Foi sob o Portão Dourado, um dos oito da cidade velha de Jerusalém, que Ana e Joaquim se encontraram, e ali ela comunicou a concepção de Maria. O casal residia em Jerusalém, ao lado do tanque de Betseda, onde hoje também está localizada a Basílica de Santana, construída no século XII pelos cruzados. Nada é por acaso, são frases, acontecimentos e energias que estão ao nosso redor como ondas de rádio, que vão conectando o ontem e o amanhã. Talvez, nesse tempo de guerras, que coloca em risco as riquezas do passado, venhamos a perder parte da historia que fica encrava em Jerusalém. Mas seguimos com o teatro, como forma de recontar e redescobrir o passado. Não sabemos se ele foi mágico, ou divino, mas é mister contar o passado para as novas gerações.
Aos pés da Catedral de Sant'ana em Uruguaiana, no último domingo, um arrepio energético deve ter percorrido os atores e atrizes. A avó de Jesus estava ali presente, com uma congregação que tomou o largo da praça Barão do Rio Branco. Havia um vento frio percorrendo os espaços entre os corpos, de forma que estar amontoados, próximos, era a melhor forma de aquecer o corpo. E foi com essa aquecida unidade de massa humana que os atores foram recebidos, em uma meio a uma grande meia lua, voltada para as escadarias centenárias da edificação monumental.
Era um Jesus pleno que falava com seus colegas de cena, aqueles que haviam decidido seguir não o Nazareno, mas ali o Lorenzoni. Os palcos não eram muito altos, o que aproximava a plateia, a colocava quase dentro da cena. O texto pronunciado com ritmo muito poético foi comovendo e envolvendo e rapidamente o público estava imbuído, mantendo-se firme pelas duas horas de evento. Lorenzoni atua em uma energia perigosa, em um "fio de navalha", deixando as vezes, os colegas tensos, ao mesmo tempo, sempre ligados. Tudo pode acontecer. Marcas mudam de lugar, gestos surgem, ao ponto de o vermos sumir para dentro da igreja no meio da cena. Clara Devi, tentando solucionar pão e vinho, mudando marcas para adaptar-se aos palcos, também merece aplausos, talvez seja essa postura que buscamos em uma atriz de status III (***). Seu visual, mérito do camareiro R.C. ficou esplendido, uma pena terem nos dado esse visual apenas no ultimo dia. Foi a noite também da preciosa Serquevitio. Que elevou a régua do que se espera de um membro do Máschara, sua "Lamassu" vigiou Jesus por todo o espetáculo. Prova disso foi sua presença até mesmo aos pés da cruz, como se observasse se Jesus realmente iria padecer no madeiro. Nem mesmo a pureza do casamento escapou de suas mãos. (***)
O núcleo familiar de Jesus fica muito claro, e a importância desse pilar para a narrativa se estabelece quando Jesus está no topo da escada com a vó, cercado pelo tio Labão, o primo Judas, sua Tia Salomé e logo depois as crianças, seus sobrinhos Hannah, Agnes e Joaquim. A tribo que ele menciona, é a tribo humana, somos todos parentes, todos estamos conectados. Marli Guma representou muito bem a personagem Ana, adaptando-se as escadarias (***), Izis manteve-se de pé junto à coluna, obscurecendo um pouco a cena,(**) e em um momento ficou presa junto ao palco da cruz, enquanto Kaifaz adentrava a cena. Priscila adaptou-se como pode, e infelizmente não esteve no palco pontual a espera da segunda queda de Jesus. (**) Mas foi de uma força magistral em todas as cenas de Maria. Estamos ansiosos por vê-la em novos papeis. Ana Clara Kraemer(**), Kleberson Ben (***) e Renato Casagrande tiveram a difícil tarefa de vestir os colegas, sonorizar o espetáculo e ainda atuar. Uma lástima o Máschara não ter um profissional da área próprio e unicamente voltado para a parte técnica. Ana é discreta e essa é sua maior qualidade no propósito. Kleberson atua bem, mas deve buscar mais personalidade cênica. Casagrande comanda o show, certamente um ator pronto. Mas precisa ter mais calma nos bastidores.
Esse ano, o Máschara abriu ainda mais os espaços concedidos a artistas de fora, Pejuçara, Soledade e Rosário do Sul se fizeram presentes através de dedicados artistas. Didy Flores por exemplo, cresceu muito, em 2025 havia, se não me engano, interpretado o discípulo Pedro, agora volta com um apóstolo, um soldado e o Rei Herodes, (***) sua atuação na corte deu o tom perfeito da cena e sua triangulação com o restante do elenco foi perfeita. Carol Guma como a temida Herodíades, acrescentou mais uma grande personagem para sua galeria (***), mas foi nos camarins, conduzindo, aconselhando, acalmando, que essa atriz brilhou como uma das "grandes" do Máschara. Gustavo Ferreira, ganhou uma aposta em seu talento, o Judas que construiu foi muito bem preparado, há na gravação um tom monotônico, que pode ser trabalhado apra os próximos trabalhos. Mas foi como Sansão, conselheiro de Herodes, (**) que o ator foi brilhando e preenchendo com maestria o palco. Na ultima investida porém, me pareceu um tanto over, a sua cena. É preciso cuidar a energia que se dispõe em uma personagem, pois quando se passa da energia podemos colocar em jogo também a atuação dos colegas, véus que caem, exageros em empurrões, etc... Rosiane Moraes acabou por se tornar quase uma honorária do Máschara, vindo de longe para fazer parte das fileiras. Sua delicadeza e esforço aparecem na cena, e a garra de sua Samaritana deram o tom no primeiro bloco do espetáculo,(***) com uma intensidade necessária à narrativa. Renam Queiróz(**), Rafael Muller(**) e Gustavo dos Santos (***) cumpriram com funcionalidade seus desafios cênicos. Talvez a direção não tenha deixado claro o suficiente que o menino de primeira cena que estende a mão, se torna mais tarde o apóstolo interpretado por Rafael. Gustavo parece ser um ator bastante humilde com fome de aprender, e se venceu distancias, para dar conta de todos os desafios que lhe foram propostos. Ao lado de Antonia Serquevito e Pedro Loso (***), deram vida a três demônios poderosos, mais que seu texto, somaram à estética, uma organicidade fabulosa. Aplausos para a jovem Tayla Plauts (**), que apesar de ter gravado as falas da segunda aparição da Samaritana, abriu mão para a colega. Palmas para Michely Moura, que no ultimo dia enfrentou novos desafios (**); Ana Costa tornou-se a mãe coragem, (**) que além de ter vários filhos, negou-se em um primeiro momento a entregá-lo vida. Outra característica marcante da atriz, foi sua entrega cênica ao lado de Maria, aos pés da cruz. Ricardo Fenner encarna mais uma vez o velho sacerdote do templo, e faz um bom jogo de cena com Rosber Brandão (***) e com Jesmar Peixoto (***). No núcleo dos poderosos Junior Lemes (**) como Pilatos, foi colocado em um palco distante e acabou brilhando mais como tio Labão. Valentina Lemes (*) esteve bastante ansiosa em cena, e algo aconteceu ante sua entrada na cena da ceia, o que acabou por causando a não distribuição correta dos pães e assim não promovendo a transubstanciação, necessária dentro do significado do cristianismo.
Ravi Dantas(**), Aurora Serquevitio(**) e Bella Chiesa(**) roubam a cena, muito bela doçura de suas figuras. Felipe Brandão(**) e Kevin Dijon(**) podem focar mais; Alex Pugliezzi,(**), Giovana Lopes(**), Jesabel da SIlva (**), foram constantes e bons companheiros de cena. Douglas Maldaner e Roberta Teixeira foram intensos, vívidos. Maldaner, tem sim suas dificuldades e vícios cênicos, mas preenche muito bem o palco e é um bom braço direito (***) e Teixeira, vem crescendo nos bastidores, com percepções e criatividade cênica, pena não te recebido um papel de maior destaque (***).
A apresentação em uruguaiana foi a ultima da temporada e deixará saudade. O empenho desse grupo que ensina atores e não atores a se posicionarem em um palco a céu aberto, com desafios grandiosos, merece todo o nosso apoio. Ao final o diretor trocou algumas palavras com a assistência, emocionando ainda mais e provando por que artistas são comunicadores.
O Melhor : O vigor dos membros do Maáschara, preparados para enfrentar qualquer tipo de situação sem esmorecer.
O Pior: A iluminação bastante fraca em várias cenas, contrastando com a super produção proposta pela administração e SESC.
Arte é Vida





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