sexta-feira, 16 de outubro de 2026

1394-O pequeno Príncipe. Estréia

           A Esmateen é em seu cerne, uma grande oficina teatral de como fazer teatro no Máschara, claro que o teatro tem várias possibilidades, uma aula de teatro, seja em qual lugar ocorrer, Acaba por passear por, caminhos muito próximos. Pois bem, a pesquisa da turma em 2026, foi o clássico de Exupéry. Um texto sempre evocado como obra infantil, mas que levanta discussões repletas de maturidade.

         Morte, solidão, amor, frustração, foram abordadas com muita leveza, mas estavam ali, nos lembrando que a obra será muito mais absorvida se for lida por iniciados. Lida sim, lida em seus signos, em seus códigos.

           Ravi Dantas e Cleber Lorenzoni são aqui os dois lados de uma mesma figura. Enquanto perde os encantos da infância o aviador descobre que gostaria de estar de volta ao princípio de tudo. Para isso precisaria morrer, assim como pra crescer, precisaria morrer como criança e finalmente tornar-se adulto. Vendo a partir daí a aspereza da vida. Sinto falta de rever o espetáculo mais uma vez, para poder fazer uma leitura mais profunda. Lorenzoni coloca muitos códigos, muitas entrelinhas em camadas que precisam de uma observação precisa, para que o aproveitamento seja total.

                    A opção de colocar o casaco apenas no último bloco do espetáculo. As flores de parede cantando par ao jardineiro triste. A senhora de negócios que assina papéis sem refleti-los e a observadora de estrelas que nunca sai de seu guichê, pois sua função é anotar, são exemplos da perspicácia do Máschara em fazer sua crítica humana.

                    Valentina Lemes destaca-se como a geniosa rosa, a personagem que aponta a sexualidade na vida da personagem. Ana Costa e Ana Kraemer dão vida a personagens que eu gostaria de conhecer mais. A figura da Serpente e a pequena Raposa sábia, vivem em meu imaginário desde a mais tenra infância. 

                    O Cenário, os praticáveis e as estrelas conversam entre si e conseguem de algum forma nos dar a informação de teatro descerrado o que ajuda na construção de uma ideia estudantil. Não há a pretensão de nos dar um grande espetáculo cheio de técnicas grandiosas, o que seria típico de alguns escolas, mas um caminho, um olhar...

                         O Pequeno Príncipe é uma dessas incursões do Máschara que deixam gostinho de quero mais, mas talvez nunca mais volte a cena, pois talvez já tenha cumprido sua função expressiva.

O elenco de Quintanares


 

Rosiane Teixeira e Maico Carricio


 

Cidadezinha Quintana


 

1393 - Quintanares, O Menino Pássaro (tomo 6)

                O teatro é ação, tudo acontecendo ao mesmo tempo, cada um fazendo sua parte, para que a arte chegue ao público. Enquanto uma atriz está se esmerando em cena para contar sua história, uma outra está se dirigindo até sua sede com seus adereços dentro de uma mala. Enquanto um menino se maquia ansioso no camarim, outro está tentando recordar se tem pancake suficiente. Há uma jovem nervosa na coxia, talvez ela nunca tenha pisado em um palco. Paralelo a isso, há uma atriz nervosa pensando em como será o palco do Festival onde está indo. Pensando é claro, se dará conta de suas cenas, se sua voz alcançará toda a assistência. A van dirigirá mais de cinco horas, pois no caminho precisa alcançar outros artistas. Estes farão sua parte para que o show aconteça em todo o seu esplendor. Os atores desejarão, é claro, agradar o diretor. Desejarão sim o aplauso, sonharão com a compreensão por parte da plateia. Pensarão estar fazendo a diferença. Enfim, o tecido chamado economia cultural, é uma longa engrenagem que só existe porque pessoas chamadas de artistas, fazem o possível e o impossível para que as possibilidades artísticas não feneçam.

             Mais tarde naquele dia, um grupo de atores rompe a cena, cantando pelos corredores da Justino Martins. A platéia está quase vazia. Teatro a noite, poderia ser de dia, teatro em dia frio poderia ser em dia quente, lá fora há chuva, poderia haver sol... Tudo é um bom motivo... Por isso é preciso esmerar-se mais e mais...

                   O ritmo foi levemente arrastado; as vozes com bom volume, o palco bem iluminado. Não é necessário colorir um elenco que já traz consigo muita cor! O texto de Lorenzoni, oriundo de improvisações criadas no ensaio, já traz consigo a curva e o ritmo na entrelinha.

                     Quintanares é uma comédia, e uma fábula. Nas duas situações, merece um esforço maior, para que não se perca nada na questão técnica. Várias piadas estão passando despercebidas, ou seja, os atores não estão levando ao extremo as possibilidades que os personagens propõe.

                    A rivalidade entre Pontualdo e Poesino por exemplo, ou a graça entre Poesino e Virgulina. Todos são e devem ser material de pesquisa e trabalho. O ator ou atriz deve olhar para dentro de si. Deve procurar soluções, testar, ousar. Mudar tudo se for necessário. Mas sempre , sempre ver a vivacidade percorrer sua atuação. Sentiu-se estagnado, repetitivo, ou simplório, então busque algo novo. O élan.

                      A atuação de Rosiane Teixeira, embora intensa, pode ser ainda mais precisa. O tom agudo merece observação. A intérprete de Sonetina está bem, pode agora aprofundar-se nas possibilidades corpóreas. E o pequeno "menino pássaro, pode trazer para a sensorialidade, um pouco mais da mimese aviária.

                           Uma das surpresas da cena foi ver a atriz Antonia Serquevitio, que passou o dia trabalhando no festival, dando vida a uma das personagens centrais da trama. Criatividade tem corpo cênico e jogo teatral típicos do trabalho do Máschara. A atriz ainda pode usar mais as criações vocais para compor com mais funcionalidade cênica, Dona Mimi Coutinho.

                      O acompanhamento musical, manipulado aqui por Renato Casagrande, pode ser mais pontual, faltou assinatura. Quebre coisas, bagunce, grite se for necessário, mas de vida ao palco. O violão nas mãos da atriz também precisa surtir efeito, ou não terá sentido. No palco sempre que nos propomos a algo, precisa cumprir o objetivo.

          Quintanares acrescentou e muito ao FESTEATRO, lastimável os professores e pais não aproveitarem o momento para oferecer teatro "do bom" aos seus filhos. Palmas também a curadoria do Festival por incluir Quintana em sua história.


quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Cidadezinha Quintana - Performance


 

1392- 5º FESTEATRO

 Aluno que sobe no palco, governa o mundo.


              A frase até pode parecer exagerada, mas tem muito significado, pois crianças que fazem teatro, têm acesso a um verdadeiro protocolo de preparo para qualquer tipo de comunicação. A criança que tem acesso ao teatro, perde o medo do palco, aprende a se comunicar, a conviver em grupo, e o mais importante, começa muito cedo a ter percepção de mundo, de linguagens.  Nessa caminhada a importância do professor de teatro é fundamental, principalmente, de um professor bem preparado, que compreenda sua função. Ou seja, motivar, inspirar e estimular o aluno. O bom professor de teatro não pode deixar o aluno perceber se seu objetivo for a competição, pois ela afasta o aluno do cerne da intenção teatral. A capacidade criativa, e inspiradora, livre de preconceitos, também vai interferir nas possibilidades de desenvolvimento do aluno/artista. 

                 O 5º Festeatro teve texto inspirado em Shakespeare, teve Dom Quixote, teve Máquina do tempo e até pirâmides do Egito. Tudo para inspirar e motivar os jovens alunos/artistas. Na plateia, uma multidão ávida por criatividade e novidade, aplaudiu encantada a arte que teve acesso. Teatro é sempre cheio de surpresas, principalmente quando é infantil. Logo de cara, um lustre iluminava um sótão muito bem caracterizado, em O Tesouro do General. Inspirado em Maria Clara Machado, a peça nos mostrou que efeito surpresa conta e muito! Piratas e fantasmas são uma boa forma de prender a atenção do público infantil, já sabia disso o Tablado há cinquenta anos atrás. Doutora Gênia trouxe a delicada no papel principal, criativa e ousada. Talvez a trama tenha se perdido do meio para o fim. Palmas para Giovana Lopes e para um certo ensaio no "Palacinho". A seguir, "Aó que pegou", revelou um Kleberson misterioso, onde várias alunas ajudavam a criar o mistério do que afinal é "Aó". Uma pena o festival ter feito as meninas apresentarem duas vezes, o que me aprece um tanto injusto. Valentina Lemes roubou a cena! A Maria Fumaça de Carol Guma encalhou no palco, grande demais, exagerada demais, lembrando a todos que cenário precisa e deve ser usado. Palmas para o audiovisual, aproximando as linguagens plurais com o palco! Em Quero ser uma estrela, um programa de auditório foi a solução, para conduzir a trama, que destacou o potencial de alunos bastante pequenos. Destaque para a mestra de cerimônias Roberta Teixeira. Importante no entanto, lembrar que o som pelo microfone disputou e venceu a atenção da plateia. A Panelinha Mágica foi um incursão que teve a cara do mise en scène do Máschara. Faltou porém trabalho cênico nos alunos da escola. Pão e Circo, teve tom revolucionário e pareceu mais uma mostra do virtuosismo do professor. Talvez o tema tenha sido muito adulto, embora eu, que já passei por dezenas de revoluções politicas, ache que a maturidade politica deve ser incentivada também nos pequenos.  A Última Marchinha foi um bom exemplo do potencial de uma aula de teatro bem dirigida. Talvez com maior organização cênica, pudesse se tornar um grande espetáculo. Trabalhar Shakespeare, por si só, já seria motivo para se premiar o espetáculo. A adaptação foi formidável. Talvez, claro, o casal de protagonistas não tenha tido muita química. O que Antares Esconde? Não descobrimos, mas foi interessante ver a direção de Antonia Serquevitio. O roteiro ficou um tanto enrolado, e o "Sêneca", poderia estar mais presente. Vozes das Missões foi criativa, muito embora, percebe-se ali a importância de um professor de teatro, de técnica para se produzir um bom trabalho. A Roupa Nova do Faraó foi outro ponto alto, com apuro de detalhes e roteiro muito criativo. Os vai e vêns dos personagens para o passado e o presente, deram um tom monocórdio em algumas cenas. Mas usar o uniforme escolar como tema da peça, foi um achado brilhante. Meu amigo museu, pareceu uma brincadeira divertida, causando muito prazer na assistência. As crianças, ainda que muito pequenas, conseguiram dar conta da história. Detetives da memória revelou três talentos na escola Turíbio Verissimo. (Turíbio e não Toríbio). O argumento ficou meio poluído, mas o jogo das três crianças principais foi esplêndido. Dom Quixote foi teatro no mais profundo sentido. Um exemplo do crescimento e da criatividade inerente ao ator Kleberson Ben. Levar algo tão simbólico para dentro de uma escola municipal, nos dias de hoje. Palmas, e obrigado por isso!  

                     O Festeatro é um trabalho à várias mãos, que pertence a todo Gruo Máschara. A cada ano os professores crescem mais como encenadores, mas é importante lembrar que nem todos nasceram para ser diretores. Assim como nem todos nasceram para ser atores. Competições podem sim ser saudáveis, mas o Festeatro não é sobre isso. É sobre alma, alegria, vencer obstáculos e principalmente sobre despejar no altar dos Deuses, todas as possibilidades dos nossos artistas. É preciso claro, ler mais, estudar mais, ouvir mais, fugir do GPT, ouvir os alunos, contar sempre uma boa historia. 

                       Há no Festeatro, um frescor, uma vontade, uma garra, que costuma desaparecer dos artistas depois de um tempo de lutas e sacrifícios. Por isso é tão necessário incentivar esse tipo de projeto. A equipe técnica tentou tirar água de pedra no material despreparado para esse tipo de proposta, ainda assim muita coisa ficou razoável. Maquaigens pontuais e figurinos cheios de grandes achados. Nas atuações, destaque para Valentina Lemes, Izis Rosa, Ravi Dantas, Jorge Tassotti, João Augusto de Freitas, Ágatha Hespanhol, e Isabela dos Santos. Embora, dezenas de crianças tenham alcançado os aplausos efusivos da plateia. Mérito dos professores que conseguiram criar mundos, formar posturas e canalizar energias. Uma pena o teatro ainda não ser o prato principal de uma comunidade, alí forma-se público e prepara-se atores. Já diria um grande pensador que o teatro é o homem olhando para o homem. Nos últimos tempos estamos olhando cada vez menos, uns para os outros. 


Arte é Vida!

Não é sobre dinheiro!

É sobre comprometimento e voluntariado. 

Parabéns!!!!