segunda-feira, 13 de julho de 2026

ARTIGO IV - Para artistas de teatro



Entre linguagens

                Saí de casa ontem para uma apresentação no Instituto Annes Dias como ator convidado. Confesso que, antes mesmo de entrar em cena, já carregava comigo uma inquietação. Não era nervosismo, era uma curiosidade.  Quando um artista desse ofício atravessa a porta de um teatro que não é o seu, leva consigo muito mais do que o figurino ou o texto decorado. Leva sua história. Leva seus vícios. Suas certezas e convicções. Sua forma de respirar o palco. Leva, sobretudo, a linguagem que aprendeu a construir ao longo dos anos. Para agravar, minha visão é de diretor, muito embora eu sempre tenha apreciado aprender, mantenho a curiosidade, qual criança que descobre sempre uma nova brincadeira.

                No entanto, sabia que pisaria em um terreno onde outra visão de teatro conduzia o trabalho. Outro diretor. Outra maneira de pensar a cena. Outra estética. Outra pulsação.

                Somos, claro, irmãos de ofício, mas eu pergunto: quantos caminhos cabem dentro dessa mesma irmandade?

                O teatro tem essa estranha capacidade de reunir artistas que perseguem o mesmo objetivo por estradas completamente diferentes. Alguns lapidam a cena como quem esculpe mármore. Outros a deixam nascer quase selvagem, confiando na arte do momento... alguns preferem a precisão matemática, outros o risco do improviso. Há quem organize tudo em gráficos, e essa é minha linha. Há quem provoque o caos para depois encontrar a ordem e claro que nenhuma dessas opções invalida a outra!

                 Ou seja, elas conversam, ou deveriam conversar....

                 O teatro do Grupo Máschara possui princípios que vêm sendo desenvolvidos há muitos anos. São fundamentos que, pouco a pouco, deixaram de ser apenas técnicas para se transformarem numa maneira de compreender o palco. Estão enraizados em nós. Moldam nossa escuta, nosso olhar, nossa relação com a personagem e com o público.     Talvez até por isso o encontro com outra linguagem seja tão necessário.

                 Quando esse teatro encontra um fazer cênico mais despojado, mais intuitivo, mas igualmente vivo e pulsante, acontece algo muito interessante: surgem rupturas. Percebemos que existem outras possibilidades, já que métodos não são prisões, ou ao menos não deveriam ser. Isso sem falar que quanto maior for nosso repertório de linguagens, maior será nossa liberdade como artistas.

                Não acredito que um ator deva abandonar sua identidade para experimentar outra estética. Pelo contrário. Ser artista é, justamente, possuir uma maneira singular de enxergar o mundo, e é isso que nos torna únicos. Também devemos entender que identidade não é sinônimo de rigidez.

                  Não devemos nos esquecer que quando acreditamos ter encontrado todas as respostas talvez tenhamos parado de fazer teatro e começado apenas a repetir teatro.   

                  Ontem voltei para casa diferente, não porque mudei minhas convicções, mas por que elas foram obrigadas a dialogar com outras. Isso é sim saudável! A arte não cresce no isolamento, quando treinamos uma cena em casa ou trazemos tudo pronto na cabeça ou quando “assistimos filmes” e saímos dali com verdades universais prontas, a arte cresce é no encontro. E principalmente se há atrito, ou se termos a coragem de reconhecer que o outro pode revelar perguntas que nós sequer sabíamos que existiam.

                  Talvez seja esse um dos maiores presentes que um diretor pode oferecer a outro diretor, e que um grupo pode oferecer a outro grupo: a oportunidade de enxergar o próprio trabalho (teatro) por um ângulo até então desconhecido.

                    Acreditem! Não existe artista verdadeiramente vivo que permaneça imune às transformações provocadas pelo encontro entre linguagens, pelo mundo ao redor. Se permanecermos os mesmos depois de cada experiência, talvez tenhamos apenas passado pelo palco. Mas, se voltarmos para casa carregando novas perguntas, então o teatro, mais uma vez, cumpriu sua missão. E você, tem perguntas?

Quintanares: O menino pássaro


 

Grupo Máschara reunido


 

Artistas do Máschara com o ator John Vaz

Junior Lemes, Renato Casagrande, John Vaz, Gabriel Ben, 
Felipe Brandão, Douglas Maldaner


 

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Artigo III- Para atores e gente do ofício

ONDE ESTA A GANGRENA?

                     Ao conversar com alunos, enquanto promovo debates sobre teatro, me pego observando suas visões sobre o nosso ofício sagrado. Essa conversa é muito pulverizada as vezes, a partir do momento que endossamos a ideia equivoca de que no teatro tudo vale, ou ainda, de que o teatro não tem um objetivo especifico com a cena, ou seja, que você pode colocar o que quiser sobre o palco e o público que pense o que bem entender. Talvez, também, porque nos últimos tempos, as pessoas tenham passado a acreditar que palco é lugar para conforto. Para afago. Para finais felizes. Como se o único dever do artista fosse fazer o público sair sorrindo.

                     Eu discordo profundamente disso!

                     Nelson Rodrigues dizia que: As boas ações cabem a um jardim de infância. O teatro, é o lugar da GANGRENA.

                       Sempre achei essa imagem extraordinária.

                    Gangrena é aquilo que apodrece escondido sob a pele. É a ferida que ninguém quer mostrar. É o cheiro que denuncia que existe algo profundamente errado. E talvez seja exatamente essa a função do teatro: retirar as bandagens da sociedade e obrigá-la a olhar para aquilo que insiste em esconder. Não me entendam mal, eu não tenho definitivamente nada contra o teatro musical. Muito menos contra os filmes da Disney. Eles cumprem uma função importante: alimentar sonhos, encantar crianças, emocionar famílias. Há muita beleza nisso. Sem falar que essa beleza que encanta, desperta o fascínio pelo faz de conta e pela arte de interpretar.

                      Mas isso, sozinho, não basta ao teatro, porquê, quando o palco existe apenas para confirmar que o mundo é bonito, ele deixa de ser palco e passa a ser vitrine.

                       O verdadeiro teatro precisa incomodar. Fazer perguntas para as quais alguns não se sentem prontos para responder. Ele coloca o assassino diante da mãe da vítima. Coloca o corrupto diante do espelho. Coloca o santo ao lado do canalha e, às vezes, nos obriga a descobrir que ambos habitam a mesma pessoa.

                       O teatro não foi inventado para massagear consciências. Foi inventado para desarrumá-las. Não nasceu para preencher nossa necessidade de aplausos.

                      Existe, claro, espaço para espetáculos delicados, doces, poéticos, mas ainda assim, eles estão a serviço de: através da poesia, questionar algo! Eu mesmo acredito profundamente no teatro feito com crianças. Acredito no teatro realizado com idosos. Nos dois casos, muitas vezes, a delicadeza é necessária, sem falar que acolhimento também é arte. Descobrir a própria voz, e todos temos uma, já é por si só, revolucionário, vanguardista muitas vezes.

                       Mas, quando falamos da essência do teatro, precisamos ir além do bonito. Porque o bonito passa e a pergunta permanece.

                       Se o público sair do espetáculo, exatamente igual ao que entrou, talvez tenha assistido a um bom entretenimento, mas dificilmente viveu teatro.

                       O teatro é o lugar onde as certezas adoecem. Onde os preconceitos são interrogados. Onde a moral perde a maquiagem. Onde a sociedade é obrigada a contemplar suas próprias gangrenas.

                       E, meus senhores e senhoras, é exatamente por isso que o teatro nunca será unanimidade. E nesse caso, ainda bem! Se todos amassem o teatro, e tudo fosse flores e aplausos, talvez nossos objetivos fossem outros e nossos desafios nos desmotivassem.

                         Pensemos bem: enquanto houver alguém disposto a subir ao palco para dizer aquilo que ninguém deseja ouvir, haverá teatro. O resto pode sim ser belo, mas não esqueçamos que sozinha, a beleza jamais foi suficiente para transformar o mundo.


Paulo Amaral e Maico Giovani Mazoy Carricio


 

Oficina teatro COARTE - Claudia Arnould


 

Alunos interagindo em oficina (Margarida Pardelhas)


 

Confraternização com alunos no Palacinho do Máschara


 

Alunos da escola Margarida Pardelhas visitam o Palacinho do Máschara