domingo, 13 de junho de 2010

Diário de Bordo XIII - lili Inventa O Mundo em Julho de Castilhos - 2010

 O Ator Criador

Que um espetáculo está sempre em constante mutação, que o teatro é uma arte em movmento, que uma apresentação nunca é igual a outra nós já sabemos, contudo, as vezes o ator cai em pequenas armadilhas que podem por em risco seu trabalho. Depois de algum tempo com um espetáculo, acontece um fenômeno causado pela maior compreensão da narrativa, o ator começa a esticar suas pauzas, suas intenções de forma que o espetáculo vai se tornando longo, espichado até transformar-se em outra coisa. Outra situação é a robotização, o ator começa a repetr sempre da mesma forma sua cena. Isso não chega a prejudicar a leitura do espetáculo por parte do público, mas a longo prazo pode deixar a cena fria e sem interesse. Há ainda o ator que vai modificando suas intenções em pról de novas reações do público, por exemplo, na comédia vai mudando as piadas em busca de novas fontes de riso. O Teatro é uma profissão complexa, você tem um diretor, que mais ou menos te diz o que deve ser feito em cena. Mas na hora "h", é o proprio ator que sabe de sí, que acaba fazendo o que quer em cena. No entanto é necessário perfeito jogo entre diretor e ator, em pról do melhor à cena.
No espetáculo de hoje, percebí algumas desconexões. Atores trabalhando sozinhos. Falta de jogo.
A Atriz Alessandra Souza compõe uma figura muito harmônica em cena, mas precisa aprender a canalizar sua energia. A figura de A rainha das rainhas, È uma das figuras mais fortes que já vi em um espetáculo infantil, é grande em simbologia. E sua intérprete precisa saber carregá-la. Veja bem, é necessário que o que a personagem e a atriz tenham a dizer seja mais forte que o que o público já traz consigo sobre essa figura.
Depois de tanto tempo vi em cena Roberta Corrêa... Mas ela estava realmente em cena? Sim a atriz parecia concentrada, "presente", mas devia se perguntar, qual realmente é minha função aqui...Veja bem, como posso somar, somar para que a narrativa se torne mais compreensiva.
E quanto a minha atriz infantil prediléta... Não estava inteira na cena, estava sim corporalizada, mas sua alma não estava tão presente...
Quanto ao elenco masculino, alguns excessos, algumas anemias, mas no todo, cumpriu mais uma vez sua função.
Não me canso desse espetáculo por que continua vivo, pulsante... Mas é preciso estar atentos...


                                                                                                   A Rainha



Diário de Bordo XII - Oficina de Teatro em Veranópolis - junho 2010

                                      
O Teatro também para os adultos...

Muitas vezes, escuto os adultos se pronunciando a respeito de oferecer teatro as crianças, dizendo que precisam levar seus filhos ao teatro, que gostariam de colocá-los em escolinhas de teatro etc... Quando na verdade me pergunto se o adulto não precisa ainda mais da educação artística...
É como se oferecendo teatro a criança, o adulto se eximisse da obrigação de ter que participar da arte...
Nessa segunda-feira, viajei quase sete horas para levar oficina de teatro à professoras de uma escola de Veranópolis.
Lógo na chegada uma professora interceptou-me para falar sobre uma esposição de quadros que estava acontecendo alí onde haveira a oficina. Ela parecia muito interessada no que via, e me questionou: -Que será que quer dizer essa pintura?
Aquilo me inspirou, instigou-me. Mais tarde na oficina eu questionava às professoras: -O que o artista quer nos falar? O que ele está fazendo sobre o palco? O que é o teatro afinal?
Voltei um tanto frustrado... As vezes queremos muito tornar agradável nossa aula, as vezes queremos fazer com que os alunos passem a admirar ainda mais a arte. Mas infelizmente as vezes é uma experiência que faz bem apenas ao oficineiro.
O Teatro tem muitas funções, pode ser manipulado em pról da arte em sí, mas também da terapía, do auto conhecimento, e de mil outras possibilidades. Mas ainda é doloroso perceber que ele não é tão bem vindo, que as pessoas não sentem necessidade de compreendê-lo. Algumas inclusíve tem medo dele. Medo do poder de desmascarar que o teatro possui. Os não iniciados rapidamente acabam por ser vencidos. A máscara da desinibição exagerada, os piadistas da turma, são na verdade os mais inseguros. Os mais timidos ao contrário, revelam-se fortes, corajosos.
Algumas professoras me emocionaram muito em suas improvisações. Foram sensíveis em sua percepção do que eu estava fazendo alí.
Mas nesse dia saí frustrado, pergutando-me por que a arte é algo tão distante da nossa realidade....

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Entrevista Feita por uma aluna de Pejuçara ao ator Gabriel Wink - Maio 2010

1- Qual a a importancia do teatro para você?


O Teatro hoje tomou conta da minha vida, busco cada dia ser melhor, me aprofundar mais, é o que melhor sei fazer e o que mais me sinto bem fazendo, quando ouço o barulho da platéia chegando, os holofótes se acendendo algo dentro de mim começa "a entra em erupção" e aí tenho a certeza de que estou fazendo a coisa certa.

2- A quanto tempo voce trabalha nesta profissão?

Trabalho como ator a cinco anos, mas parece que fiz isso a vida toda, acho até que só comecei a viver de verdade quando conheci o teatro, ou pelo menos comecei a viver melhor. Já fiz mais de quinze espetáculos, já fiz, comédias, dramas, tragédias, clássicos, de tudo um pouco.


3- Qual o nome do grupo em que voce trabalha? Conte um pouco da historia do mesmo.


Trabalho no GRUPO MÁSCHARA, grupo que tem dezoito anos de história, com mais de cem premiações em variados Festivais de Teatro, e desde 2008 integra o circuito do "Projeto Emancipar" projeto do Governo do Estado do Rio Grande do Sul e também recebeu em 2005 o Prêmio Cultura Gaúcha.


4- Em que tipo de peça voce gosta de atuar?

Alguns atores, não gostam ou acham que não há mérito em fazer peças infantis, mas eu não, gosto da peças infantis , gosto de retorno imediato da falta de inibição que as crianças tem ao invés dos adultos, elas sim são verdadeiras.


5- Que papel voce prefere representar nas peças?


Gosto de tudo e de todos, o teatro quando bem feito se torna tão maravilhosos, que se pode fazer qualquer coisa, rir, chorar, tanto faz tudo está acontecendo no palco, tudo não palco é melhor e muito maior do que todo o resto.


6- Que tipo de peça o grupo apresenta com mais freqüência?

Olha só, não sei dizer exatamente apresentamos muitos espetáculos em várias cidades, cada cidade quer um espetáculo diferente, então acaba sendo difícil saber.


7- Como você se descobriu um ator?

Isso é difícil de explicar, mas desde criança gostava de brincar de fazer teatro juntava os amigos, primas e primos e iamos todos para área de minha avó encenar histórias, depois na escola foi da mesma forma ia eu juntar os colegas para fazer os casamentos caipiras e outras coisas, aí entrei no Grupo Máschara, onde encontrei a base teórica do teatro e pude lapidar e desenvolver aquilo que desde criança eu sem perceber estava buscando.


8- Para voce, quais as principais caracteristicas de um bom ator?


Poderia falar em presença, em habilidade corpórea, potência de voz , tudo isto é importante sim, e compõem um bom ator, mas tudo isso não passa de obrigação, para mim um bom ator tem que estar vivo naquilo que faz, tornar único e impossível de se reproduzir. Tem que buscar ser o melhor e o mais verdadeiro possível.


9- Na sua opiniao, o tetro envolvendo jovens, ajuda a incentivá-los a seguirem um caminho correto?

Com certeza, além de ator sou também professor de teatro, realizo aulas e oficinas com jovens e crianças de Cruz Alta e já trabalhei com oficinas em outras cidades. O teatro auxilia não apenas na desinibição , mas na compreensão de um todo, desde respeitar e entender diferenças, estimular a leitura e a vontade de aprender mais.


10- Para voce, a sociedade valoriza o teatro?

Viver de arte é muito difícil, ainda mais quando se está no interior, não temos um salário fixo, férias, 13º salário, plano de saúde, dentre outros. As pessoas demoram a desenvolver seu senso cultural, a tomar gosto pela arte, mas continuamos lutando, meu grupo como já disse tem 18 anos, é muito premiado e reconhecido em todo o estado e até fora, mas mesmo assim temos muitas dificuldades.

Cléber Lorenzoni empresta sua mente a Mario, seu personagem em Esconderijos do tempo e fala de sua amizade com a morte...

Você nunca teve medo da morte



Por que ter medo de uma amiga tão querida? De Infância? A minha morte é companheira de criança, brincou, dançou, me acenou logo cedo, e cresceu comigo... É uma musa, uma mulher encantadora, ela é fiel, leal e nunca se adianta em seu propósito. Ela sabe dançar valsa, penso mesmo que ela saiba dançar qualquer coisa, inclusive a sinfonia nº 5 de Gustav Mahler. A minha morte é como que eu quiser, pois ela nasceu comigo... E a sua?


Você brincava com a morte por que sua mãe não deixava vc sair muito, já que vc era um menino frágil, sempre doente... Um menino de aquário...?


Eu tinha irmãos, e brincávamos muito, brincava sim com outras crianças, e até com o anjinho Malaquías que as vezes aparecia lá em casa...



Seu amiguinho imaginário?


Malaquìas nada tem de imaginário, Malaquìas é muito real, ta!


Você sempre gostou muito de crianças, e elas sempre gostaram de vc, vc pode se julgar o poeta das crianças...?


Todo poeta tem uma criança dentro de si, pois é preciso ver o mundo com os olhos de uma criança. Acreditar, sonhar, ter esperança. Um dia vc acorda e passaram-se 60 anos, e incrivelmente aquele menino continua dentro de vc, cheio de vida, sorrindo, esperando... Eu penso que a minha vida passou tão depressa, esse que vc vê está meio enrugadinho, mas não se iluda, embora idade e senso eu aparente, ainda sou o menino que um dia o titio levou ao circo para ver as equilibristas...


Você se enamorou, apaixonou-se algumas vezes?


A sim, pelas ruas, pelas igrejas, pelas pracinhas, pelos poeminhas, pelos casais apaixonados, pelas minhas musas... Vocês não acham a Bruna Lombardi uma gracinha...?


O que vc espera? O que mais ainda falta nessa vida?


Poder estar deitadinho de sapatos... Ah e rever o cometa Harley, tão lindo com sua ondulante crina de cavalo celeste...Fazer mais poeminhas e quem sabeto mar um café num dos barzinhos o mercado... me acompanha?


Onde assistir Mario Quintana interpretado por Cléber Lorenzoni? No Espetáculo Esconderijos do Tempo, confira na agenda.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Diário de Bordo XII - Lili Inventa o Mundo em Panambí

Pra sempre, pra sempre contraditórios...

Ah se o público imagina-se ou mesmo soubesse o que acontece atrás da cortina. Se suponhasse o que os essas criaturas sentem, as válvulas que acionam dentro de suas mentes para compor aquela pequena encenação de quarenta ou cinquenta minutos. Os verdadeiros atores, aqueles que dedicam sua existência ao fazer teatral, vivem em uma fogueira de vaidades, uma auto flagelação de emoções e principalmente uma total exposição de seus caraters. 
O Teatro não nasce apenas de um ou dois treinos, como alguns podem pensar, não nasce de uma sequência de repetições. E por isso mesmo é algo vivo. Por isso nunca se repete, por isso quem assiste hoje ri, e se assistir amanhã talvez apenas venha a sorrir, e ainda talvez em outro dia, apenas pense. Cada investida é nova, como se novo espetáculo fosse. Não é novela, não é cinema, é TEATRO. Tem haver com o estado de espirito do ator naquele dia. Tem haver com suas proprias emoções, com suas fragilidades, com sua sensualidade, com seu destempero, com sua auto ou baixa extima. 
Aquele olhar lindo que a atriz lhe lançou do proscênio e que tanto o cativou, é um misto de milhares de micro-ações que se passaram dentro dela.
Será que aqueles que cercam os atores tem noção do quão carentes, frágeis são essas pobres criaturas? Será que percebem que eles estão alí dando seu melhor, suas dores todas, como se estivessem frente a um espelho? Será que a platéia sabe que as vezes esse ser magistrál mal pode se por em pé, e que seu apláuso é como uma carícia que vai até o palco e alivía levemente seu coração cansado...
Mas o ator também pode ser um ser vingativo, áspero e insensível, e quando domina o público durante um solilóquio pode sim estar usando de sua perícia em dominar os outros... 
Os atores são como os mortais, o que os difere é que brincam com os sentimentos, com os seus e com os dos outros. São exímios em dominar e dissimular, sabem como ninguém conseguir o que querem. 
Ah! Ah os atores e suas indiossincrazías, suas dores e seus extases...
Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz
Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida
Olha
Será que ela é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida
Sim, me leva pra sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz
Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se o arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida
Hoje em cena ví tanta coisa, ví tanta dúvida naqueles pequenos olhinhos, ví a dúvida e a incerteza da atriz, ví o iniciante se esforçando para agradar seu mestre em sua cena de transformação, ví a jovem atriz que se confunde tentando acertar seu solilóquio, que quer sim acertar, que luta para acertar e que tanto se mártiriza por não acertar e isso ninguém vê. Hoje eu ví o jogo do arrogante ator que tem talento mas não o percebe como o dom maravilhoso que recebeu. Ví a atriz cansada de sua própria dúvida interior, que faz o seu melhor e é tão incompreendida, tão solitária em sua verdade. Ví o ator cansado que lança em cada intonação o peso de sua vida, seus amores e suas dores. Que encontra o conforto no aplauso do público. Ví também a atriz livre que consegue separar sua vida pessoal de sua existência no palco, e que não sabe mas é abençoada por isso. Ví o olhar lá longe de quem há tempos não está feliz ou satisfeita, para quem realmente neste dia Lili Inventa o Mundo tocou fundo... 
Eles não sabiam, mas estava tudo tão exposto, tão visível...
Tão a serviço dos outros...
E tão pouco valorizado...

                                                 A Rainha 

Oficina de Tragédia

sábado, 29 de maio de 2010

Diário de Bordo XI - Lili Inventa o Mundo em Lagoa Vermelha

Coisas da Fada Mascarada...
Quando um grupo de artistas chega à uma cidade pequena, rapidamente é iniciado dentro da realidade que o cerca, e artistas são sensíveis, da para captar pelo cheiro, pelo caminhar das pessoas, pelo seu modo de falar, se aquela é uma cidade preparada para a arte, se estão realmente interessados em ver teatro, se são mais ou menos tôlos, mais ou menos ignorantes, da para sentir... A Feira de Livros de Lagoa Vermelha estava começando na quinta pela manhã quando o Grupo Máschara lá chegou, e o que percebemos foi a correrria transloucada para que tudo ficasse a contento, felizmente uma gentil-mulher, nos acolheu em sua clínica estética para que pudessemos nos preparar a contento para as duas seções do espetáculo.
                           As investidas seríam na Lona, o que já é de praxe nas feiras de livros, e os atores dedicaram-se, mas a organização pecou, não havia um lugar determinado para que os atores pudessem se maquiar, se vestir, fazer sua higiene após suas quase quatro horas de viajem, e ao final o máxim que receberam foi "Que não tomassem café". Será? Será que o artista não merece o mínimo de conforto antes de entreter centenas de pessoas? Será que nem mesmo o cara que equaliza o som, ou até mesmo quem monta as tais tendas, ou quem trouxe as cadeiras para que o evento acontecesse, não merecia um minuto para se preparar para continuar...
                             O Teatro aconteceu em sua plenitude, ví em Alessandra Souza a percepção das forças: corpo x fala. Observei também o jogo, a criatividade aguçada de Gabriel Wink em momentos de improviso como quando a matriz de seu microfone auricular caiu no chão. Angélica Ertel e seu domínio de cena perfeito. Mas nesse dia e mais particularmente na segunda encenação eu ví e deliciei-me com o trabalho de Cléber Lorenzoni. Ah mas que bela atuação! Precisa, mágica, sensível. Completa por assim dizer. Em cada nova aparição havia um estrondo no ar, o público estava em sua mão e em seus olhos eu ví a dor mesclada com a alegria de estar em cena, ah! receita infalível para o mistério da interpretação.
                               Tatiana Quadros foi econômica, mas o jogo que se estabelece com o intéprete do senhor poeta é exuberante, vibrante como notas musicáis. 
                                Renato Casagrande não destacou-se muito e sau partitura perde força. A cena mágica da transformação já não tem o mesmo fulgor, e para um dos personagens mais importantes da narrativa isso é devéras prejudicial.  Uma dica, as novas construções teatrais não podem esquivar do cérebro do ator as personagens antigas que alí habitam, Um ator não é um, mas mil em um. 
                              Mas o que realmente jamais esquecerei, será o momento em que as luzes da feira se desligaram... Os atores estavam no meio do espetáculo e parte do público infantil debandou, ora o Sr. Poeta inventou de dizer que eram coisas da Fada Mascarada... No entanto após três minutos de queda de energia, que mais pareceram uma eternidade, tudo voltou ao normal e o espetáculo voltou exatamente de onde havia parado, não ouve diminuição de rítmo ou perda de lógica... Os atores realmente  "pegaram" o público.  Para mim foi uma inspiração após uma monocórdia contação de historia, assistir um espetáculo que já vi mais de 70 vezes ser revisitado com ar de novidade, com vida, com o vigor de algo inédito...