terça-feira, 7 de abril de 2026

1333- Me dê sua mão (tomo 04) Turnê Paixão de Cristo

              Foi sob o Portão Dourado, um dos oito da cidade velha de Jerusalém, que Ana e Joaquim se encontraram, e ali ela comunicou a concepção de Maria. O casal residia em Jerusalém, ao lado do tanque de Betseda, onde hoje também está localizada a Basílica de Santana, construída no século XII pelos cruzados. Nada é por acaso, são frases, acontecimentos e energias que estão ao nosso redor como ondas de rádio, que vão conectando o ontem e o amanhã. Talvez, nesse tempo de guerras, que coloca em risco as riquezas do passado, venhamos a perder parte da historia que fica encrava em Jerusalém. Mas seguimos com o teatro, como forma de recontar e redescobrir o passado. Não sabemos se ele foi mágico, ou divino, mas é mister contar o passado para as novas gerações. 

                Aos pés da Catedral de Sant'ana em Uruguaiana, no último domingo, um arrepio energético deve ter percorrido os atores e atrizes. A avó de Jesus estava ali presente, com uma congregação que tomou o largo da praça Barão do Rio Branco. Havia um vento frio percorrendo os espaços entre os corpos, de forma que estar amontoados, próximos, era a melhor forma de aquecer o corpo. E foi com essa aquecida unidade de massa humana que os atores foram recebidos, em uma meio a uma grande meia lua, voltada para as escadarias centenárias da edificação monumental. 

                  Era um Jesus pleno que falava com seus colegas de cena, aqueles que haviam decidido seguir não o Nazareno, mas ali o Lorenzoni. Os palcos não eram muito altos, o que aproximava a plateia, a colocava quase dentro da cena. O texto pronunciado com ritmo muito poético foi comovendo e envolvendo e rapidamente o público estava imbuído, mantendo-se firme pelas duas horas de evento. Lorenzoni atua em uma energia perigosa, em um "fio de navalha", deixando as vezes, os colegas tensos, ao mesmo tempo, sempre ligados. Tudo pode acontecer. Marcas mudam de lugar, gestos surgem, ao ponto de o vermos sumir para dentro da igreja no meio da cena. Clara Devi, tentando solucionar pão e vinho, mudando marcas para adaptar-se aos palcos, também merece aplausos, talvez seja essa postura que buscamos em uma atriz de status III (***). Seu visual, mérito do camareiro R.C. ficou esplendido, uma pena terem nos dado esse visual apenas no ultimo dia. Foi a noite também da preciosa Serquevitio. Que elevou a régua do que se espera de um membro do Máschara, sua "Lamassu" vigiou Jesus por todo o espetáculo. Prova disso foi sua presença até mesmo aos pés da cruz, como se observasse se Jesus realmente iria padecer no madeiro. Nem mesmo a pureza do casamento escapou de suas mãos. (***) 

                 O núcleo familiar de Jesus fica muito claro, e a importância desse pilar para a narrativa se estabelece quando Jesus está no topo da escada com a vó, cercado pelo tio Labão, o primo Judas, sua Tia Salomé e logo depois as crianças, seus sobrinhos Hannah, Agnes e Joaquim. A tribo que ele menciona, é a tribo humana, somos todos parentes, todos estamos conectados. Marli Guma representou muito bem a personagem Ana, adaptando-se as escadarias (***), Izis manteve-se de pé junto à coluna, obscurecendo um pouco a cena,(**) e em um momento ficou presa junto ao palco da cruz, enquanto Kaifaz adentrava a cena. Priscila adaptou-se como pode, e infelizmente não esteve no palco pontual a espera da segunda queda de Jesus. (**) Mas foi de uma força magistral em todas as cenas de Maria. Estamos ansiosos por vê-la em novos papeis. Ana Clara Kraemer(**), Kleberson Ben (***) e Renato Casagrande  tiveram a difícil tarefa de vestir os colegas, sonorizar o espetáculo e ainda atuar. Uma lástima o Máschara não ter um profissional da área próprio e unicamente voltado para a parte técnica. Ana é discreta e essa é sua maior qualidade no propósito. Kleberson atua bem, mas deve buscar mais personalidade cênica. Casagrande comanda o show, certamente um ator pronto. Mas precisa ter mais calma nos bastidores. 

                           Esse ano, o Máschara abriu ainda mais os espaços concedidos a artistas de fora, Pejuçara, Soledade e Rosário do Sul se fizeram presentes através de dedicados artistas. Didy Flores por exemplo, cresceu muito, em 2025 havia, se não me engano, interpretado o discípulo Pedro, agora volta com um apóstolo, um soldado e o Rei Herodes, (***) sua atuação na corte deu o tom perfeito da cena e sua triangulação com o restante do elenco foi perfeita. Carol Guma como a temida Herodíades, acrescentou mais uma grande personagem para sua galeria (***), mas foi nos camarins, conduzindo, aconselhando, acalmando, que essa atriz brilhou como uma das "grandes" do Máschara. Gustavo Ferreira, ganhou uma aposta em seu talento, o Judas que construiu foi muito bem preparado, há na gravação  um tom monotônico, que pode ser trabalhado apra os próximos trabalhos. Mas foi como Sansão, conselheiro de Herodes, (**) que o ator foi brilhando e preenchendo com maestria o palco. Na ultima investida porém, me pareceu um tanto over, a sua cena. É preciso cuidar a energia que se dispõe em uma personagem, pois quando se passa da energia podemos colocar em jogo também a atuação dos colegas, véus que caem, exageros em empurrões, etc...  Rosiane Moraes acabou por se tornar quase uma honorária do Máschara, vindo de longe para fazer  parte das fileiras. Sua delicadeza e esforço aparecem na cena, e a garra de sua Samaritana deram o tom no primeiro bloco do espetáculo,(***) com uma intensidade necessária à narrativa. Renam Queiróz(**), Rafael Muller(**) e Gustavo dos Santos (***) cumpriram com funcionalidade seus desafios cênicos. Talvez a direção não tenha deixado claro o suficiente que o menino de primeira cena que estende a mão, se torna mais tarde o apóstolo interpretado por Rafael. Gustavo parece ser um ator bastante humilde com fome de aprender, e se venceu distancias, para dar conta de todos os desafios que lhe foram propostos. Ao lado de Antonia Serquevito e Pedro Loso (***), deram vida a três demônios poderosos, mais que seu texto, somaram à estética, uma organicidade fabulosa. Aplausos para a jovem Tayla Plauts (**), que apesar de ter gravado as falas da segunda aparição da Samaritana, abriu mão para a colega. Palmas para Michely Moura, que no ultimo dia enfrentou novos desafios (**); Ana Costa tornou-se a mãe coragem, (**) que além de ter vários filhos, negou-se em um primeiro momento a entregá-lo vida. Outra característica marcante da atriz, foi sua entrega cênica ao lado de Maria, aos pés da cruz. Ricardo Fenner encarna mais uma vez o velho sacerdote do templo, e faz um bom jogo de cena com Rosber Brandão (***) e com Jesmar Peixoto (***). No núcleo dos poderosos Junior Lemes (**) como Pilatos, foi colocado em um palco distante e acabou brilhando mais como tio Labão. Valentina Lemes (*) esteve bastante ansiosa em cena, e algo aconteceu ante sua entrada na cena da ceia, o que acabou por causando a não distribuição correta dos pães e assim não promovendo a transubstanciação, necessária dentro do significado do cristianismo. 

                Ravi Dantas(**), Aurora Serquevitio(**) e Bella Chiesa(**) roubam a cena, muito bela doçura de suas figuras. Felipe Brandão(**) e Kevin Dijon(**) podem focar mais; Alex Pugliezzi,(**), Giovana Lopes(**), Jesabel da SIlva (**), foram constantes e bons companheiros de cena. Douglas Maldaner e Roberta Teixeira foram intensos, vívidos. Maldaner, tem sim suas dificuldades e vícios cênicos, mas preenche muito bem o palco e é um bom braço direito (***) e Teixeira, vem crescendo nos bastidores, com percepções e criatividade cênica, pena não te recebido um papel de maior destaque (***).

                            A apresentação em uruguaiana foi a ultima da temporada e deixará saudade. O empenho desse grupo que ensina atores e não atores a se posicionarem em um palco a céu aberto, com desafios grandiosos, merece todo o nosso apoio. Ao final o diretor trocou algumas palavras com a assistência, emocionando ainda mais e provando por que artistas são comunicadores.


O Melhor : O vigor dos membros do Maáschara, preparados para enfrentar qualquer tipo de situação sem esmorecer.

O Pior: A iluminação bastante fraca em várias cenas, contrastando com a super produção proposta pela administração e SESC.


Arte é Vida


                        

A família Coelho!!!


 

As mulheres na santa ceia


 

sábado, 4 de abril de 2026

1329 -Me dê sua mão - (tomo 03) Paixão de Cristo Ano VIII

Um teatro de texto

       Teatro tem mais a ver com dramaturgia, do que com texto propriamente dito, mesmo porque muita coisa é dita através da semiótica, sem a necessidade da verbalização. No entanto, há textos que são verdadeiras poesias, e que tem como qualidade, valorizar a palavra dita, bem pronunciada. De todos os textos escritos para as oito edições de A paixão de Cristo, do Máschara, esse ultimo foi o que mais me tocou, mais me fez refletir, me fez ver realmente do que se está falando e do que se trata esse gênero teatral.
               O jogral dito por todo o elenco, cria uma força poderosa, e é interessante perceber ali, que o teatro é pleito, é grito, é revolta. É força! Todo o prólogo me faz pensar em várias questões: eu saí de casa realmente, para ver teatro, não para ver apenas uma encenação. O teatro é gangrena, como já dizia Nelson Rodrigues, é ferida aberta. Nossas feridas estão todas abertas. O Jesus de dois mil anos atrás, segue dentro de cada um de nós. ELE, que foi antes de tudo um poeta, como já dizia Oscar Wilde, deixou um tributo ao amor. O Amor! Mas nós, no mundo atual, somo incentivados, todos os dias, a sermos egoístas, a buscarmos nosso lugar, a nos defendermos, a vencermos, e muitas vezes, passarmos por cima de outros. Para amar do jeito que Jesus falava, é preciso baixar a guarda, é preciso todos os dias, trabalhar a humildade, o desprendimento... 
                A estruturação do espetáculo segue a linha perfeccionista do diretor. Prólogo (enunciado), ato I (ensinamento), ato II (queda do herói), Epílogo (gloria). A análise ativa de Stanislavsky é perfeita, visível, quase como se fosse um espetáculo cientifico. Técnica é a melhor forma de brindar o público. Na técnica não a espaço para a mediocridade, a barriga ou o fracasso. Mesmo quando é ruim, é bom! Técnica e talento aliás, são pontos muito discutidos. Os talentosos se apagam, os técnicos permanecem. Sobre o palco há o voluntário, imbuído em acertar, iniciante. Há o ator dito talentoso, que tenta sensivelmente acertar e marcar e há o ator técnico. Talento é passageiro e baseado em uma luz, uma força que com o tempo perde o viço. O ator técnico é lutador, está sempre buscando, estudando, treinando. 
                  O máschara desenhou o ato primeiro de uma forma mais lenta, morosa, para cumprir o seu golpe no segundo ato. A aparição de Jesus entre as pessoas, no lado contrário ao da encenação, foi precisa, e emocionou enquanto surpreendeu. O público derramou lágrimas, e lágrimas são luxos hoje em dia, derramar lágrimas para muitos, significa fraqueza. Chorar e ver as verdades do mundo com grandeza de sentimentos, é na verdade força.
                     No primeiro ato, o maior destaque da cena é do ator Gustavo dos Santos, que interpreta o demônio, e depois um soldado. Sua humildade em buscar, apreender conhecimento, atuar com vivacidade, merece aplausos. Margareth Medeiros é grande, única, intensa em seu "nazareno"!
                         A Magdalem de Devi, se destaca, preenche o palco, com brilhantismo. Renato Casagrande comanda o segundo ato e merece aplausos sempre. Junior Lemes é presença firme, em todo o dia de batalha, e torcemos por sua entrada ao Máschara. 
                            Parabéns a Antonia Serquevitio, que é partner, é luz na escuridão e no vazio, talvez intensa demais fora de cena e devesse puxar essa intensidade para o palco. 
                              Ao final da cena, havia uma satisfação, um clima de conexão entre público e elenco, eis o verdadeiro fenômeno dramático, como diria Augusto Boal. Talvez as crianças pudessem ter feito sua aparição no palco. Talvez Herodiaze pudesse entrar com vinhos e uvas.  Talvez o Centurião tenha colocado em risco as cenas de Pedro ao perder o capacete. Talvez a experiência final com o corpo santo, tenha se mostrado estranha. Diálogos muito altos na "gólgota" colocam em risco a veracidade da cena. 
                               Teatro é estudo, busca, apropriação, veracidade, sacrifício. A paixão de Cristo, é mais que um teatro comunitário, e menos que um teatro técnico, mas serve de treino para quem busca sua própria potencialidade cênica.   

Arte é Vida

A Rainha

ANA CAROLINA COSTA  (**)
  ANTONIA SERQUEVITIO  (**)
 CAROLINE GUMA  (**)
 CLARA DEVI DA COSTA   (***)
 DOUGLAS MALDANER  (**)
 GUSTAVO DOS SANTOSFERREIRA  
Gustavinho (***)

 GUSTAVO FERREIRA (**)
 JESMAR PEDRO FREITAS PEIXOTO  (**)
 JEZABEL NOGUEIRA DA SILVA (**)
 KLEBER LORENZONI (ancião)
 KLEBERSON BEM BORGES  (**)
 MARGARETE MEDEIROS ARAUJO (**)
 MARLI CHRIST GUMA (***)
 PEDRO HENRIQUE MORAES (***)
 PRISCILA CHIESA LEMES  (***)
 RAFAEL SOARES MULLER (**)
 RENAN QUEIROS OLIVEIRA (**)
 RENATO CASAGRANDE (ancião)
 RICARDO SANTOS FENNER  (ancião)
 ROBERTA TEIXEIRA  (***)
 ROSBER CULAU BRANDÃO (**)
 ROSIANE TEIXEIRA MORAIS (**)
 VALDIR TOLFO FLORES  (**)
 JUNIOR LEMES (***)
 ALEX MMONTEIRP PUGLIEZZI (**)
 ANA CLARA KRAEMER  (**)
 ANA LETICIA DA SILVA (**)
 AURORA SERQUEVITIO MALDANER (**)
CECILIA MORAES SEVERO  (**)
 FELIPE CHAVES BRANDÃO  (**)
 GIOVANA DA SILVA LOPES (***)
 IZABELLA CHIESA LEMES   (**)
 IZIS ROSA DA SILVA (**)
 KEVIN DIJON PADILHA  (**)
 MICHELY VICTORIA CAVINATTO DE MOURA  (***)
 RAVI DANTAS QUARESMA  (**)
 THAYLA NOGUEIRA PLAUTZ  (**)
 VALENTINA CHIESA LEMES  (**)


                                   

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Renato Casagrande e a pequena Bella Chiesa


 

O ator e diretor Renan Queiroz como João Batista

 


1328- Me dê sua mão - (tomo 02) Turnê Paixão de Cristo

          De todas as artes, o teatro é talvez, a mais estreitamente condicionada pelo momento cultural que a  produz. E quanto mais válida, mas condicionada e mais expressiva dos fatores condicionantes. Todo dramatista que procurou alcançar ideias literários arbitrários e escrever fora do seu tempo foi irressarcivelmente  condenado ao esquecimento: todos os grandes nomes do teatro universal, são acima de tudo produtos exatos do momento que viveram. As grandes obras que sobreviveram através dos séculos adquiram contemporaneidade diacrônica por meio de uma riqueza nascida do profundo conhecimento que o autor teve pelos homens da sua época. Pelo particular, ou seja, as historias que os cercam, as dores que viveram, atingiram resultados que são capazes de entrar em sintonia com homens de várias épocas que se aproximam mais ou menos do clima do momento da criação da obra.

        Seja como for, mesmo as mais permanentemente contemporâneas dessas obras, sempre foram sujeitadas em suas remontagens,  às dominantes culturas do momento de suas releituras. Quando o bardo elizabhetano escreveu Rei Lear, ou quando Lorca escreveu A casa de Bernarda Alba, ou quando Molière, enfrentou a corte de Luís XIV com seu Lê Tartufe, estavam em verdade, falando de suas realidades. Quem conhece o Grupo Máschara de perto, ou frequenta os ambientes palacianos de sua sede, sabe exatamente o que está em jogo na hora da cena, sabe o que está na poética entrelinha do texto.

                       A cada ano, o texto se afasta mais do simplório olhar que temos da passagem bíblica, para alcançar lugares de reflexão que fazem sentido aos atores mais próximos ao dramaturgo. " A cúpula de fogo" do Palacinho do Máschara decidiu falar do idoso, da mulher e da criança. Todos obviamente, variações de um mesmo Jesus. As personas que o habitam, já que ele é o senhor do presente, do passado e do futuro. 

                         Ao seu redor, pairam atores de carreira, grandes, densos. Soma-se a isso uma equipe de não atores, que pisa no palco com garra de artista. É preciso assim como o Cléber Lorenzoni de Jesus, vestir a camiseta, mergulhar em sua realidade. É preciso que cada interprete vista a camiseta de seu personagem. "Seja ele" durante a temporada. É o que se espera ao menos dos grandes atores. 

                              Na apresentação de Tuparendi, que mais aprecia um perímetro Grego, onde sacerdotisas e semideuses flutuavam, pudemos presenciar grandes atuações. Entregas estéticas e verdades pontuais. Não há como não mencionar a disponibilidade cênica de Antônia Serquevitio, a emoção de Margarete Medeiros, o esforço de Ana Costa o virtuosismo cênico de Renato Casagrande a triangulação pontual de Didy Flores.  Clara Devi tem nos dado uma Maria de Magdalem interessante, algo diferente das anteriores que ainda não sei ao certo o que é. Meus netos que amam teatro, sempre se emocionaram nas cenas em que Jesus é vandalizado, mas acredito que na apresentação mencionada, alcançamos lugares muito potentes. Parabéns aos diretores de palco e coreógrafos de cenas. As aias da "noiva" precisam ensaiar mais a coreografia de sua entrada. Em alguns momentos o cerimonioso do espetáculo peca. Kaifaz pode diminuir a palidez. Andar menos pelo lugar. Ele é a mente, Anaz é o movimento! Parabéns aos iniciantes, estão muito dedicados. Thayla pode ensaiar mais a cena da noiva, embora tenha um olhar muito cênico. Alex precisa fica mais concentrado e Kevim, pode aparecer mais nas cenas.  Aplaudível a dedicação da atriz Rosi Teixeira.  

                                 Emociona-me ver as cenas com os pequenos, principalmente porque estamos falando do futuro do teatro. Do palco, jorram momentos estéticos, mesmo quem não sabe o que está fazendo em cena, está sendo estético, graças a direção do espetáculo. Observai sua estética, tome ciência dela. Quisera eu ser uma atriz, não tenho talento para tal, mas observando cada movimento, cada ação, dá para ter certeza do quanto é valoroso cada lugar no palco. Cada personagem ou tipo mereceriam um texto inteiro. Desde a menina que carrega uma taça, até quem fica ao fundo parado. Tudo atua junto. Renan Queiróz abre a cena, impactante, ao lado de todo o elenco, e vemos dois diretores ali, primos, irmãos em lutas teatrais. Um símbolo forte para o teatro.

                                    A mesma canção do prólogo volta no epílogo, com a doçura que deve ter o compositor que a escreveu. O texto final aprece um tanto exagerado. Triste demais... mas me deixei levar. E aplaudi demoradamente assim como o restante do público de Tuprendi. Parabéns a Ana Clara Kraemer e Douglas Maldaner por suas presenças de palco. 

                                      Para encerrar, um ultimo elogio aos familiares que apoiam todos esses artistas. É preciso sentir-se pleno, amado e apoiado para produzir tanto encanto, para pisar no palco com segurança e nos dar uma arte tão verdadeira.


Arte é Vida!!!!

Turnê Paixão de Cristo - Me dê sua mão
 
 
 
Direção e roteiro - Kléber Lorenzoni
 
Assistência de direção- Renato Casagrande
 
Produção - Kléber Lorenzoni
 
                   Carol Guma
 
                   Renato Casagrande
 
Trilha- Renato e Ana Clara
 
Adereços-Douglas, Didy e Junior-
 
Adereços- Roberta, Antônia e Felipe-
 
Figurinos-Clara, Valentina e Kleberson-
 
Listas -Carol e Vovô -
 
Costura-Priscila, Marli, Rosi, Margareth e Giovana-
 
Elenco 

 ANA CAROLINA COSTA  (***)
  ANTONIA SERQUEVITIO  (***)
 CAROLINE GUMA  (**)
 CLARA DEVI DA COSTA   (**)
 DOUGLAS MALDANER  (***)
 GUSTAVO DOS SANTOS FERREIRA  
Gustavinho (**)

GUSTAVO FERREIRA (***)
 JESMAR PEDRO FREITAS PEIXOTO  (**)
 JEZABEL NOGUEIRA DA SILVA -
 KLEBER LORENZONI (ancião)
 KLEBERSON BEM BORGES  (**)
 MARGARETE MEDEIROS ARAUJO (***)
 MARLI CHRIST GUMA (**)
 PEDRO HENRIQUE MORAES (**)
 PRISCILA CHIESA LEMES  (***)
 RAFAEL SOARES MULLER (**)
 RENAN QUEIROS OLIVEIRA (***)
 RENATO CASAGRANDE (ancião)
 RICARDO SANTOS FENNER  (ancião)
 ROBERTA TEIXEIRA  (**)
 ROSBER CULAU BRANDÃO (**)
 ROSIANE TEIXEIRA MORAIS (***)
 VALDIR TOLFO FLORES  (***)
 VERGILIO JUNIOR LEMES (***)
 ALEX MMONTEIRP PUGLIEZZI (*)
 ANA CLARA KRAEMER  (***)
 ANA LETICIA DA SILVA -
 AURORA SERQUEVITIO MALDANER (**)
CECILIA MORAES SEVERO  (**)
 FELIPE CHAVES BRANDÃO  (**)
 GIOVANA DA SILVA LOPES (**)
 IZABELLA CHIESA LEMES   (**)
 IZIS ROSA DA SILVA (**)
 KEVIN DIJON PADILHA  (**)
 MICHELY VICTORIA CAVINATTO DE MOURA  (**)
 RAVI DANTAS QUARESMA  (**)
 THAYLA NOGUEIRA PLAUTZ  (**)
 VALENTINA CHIESA LEMES  (**)


quinta-feira, 2 de abril de 2026

A páscoa do Máschara é muita doçura!


 

As atrizes Rosiane Teixeira, Michely de Moura e Roberta Teixeira em ato final - Me dê sua mão


 

1327-Me dê sua mão (tomo 01) - turnê Paixão de Cristo.

Assisto aos espetáculos do projeto Paixão de Cristo do Grupo Máschara, desde sempre, desde quando em 2017, o então produtor Ricardo Fenner e o diretor Kléber Lorenzoni, tiveram a feliz ideia de promover esse espetáculo na cidade. O que sempre me encantou, foi a valentia com que enfrentaram e enfrentam tantas dificuldades para levar ao palco o trabalho de grande qualidade que promovem. A plateia não tem ideia de tudo que se encara para colocar um espetáculo no palco, ao ar livre e com mais de trinta pessoas em cena.

A cada ano, a dramaturgia do Máschara passeia por lugares mais perigosos, mudando fatores, personalidades e até peripécias, enfrentadas pelas personagens. Logicamente, essa ousadia é o que nos interessa, nos aguça a curiosidade. A ideia, acredito eu, seja declarar ao público que se Cristo retornasse hoje, certamente seria também crucificado. No centro da cena, um Jesus muito mais maduro, que compreende melhor as paradoxais linhas existenciais do Messias. Isso em verdade é que torna Jesus um personagem tão interessante. Ele se revolta, ele clama por uma solução. Ora se entrega, ora faz poesia, ora conta suas parábolas, ora fraqueja. Esse é o tempero do palco: a dúvida e a angustia que ela promove.

O Teatro Medieval enquanto gênero, sucumbiu quando a igreja chegou a conclusão que atores poderiam afastar as pessoas dos caminhos considerados corretos pelo clero. Antes as peças eram originalmente textos encenados pelos membros clericais após as missas ou procissões e tinham como temas: as passagens bíblicas, os milagres, os mistérios, os sermões, os autos sacramentais, as biografias de santos e os dramas litúrgicos. Muitos deles eram apresentados em latim. A igreja censurou os artistas pelos séculos, e talvez ainda use seu pesado cetro da "verdade", para censurar, no entanto o homem contemporâneo parece não se permitir algemar, talvez por que tenha se dado conta que a arte liberta mais que qualquer aprisionamento religioso.

O ambiente propicio de uma noite quente e ao mesmo tempo ventosa, pareceu dar o tom necessário para as convenções de uma historia que se estendia desde o Monte das Oliveiras, até o Santo Sepulcro. Eis outro mérito do teatro: bastava um gesto, uma virada de cabeça e voilà, estávamos em outro cenário. Como em um passe de mágica, o Cenáculo se tronava Sinédrio, e logo depois em sala do trono do Rei Herodes.

Me dê a sua mão, encontrou várias dificuldades técnicas, tanto no palco quanto por traz dele. Erros mínimos de iluminação e execução de sonoplastia... Falta de diálogo, de preparo, talvez. No entanto não podemos permitir que o teatro seja prejudicado pela incompetência ou a preguiça. A iluminação, teve falhas técnicas que se mostraram evidentes ao público, com momentos de sombras que prejudicaram várias cenas. O espaço pequeno de um anfiteatro grego, ajudou o público a mergulhar na trama, mas pode ter confundido a assistência, já que tudo acontecia em um mesmo lugar, sem uma transição mais adequada.

O mais poderoso dessa versão de A Paixão de Cristo, era sem dúvidas, a perfeita comunicação entre tradição e histórica e tradução contemporânea. A visão de Batista entre o povo no prólogo, reunido com um povo sofrido, representado em cores embaçadas, tingidas, contrastava dali a pouco com as cores fortes dos primeiros discípulos. Claro que o "grenal" estabelecido entre homens e mulheres seguidores ficou bem perceptível, mas isso só revela o poder estético da cor. Jesus não usar branco, também é um achado e ajuda a afastar a narrativa de clichês. É preciso claro, tomar cuidado com amarrações ruins, panos que caem pelo palco, perucas que devem estar bem assentadas e chapéus bem-acabados. É no detalhe, no mais pequeno detalhe que vive a arte do Máschara.

Dentre tantos talentos sobre o palco, é preciso aplaudir os "fortes" que estão juntos ao projeto desde seu principio. Aplaudir os voluntários de fora de Cruz Alta, ainda não conheço a todos, mas são sem dúvida, lutadores da arte. Cada figura tem um universo muito próprio, o que é mérito de Renato Casagrande que assina os figurinos. Clara Devi, Ana Kraemer e Kléberson Ben, são a geração de jovens aprendizes que somam muita leveza e unidade ao vestir as "sobreposições" do Máschara, um elenco tão diverso. É difícil saber os nomes de todos, algo que vou ir aprendendo conforme acompanho, ainda que de longe, a turnê. Mas quero aplaudir as atuações de Prsicila Chiesa como Maria e Carol Guma como a pérfida Herodiase. Os três demônios, juntos como se fossem uma só força, mas cada um com uma personalidade: O homem de preto, com cartola, buscando a sabedoria, o ser rastejante, lamentador, onde penso que seria interessante rever o "costume" e ainda a figura feminina, como uma Lilit, sedutora e perigosa. Os três juntos, formam uma tríade que atenta o protagonista e conseguem acrescentar bons momentos de tensão ao espetáculo. Pena sua cena ter poucos recursos visuais, caberia fumaça, escuridão, etc... Giovana Lopes também se destaca, em uma Salomé intensa e bastante complexa, ainda que seja uma atriz bastante jovem. Cenas como a da avó Ana e da criança que ressuscita, arrancaram lágrimas até dos mais séticos.

O Máschara segue sendo um grande fomentador de talentos. Sua direção busca a perfeição do gesto, a amplitude das emoções, e a organicidade da pronuncia do texto. Nunca se viu tantas versões de um teatro religioso sobre a vida de Cristo e isso parece ter motivos muito claro: A sensação de reconexão do homem com o divino/espiritual que há em si, ou a necessidade de grupos artísticos em lucrar com uma forma quase certa de tocar o público e alcançar "sucesso". Grandes atuações brilharam, nesse texto que reverencia a figura feminina.

Talvez o ator que interpreta o Centurião, pudesse ser mais atuante, mais proeminente, como líder. Acredito que na cena do julgamento, aconteceram alguns resvalões, roupas marcadas, falta de elmos, embromações, enfim, coisas que colocam em risco as principais características do trabalho do Máschara. Por isso é preciso que cada um se desdobre para manter o nível da proposta. Cecília Moraes também merece destaque pela organização e eficiência, assim como a jovem intérprete de Salomé, ainda tão menina, e mesmo assim tão poderosa no palco, segura de suas ações.

A turnê Me dê sua mão, começou com uma garra muito bonita, ainda que continue havendo pouco incentivo aos artistas em nosso país, a forma como o Máschara consegue padronizar a equipe, unir pessoas, e contar uma historia de forma cativante e coerente, me emociona. A frieza e a formalidade de algumas cenas, conseguiu dar um contraste interessante, e talvez agregar mais peso ao espetáculo. A trilha é sensível, com escolhas pontuais e arriscadas, com temas de filmes marcantes, que parecem conversar de forma coerente. Parabéns a Kleberson Ben, e Ana Kraemer.

                        Me dê sua mão, entra para a historia, como um dos espetáculos de grande valor estético e humano do Máschara.

Turnê Paixão de Cristo - Me dê sua mão

 

Direção e roteiro - Kléber Lorenzoni

Assistência de direção- Renato Casagrande

Produção - Kléber Lorenzoni

                   Carol Guma

                   Renato Casagrande

Trilha- Renato e Ana Clara

Adereços-Douglas, Didy e Junior-

Adereços- Roberta, Antônia e Felipe-

Figurinos-Clara, Valentina e Kleberson-

Listas -Carol e Vovô -

Costura-Priscila, Marli, Rosi, Margareth e Giovana-

Elenco : ANA CAROLINA COSTA  (**)

                     ANTONIA SERQUEVITIO  (***)

CAROLINE GUMA  (***)

CLARA DEVI DA COSTA   (**)

DOUGLAS MALDANER  (**)

GUSTAVO DOS SANTOS FERREIRA  (**)

GUSTAVO FERREIRA (**)

JESMAR PEDRO FREITAS PEIXOTO  (**)

JEZABEL NOGUEIRA DA SILVA -

KLEBER LORENZONI (ancião)

KLEBERSON BEM BORGES  (**)

MARGARETE MEDEIROS ARAUJO (**)

MARLI CHRIST GUMA (**)

PEDRO HENRIQUE MORAES (***)

PRISCILA CHIESA LEMES  (***)

RAFAEL SOARES MULLER (**)

RENAN QUEIROS OLIVEIRA (**)

RENATO CASAGRANDE (ancião)

RICARDO SANTOS FENNER  (ancião)

ROBERTA TEIXEIRA  (**)

ROSBER CULAU BRANDÃO (**)

ROSIANE TEIXEIRA MORAIS (**)

VALDIR TOLFO FLORES  (***)

VERGILIO JUNIOR LEMES (**)

ALEX MMONTEIRP PUGLIEZZI (**)

ANA CLARA KRAEMER  (***)

ANA LETICIA DA SILVA -

AURORA SERQUEVITIO MALDANER (**)

CECILIA MORAES SEVERO  (***)

FELIPE CHAVES BRANDÃO  (**)

GIOVANA DA SILVA LOPES (***)

IZABELLA CHIESA LEMES   (**)

IZIS ROSA DA SILVA (**)

KEVIN DIJON PADILHA  (**)

MICHELY VICTORIA CAVINATTO DE MOURA  (**)

RAVI DANTAS QUARESMA  (**)

THAYLA NOGUEIRA PLAUTZ  (**)

VALENTINA CHIESA LEMES  (***)