
sexta-feira, 19 de junho de 2026
quarta-feira, 17 de junho de 2026
Texto Paixão de Cristo, por Kléber Lorenzoni-2018
Paixão de Cristo – ANO –II
Cena 1
José de Arimatéia, Anaz,
Matheus, Mulher Adultera, Madalena, Kaifaz, figurantes
José
de Arimateia- Voz ouvistes falar de um homem que anda pelas
ruas como salvador do mundo, que prega contra a injustiça!
Anaz-
Jesus de Nazaré, Um homem que se levanta contra as leis, grandes multidões o
ceguem, um farsante...
Kaifaz-Ele
invadiu o templo, expulsou quem lá dentro comercializava honestamente,
derrubando bancas e agredindo gente do bem! É um agitador.
José
de Arimateia- Mas a
verdade é que expulsou os vendilhões! Curou o cego, beijou o leproso,
não é verdade Kaifaz?
Anaz-Ele
é inimigo do templo! Insufla o povo contra nós!
terça-feira, 16 de junho de 2026
terça-feira, 9 de junho de 2026
Texto técnico- O terceiro teatro
AULA VIII – O Terceiro Teatro
Ao mergulharmos na caminhada
do teatro, precisamos compreender de onde viemos e para onde vamos em nossa
caminhada. Nossa história é a história de milhares de outros homens e mulheres
pelo mundo todo. O Teatro de grupo é a base do teatro em cidades pequenas, em
vilarejos, em escolas e em tantos outros espaços onde nasce a necessidade de
transformar.
O encenador italiano Eugenio
Barba classifica o teatro ocidental em três vertentes com base em suas
estruturas, produções e propósitos: o Primeiro Teatro (institucional e
comercial), o Segundo Teatro (vanguarda e experimental) e o Terceiro
Teatro (grupos independentes que operam à margem do sistema).
· Primeiro Teatro (Teatro
Oficial/Institucional): É o teatro tradicional, subvencionado pelo Estado, altamente comercial
ou focado na indústria do entretenimento. Depende de grandes orçamentos,
diretores famosos e segue normas rígidas focadas no texto.
·
Segundo
Teatro (Teatro de Vanguarda): Focado na experimentação radical e na quebra de
paradigmas. Busca a inovação constante e a superação da tradição, mas costuma
depender de apoio acadêmico, elitista ou de espaços subsidiados para
sobreviver.
· Terceiro Teatro (Teatro de Grupo/Independente): O
conceito cunhado por Barba em 1976. São grupos independentes à margem tanto do
sistema comercial quanto das vanguardas. Sobrevivem graças à ética, à
disciplina (treinamento) e à relação direta com a comunidade, sendo o próprio Odin
Teatret o maior exemplo dessa prática.
sexta-feira, 5 de junho de 2026
quarta-feira, 3 de junho de 2026
A política do Status
DISSECANDO O STATUS
Keith Johnstone criou os princípios hierárquicos baseado em energias de cena, em meados do século passado. Para ele o conceito de status não é estático. É um jogo físico e verbal de dominação ou submissão momentânea que os atores usam para definir a relação entre os personagens.




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