quarta-feira, 28 de outubro de 2026
1399-1400. Quintanares- O Menino Pássaro
A primeira vez que assisti a uma peça de teatro eu tinha menos de quatorze anos.
Foi em Cruz Alta, minha terra natal. A trama era sobre duas irmãs gêmeas
separadas na infância, numa adaptação de Alexandre Dumas, escritor francês. A
apresentação acontecia dentro de um circo, sob uma lona. E naquela espécie de
mundo improvisado, cercado por gente e expectativa, alguma coisa aconteceu
comigo. Eu me emocionei. Fiquei fascinada. Os atores, para aquela menina, não
eram simplesmente pessoas representando personagens. Eram quase super-heróis.
Gente capaz de fazer surgir outros mundos, de provocar sentimentos e de
transformar uma lona num universo inteiro. O teatro, descobri sem saber que
estava descobrindo, tinha esse poder de nos sequestrar da realidade sem precisar
pedir autorização. Anos depois, assistindo a Quintanares — O Menino Pássaro, da
COARTE, de Alegrete, reencontrei um pouco daquela sensação. Não exatamente pela
mesma razão, tampouco com os mesmos olhos — afinal, o tempo se encarrega de
retirar de nós algumas ingenuidades e, em compensação, nos entrega o
inconveniente privilégio de perceber o que antes passava despercebido. Mas havia
ali um elenco colorido, figurinos assinados por Renato Casagrande e Tina Santos,
energia espalhada pelo palco e atores que pareciam empenhados em resolver, a
cada instante, os problemas do mundo. Ou, pelo menos, os problemas daquela cena.
E isso tem seu valor. O espetáculo apresenta artistas dispostos, corpos em
movimento, uma comunicação que vem crescendo e uma vontade legítima de fazer o
teatro acontecer. Às vezes, porém, a energia parecia correr mais depressa que a
própria encenação. Os atores atravessavam o palco, entravam e saíam, procuravam
soluções, encontravam outras, perdiam algumas pelo caminho. Em determinados
momentos, as cenas pareciam ligeiramente desconectadas, como se o pensamento de
um personagem tivesse chegado antes do pensamento do outro. Provavelmente, mais
ensaios poderiam ajudar a organizar esse trânsito de intenções. Porque energia
sem direção é apenas movimento; no teatro, precisamos que esse movimento
encontre sentido. Mariana Barreto ainda muito jovem, esmerou-se em cena. Há nela
presença, coragem e uma disposição que merece atenção. Precisa de mais ensaios,
de maior segurança e de tempo para amadurecer suas escolhas. Mas já aponta
possibilidades interessantes. Se permanecer firme no ofício, estudando,
experimentando e aceitando o trabalho que a formação exige, poderá se tornar uma
grande intérprete. O palco não costuma premiar quem apenas deseja muito. Ele
cobra de quem deseja a disposição de trabalhar ainda mais. Porque, convém
lembrar, teatro é menos talento do que trabalho. Ou melhor: o talento pode abrir
uma porta, mas não conhece sozinho o caminho que existe depois dela. Lorenzoni
esteve em cena como Poesino. Na primeira inserção, pareceu-me perdido, um tanto
confuso, como quem ainda procurava a chave da própria personagem. Na segunda,
entretanto, encontrou o caminho e dominou a cena. E então fez do elenco gato e
sapato com seus categóricos “Congela!”. Um comando, um gesto, uma interrupção, e
lá estavam os demais obrigados a suspender o movimento, reorganizar a ação e
esperar a próxima ordem. Há uma comicidade interessante nessa possibilidade de
brincar com o tempo e com o comportamento dos outros personagens. Quando
encontra precisão, esse recurso funciona; quando se repete sem a medida
necessária, corre o risco de se transformar em mecanismo. A diferença, como
quase tudo no teatro, está na execução. Antonia Serquevitio e Rosiane Moraes se
esmeraram em pontuar o espetáculo com delicadeza e precisão. Antonia destacou-se
pelo corpo, pela expressividade física, pela capacidade de construir presença
para além da palavra. Entretanto, precisa conquistar maior domínio do microfone,
para que a qualidade de sua atuação não seja prejudicada por uma questão
técnica. Rosiane, por sua vez, criou novas possibilidades para a personagem,
experimentando caminhos que demonstram iniciativa e desejo de composição. Sua
cena de maior intensidade, contudo, merece uma revisão. Um momento de força não
precisa ser necessariamente um momento de excesso. Às vezes, retirar um gesto,
conter uma intenção ou deixar a pausa respirar produz muito mais do que insistir
em demonstrar ao público tudo aquilo que a personagem está sentindo. Maico
Carricio precisa cuidar da respiração durante a cena, especialmente para que a
voz não pareça abafada ou presa. A respiração não é um detalhe burocrático do
ator: é matéria de trabalho, sustentação da palavra, organização do pensamento e
condição para que a voz alcance o outro com clareza. Lully Nicoli por sua vez,
pode se permitir maior soltura. Há momentos em que a formalidade parece colocar
uma pequena distância entre a intérprete e a personagem. É preciso experimentar,
arriscar, deixar que a ação respire sem perder o rigor. Soltura não é desleixo;
é liberdade construída com consciência. Renato Casagrande esteve no palco, com
apetrechos sonorizadores, mas muito econômico! O microfone não faz milagres e
tampouco perdoa tudo Há uma questão técnica que merece atenção especial: o uso
do microfone exige expertise. Não basta segurá-lo ou tê-lo preso ao corpo para
que a palavra chegue ao público com qualidade. É preciso conhecer sua captação,
controlar a distância, cuidar da projeção vocal, articular com clareza e,
sobretudo, compreender que o equipamento também faz parte da composição cênica.
Quando o ator movimenta a cabeça, muda de posição, vira o rosto ou altera a
intensidade da voz sem considerar a captação, pode comprometer a compreensão do
texto. E o problema se agrava quando o elenco fala cacos o tempo todo, inclusive
quando não é sua vez de falar. O microfone capta o que deveria permanecer em
segundo plano, mistura intenções, sobrepõe palavras e pode transformar uma cena
organizada numa pequena assembleia sem pauta. O silêncio do ator que não está
falando também é atuação. Ouvir, reagir e esperar o momento certo são exercícios
tão importantes quanto dizer o texto. Microfone não substitui técnica vocal,
assim como amplificação não substitui ensaio. A maquiagem merece um olhar
particular. Transformada, diferente, limpa, de desenho clean, ela encontra uma
linguagem que não precisa gritar para ser percebida. E essa economia é
bem-vinda. A maquiagem teatral não precisa necessariamente cobrir o rosto de
informações para produzir transformação. Às vezes, um traço bem colocado vale
mais do que uma composição carregada. É uma solução visual que dialoga com o
colorido do espetáculo e contribui para a construção de um universo próprio, sem
disputar com o ator aquilo que deveria ajudá-lo a revelar. Os adereços
(principalmente malas)também estão presentes, compondo esse universo de objetos
e possibilidades. O desafio, daqui para a frente, é administrá-los com cada vez
mais consciência: saber quando entram, por que entram e o que realmente
acrescentam à cena. Um objeto em palco precisa justificar sua existência,
principalmente em um espetáculo onde não há cenários. Vamos praticar bilboquê?
Todo o elenco? Que tal? A pergunta pode parecer provocação, e talvez seja mesmo.
Mas há uma razão para ela. O bilboquê, com sua simplicidade quase infantil,
exige justamente aquilo que o palco não costuma negociar: presença, paciência,
repetição e domínio do gesto. A bolinha não entra no lugar certo porque o
jogador está entusiasmado. Ela entra quando o movimento encontra a medida. E, se
não entra, tenta-se novamente. Sem culpar a iluminação, o figurino ou o colega
que estava falando fora de hora. O mesmo vale para o trabalho de ator. A energia
de um elenco jovem é uma riqueza, mas precisa encontrar organização. A
espontaneidade é desejável, desde que não seja confundida com improvisação
permanente. O corpo precisa saber o que faz; a voz precisa saber aonde vai; o
personagem precisa ter razões para estar ali. E tudo isso se conquista com
repetição, observação, escuta e trabalho coletivo. O que mais me interessa em
Quintanares — O Menino Pássaro é perceber uma COARTE que busca caminhos,
experimenta, arrisca e demonstra uma capacidade crescente de se comunicar com o
público. Há um desejo de contar, de envolver, de construir uma relação com quem
está do outro lado da cena. Isso não é pouco. Aliás, é justamente daí que o
trabalho pode avançar: da vontade de comunicar para a consciência de como
comunicar. Eu continuo acreditando no teatro, mas não podemos esquecer que ele
vai muito mais longo do que o teatro no palco. É preciso merecer o palco! A
COARTE tem matéria para trabalhar, artistas com possibilidades e uma disposição
que merece continuidade. O próximo passo não é necessariamente fazer mais,
correr mais ou falar mais alto. É aprofundar. Ensaiar até que o movimento deixe
de parecer uma tentativa de resolver a cena e passe a ser a própria cena. Até
que a palavra encontre o corpo, o corpo encontre o pensamento e o elenco aprenda
que estar junto no palco é muito mais do que estar ao mesmo tempo no palco.
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