terça-feira, 30 de junho de 2026

ARTIGO II - Para atores e gente do Ofício

 

MANIFESTO DO SISTEMA MÁSCHARA


                         Durante uma reunião dos professores do Dia D, enquanto analisava o olhar que cada um tem sobre o teatro do Máschara, me dei conta de que precisava trazer para o papel algo que há muito tempo habita meus pensamentos. Precisava escrever sobre o sistema. O sistema Máschara de teatro.

                         Não um método fechado. Não uma fórmula pronta. Não uma receita capaz de transformar qualquer pessoa em ator. Pelo contrário. Talvez a primeira característica do nosso sistema seja justamente compreender que cada ser humano é único. No Máschara, cada um é um. Todo ator não fará todos os papéis. Existe um  papel que se conecta contigo!  Esse olhar pode parecer simples, mas ela sustenta boa parte do que fazemos. Há um respeito profundo pela individualidade criativa de cada aluno, de cada ator, de cada pessoa que cruza o caminho do grupo. Não buscamos fabricar artistas em série. Não queremos que todos pensem igual, interpretem igual ou criem igual. Queremos que descubram sua própria voz.

                          Afinal, o teatro não nasce da repetição. O teatro nasce do encontro entre diferentes formas de enxergar o mundo. Talvez por isso nosso trabalho vá muito além dos espetáculos. Quem entra no Máschara precisa compreender que faz mais do que teatro. Faz um trabalho social. Quando um ator visita uma escola, quando participa de uma atividade em um bairro, quando sobe ao palco de uma comunidade distante, quando conversa com uma criança que nunca havia assistido a uma peça ou com um idoso que carrega décadas de histórias para contar, ele não está apenas representando. Está construindo pontes. Está ajudando a transformar vidas. E, inevitavelmente, também está transformando a própria.

                             O sistema Máschara acredita na arte como ferramenta de crescimento humano. Por isso buscamos constantemente a técnica e o conhecimento. Estudamos. Pesquisamos. Experimentamos. Erramos. Recomeçamos. Aprendemos com os livros, com os mestres, com os colegas e, principalmente, com o palco.

                           Não vamos esquecer, queridos palacianos, que talento sem estudo, se acomoda. Não importa quantos livros tenhamos lido, a partir do momento que paramos de estudar, enferrujamos. E além disso, cabe a premissa de que técnica sem humanidade perde o sentido.

                           Mas há, ainda, um outro valor que sustenta o nosso sistema: o respeito. Respeito por aqueles que vieram antes de nós. Nenhum ator sobe sozinho ao palco. Atrás de cada espetáculo existem gerações de artistas que abriram caminhos, enfrentaram preconceitos, carregaram cenários, escreveram textos, construíram grupos e defenderam a cultura quando isso parecia impossível. Somos herdeiros dessas pessoas, Helquer Paez, Dulce Jorge, Cesar Dors, GIane Ries, Seu Jorge... Mais tarde, aprendemos e vimos artistas como Alexandre Dill, Simone De Dordi, Angelica Ertel ou Gabriel Wink, criando, produzindo... Temos a responsabilidade de honrar esse legado, que não ficará em museus, que não estará em livros, ele se perderá... Ou ficará vivo, em nós.  Visualizar tudo isso, refletir sobre, nos torna seres pensantes.

                             Mas o teatro não nos dá respostas prontas, ele nos ensina a fazer perguntas. A observar. A refletir. A compreender que o mundo é maior do que nossas certezas. O teatro nos ensina a olhar para o outro. E é justamente esse olhar que conecta tudo aquilo que fazemos. As aulas com idosos. As aulas com crianças. Os espetáculos. Os festivais. As oficinas. As turmas que acompanho em Alegrete. Os ensaios no Palacinho. À primeira vista, tudo isso pode parecer atividades diferentes. Mas não são. Tudo faz parte de um grande projeto de vida. Um grande projeto de cultura. Um grande projeto de gente.  

                             Porque o sistema Máschara não foi construído apenas para formar atores. Foi construído para formar cidadãos sensíveis, criativos, conscientes e comprometidos com a comunidade onde vivem. No fim das contas, é isso que nos move. Estamos a serviço das gentes. Porque o teatro só faz sentido quando encontra alguém. E talvez o verdadeiro sistema Máschara seja exatamente isso: colocar a arte a serviço da vida.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Equipe de comunicação Prefeitura de Cruz Alta - em cena Cléber Lorenzoni como Seu João


 

Artigo I - Para atores e gente do oficio

 

Texto para ser lido sob bambolinas

                         Enquanto caminho em direção ao Palacinho para mais um ensaio, vou tentando construir uma boa cena dentro da cabeça. Às vezes ela já nasce quase pronta. Outras vezes vem aos pedaços, como quem não quer se revelar de uma vez. Nesse trajeto, porém, me divirto me colocando no lugar dos atores. Eu sou ator antes de ser diretor, essa é minha natureza e um ator carrega dentro de si dezenas de vidas, centenas de emoções e uma capacidade extraordinária de emprestar o próprio corpo para que, alguém que não existe possa existir diante do público. Mas também sei que, muitas vezes, eles não sabem por onde começar.  O teatro, as vezes parece grande demais para caber numa definição simples.

                       Volta e meia me pergunto o que é, afinal de contas, o teatro. E quanto mais penso, menos consigo reduzi-lo a uma técnica, a uma arte ou a um espetáculo. Para mim, teatro é comunicação. É o encontro mais antigo e mais sincero entre alguém que tem algo a dizer e alguém disposto a ouvir, por isso acredito que o teatro precisa ser atraente. Não no sentido superficial de apenas divertir, mas no sentido de capturar a atenção das pessoas para então provocar reflexão, despertar sentimentos, informar, transformar ou até mesmo incomodar. Um espetáculo pode arrancar gargalhadas e ainda assim fazer pensar. Pode emocionar e, ao mesmo tempo, ensinar. Pode entreter e transformar uma comunidade inteira.

                     O público não se senta diante de um palco para assistir a um exercício de vaidade. Ele vai em busca de uma experiência. E cabe a nós oferecer algo que dialogue com a sua realidade, com seus sonhos, seus medos e suas perguntas. É PRECISO SE COLOCAR NO LUGAR DAS PLATEIA “O QUE VOCÊ TEM A DIZER É MUITO IMPORTANTE PARA ELA”.  Talvez por isso o primeiro trabalho que costumo indicar aos meus atores não seja decorar o texto. Claro que decorar é importante. O texto é a estrada. Mas não é a viagem. O primeiro exercício é ouvir. Ouvir de verdade.

                      Escutar o parceiro de cena. Escutar as pausas. Escutar os silêncios. Escutar até aquilo que não foi dito. Porque quando um ator está realmente ouvindo, ele deixa de apenas repetir palavras decoradas e passa a reagir ao que acontece naquele instante. A cena fica viva.

                       E a resposta surge quase como um mecanismo de defesa. Alguém lança algo no palco e o personagem responde. Não porque chegou a sua vez de falar, mas porque algo o atingiu. E quando isso acontece, o público percebe. Talvez não saiba explicar, mas percebe. Existe uma enorme diferença entre dizer uma fala e responder uma fala.  Dizer é reproduzir. Responder é viver.

                      É por isso que sempre insisto que as personagens não são construídas apenas pelos seus discursos. Elas nascem da troca. Das réplicas. Das reações. Do que recebem e do que devolvem. Um personagem é aquilo que fala, mas principalmente aquilo que escuta. Quando dois atores realmente se ouvem, o texto ganha respiração. As palavras deixam de ser um monumento imóvel e passam a ser uma conversa. E o teatro, que às vezes corre o risco de virar mera repetição, volta a ser aquilo que nasceu para ser: UMA CERIMÔNIA!

                   Talvez seja por isso que sigo pensando em teatro enquanto caminho para os ensaios. Porque cada cena ainda é uma pergunta sem resposta definitiva. E porque acredito que o palco continua sendo um dos poucos lugares onde seres humanos podem se reunir para ouvir e serem ouvidos.

                   No fim das contas, talvez o teatro seja exatamente isso: uma conversa que nunca termina. Agora eu, diretor, te pergunto, você ouve o outro em cena?

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Texto Paixão de Cristo, por Kléber Lorenzoni-2018

 

Paixão de Cristo – ANO –II

 

Cena 1

 José de Arimatéia, Anaz, Matheus, Mulher Adultera, Madalena, Kaifaz, figurantes

José de Arimateia- Voz ouvistes falar de um homem que anda pelas ruas como salvador do mundo, que prega contra a injustiça!

Anaz- Jesus de Nazaré, Um homem que se levanta contra as leis, grandes multidões o ceguem, um farsante...

Kaifaz-Ele invadiu o templo, expulsou quem lá dentro comercializava honestamente, derrubando bancas e agredindo gente do bem! É um agitador.

José de Arimateia- Mas a  verdade é que expulsou os vendilhões! Curou o cego, beijou o leproso, não é verdade Kaifaz?

Anaz-Ele é inimigo do templo! Insufla o povo contra nós!

Projeto de Teatro - NUMAC


 

Corpo volátil -


 

O Teatro não tem idade