Entre linguagens
Saí de casa ontem para uma
apresentação no Instituto Annes Dias como ator convidado. Confesso que, antes
mesmo de entrar em cena, já carregava comigo uma inquietação. Não era
nervosismo, era uma curiosidade. Quando
um artista desse ofício atravessa a porta de um teatro que não é o seu, leva
consigo muito mais do que o figurino ou o texto decorado. Leva sua história.
Leva seus vícios. Suas certezas e convicções. Sua forma de respirar o palco.
Leva, sobretudo, a linguagem que aprendeu a construir ao longo dos anos. Para agravar,
minha visão é de diretor, muito embora eu sempre tenha apreciado aprender,
mantenho a curiosidade, qual criança que descobre sempre uma nova brincadeira.
No entanto, sabia que pisaria
em um terreno onde outra visão de teatro conduzia o trabalho. Outro diretor.
Outra maneira de pensar a cena. Outra estética. Outra pulsação.
Somos, claro, irmãos de ofício,
mas eu pergunto: quantos caminhos cabem dentro dessa mesma irmandade?
O teatro tem essa estranha
capacidade de reunir artistas que perseguem o mesmo objetivo por estradas
completamente diferentes. Alguns lapidam a cena como quem esculpe mármore.
Outros a deixam nascer quase selvagem, confiando na arte do momento... alguns
preferem a precisão matemática, outros o risco do improviso. Há quem organize
tudo em gráficos, e essa é minha linha. Há quem provoque o caos para depois
encontrar a ordem e claro que nenhuma dessas opções invalida a outra!
Ou seja, elas conversam, ou deveriam
conversar....
O teatro do Grupo Máschara
possui princípios que vêm sendo desenvolvidos há muitos anos. São fundamentos
que, pouco a pouco, deixaram de ser apenas técnicas para se transformarem numa
maneira de compreender o palco. Estão enraizados em nós. Moldam nossa escuta,
nosso olhar, nossa relação com a personagem e com o público. Talvez até por isso o encontro com outra
linguagem seja tão necessário.
Quando esse teatro encontra um
fazer cênico mais despojado, mais intuitivo, mas igualmente vivo e pulsante,
acontece algo muito interessante: surgem rupturas. Percebemos que existem
outras possibilidades, já que métodos não são prisões, ou ao menos não deveriam
ser. Isso sem falar que quanto maior for nosso repertório de linguagens, maior
será nossa liberdade como artistas.
Não acredito que um ator deva
abandonar sua identidade para experimentar outra estética. Pelo contrário. Ser
artista é, justamente, possuir uma maneira singular de enxergar o mundo, e é
isso que nos torna únicos. Também devemos entender que identidade não é
sinônimo de rigidez.
Não devemos nos esquecer que
quando acreditamos ter encontrado todas as respostas talvez tenhamos parado de
fazer teatro e começado apenas a repetir teatro.
Ontem voltei para casa
diferente, não porque mudei minhas convicções, mas por que elas foram obrigadas
a dialogar com outras. Isso é sim saudável! A arte não cresce no isolamento,
quando treinamos uma cena em casa ou trazemos tudo pronto na cabeça ou quando “assistimos
filmes” e saímos dali com verdades universais prontas, a arte cresce é no
encontro. E principalmente se há atrito, ou se termos a coragem de reconhecer
que o outro pode revelar perguntas que nós sequer sabíamos que existiam.
Talvez seja esse um dos
maiores presentes que um diretor pode oferecer a outro diretor, e que um grupo
pode oferecer a outro grupo: a oportunidade de enxergar o próprio trabalho (teatro)
por um ângulo até então desconhecido.
Acreditem! Não existe artista
verdadeiramente vivo que permaneça imune às transformações provocadas pelo
encontro entre linguagens, pelo mundo ao redor. Se permanecermos os mesmos
depois de cada experiência, talvez tenhamos apenas passado pelo palco. Mas, se
voltarmos para casa carregando novas perguntas, então o teatro, mais uma vez,
cumpriu sua missão. E você, tem perguntas?








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