Grupo Teatral Máschara
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terça-feira, 14 de julho de 2026
segunda-feira, 13 de julho de 2026
ARTIGO IV - Para artistas de teatro
Entre linguagens
Saí de casa ontem para uma
apresentação no Instituto Annes Dias como ator convidado. Confesso que, antes
mesmo de entrar em cena, já carregava comigo uma inquietação. Não era
nervosismo, era uma curiosidade. Quando
um artista desse ofício atravessa a porta de um teatro que não é o seu, leva
consigo muito mais do que o figurino ou o texto decorado. Leva sua história.
Leva seus vícios. Suas certezas e convicções. Sua forma de respirar o palco.
Leva, sobretudo, a linguagem que aprendeu a construir ao longo dos anos. Para agravar,
minha visão é de diretor, muito embora eu sempre tenha apreciado aprender,
mantenho a curiosidade, qual criança que descobre sempre uma nova brincadeira.
No entanto, sabia que pisaria
em um terreno onde outra visão de teatro conduzia o trabalho. Outro diretor.
Outra maneira de pensar a cena. Outra estética. Outra pulsação.
Somos, claro, irmãos de ofício,
mas eu pergunto: quantos caminhos cabem dentro dessa mesma irmandade?
O teatro tem essa estranha
capacidade de reunir artistas que perseguem o mesmo objetivo por estradas
completamente diferentes. Alguns lapidam a cena como quem esculpe mármore.
Outros a deixam nascer quase selvagem, confiando na arte do momento... alguns
preferem a precisão matemática, outros o risco do improviso. Há quem organize
tudo em gráficos, e essa é minha linha. Há quem provoque o caos para depois
encontrar a ordem e claro que nenhuma dessas opções invalida a outra!
Ou seja, elas conversam, ou deveriam
conversar....
O teatro do Grupo Máschara
possui princípios que vêm sendo desenvolvidos há muitos anos. São fundamentos
que, pouco a pouco, deixaram de ser apenas técnicas para se transformarem numa
maneira de compreender o palco. Estão enraizados em nós. Moldam nossa escuta,
nosso olhar, nossa relação com a personagem e com o público. Talvez até por isso o encontro com outra
linguagem seja tão necessário.
Quando esse teatro encontra um
fazer cênico mais despojado, mais intuitivo, mas igualmente vivo e pulsante,
acontece algo muito interessante: surgem rupturas. Percebemos que existem
outras possibilidades, já que métodos não são prisões, ou ao menos não deveriam
ser. Isso sem falar que quanto maior for nosso repertório de linguagens, maior
será nossa liberdade como artistas.
Não acredito que um ator deva
abandonar sua identidade para experimentar outra estética. Pelo contrário. Ser
artista é, justamente, possuir uma maneira singular de enxergar o mundo, e é
isso que nos torna únicos. Também devemos entender que identidade não é
sinônimo de rigidez.
Não devemos nos esquecer que
quando acreditamos ter encontrado todas as respostas talvez tenhamos parado de
fazer teatro e começado apenas a repetir teatro.
Ontem voltei para casa
diferente, não porque mudei minhas convicções, mas por que elas foram obrigadas
a dialogar com outras. Isso é sim saudável! A arte não cresce no isolamento,
quando treinamos uma cena em casa ou trazemos tudo pronto na cabeça ou quando “assistimos
filmes” e saímos dali com verdades universais prontas, a arte cresce é no
encontro. E principalmente se há atrito, ou se termos a coragem de reconhecer
que o outro pode revelar perguntas que nós sequer sabíamos que existiam.
Talvez seja esse um dos
maiores presentes que um diretor pode oferecer a outro diretor, e que um grupo
pode oferecer a outro grupo: a oportunidade de enxergar o próprio trabalho (teatro)
por um ângulo até então desconhecido.
Acreditem! Não existe artista
verdadeiramente vivo que permaneça imune às transformações provocadas pelo
encontro entre linguagens, pelo mundo ao redor. Se permanecermos os mesmos
depois de cada experiência, talvez tenhamos apenas passado pelo palco. Mas, se
voltarmos para casa carregando novas perguntas, então o teatro, mais uma vez,
cumpriu sua missão. E você, tem perguntas?
sexta-feira, 10 de julho de 2026
quarta-feira, 8 de julho de 2026
segunda-feira, 6 de julho de 2026
Artigo III- Para atores e gente do ofício
ONDE ESTA A GANGRENA?
Ao conversar com alunos,
enquanto promovo debates sobre teatro, me pego observando suas visões sobre o
nosso ofício sagrado. Essa conversa é muito pulverizada as vezes, a partir do
momento que endossamos a ideia equivoca de que no teatro tudo vale, ou ainda,
de que o teatro não tem um objetivo especifico com a cena, ou seja, que você
pode colocar o que quiser sobre o palco e o público que pense o que bem
entender. Talvez, também, porque nos últimos tempos, as pessoas tenham passado
a acreditar que palco é lugar para conforto. Para afago. Para finais felizes.
Como se o único dever do artista fosse fazer o público sair sorrindo.
Eu discordo profundamente disso!
Nelson Rodrigues dizia que: As boas ações cabem a um jardim de infância. O teatro, é o lugar da GANGRENA.
Sempre achei essa imagem extraordinária.
Gangrena é aquilo que apodrece escondido sob a pele. É a ferida que
ninguém quer mostrar. É o cheiro que denuncia que existe algo profundamente
errado. E talvez seja exatamente essa a função do teatro: retirar as bandagens
da sociedade e obrigá-la a olhar para aquilo que insiste em esconder. Não me
entendam mal, eu não tenho definitivamente nada contra o teatro musical. Muito
menos contra os filmes da Disney. Eles cumprem uma função importante: alimentar
sonhos, encantar crianças, emocionar famílias. Há muita beleza nisso. Sem falar
que essa beleza que encanta, desperta o fascínio pelo faz de conta e pela arte
de interpretar.
Mas isso, sozinho, não
basta ao teatro, porquê, quando o palco existe apenas para confirmar que o
mundo é bonito, ele deixa de ser palco e passa a ser vitrine.
O verdadeiro teatro
precisa incomodar. Fazer perguntas para as quais alguns não se sentem prontos
para responder. Ele coloca o assassino diante da mãe da vítima. Coloca o
corrupto diante do espelho. Coloca o santo ao lado do canalha e, às vezes, nos
obriga a descobrir que ambos habitam a mesma pessoa.
O teatro não foi
inventado para massagear consciências. Foi inventado para desarrumá-las. Não
nasceu para preencher nossa necessidade de aplausos.
Existe, claro, espaço para
espetáculos delicados, doces, poéticos, mas ainda assim, eles estão a serviço
de: através da poesia, questionar algo! Eu mesmo acredito profundamente no
teatro feito com crianças. Acredito no teatro realizado com idosos. Nos dois
casos, muitas vezes, a delicadeza é necessária, sem falar que acolhimento
também é arte. Descobrir a própria voz, e todos temos uma, já é por si só,
revolucionário, vanguardista muitas vezes.
Mas, quando falamos da essência do
teatro, precisamos ir além do bonito. Porque o bonito passa e a pergunta
permanece.
Se o público sair do
espetáculo, exatamente igual ao que entrou, talvez tenha assistido a um bom
entretenimento, mas dificilmente viveu teatro.
O teatro é o lugar onde
as certezas adoecem. Onde os preconceitos são interrogados. Onde a moral perde
a maquiagem. Onde a sociedade é obrigada a contemplar suas próprias gangrenas.
E, meus senhores e senhoras,
é exatamente por isso que o teatro nunca será unanimidade. E nesse caso, ainda
bem! Se todos amassem o teatro, e tudo fosse flores e aplausos, talvez nossos
objetivos fossem outros e nossos desafios nos desmotivassem.
Pensemos bem: enquanto
houver alguém disposto a subir ao palco para dizer aquilo que ninguém deseja ouvir, haverá teatro. O
resto pode sim ser belo, mas não esqueçamos que sozinha, a beleza jamais foi
suficiente para transformar o mundo.









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