quinta-feira, 19 de setembro de 2024

foto bastidores A lEnda do Menino do Pastoreio.


 

1194-1195 A Lenda do Menino do Pastoreio (tomos 19/20)

 Sempre que se sobe ao palco um espetáculo, é importante pensar: Quem deve assistir isso? Para quem isso foi feito?

Menino do Pastoreio vive dentro de minha mente como uma peça que tenta contar quem eram aquelas pessoas que viveram aqui antes de nós, já que suas escolhas interferiram profundamente em quem somos e no que nos tornamos enquanto vida em sociedade. Para os mais jovens, fica uma pergunta sempre: Quem foram os escravos? Como era realmente aquele universo? A sociedade escravagista vive na mente dos jovens, como recordação remota de algo ruim, embora se fale muito que essa é uma página vergonhosa da historia. Quando se volta ao tema por tanto, parece inacreditável, parece quase uma alegoria. No entanto é necessário falar do tema, voltar a ele para impedir que tal página obscura da humanidade reascenda.  

O mundo parece em um primeiro momento ter mudado, no entanto determinadas feridas estão lá, continuam ardendo. A separação entre as classes, a segregação, o racismo... Clarice Lispector e João Simões Lopes Neto escreveram sobre a lenda do menino escravo, cada um a sua maneira. Lorenzoni passeou por vários cainhos para dar vida aos pequenos: Olga, Nerêncio e Pinguancha. Essa última aliás poderia ser muito mais explorada, não sabemos por exemplo se ela defende Nerêncio, se ela sofre, se ela está satisfeita, a não se por dois breves momentos em que acode o menino. Seria ele seu irmão como tudo indica quando se leva em conta a cena inicial do espetáculo? Antonia Serquevitio pode criar mais, dedicar-se mais e propor algo, organicamente à Pinguancha escrava. No primeiro bloco por outro lado, as crianças dão um verdadeiro show e ali Serquevitio está muito bem(**)(**)

O espetáculo que se divide em duas fases, consegue nos envolver e ainda levanta vários questionamentos através da sinhazinha Olga. -Mas o senhor acha certo ser dono de pessoas? - ou - Eu sou velho, você é jovem, pode transformar o mundo, fazer diferente! - Exatamente, cada geração encarrega-se sempre de melhorar ou sanar os erros da geração anterior. Os textos, réplicas e tréplicas escritos por Lorenzoni têm uma força incrível, pena que alguns atores não deem tanto valor a palavra. para se dizer bom ator, se reconhecer como tal, é importante dar profundidade às palavras, compreender sua sonoridade, sua profundidade! Clara Devi (**)(**) possui uma entrega física muito bonita, no entanto deve ater-se ao seu vocal, ele é a cereja que falta.  

Renato Casagrande (***)(**) triangula muito bem com o elenco, e sua construção como estancieiro cego vem crescendo muito, cada desafio no palco abre novos caminhos ao ator, esse artista prepara-se para chegar a maturidade do teatro com sutilezas muito bonitas em suas concepções. 

O personagem tema é um grande ator, resta-nos saber se é mais vocação ou mais talento, ou se consegue unir os dois. Talvez tenha pesado um pouco a mão no interlúdio do espetáculo na primeira apresentação. Nicolas (**)(***)trabalhou a questão de leveza que já havia sido comentada, mas ainda pode aprofundar mais os pés na "terra". 

A cena de encontro entre Nerêncio e a Madrinha dos que não a tem, é emocionante, doce, grande! |Parabéns à Raquel Arigony (**)(***) pela leveza poderosa que coloca nesse tipo que acaba sendo a purgação dos erros humanos praticados contra o menino. Uma belíssima aula de humildade a que muitos deveriam se ater em uma bandeira contra a violência no mundo. Nerêncio jamais pensa em vingança, não por que é mais fraco que Neco, mas por que o mal gera mais mal, a vingança gera outra onde de ódio ainda pior e mais destrutiva.

Neco/Izidoro mostram as duas faces bem disparadas do interprete. Havia uma certa descontração no ator causada certamente por algo anterior ao espetáculo. CLéber Lorenzoni (*)(**) precisa separar o ator do diretor durante o espetáculo para o bem do todo. 

No elenco também Fabio Novello, em uma pequena participação enquanto corre para lá e para cá solucionando questões técnicas. Parabéns ainda a Ana Clara Kraemer que vem se destacando nos bastidores (***)(**)


O Melhor: O roteiro muito bem resolvido e escrito.

O Pior: O pouco aparato técnico, impedindo as possibilidades criativas do grupo.


O menino do pastoreio

Direção e texto Cléber Lorenzoni

Elenco: Nicolas Miranda

             Raquel Arigony

             Clara Devi

             Cléber Lorenzoni

             Renato Casagrande

             Fabio Novello

             Antonia Serquevitio

Equipe técnica

              Fabio Novello (***)(**)

              Ellen Faccin (*)(**)

              Kleberson Ben (**)(**)

              


quinta-feira, 22 de agosto de 2024

1189/1190/1191 - O Menino do PAstoreio -(tomo 16,17,18)

 Teatro a mil com chuva


                                           Nos dias de hoje eu sempre me pergunto por que ainda vamos ao teatro, e mais, o que nos leva ao teatro. Podemos ser rasos, e simplesmente assinalar que o motivo é amarmos o teatro, ou compreendermos sua importância. Mas é no momento em que o espetáculo se encerra, que você vê as pessoas levantando, que você se dá conta do que o teatro fez, do que ele proporciona, propõe, compõe. 

                                Quando o diretor chega na beira do palco, e nos diz, mudamos a lenda de Negrinho do Pastoreio, para Menino do Pastoreio, seu gesto não passa desapercebido no panteão dos corajosos, pois mudar o nome de uma lenda centenária, é uma iniciativa laureável. Seu texto, inspirado em Lispector e José Simões Netto, vai sendo introduzido de maneira leve, delicada e doce. O dramaturgo contextualiza suas escolhas e nos dá sinais de como ele gostaria de ver as questões tratadas no espetáculo. Nerencio por exemplo é filho da patroa de tia Tê e Olga a menina "branca", é a sobrinha da criada. Essa simples mudança diz muito. As crianças que em meio a brincadeiras falam de Napoleão e de Colombo, foram certamente ensinadas em um espaço que valoriza a leitura e a historia, e é delicioso ver os pequenos na plateia se dando conta de vultos históricos que eles aprendem na escola. É como se tudo criasse vida. Vida. Vida. Vidas... é disso que se trata A Lenda do Menino do Pastoreio. 

                              Quando assisto o espetáculo, passeio também pelo divino, por questões que envolvem questões espirituais, divinas, e claro o Deus ex macchine... Deus precisa que o menino ache os cavalos, e que prove que é melhor do que Neco, pois tem propósito, e  propósitos falam de honradez e princípios. O menino Nerencio parece ser a reencarnação do menino escravo, ao lado de sua irmã de lutas, Pinguancha. Olga reencarna como sobrinha da empregada, e é o rosto da "Aparecida" que eles veem na tia que os cuida. Devaneios...

                           Há tantas tramas transversais, tantos pilares, tantos questionamentos a serem debatidos no sagrado palco de Menino do Pastoreio, na verdade a chuva atrapalhou um pouco a participação da plateia, e embora a primeira e apresentação tenha sido muito intensa, a segunda da tarde teve uma decaída perigosa. Era como os atores estivessem ali, sem estarem ali. São químicas, já que atores são feitos de energias motivadas por suas emoções. Foi uma curva interessante, uma terra na primeira apresentação do dia, um céu na segunda e um inferno na terceira, e estou falando de energias. Clara Devi foi melhorando a cada inserção do espetáculo, e o jogo se estabeleceu muito bem nas cenas de velhos atores. Nicolas Miranda também se destaca, as vezes parece muito leve é certo, mas consegue produzir grandes feitos da interpretação de Nerêncio.

                         Menino do pastoreio está de volta, para lembrar atores e público, que nunca, jamais, podemos nos sentir no direito de desprezar, machucar ou desprezar o outro, os gregos estão aí para nos ensinar que o dolo ao próximo, provoca o infortúnio dos Deuses, a queda, a torre! E a torre precisa ser protegida, mantida, sempre heráldica, pois ela é a coluna de sustentação ao todo. 

                             

                        

O Melhor: A semiótica e a estética de um espetáculo que é maior que os atores.

O Pior: Tudo o que prejudicou a estética e a semiótica.



A lenda do Menino do PAstoreio

Direção  e Dramaturgia Cléber Lorenzoni

Elenco: Nicolas Miranda

             Cléber Lorenzoni

             Clara Devi

             Renato Casagrande

             Antonia Serquevitio

            Raquel Arigony

            Fabio Novello


Equipe Técnica> Cleberson Ben Borgers

                            Ellen Faccin

                            Ana Clara Kraemer