quarta-feira, 17 de junho de 2026

Texto Paixão de Cristo, por Kléber Lorenzoni-2018

 

Paixão de Cristo – ANO –II

 

Cena 1

 José de Arimatéia, Anaz, Matheus, Mulher Adultera, Madalena, Kaifaz, figurantes

José de Arimateia- Voz ouvistes falar de um homem que anda pelas ruas como salvador do mundo, que prega contra a injustiça!

Anaz- Jesus de Nazaré, Um homem que se levanta contra as leis, grandes multidões o ceguem, um farsante...

Kaifaz-Ele invadiu o templo, expulsou quem lá dentro comercializava honestamente, derrubando bancas e agredindo gente do bem! É um agitador.

José de Arimateia- Mas a  verdade é que expulsou os vendilhões! Curou o cego, beijou o leproso, não é verdade Kaifaz?

Anaz-Ele é inimigo do templo! Insufla o povo contra nós!

Kaifaz- Ora o povo não sabe de nada, ele é um Subversivo, um perturbador da ordem publica...Nos ofende, nos humilha...

José de Arimatéia- Ele se diz filho de Deus...

Kaifaz-Também foste seduzido pelo galileu, José de Arimatéia?

José de Arimatéia- Mas podemos julgar alguém antes de ouvi-lo?

Matheus-Senhor, senhor veja o que temos aqui...

Mulher adultera- Soltem-me, por favor!

Kaifaz- O que fez esta mulher?

Matheus- Ela foi pega cometendo o pecado do adultério.

Kaifaz- Então que se cumpre a lei de Moisés!

Anaz- Toda mulher adultera deve ser apedrejada;;;

Mulher Adultera-Socorro...

Jesus-Parai, parai por favor, ela é seu próximo, como podeis maltratar, humilhar, ou mesmo erguer a mão para um semelhante?

Kaifaz-Ela pecou, deve pagar por seus pecados...

Jesus-Pois serei eu mesmo a dar a pedra, aquele dentre voz que nunca pecou...

(silencio, todos vão largando as pedras e se retirando)

Jesus-Mulher, onde estão aqueles que te condenaram?

Mulher Adultera-Foram embora senhor...

Jesus-Eu também não te condeno... Vá e não peques mais...

Madalena-Senhor...

Jesus-Quem sois vós?

Madalena-Eu me chamo maria, Maria de Magdálem... Por que ajudaste aquela mulher?

Jesus-Era uma semelhante, não poderia ter agido  de outra forma...

Madalena- Vos a tratastes como se ela fosse digna de alguma coisa...

Jesus-E ela é, assim como voz...

Madalena-Eu não ou digna de nada, não passo de uma qualquer. Para alguns homens as mulheres não passam de objetos...

Jesus-Vos sois minha semelhante, somos todos irmãos perante o pai...  Não vos julgueis tanto... Tudo  o que acontece tem um sentido, um motivo nos planos do pai. Eu  vou chama-la de Madalena...

Jesus-Mestre, Posso eu te seguir?

Madalena- Não, mas podes andar ao meu lado...

 

Cena II – Pregação e apóstolos

 

Jesus atravessa a praça juntamente com alguns discípulos e Madalena

 

Thiago, Madalena, Pedro, Tomé, Tadeu, Matheus, Crianças I  II  III e IV, Jesus, Esther, Judas, Centurião, Kaifaz, Anaz, José de Arimatéia

 

Thiago-Mestre, a mansão está preparada...

(As crianças se aproximam de Jesus)

Tomé-Eis o pão senhor... Há o suficiente para todos...

Jesus-Não só de pão viverá o homem Tomé!

Todos- Mas de toda a palavra que  emana do pai!

Esther-Mestre, os pequenos o querem ver... Conversar convosco!

Jesus- Vinde a mim as criancinhas! Delas é o reino dos céus...

Tadeu-Mestre, então somente as crianças entrarão no reino dos céus?

Jesus-Em verdade vos digo, todo homem deve manter sempre o coração puro e limpo como o de uma criança, assim, seremos todos crianças a entrar na morada do senhor...

Criança I-Jesus conte mais historias para nós...!

Criança II- Senhor, se alguém me ofender, ou me bater? Devo perdoar quantas vezes...?

Criança III Sete vezes!

Jesus-Só sete vezes? Melhor seria setenta vezes sete...

Criança IV- Tudo isso?

Jesus-Quem perdoa pouco, ama pouco! (Madalena leva as crianças)

Thiago-Mestre, podemos cear?

Jesus-Espere, trazei água e uma toalha! (para Matheus) Aproxima-te, dê-me vosso pé, assim como eu me ajoelho diante de ti para lavar vosso pé, vos todos deverão repetir esse gesto, somos todos iguais perante o pai, ninguém é maior ou melhor que seu próximo. Ide e pregar a boa nova e praticar o bem...

(Ester recolhe a bandeja)(apóstolos dividem o pão)

Jesus-Este é o corpo de cristo, eu vos entrego, tomai e comei todos vos, para a remissão dos pecados, bebei também o vinho, é meu sangue, fazei isto em minha memoria, mesmo depois que eu partir.

Thiago-Falas em partir mestre, quando isso acontecerá e por que?

Jesus-Por que assim está escrito! Logo virão me buscar...

Matheus- Mestre nós o defenderemos..

Jesus-Meus amigos, dentre vos há um traidor...e é preciso que seja assim para que se cumpram as escrituras...

Pedro-Traidor? Nós nunca o trairemos! Somos seus irmãos, seus discípulos...

Jesus-Ora Pedro, ainda antes do amanhecer, me trairás três vezes!

Pedro-Eu mestre, jamais o negarei!

Jesus-Não te martirize Pedro, sois seres humanos... E além do mais é preciso que o traidor levante-se dentre voz...

Judas-Por acaso serei eu a trair-vos?

Jesus-Tu o diz...

Judas- Mas voz sois meu mestre. (beija a orelha de Jesus)

Anaz-Aqui homens, prendei-os, prendei a todos...

Kaifaz-Aqui está o valor combinado!

(judas se atira ao chão, pega o saco de dinheiro e ergue-se sendo encarado por Jesus)

Jesus- Judas, traístes o filho do homem com um beijo?

Thiago-Vamos defender o mestre...

Jesus-Não façam nada...Não digam nada, é só o principio!

Judas-Espere,está desfeito o acordo,  eu devolvo o dinheiro, solte-o...

Kaifaz- O dinheiro pouco me importa, saia daqui se não quiseres ser preso também... (para Pedro) Espere, tu não és também um seguidor dele?

Pedro- Não, eu nunca vi esse homem!

Nunca! Nunca ! Nunca!

Kaifaz-Sem mais delongas, levai-o a Herodes...

 

Cena 3

(Jesus, Herodes, Herodíaze, Anaz, Caifaz)

Anaz- Senhor, trouxemos um prisioneiro para que o julgue...

Herodes-Não veem que estou ocupado? Hoje não pretendo atender ninguém...

Anaz- Mas senhor, trata-se de Jesus...

Herodes- Jesus? O Nazareno? Isso é muito interessante...(pausa) Dizem que ele cura homens...Tragam-no.

(jesus sobe no palco)

Herodes- Isso é Jesus de Nazaré? Um pobre homem...(gargalhadas) O que ele prega?

Kaifaz- Ele diz que o homem deve amar o próximo...

Herodizase- Mas que mente fértil... Se ele ainda dissesse que o homem deve amar a mulher do próximo... Hahahahahah

Kaifaz- Ele se diz rei... Se diz acima de todos os reis...

Anaz-Ele diz que todos devem buscar o céu!

Herodiaze-Aqui todos buscamos o céu, na corte de herodes você encontra mais, encontra o paraíso...

Herodes-Esse homem tem uma deliciosa doutrina...

Anaz- Deliciosa doutrina? Vejam o astuto rei herodes está encantado com o nazareno, a ponto de esquecer sua própria coroa... Não degolaste João Batista, por que ele incitava o povo?

Herodes- Cala-te ou te mato!

Kaifaz- É a mim que vais ouvir... Mata-nos e deixai vivo esse aí, que  é muito mais perigoso que eu, muito mais perigoso que o Batista, ele arrasta multidões, se diz rei... Quer tomar o seu lugar... Vai te destruir com seus milagres. Solta-o e vais ver o demônio em suas magicas...

Herodes-Então tu és o rei dos judeus...

Jesus-Estais dizendo isso de sua própria opinião ou os outros que te disseram isso de mim...?

Herodes-Tragam um manto, um monarca deve ter um esplendido manto!

Herodiaze- Não foi ele quem transformou água em vinho? Responde para tua rainha, vamos...

Herodes- Vamos, faça uma mágica para o teu rei...aqui tem água, torna-a vinho... Não? Não faz nada para teu rei? Fala alguma coisa. Mostra teu poder... (pausa, da o copo à Herodiase, ela prova, sente algo estranho vem e cospe em Jesus)

Herodiaze-Impostor, biltre, rufião, é isso que tu és...

Herodes- Veja velho, Ele nada diz... Tu zombas do teu rei, Não passa de um pobre diabo, é incapaz de se defender, de erguer a voz...levai-o daqui, levai-o a Pilatos...

 

 

Cena 4

(Jesus, Pilatos, Kaifaz, Anaz, Crenturião)

Kaifaz- Senhor procurador Poncio Pilatos, precisamos que outorgueis uma ordem, precisamos condenar esse homem. Ele se diz rei, se diz o maior de todos os reis!

Pilatos- Esse agitadores civis não são problemas meus, enviem-no a Herodes...

Anaz-Herodes não quer condena-lo, e não tem vosso poder, não representa Cesar

Kaifaz- Vos sois o poder máximo em Jerusalém, é a ti que recorremos, ou prefere que Herodes decida e que sua voz seja mais alta que o do poder de Tibério Cezar, imperador de roma...

Pilatos-Muito bem, homem, tu se diz rei, és rei?

Jesus- Tu o disseste. eu nasci para dar testemunho da verdade... todo homem que ama a verdade escuta a minha voz...

Pilatos- Verdade? Qual verdade? A tua verdade? Verdade de um homem que se diz rei, mas que está amarrado. Tu não tens ninguém por ti!

Deve ser apenas mais um louco, Flagelem-no! Açoitai-o!

(soldados o chicoteiam)

Pilatos-Pronto, eis aí teu rei, já recebeu o castigo, agora eu vou solta-lo!

Kaifaz-Não! Não!  Não, ele é réu de morte!

Anaz-Ele se diz rei, se diz Cristo o Nazareno! Ele blasfema!

Kaifaz-Ele se diz filho de Deus... Solta-o e também será um traidor...

Pilatos- Não esticai tanto a corda velho. Esquece-te que o poder supremo aqui é roma? Queres também ser açoitado por desrespeitar o império...

Kaifaz- Perdoai-me Pilatos, esqueci-me que aqui tu é quem reges...

Pilatos- Ouçam é a Páscoa, e é de vosso costume receber a libertação de um prisioneiro nessa época de festividades. Roma vê esse costume com benevolência, então lhes pergunto, quem quereis que solte...?

Kaifaz- Solta Barrabás...

Pilatos-Diz algo que te defenda homem, ou logo serás um cordeiro imolado... Não sabes que eu detenho o poder de condenar-te ou libertar-te...

Jesus-Poder algum tu terias sobre mim, se do céu não te fosse dado. Por isso maior pecado tem quem me trouxe a ti...

Pilatos- Tragam Barrabás! Quem quereis que solte? Jesus o Nazareno, louco? Ou Barrabaz, o ladrão e assassino confesso?

Kaifaz- Barrabas, solte Barrabas...

Todos- Soltem Barrabas...

Pilatos-Ah o povo! Sempre fazendo as escolhas certas...

(Pilatos faz gesto para soltar Barrabas)

Pilatos- E agora, que farei com esse homem aqui apresentado como o cristo?

Anaz e Kaifaz- Crucifica-o!

Kaifaz- Pendure-o na cruz!

Pilatos- Tendes certeza? Quereis uma punição tão severa?

Kaifaz- Crucifica-o!

Pilatos- Pois bem, quero me livrar logo desse dilema, estou farto de voz... Mas ouçam, lavo as minhas mãos, estou livre de qualquer culpa... Crucifiquem-no!

 

Cena 5-

 

Centurião- Não és tu o Rei dos Judeus?

Romano 1- O rei dos Reis?

Centurião- Eis a tua coroa!

Romano 2- Todo rei deve ter uma coroa!

(gargalhadas)

Centurião- Tragam o madeiro para que ele carregue... Subamos pois até a gólgota!

Esther- Soltai-o eu vos imploro, o que fizeste esse homem para merecer tão terrível castigo?

Romano- Não sei mulher, apenas cumpro ordens...

Esther-E como podeis concordar em maltratar alguém sem motivo justo?

Romano-Fora daqui, antes que te carregue com ele...

 

Cena 6-

(Jesus cai)

Anaz- Anda fracote, ou pede ajuda a teu Deus!

José de Arimateia –Ajudai-o, aqui alguém o ajude!

Jesus – Filhas de Jerusalem, não choreis por mim, chorai por vos, pois a sorte de um povo morre com minha morte...

(mulheres choram)

Centurião- basta de rezas...

Maria-Meu filho! Luz dos meus olhos...

Jesus- Acalma tua dor minha mãe, nasci com um proposito e se tantos outros carregam sua cruz posso eu também carregar a minha...

Maria-Então me de para que eu carregue contigo, pois pior que carregar sobre meus ombros é ver tua carne, que é também minha carne, carregando o peso da morte...

Esther- Senhora acalma tua dor...

Maria- Meu filho......

Kaifaz-Tirem-na daqui!

Verônica- Deixai-me passar, deixai-me passar, não sei se és culpado ou inocente de nada, sei que me estendeu a mão quando todos me deram as costas, nada posso fazer, mas permita que eu te limpe a face, para diminuir tua dor...

Jesus-Rezai mulher e perdoai sempre...

Projeto de Teatro - NUMAC


 

Corpo volátil -


 

O Teatro não tem idade


 

terça-feira, 9 de junho de 2026

Sinopse Laços Imortais


 

Clara Devi em momento cênico para visitantes do Palacinho


 

Texto técnico- O terceiro teatro

 AULA VIII – O Terceiro Teatro

 

                 Ao mergulharmos na caminhada do teatro, precisamos compreender de onde viemos e para onde vamos em nossa caminhada. Nossa história é a história de milhares de outros homens e mulheres pelo mundo todo. O Teatro de grupo é a base do teatro em cidades pequenas, em vilarejos, em escolas e em tantos outros espaços onde nasce a necessidade de transformar.

 

               O encenador italiano Eugenio Barba classifica o teatro ocidental em três vertentes com base em suas estruturas, produções e propósitos: o Primeiro Teatro (institucional e comercial), o Segundo Teatro (vanguarda e experimental) e o Terceiro Teatro (grupos independentes que operam à margem do sistema).

 

· Primeiro Teatro (Teatro Oficial/Institucional): É o teatro tradicional, subvencionado pelo Estado, altamente comercial ou focado na indústria do entretenimento. Depende de grandes orçamentos, diretores famosos e segue normas rígidas focadas no texto.

·  Segundo Teatro (Teatro de Vanguarda): Focado na experimentação radical e na quebra de paradigmas. Busca a inovação constante e a superação da tradição, mas costuma depender de apoio acadêmico, elitista ou de espaços subsidiados para sobreviver.

·  Terceiro Teatro (Teatro de Grupo/Independente): O conceito cunhado por Barba em 1976. São grupos independentes à margem tanto do sistema comercial quanto das vanguardas. Sobrevivem graças à ética, à disciplina (treinamento) e à relação direta com a comunidade, sendo o próprio Odin Teatret o maior exemplo dessa prática.

                  A história do teatro contemporâneo é repleta de laboratórios e de comunidades teatrais (como lhes chamava Cruciani), espécies de mosteiros modernos e laicos que ganham sentido e força exatamente por desenvolverem regras próprias.  A comunidade dos Copiaus, na França,  a do Reduta, fundada nos mesmos anos por Julius Osterwa e Mieczyslaw Limanowski e que percorreu todo o país, até os seus cantos mais remotos, entre 1924 e 1939, chegando até onde o teatro nunca tinha chegado antes ou tinha desaparecido há séculos. Os Estúdios criados por Stanislávski (principalmente o Primeiro Estúdio, iniciado em 1912 e marcado pela personalidade extraordinária de Sulerjítski e por suas profundas exigências éticas). O Teatro Laboratorium de Grotowski a viajante comunidade anárquica do Living Theatre; o Théâtre du Soleil de Ariane Mnouchkine  e o CICT de Peter Brook. O Bread Puppet de Robert Schumann, que se auto-exilou em Vermont depois das batalhas nova-iorquinas. O Teatro Campesino de Luís Valdez, nascido dentro das lutas sindicais dos trabalhadores temporários mexicanos da West Coast; a San Francisco Mime Troupe de Ronnie Davis, com o seu“ teatro de guerrilha”. E também, e principalmente, o Odin Teatret fundado por Eugenio Barba em 1964 na Noruega. Ou seja, grandes grupos e companhias espalhados pelo mundo, produzindo linguagens, pesquisa e impulsionando sempre o homem a não desistir das artes cênicas