Época
da ação: idade heróica da Grécia.
Local: Tróia.
Primeira
representação: 415 a.C.
PERSONAGENS
POSEIDON, deus do
mar
ATENA, deusa também conhecida como Palas
HÉCUBA, viúva de Príamo, rei de Tróia
CORO, composto
de virgens troianas (primeiro semicoro) e de viúvas de guerreiros troianos
(segundo semicoro)
TALTÍBIO, arauto dos
gregos
CASSANDRA, filha de
Hécuba e de Príamo, profetisa e sacerdotisa de Apolo
ANDRÔMACA, viúva de
Heitor, o maior dos guerreiros troianos, nora de Hécuba e mãe de Astiânax
MENELAU, irmão de Agamêmnon, o comandante
dos gregos em Tróia
HELENA, mulher de Menelau
ASTIÂNAX, filho de
Heitor e Andrômaca, ainda criança
Os gregos são também chamados
argivos e helenos. A Grécia também é mencionada como Hélade.
Os troianos são também chamados de
frígios.
Tróia também é chamada de Ílion; sua
cidadela chamava-se Pérgamo. Frígia era a região em que ficava Tróia.
Cenário
O
acampamento dos gregos diante de Tróia. Ao longe a cidade, de onde se eleva a
fumaça de incêndios; no fundo da cena algumas tendas onde estão confinadas as
cativas troianas. Diante da porta de uma das tendas HÉCUBA chora caída
no chão. É manhã cedo. Entra POSEIDON, invisível para HÉCUBA
POSEIDON
Do salso mar
Egeu profundo, eu, Poseidon1, estou saindo lá de onde as Nereidas bailam2 em sinuosas
danças com graciosos passos. Desde que aqui em volta da antiga Tróia
agora à
máxima ventura de rever suas mulheres e seus filhos, esses gregos que por dez
anos já contaram o retorno da época propícia ao plantio ânuo
|
desde o início desta guerra contra
Tróia. E eu, vencido pela deusa de Argos, Hera, e por Atena, que se uniram
firmemente visando à perdição de toda a gente frígia, tenho de abandonar a
gloriosa Ílion e meus altares já desfeitos e desertos. Na dolorosa solidão
desta cidade decai, fenece, extingue-se o tributo aos deuses, aos quais já
falta a adoração habitual. Ecoam
nos barrancos do Escamandro os gritos5 de inúmeras cativas na expectativa
de ver a sorte designar-lhe um senhor. Algumas foram dadas aos guerreiros
árcades6; outras irão servir aos homens da
Tessália; aos filhos de Teseu, chefes de Atenas, outras7. Muitas troianas excluídas da
partilha estão prisioneiras lá naquelas tendas; compõem o melhor e derradeiro
lote já reservado aos chefes dos vitoriosos. No meio delas se destaca Helena
bela, tratada agora justamente como escrava. Se alguém quiser neste momento
contemplar a imagem do infortúnio, bastará olhar, caída ali, defronte à
tenda, a idosa Hécuba; quantas e quão sentidas lágrimas derrama, quantos
motivos ela tem para chorar! A filha Polixena pereceu — coitada! —,
sacrificada sobre o túmulo de Aquiles, vítima deplorável de cruel cutelo. Já
pereceram Príamo e seus filhos todos e a inspirada filha que Apolo profeta
levou a transes delirantes (sim, Cassandra!) será forçada pelo intrépido
Agamêmnon a ser sua mulher em leito clandestino, contra a divina lei e contra
a piedade. Adeus,
então, cidade outrora venturosa! |
30 35 40 45 50 55 60 65 |
Adeus,
muralhas construídas pelos deuses! Se tanto não houvesse Palas pelejado por tua
perdição inda estarias firme sobre teus alicerces; não serias cinzas.
Entra ATENA
ATENA
|
Irmão mais próximo de meu augusto pai, nume potente
honrado pelos próprios deuses, consentirás que, alheia ao nosso antigo ódio,
eu venha aqui falar contigo frente a frente? POSEIDON Sem dúvida, divina Atena, pois o trato entre familiares é
tão agradável que o coração se rende facilmente a ele. ATENA Sensibiliza-me
teu ânimo suave. Desejo apresentar-te logo uma proposta, que te interessa
tanto quanto a mim, senhor. POSEIDON Será mensagem usual de outros deuses, talvez de Zeus? Que
divindade te mandou? ATENA Nenhuma. Falarei de Tróia, destruída por minha
intercessão. Sejamos aliados. POSEIDON Cessou, então, teu ódio
persistente a Tróia e sentes pena dela já desfeita em cinzas? |
70 75 80 85 |
ATENA
Atém-te ao
fato apenas; quererás juntar-te a mim em meu propósito e prestar-me ajuda?
POSEIDON
Unamo-nos, mas antes quero ouvir
teus planos.
Terás em mira os gregos ou os meus
troianos?
ATENA
|
Quero
mostrar por Tróia, antes detestada, algum apreço finalmente, impondo aos
gregos retorno demorado e desastroso à pátria. POSEIDON Por que saltar assim de um sentimento a outro e odiar e
amar voluvelmente com tal força? ATENA Sabes que
afronta me fizeram em meu templo? |
90 95 |
POSEIDON
Quando Ájax constrangeu Cassandra
duramente8?
ATENA
E os gregos não o censuraram nem
puniram!
POSEIDON
Mas foi com teu apoio que venceram
Tróia.
ATENA
Mas pelo ultraje, unida a ti vou
castigá-los.
POSEIDON
|
Terás a minha ajuda. Quais são os
teus planos? ATENA Farei com que a vitória lhes
resulte amarga. POSEIDON Enquanto estão em terra, ou sobre
as ondas salsas? ATENA Quando partirem suas naus daqui de Tróia levando-os de
retorno ao lar, conforme esperam. Zeus as fustigará com chuvas em torrentes e
tempestades escurecerão os céus; meu pai nos cederá o fogo de seus raios para
com eles açoitarmos os soldados e incendiarmos suas naus; faze tu mesmo vagas
enormes estrondarem sobre a rota amontoando em turbilhões no Egeu as ondas e
enchendo de cadáveres o mar sulcado de Eubéia para que os gregos enfim
aprendam9
a
respeitar os meus altares no futuro e a venerar os outros deuses como é
justo. POSEIDON Assim será. Não há sequer
necessidade de longas falas para obter estes serviços. Agitarei as águas
abismais do Egeu; o litoral micônio e os recifes délios10 de Ciros e de Lemnos, mesmo o
promontório |
100 105 110 115 120 |
de Cafareu
receberão os corpos mortos das numerosas vítimas de nossa ira.
Sobe ao
Olimpo! Vai e lá recebe logo11 das mãos de Zeus teu pai as flechas fulgurantes
|
de seus certeiros raios, antes que as amarras das gregas
naus se soltem para a volta à pátria! Sai ATENA.
Prossegue POSEIDON O homem que destrói cidades é
demente como o profanador de templos e de túmulos, asilos sacrossantos dos
parentes mortos. Quem age dessa forma cedo há de
perder-se. POSEIDON
afasta-se. HÉCUBA
começa a mover-se lentamente e tenta levantar-se HÉCUBA Levanta do chão duro esta cabeça12,
infortunada! Apruma teu pescoço! Não mais
existem Tróia nem rainha. A sorte muda, deves resignar-te.
Irás errante, ao fluxo das correntes, irás errante ao gosto do destino. É vão
esforço pretender opor a frágil nave desta vida às vagas. Navega! Entrega-te ao azar dos
ventos! Pausa Quantas razões eu tenho — ai de
mim! — para chorar nesta calamidade a perda de meus filhos, meu marido, minha
querida pátria… Ai de mim!… Dourado fausto antigo em que vivi, meu fim me faz
saber que nada eras! Convém calar? Talvez falar… Chorar… Um peso imenso
oprime os meus cansados, sofridos membros nesta posição, caída aqui no chão
desconfortável. Dói-me a
cabeça… Quanta dor nas têmporas!… |
125 130 135 140 145 150 |
Meus flancos
doem tanto!… Mal consigo mover-me para em nova posição continuar chorando as
minhas mágoas entre queixumes e incessantes lágrimas.
|
É a música restante aos infelizes aniquilados por
desastres tão terríveis que fazem silenciar todos os cantos… HÉCUBA
levanta-se lentamente Ah! Naus de proas lépidas que os
remos fizeram ir até a sacra Ílion cortando o mar purpúreo, procedentes de
vários pontos da distante Hélade! De certo foi ao som das flautas lúgubres e
trompas estridentes que, lançando ao mar as longas cordas que o Egito aos
nautas ensinou a bem trançar, firmastes — ai de mim! — vossas amarras no
ancoradouro plácido de Tróia! Viestes procurar a esposa pérfida13 de Menelau, opróbrio de Castor14 e mácula do Eurotas, assassina de
Príamo, pai de cinqüenta filhos, e para mim — infortunada Hécuba — causa de
minha ruína e de meus males! Ah! Infeliz de mim! A que lugar cheguei aqui? À
tenda de Agamêmnon! Como cativa levam-me de casa, decrépita, os cabelos
aparados — sinal de luto —, o rosto
macerado… Mulheres infelizes dos troianos de lanças brônzeas, e vós mesmas,
virgens, que nunca chegareis a ter esposos, choremos! Tróia está envolta em
chamas! Igual ao pássaro que grita aflito às tenras crias, quero começar um
canto para vós; não será ele em nada comparável aos que outrora eu costumava
entoar alegre marcando bem com os pés a vivacíssima cadência frígia,
conduzindo os coros nas festas em celebração aos deuses, |
155 160 165 170 175 180 185 190 |
tendo nas mãos o cetro do rei
Príamo.
Entra o primeiro CORIFEU, moça
troiana vinda de uma das tendas visíveis ao fundo
PRIMEIRO CORIFEU
Que
significam, Hécuba, teus gritos? Que há de novo? De onde estamos presas ouvi os
teus lamentos e o terror,
varando o peito, entrou no coração 195 de todas as troianas que nas tendas lamentam sem parar o
cativeiro.
HÉCUBA
Ah! Minha
filha!… Os gregos em seus barcos, de mãos nos remos, estão preparados
para partir
de volta às suas casas. 200
PRIMEIRO CORIFEU
Desgraça
nossa! Que pretendem eles? Irão levar-nos já, de mar afora, para bem longe da
querida Tróia?
HÉCUBA
Não sei, mas antevejo grandes males.
PRIMEIRO CORIFEU
Desventuradas,
míseras troianas! 205
Iremos
conhecer as provações que nos aguardam. Vinde todas cá! Os gregos estão prestes
a partir!
Saem de
algumas tendas várias moças troianas formando o primeiro semicoro. De outras
tendas saem mulheres de meia-idade, viúvas dos guerreiros troianos. Vem à
frente uma delas, o SEGUNDO CORIFEU
HÉCUBA
Não! Por favor! Tentai obstar que
saia
|
de sua tenda minha pobre filha,
Cassandra profetisa, insana mênade, para vergonha nossa junto aos gregos! Que eu não
sinta esta dor a mais! Ah! Tróia! Tróia muito infortunada! Deixaste de existir!
Desventurados os que te perdem, vivos ou finados! SEGUNDO CORIFEU Rainha nossa! Estou saindo trêmula de uma das várias
tendas em que estão as muitas frígias dadas em partilha a Agamêmnon. Quero
ouvir-te logo: os gregos decidiram, afinal, exterminar-me — infeliz de mim! —
ou já enfileirados em seus barcos empunham remos prestes a levar-me? HÉCUBA Desde a
alvorada, filha, estou aqui, |
210 215 220 225 |
pois tinha a alma cheia de receios.
PRIMEIRO CORIFEU
Já veio aqui algum arauto grego?
De quem serei a desgraçada escrava?
HÉCUBA
Decidirão depressa a tua sorte.
SEGUNDO CORIFEU
|
Ah! Que guerreiro de Argos ou da
Ftia15
ou
qualquer ilha vai levar-me agora de Tróia para longe, muito longe? HÉCUBA Ah! Céus! Em que palácio irei
servir? De que senhor, de quem serei cativa, eu, velha, triste, inútil qual
zangão, espectro lastimável, nada mais que a sombra sofredora de um cadáver? Guardar
as portas, pajear crianças… Eis a tarefa reservada àquela que em Tróia tinha as honras de
rainha!… SEGUNDO SEMICORO Ah! Infeliz! Com que soluços, Hécuba, pranteias tua queda!
Nunca mais faremos nos teares junto ao Ida16 girar as lançadeiras
velocíssimas!… Veremos pela derradeira vez os corpos lívidos de nossos
filhos!… Sim, derradeira vez e nunca mais! Iremos
suportar ignóbeis provas: ou nos terão os gregos em seus
leitos — maldita seja essa noite próxima! —, ou nos constrangerão a carregar
— criadas dignas só de piedade — a água nas nascentes de Pirene17. PRIMEIRO SEMICORO18 Preferiríamos ter de viver na
terra gloriosa de Teseu19. Ah! Praza aos céus que nunca nós
vejamos do Eurotas a corrente e as margens planas20 na terra odiosa da funesta Helena21, lá onde como escravas
serviríamos a Menelau, a perdição de Tróia!… |
230 235 240 245 250 255 260 |
A nobre
terra do Peneu, esplêndida22, ao pé do Olimpo, é cheia de riquezas23 segundo
dizem seus conhecedores, e de abundantes, verdes plantações.
É essa a região que escolheríamos 265 depois da terra de Teseu, divina.
As faldas do
Etna, onde demora Hefesto24, berço dos píncaros sicilianos frente à Fenícia, ganham
recompensas25
|
— é voz geral — que falam muito
alto das qualidades de seus habitantes. Bem próxima, na rota do mar Jônio26, situa-se a planície celebérrima
banhada pelo rio mais belo — o Crátis27;
de loura cor brilhante, suas águas |
270 275 |
impregnam os
cabelos dos nativos e ao mesmo tempo nutrem e fecundam e tornam próspera uma
terra pródiga em homens cuja força é proclamada.
Vendo
aproximar-se um arauto dos gregos, os dois semicoros se reúnem em volta de HÉCUBA
SEGUNDO CORIFEU
|
Está aproximando-se de nós o
arauto das odiosas tropas gregas. A passos rápidos nos traz, sem dúvida,
mensagens novas. Que virá dizer-nos? Que ordens nos trará,
desagradáveis? Pressinto que já fomos destinadas à condição servil na terra
dória28. Entra TALTÍBIO,
escoltado por soldados gregos TALTÍBIO Por certo sabes, Hécuba, que fiz a
Tróia visitas repetidas, como arauto-mor das forças gregas. Conhecemo-nos há
muito, senhora; sou Taltíbio e trago uma mensagem. |
280 285 290 |
Caras troianas, meu temor
confirma-se.
TALTÍBIO
Foram
tomadas decisões inapeláveis, se nesta hora o teu receio é este, Hécuba.
HÉCUBA
Pobre de mim! A que cidade, então,
|
lá na Tessália ou na distante Ftia
ou porventura na terra de Cadmos29 vão enviar-nos? Dize, mensageiro! TALTÍBIO A cada uma a sorte deu senhor
diverso. HÉCUBA Qual o
senhor, então, de uma por uma? E quem pode esperar melhor
destino? TALTÍBIO Direi, se perguntares
separadamente. HÉCUBA Assim farei. Quem levará Cassandra, minha desventurada
filha? Quem? TALTÍBIO Rei
Agamêmnon, ele mesmo, a escolheu. |
295 300 305 |
Ah! Que
desgraça! Para ser escrava de alguma dama da Lacedemônia30?
TALTÍBIO
Nosso rei vai querê-la para sua
amante.
HÉCUBA
Não! A
donzela consagrada a Febo, a quem a graça de não ter esposo
|
foi concedida pelo fulvo deus? TALTÍBIO Amor prendeu o rei à virgem
inspirada. HÉCUBA Desfaze-te
das chaves sacras, filha! Arranca de teu corpo as santas
vestes31! TALTÍBIO Então é pouca honra estar em leito
régio? HÉCUBA E minha
filha que levaste há pouco? |
310 315 |
TALTÍBIO
A quem aludes? Deve ser a Polixena.
Acertas. Quem a teve na partilha?
TALTÍBIO
Levou-a a sorte ao túmulo do herói
Aquiles32.
HÉCUBA
Desgraça! Foi para servir a um
túmulo
|
que eu a tive! Mas, qual é, Taltíbio, esse costume ou rito
dos helenos? TALTÍBIO Alegra-te, pois tua filha está em
paz… HÉCUBA Que dizes?
Vamos! Fala, por favor! Contempla ela ainda a luz do sol? TALTÍBIO Agora ela
está imune a infortúnios… |
320 325 |
HÉCUBA
E a nobre
esposa do valente Heitor de brônzea decisão, a infeliz
Andrômaca, dize o destino dela!
TALTÍBIO
Também foi partilhada e coube a
Neoptólemo.
|
E eu? E eu? De quem serei a serva, eu, que para marchar
tenho de dar à minha mão a necessária ajuda que um sólido bordão proporciona
à envelhecida, atônita cabeça caída ao peso da avançada idade? TALTÍBIO Serás escrava de Odisseu, senhor
de Ítaca33. HÉCUBA Golpeia
esta cabeça maltratada! Fere com
as unhas o teu rosto triste! Ai! Desgraçada! Ai! Infeliz de
mim! A sorte impiedosa faz-me escrava de um ser abominável, duro, pérfido, de
um inimigo da justiça, monstro sem lei que entre vós difama os outros e entre
os outros nos difama em troca! Língua terrível, duplamente falsa que espalha
o ódio onde reinava a paz! Chorai por mim! A desventura mata-me! Estou
perdida! Os fados impuseram que na partilha me coubesse — a mim! — o mais
insuportável dos quinhões! |
330 335 340 345 350 |
SEGUNDO CORIFEU
Agora sabes
o destino teu, rainha, mas qual será o meu senhor entre os helenos?
TALTÍBIO
Dirigindo-se
aos soldados da escolta
Ide, soldados, e trazei a mim
Cassandra.
É meu dever fazê-la chegar logo às
mãos
|
do chefe dos soldados gregos e em seguida levar aos outros
as cativas que lhes cabem. Notando sinais de chamas em uma
das tendas Que será isso? Creio que há fulgurações naquela tenda,
como se fossem archotes. Parece incêndio ateado por troianas! Ao ver chegada
a hora de serem levadas de seu país para a distante terra helênica talvez
pretendam as cativas transtornadas matar-se, consumindo em fogo os próprios
corpos. É bem verdade que em momentos como este dificilmente as almas livres
se resignam ao infortúnio. Abri! Abri! Eu não desejo que esse procedimento,
para elas bom mas mau para os helenos, me desfavoreça. HÉCUBA Menos agitada Não é incêndio; é Cassandra, minha
filha, que em transe, delirante, avança para cá. |
355 360 365 370 |
Entra CASSANDRA, vinda de
uma das tendas, dançando, trazendo as insígnias de sacerdotisa (ramos de
loureiro, franjas de lã e as chaves do templo); imagina, em seu delírio, estar
celebrando suas próprias bodas diante do santuário de Apolo, e traz na mão
direita um archote
CASSANDRA
Frenética
Eleva,
agita, chega perto a chama! Olhai! Eu porto o archote e santifico com a flama
pura o templo consagrado!
Senhor das
núpcias! Abençoa o noivo! 375
Bendita seja eu também, a noiva,
votada ao
leito do senhor de Argos34! Núpcias! Senhor das núpcias! Minha mãe:
já que,
desfeita em incontido pranto, choras sentidamente meu pai morto
|
e
minha pátria em ruínas, eu, a filha, farei brilhar em minhas próprias bodas a
luz que deve iluminar o enlace de virgens, elevando muito alto a chama deste
archote fulgurante em tua honra, protetor das núpcias, em tua honra, senhora
dos partos35, tal como exigem os sagrados
ritos! Salta alto! Bem alto! Baila rápida! Conduze, leva o coro! Viva! Viva a
vida como nos dias felizes vividos com meu pai! Conduze, tu, Apolo, o coro
nupcial sagrado em honra de tua sacerdotisa no teu divino templo entre os
loureiros. Senhor das núpcias! Núpcias,
minhas núpcias! Vem, participa deste coro, mãe, e dança e gira cadenciando os
passos nas voltas pelos passos meus! Atende-me! Cantai vós todas o hino
nupcial e festejai com odes a nubente! Quero
escutar vossos gritos alegres! Acompanhai-me!
Vamos, virgens frígias! Em trajes coloridos celebrai o esposo que receberei
no leito! SEGUNDO CORIFEU Contém,
rainha, tua filha delirante. |
380 385 390 395 400 405 |
Evita que
seus saltos ágeis a conduzam assim até o acampamento dos argivos.
HÉCUBA
O
porta-flama nupcial és tu, Hefesto, mas hoje é diferente a chama que provocas
|
e estão distantes para nós as
esperanças de núpcias verdadeiras, que não mais virão. Ah! Minha filha! Nunca
eu poderia — nunca! — imaginar que tuas bodas se fariam em meio às lanças e
às espadas dos argivos. Dá-me este archote; não consegues segurá-lo |
410 415 |
erecto em
tua agitação, em teu delírio. Tão grande golpe fez-te até perder o senso e não
espero que recobres a razão.
HÉCUBA entrega a
uma das mulheres próximas o archote que tira das mãos de C ASSANDRA e prossegue
Levai, troianas, este archote;
respondei
|
com pranto à ode nupcial de minha
filha. CASSANDRA Menos agitada Coroa minha fronte vencedora, mãe,
e regozija-te com minhas núpcias régias. Conduze-me ao esposo meu e se pareço
medrosa ou relutante, usa a força e leva-me. Se Apolo é deus e tem poderes,
Agamêmnon, o rei, terá em mim esposa mais funesta que Helena; fá-lo-ei morrer
e arruinarei a sua casa e raça como ele a minha, vingando assim meu pai e
meus irmãos finados. Há, todavia, certas previsões fatais de tal maneira
torpes que é melhor calar; não falarei da arma que decepará36 o meu pescoço e outro; não
mencionarei o matricídio que estas núpcias causarão37 e a destruição total da casa dos
Atridas. Desejo apenas convencer-te, minha mãe, de que os troianos são mais
felizes que os gregos. Embora esteja possuída por um deus, para provar-te vou
sair de meu delírio. Por causa de uma só mulher, de um só amor, |
420 425 430 435 440 |
só por Helena, quantos gregos
pereceram!
Seu chefe,
cujas qualidades muitos louvam, sacrificou o mais precioso de seus bens visando
ao mais nefando de todos os fins;
|
a alegria de seu lar, a própria
filha ele entregou a seu irmão, ele a matou38, apenas para devolver-lhe a
esposa indigna, mulher levada de seu lar não pela força, mas por vontade
própria. Os homens desse rei, por ele conduzidos para longes terras, às
margens do Escamandro foram dizimados39 em
lutas árduas cujo prêmio não seria nem a sobrevivência do país natal, nem a
preservação das muralhas primevas. E essas vítimas sem número de Ares não
mais reviram seus abandonados filhos e a mão que as sepultou não foi da
esposa amada; em terra estranha jazem seus sofridos corpos. Nos lares que deixaram
a desdita é igual; morrem viúvas as mulheres sem arrimo; os pais idosos
morrem e não deixam filhos para perpetuá-los nos lares vazios; levaram-nos
por outrem e sobre seus túmulos parente algum virá oferecer por eles sangue
de vítimas imoladas à terra. Aí está o merecido panegírico à expedição dos
gregos. Quanto às crueldades de seus soldados, é melhor silenciar; jamais me
venha a doce inspiração das Musas para cantar e celebrar tantas infâmias! Já
os troianos desde cedo se cobriam da glória sem igual de morrer pela pátria.
Se eles morriam transpassados pelas lanças seus corpos eram transportados por
amigos até o lar; a terra de seus ancestrais cobria seus cadáveres nos sacros
túmulos enquanto as mãos prescritas para esse fim com a merecida piedade os enterravam.
Os frígios que sobreviviam aos combates no fim de cada dia viam as famílias, |
445 450 455 460 465 470 475 480 |
seus filhos,
as mulheres, afinal gozavam das alegrias recusadas aos helenos.
Quanto ao
destino heróico de teu filho Heitor, cruel demais aos olhos teus de mãe
querente,
|
atenta bem: se meu irmão já não
existe, antes da morte demonstrou valor sem par. E foi a vinda dos aqueus que lhe deu glória. Se eles, em
vez de virem pelejar aqui, houvessem preferido a paz em seu país, os méritos
de Heitor ninguém celebraria. Páris tornou-se esposo da filha de Zeus40; sem essas núpcias nem sequer se
falaria de uma aliança que nos igualou aos deuses. Deve o mortal sensato
detestar a guerra; se, entretanto, ela for inevitável, os louros não serão de
quem morrer lutando por causa ignóbil que afinal só traz desonra. Por isso,
minha mãe, não deverás chorar o fim de Tróia nem as minhas bodas tristes; meu
humilhante enlace há de causar sem dúvida a ruína dos aqueus, que eu e tu
odiamos. SEGUNDO CORIFEU Discorres com prazer e ris de tuas mágoas. O teu destino
evidencia a falsidade desse discurso lúcido e consolador. TALTÍBIO Não fosse Apolo o causador de teu
delírio custar-te-ia muito caro macular com mau agouro o embarque de tão
bravos chefes. Eu mesmo vejo bem que com o seu orgulho e ostentação de
excepcional sabedoria em coisa alguma os grandes são superiores ao nosso
nada. Assim o todo-poderoso rei dos helenos, filho querido de Atreu41, fez recair o seu amor em uma
insana que eu, embora humilde, não desejaria sequer para ser companheira de
meu leito. |
485 490 495 500 505 510 515 |
Não me oporei a que teu ânimo doente
insulte o
povo heleno e louve os teus troianos; serão palavras vãs e o vento as levará.
Segue-me às naus, formosa noiva de
meu rei.
Dirigindo-se
a HÉCUBA
|
Tu, quando o filho de Laertes
ordenar42 que te levem às naus, vai resignadamente; serás a serva de
uma senhora sensata43 segundo dizem os argivos cá em Tróia. CASSANDRA É de pasmar este criado ignaro e
rude! Por que, então, ostentam o pomposo nome de arautos estes detestáveis
componentes da corja desprezada com razão por todos, destes pretensiosos
moços de recados, abjetos serviçais dos reis e das cidades? Já
te esqueceste das palavras de Loxias44? Ignoras que perante mim Apolo
disse que Hécuba — coitada! — morreria aqui? O resto é uma vergonha indigna
de menção. Ah! Odisseu desventurado! Ele não sabe os sofrimentos incontáveis
que o aguardam! Meus males e os dos bravos frígios hão de um dia parecer-lhe
tão invejáveis quanto o ouro! Além dos já passados, dez terríveis anos se
escoarão até que ele regresse, só, à sua pátria. Antes, porém, enfrentará o
estreito perigoso onde Caríbdis mora45, terrível, no rochedo em que se
oculta aos nautas, e o Cíclope antropófago, a Circe lígure que metamorfoseia
os homens em suínos, muitos naufrágios no infindável mar amargo e mal
resistirá à tentação do lótus. Verá também as vacas em que manda
o Sol e cuja carne um dia vai ter voz humana para falar sinistramente a
Odisseu. Serei concisa: inda a caminho descerá |
520 525 530 535 540 545 550 |
vivo aos infernos; finalmente
escapará
ao proceloso
mar apenas para ver em seu regresso ao lar, após sofrer demais, um número
infindável de calamidades.
Novamente
agitada
|
Mas, por que lançar sobre Odisseu
ameaças de infortúnios46? Vamos, Agamêmnon! Quero ir
juntar-me ao noivo no Hades! Sim! Terás indigna sepultura e morrerás nas
trevas ao invés de em pleno dia, tu, que apenas na aparência foste colocado
pela sorte em culminância máxima, chefe onipotente dos argivos! E eu? Meu
corpo morto47, |
555 560 |
nu,
abandonado nas ravinas onde corre a água das torrentes, junto ao túmulo de meu
senhor e noivo, vai servir de pasto às feras, que devorarão famintas a fiel
profetisa de Apolo e sua servidora.
CASSANDRA arranca dos
cabelos as franjas de lã e outras insígnias da condição de profetisa. Prossegue48
|
Ah! Insígnias de meu deus querido,
adornos de horas de êxtase! Ide! Adeus! Arranco-vos de mim! Enquanto tenho o
corpo como agora, puro, atiro-vos todas aos ventos céleres pedindo-lhes que
as transportem ao profeta soberano! Onde estará a nau do grande chefe? Onde
embarcarei? Colhe logo o vento para tuas velas, pois conduzes junto a mim,
daqui, o gênio da vingança inevitável49. Adeus,
minha mãe! Não te lamentes mais! Querida pátria! Meus irmãos postos em vossos túmulos! Meu pai amado!
Digo-vos que não demorarei a vir juntar-me a vós. Voltarei depressa,
vencedora, à morada dos mortos, pois a casa dos Atridas desmoronará em breve! CASSANDRA
sai com TALTÍBIO
e a escolta. HÉCUBA
cai desmaiada SEGUNDO CORIFEU Guardiãs da idosa Hécuba, não
estais vendo tombar por terra, sem um grito, a soberana? Não a ergueis? Ireis
abandonar, cruéis, vossa senhora veneranda assim caída? |
565 570 575 580 |
Ide! Não demoreis! Cuidai de
levantá-la!
As moças do
primeiro SEMICORO fazem menção de levantar HÉCUBA
HÉCUBA
Não, moças,
peço-vos! Serviço inoportuno não deve ser prestado. Muito mais me agrada ficar
caída aqui, prostrada, como estou.
|
Um aniquilamento assim condiz
melhor com meus terríveis sofrimentos atuais, com os passados e também com os
futuros. Ah! Deuses! Clamo por omissos aliados50 mas mesmo assim convém chamar as
divindades na hora em que nos chegam tantos infortúnios. Desejo relembrar
minha felicidade enorme em dias idos; na comparação a minha desventura de
hoje inspirará maior piedade. Fui princesa e esposei um rei; tivemos muitos e
excelentes filhos, pois o seu número seria pouco mérito se não houvessem sido
incontestavelmente os mais ilustres entre todos os troianos. Mulher nenhuma,
bárbara, troiana ou grega, teria mais direito de vangloriar-se por ter
trazido ao mundo filhos como os meus. Pois esses filhos vi-os perecerem todos
feridos pelas lanças dos guerreiros gregos, e meus cabelos já cortei sobre
seus túmulos51. Quanto ao rei Príamo, princípio
dessa estirpe, não foi pelos relatos de outrem que chorei a sua morte; vi-o
com meus próprios olhos, decapitado cruelmente sobre a lápide do altar
doméstico ao cair vencida Tróia. E minhas filhas, que eu havia preparado para
entregar a esposos da mais nobre estirpe, arrancam-nas de sua mãe homens
diversos daqueles para os quais ela as criou tão bem. Já não espero a graça
de voltar a vê-las e nunca, nunca mais serei vista por elas! |
585 590 595 600 605 610 615 |
Enfim, para
coroamento de meus males descomunais, farão de mim escrava e mais: levar-me-ão
como um troféu de meu senhor.
Irão impor-me obrigações
insuportáveis,
|
impróprias para a pobre velha que
hoje sou; sem dúvida farão de mim — da mãe de Heitor! — a guardiã das chaves
de qualquer vestíbulo; pior ainda, a amassadeira de seus pães! A terra nua
servirá de leito ao corpo cansado que dormiu em tálamo real. O espectro a que estou reduzida
irá cobrir-se de trapos, marcas vis de minha decadência. Ah! Infeliz! Por
causa das malditas núpcias de Helena, quanto já sofri e sofrerei! Ah!
Minha filha! Ah! Cassandra, a quem Apolo ditava seus desígnios em divinos
êxtases! Que poderei dizer desta calamidade que hoje te priva da pureza
virginal? E tu,
sofrida Polixena, onde estarás? Dos muitos filhos concebidos em
meu ventre nenhum, nenhuma está aqui para valer-me na hora em que tantos
desastres me aniquilam! Por que me levantais? Que esperanças tendes? Guiai os
passos que em melhores dias Tróia seguia, tão altivos, e hoje são de escrava…
Levai-me aonde haja palha em que me deite e pedras para repousar esta
cabeça!… E lá, entregue à sorte, esperarei que a morte me leve amargurada e
esvaída em lágrimas. Jamais
julgueis alguém feliz enquanto vive. |
620 625 630 635 640 645 650 |
|
Após tentar alguns passos amparada
pelas moças, HÉCUBA
cai novamente CORO Agora, Musa, canta Ílion, canta!
Seu triste fado há de inspirar um hino à nossa voz plangente, um hino
fúnebre. Dedicaremos
triste ode a Tróia. |
PRIMEIRO SEMICORO
Cantaremos o
carro muito longo, de quatro rodas, que ao entrar, funesto, em Tróia, fez de
nós — ai, infelizes! — cativas dos argivos para sempre.
SEGUNDO SEMICORO
|
O monstro de madeira fez subir aos
céus estrídulo e sinistro silvo52, brilhando ao sol com seus
arreios de ouro, repleto de guerreiros, que os helenos deixaram junto às
portas da cidade. PRIMEIRO SEMICORO Gritou bem alto nosso povo uníssono premido na altaneira
cidadela: “Chegou o fim de nossas provações; ide buscar sem mais demora o
ídolo enorme de madeira! Andai depressa! Trazei-o para ser oferecido à filha
nobilíssima de Zeus!” SEGUNDO SEMICORO Ah! Quantos jovens, quantos anciãos, saíram apressados de
seus lares!… Ao ritmo alegre de refrãos festivos introduziram na cidade
crédula a insólita armadilha dos argivos. PRIMEIRO SEMICORO A gente frígia veio pressurosa,
querendo contemplar com os próprios olhos a obra portentosa dos helenos |
655 660 665 670 675 |
talhada nos
pinheiros das montanhas. Foi perdição, foi ruína para Tróia o pérfido presente
oferecido devotamente à virgem imortal.
SEGUNDO SEMICORO
|
Atando-o com seguras, fortes cordas como se faz para
arrastar o casco de negra nau, trouxeram-no afinal até o templo da divina
Palas erguido sobre a rocha onde devia correr ainda o sangue dos troianos. PRIMEIRO SEMICORO A escuridão da noite sobreveio ao terminar a caminhada
alegre. Então, ao som das doces flautas líbias soaram alto os hinos dos
troianos. SEGUNDO SEMICORO Vibrando ao ritmo de seus passos certos as moças exultavam
de alegria. Nas casas era tanta a luz festiva que mal se via a chama das
fogueiras nas ruas, fracas, quase adormecidas. PRIMEIRO SEMICORO E nós naquele instante
celebrávamos a virgem das montanhas, casta Ártemis53, cantando em coro junto ao seu
sacrário. Mas repentinamente reboou pela cidade toda um grito horrível de
morte, vindo da alta cidadela. |
680 685 690 695 700 |
SEGUNDO SEMICORO
Crianças
transtornadas pelo medo tentavam agarrar-se com as mãos frágeis às vestes das
desnorteadas mães. O deus da guerra desferia o golpe;
|
a trama torpe se evidenciou e Palas completava sua obra. PRIMEIRO SEMICORO Em torno dos altares começou a
trágica e final carnificina. De Tróia só restaram as mulheres e glória
imorredoura para os gregos |
705 710 |
e apenas luto para o povo frígio.
Chega um carro, puxado por soldados gregos, trazendo ANDRÔMACA e seu filho
Astiânax.
Vê-se no carro, entre outros
despojos dos troianos, o escudo gigantesco de Heitor
PRIMEIRO CORIFEU
Já viste,
Hécuba, chegar Andrômaca trazida neste carro pelos gregos?
No colo tem o filho que lhe deu
Heitor; o embalo regular do carro 715 adormeceu Astiânax junto ao seio de
sua mãe querente e desvelada. Aonde te conduzem, infeliz, sentada no alto deste
carro, junto
das armas brônzeas do finado Heitor 720 e de outros mais despojos dos
troianos, troféus que adornarão os templos gregos, como oferendas do filho de
Aquiles quando voltar de Tróia vencedor?
ANDRÔMACA
Os gregos,
hoje meus senhores, levam-me. 725
HÉCUBA
Ai de mim54!
ANDRÔMACA
Por que cantas em tom lamentoso…
HÉCUBA
Ai de mim!
ANDRÔMACA
… minha sina tão cheia de dores…
HÉCUBA
Senhor Zeus!
ANDRÔMACA
… e as
desgraças terríveis que sofro? 730
HÉCUBA
Ai! Meus filhos!
ANDRÔMACA
Quantos filhos nós éramos antes!…
HÉCUBA
Terminaram os dias felizes…
ANDRÔMACA
Quanta dor!
HÉCUBA
… terminaram
os dias de Tróia… 735
ANDRÔMACA
Ai de mim!
HÉCUBA
… e perderam-se meus descendentes!
ANDRÔMACA
Ai! Choremos!
HÉCUBA
Sim, choremos! Choremos por mim!
ANDRÔMACA
Por teus
males. 740
HÉCUBA
Dura sorte…
ANDRÔMACA
… de Tróia…
HÉCUBA
… em chamas!…
ANDRÔMACA
Vem, esposo…
HÉCUBA
|
Já evocas meu filho no Hades? ANDRÔMACA … vem, protege a fiel
companheira!… HÉCUBA Vem! Suplico, flagelo dos gregos… ANDRÔMACA … pai de Heitor, meu senhor, nobre
Príamo… HÉCUBA … vem e guarda-me perto de ti! ANDRÔMACA São
tristíssimos nossos desejos… |
745 750 |
HÉCUBA
… são mais tristes as nossas
desgraças…
ANDRÔMACA
… triste sorte de nossa cidade…
HÉCUBA
… a desgraças se somam desgraças.
ANDRÔMACA
Tudo é obra da ira dos deuses
|
contra Páris que a morte não quis55.
Pela amante odiosa ele fez com que Tróia tivesse este fim. Todos tintos de
sangue os cadáveres jazem presas de bandos de abutres junto à imagem de Palas
divina. Ele trouxe e lançou sobre Tróia este jugo de atroz servidão. HÉCUBA Pobre pátria! ANDRÔMACA Parto em pranto! HÉCUBA Vês
o fim lamentável da terra em que minhas crianças nasceram. Ai! Meus filhos!
Em Tróia deserta inda está junto a vós vossa mãe. Luto e lágrimas,
lamentações e mais lágrimas, eis o que resta. |
755 760 765 770 |
Ai! Os
mortos, só eles, esquecem os seus males e não choram mais!
SEGUNDO CORIFEU
Os infelizes acham aparentemente
certa doçura nos gemidos e nas
lágrimas
|
e nos intermináveis cantos
lamentosos. ANDRÔMACA Dirigindo-se a HÉCUBA Mãe do guerreiro cuja lança exterminou tantos soldados
gregos, mãe de Heitor soberbo, teus olhos vêem este horrível espetáculo? HÉCUBA Sim, minha filha. Vejo que os potentes deuses elevam uns
do nada a culminâncias máximas e precipitam outros de alta glória ao chão. ANDRÔMACA Somos, meu
filho e eu, troféus de guerra; levam-nos. De nobre passo a ser escrava. Como
desço! HÉCUBA Não tem entranhas o destino. Inda há pouco levaram-me
também Cassandra desditosa à força para algum lugar muito distante. ANDRÔMACA Ah! Infeliz! Apareceu-lhe um novo
Ájax56! Mas outros males, mãe, parecem
esmagar-te. HÉCUBA Meus males
já não têm medida e não têm número. Apenas sou
ferida por uma desgraça, |
775 780 785 790 |
novas desgraças vêm ferir-me num
instante!
ANDRÔMACA
E tua filha
Polixena pereceu decapitada sobre o túmulo de Aquiles, num sacrifício aos manes
de insensível sombra!
HÉCUBA
|
Ai! Infeliz de mim! Está esclarecido o enigma das palavras
dúbias de Taltíbio57. ANDRÔMACA Eu mesma vi, parei o carro e apeei, cobri-a com um véu,
chorei sobre seu corpo. HÉCUBA Ah! Minha
filha! Impiedosa morte a tua! Ah! Pereceste de maneira
deplorável! ANDRÔMACA Embora morta assim foi mais feliz na morte a tua filha do
que eu serei na vida. HÉCUBA Não, minha
filha! Não compares morte e vida! Aquela é o nada e esta é tudo; é
esperança! ANDRÔMACA Não posso
concordar com tua afirmação. |
795 800 805 |
Quero
dizer-te coisas que serão um bálsamo para teu coração cansado de amarguras.
Morrer deve ser como não haver nascido e a morte talvez seja até melhor que a
vida
|
de dor e mágoas, pois não sofre
quem não tem a sensação dos males; mas quem se despenha das culminâncias da
fortuna e cai no abismo da desventura tem a alma freqüentada por pertinaz
saudade do fausto passado. A morte para tua filha é como se ela jamais
houvesse visto a luz; não mais lhe pesam seus infortúnios, que deixaram de
existir. Mas eu provei da vida amena a que aspirava e que me prometia a minha
condição apenas o bastante para sentir hoje com mais intensidade o peso da
desgraça. Todos os bens imagináveis para adorno de uma mulher eu me esmerava
em praticar no lar de Heitor. De início, alguns lugares há em que uma esposa,
embora procedendo bem, apenas por os freqüentar merece e atrai a acusação de
não se dedicar à casa. Longe de procurar lugares desse tipo, ficava eu no lar
e tinha mil cuidados para impedir que transpusesse suas portas a vil
maledicência própria das mulheres. Tirava o meu bom senso de um feitio reto
as normas adequadas à conduta honesta. Eram discretos os meus lábios e o
semblante sereno na presença do querido esposo. Eu tinha a intuição de quando
me era lícito vencê-lo ou, ao contrário, ceder-lhe a vitória. Chegou assim o
meu renome até os aqueus em seu acampamento e isso me perdeu. Quando me
capturaram o filho de Aquiles mandou buscar-me para sua companheira; serei
escrava até morrer na própria casa dos assassinos de meus entes mais
queridos. Se apenas posso por momentos afastar do pensamento a imagem lúcida
de Heitor em vão esforço para abrir o coração ao meu esposo de hoje, sinto-me
covarde e traidora vil do esposo recém-morto! Se, inversamente, guardo intacto o
amor primeiro, provocarei a ira do homem que me tem. |
810 815 820 825 830 835 840 845 850 |
Segundo
dizem, a aversão de uma mulher por outro homem numa noite se desfaz. Abominada
para sempre deve ser aquela que, infiel a seu primeiro esposo,
|
aceita outro homem e lhe tem amor!
Até os irracionais, até a égua estúpida recusa-se a arrastar o jugo habitual
se é separada do diuturno companheiro. E as bestas são de natureza inferior,
destituídas de palavra e sentimentos! Em ti, querido Heitor, eu tinha o
bom esposo que me bastava; inteligência, bens, nobreza, coragem, tudo havia
em ti e abundava. Eu era pura quando um dia me levaste da casa de meu pai, e
dentre os homens todos foste o primeiro a vir ao meu leito de virgem. Agora
não existes mais e sou levada a bordo de uma nau odiosa para a Hélade,
cativa, condenada à condição de escrava. Talvez os males que a violenta morte
trouxe a Polixena já pareçam bem menores depois de ouvires o futuro que me
aguarda e não te façam derramar as mesmas lágrimas. Perdi até o último dos
bens humanos — a esperança — e não pretendo escarnecer de mim, eu
mesma, imaginando ser possível gozar na vida ainda a mínima alegria. E
todavia é doce guardar ilusões… SEGUNDO CORIFEU Teu infortúnio é o meu; chorando a
tua dor revelas-me a extensão da minha própria. |
855 860 865 870 875 880 |
HÉCUBA
Jamais subi
a bordo de uma dessas naus, mas as pinturas que já vi e as narrações ouvidas
dão-me a idéia do que ocorre nelas. Se os nautas fazem frente a leve temporal,
|
esforçam-se por escapar aos maus momentos. Um fica no
timão, outro domina a vela, impede outro a água de inundar a nau. Mas se o
embate do revolto mar excede as suas forças, curvam-se eles ao destino e se
abandonam à tempestade mais forte. Da mesma forma eu, perante a enormidade
desta desgraça, fico muda e resignada; curvo-me vendo que não poderei vencer
tormentas desencadeadas pelos deuses. Coragem, minha cara nora! Deixa Heitor
ao seu destino; não te salvarão as lágrimas. Reverencia teu novo senhor e
mostra-lhe o privilégio que é para qualquer homem a convivência com mulher
tão bem-dotada. Assim alegrarás todos os teus amigos e prestarás a Tróia um
serviço imenso cuidando de criar o filho de meu filho para que um dia — ah!
se os deuses me escutassem! — filhos nascidos dele reconstruam Ílion e façam
renascer maior a nossa terra! Vendo aproximar-se TALTÍBIO Suponho que teremos mais assunto já. Ao ver chegar este
criado dos aqueus pergunto-me o que ainda pode acontecer. Virá comunicar-nos
novas decisões? TALTÍBIO Esposa do valente
Heitor, não me maldigas; |
885 890 895 900 905 910 |
é
constrangido que transmito uma mensagem ditada há pouco pelos comandantes
gregos.
ANDRÔMACA
Que há? Teu prólogo é sinal de más
notícias.
TALTÍBIO
Ordenam que teu filho… Faltam-me as
palavras…
ANDRÔMACA
|
Levam meu filho para ser de outro
senhor? TALTÍBIO Nenhum aqueu jamais será senhor de
Astiânax…58 ANDRÔMACA Irão deixar aqui o último dos
frígios? TALTÍBIO Como direi? É triste anunciar
desgraças… ANDRÔMACA É óbvio o teu constrangimento… Que
desgraça? TALTÍBIO Teu filho
será morto. Ouviste o duro anúncio. |
915 920 |
ANDRÔMACA
Desgraça, sim! Pior que minhas novas
núpcias!
TALTÍBIO
Foi Odisseu quem convenceu os
gregos. Disse…
ANDRÔMACA
Imensa dor! Meu infortúnio não tem
fim!
TALTÍBIO
… que não deixassem vivo o filho de
tal pai…
ANDRÔMACA
|
Volte-se contra os dele a sua
opinião! TALTÍBIO … mas o lançassem do alto das torres de Tróia. Vamos!
Atende! É a atitude mais sensata! ANDRÔMACA
aperta o filho nos braços Não devem
os teus braços estreitá-lo tanto. Suporta
com nobreza a tua desventura. Não te presumas forte; agora nada
podes. Não tens apoio em parte alguma. Pensa bem: já
não existem teu esposo e tua pátria; pertences a novo senhor e aqui estamos
tantos para enfrentar uma mulher sozinha. Não queiras pelejar em circunstâncias tais. Evita
humilhações; não cedas ao rancor. Peço-te mesmo que não lances maldições
contra os helenos, pois se a cólera das tropas consegues açular com tuas
atitudes esta criança não terá depois de morta um funeral piedoso e túmulo
condigno. Se calas, se suportas resignada o golpe, o corpo de teu filho será
sepultado e terás mais benevolência dos helenos. ANDRÔMACA Filhinho
meu querido! És tudo que me resta59, |
925 930 935 940 945 |
meu filho, e morrerás nas mãos dos inimigos!
E eu serei a
mãe mais infeliz do mundo… Hoje a bravura de teu pai te faz morrer depois de
ter valido a inúmeros troianos.
|
A
singular coragem de teu pai, meu filho, não te proporcionou felicidade
alguma. Amor fatal! Ah! Dia em que transpus as portas de teu palácio para
desposar-te, Heitor!… Não foi para dar uma vítima aos helenos que Heitor e eu
quisemos tanto ter um filho, mas para que ele um dia fosse o rei da Ásia de
messes abundantes! Ah! Meu filho! Choras? Terás a intuição da morte que te
espera? Por que te agarras com tal força ao meu vestido com as pequeninas
mãos assim, tão apertadas, qual pássaro encolhido sob as minhas asas? Heitor
não mais virá valer-te, filho meu, portando a lança gloriosa, tão solícito,
como se brotasse do chão para salvar-te. A mão paterna e o poder troiano
foram-se. Em salto horrível, de cabeça para baixo, lançar-te-ão das altas
torres sem piedade, e com teu pequenino corpo destroçado exalarás sem mim o
último suspiro! Ah! Criancinha frágil que esta mãe
sem sorte gostava tanto de acariciar no colo! Ah! O
suave odor de teu formoso corpo! Nutriu-te em vão meu seio
generoso, filho! Foram inúteis os desvelos, vãs as penas em que me extenuei
por tanto tempo! Agora beija pela derradeira vez a mãe que te deu vida!
Abraça-me, meu filho! Enlaça teus bracinhos pelo meu pescoço e por instantes
une teus lábios aos meus! Ah!
Gregos, inventores de suplícios bárbaros! Por que
matais esta criança inofensiva? E tu não és filha do grande Zeus,
Helena! És filha de diversos pais, não tenho dúvidas: do Ódio, da
Perversidade, Crime e Morte e todas as calamidades deste mundo! |
950 955 960 965 970 975 980 985 |
Nunca,
jamais terei a audácia de dizer que tu tiveste Zeus por pai! Jamais, demônio
funesto a tantos bárbaros e gregos! Morre! Sim! Morre, tu, que foste com teus
belos olhos
|
a causa do aviltante fim de nossa
Tróia! Dirigindo-se a TALTÍBIO
e aos soldados que o acompanham Pois seja assim! Arrebatai-me esta criança, levai-a já de
mim, lançai-a das alturas se vos apraz! Fartai-vos desta carne tenra! Os
deuses decretaram nossa perdição e não posso impedir a morte de meu filho!… ANDRÔMACA
entrega Astiânax a TALTÍBIO.
Prossegue Levai-me a algum lugar recôndito; levai meu desgraçado
corpo à nau de meu senhor! É para belas bodas que navegarei após haver
perdido assim meu filho amado! O carro parte levando ANDRÔMACA SEGUNDO CORIFEU Infortunada Tróia! Quantas,
quantas vítimas fez uma só mulher com seu odioso amor60! TALTÍBIO Vamos, menino. Eis-te arrancado agora ao carinhoso abraço
maternal. Temos de caminhar até as ameias das elevadas torres da cidade que
teus antepassados construíram. O duro mandamento determina que morras atirado
lá de cima. Dirigindo-se aos soldados da
escolta Levai-o! Para transmitir tais
ordens somente serviria frio arauto |
990 995 1000 1005 1010 |
destituído de qualquer piedade
e sem o sentimento que inda tenho.
TALTÍBIO afasta-se
em seguida à sua escolta
HÉCUBA
Minha
criança! Filho de meu filho! Meu pobre neto! Violência iníqua!
|
Tiram-te à vida, à tua mãe, a mim!
Que está por vir? Que posso eu agora fazer por ti, vencida pela sorte?
Oferecer-te os golpes com que firo meu rosto e meu mortificado peito? É
pouco, eu sei, e é tudo quanto posso!… Adeus, cidade minha! Adeus, criança! Que poderemos esperar ainda? Que pode ainda haver neste
desastre para que nossa ruína se complete? CORO Em Salamina de muitas abelhas, rei
Telamon, moravas entre as ondas61,
na ilha em frente às colinas sagradas onde mostrou primeiro a santa Palas um
ramo de oliveira sempre verde, coroa augusta da brilhante Atenas. Vieste
acrescentar o teu valor ao do filho de Alcmena, o bravo archeiro ansioso por
destruir a nossa Tróia nos idos tempos em que aqui chegaste vindo da Hélade.
E tu trazias a flor dos filhos da distante pátria, sentindo-te ultrajado com a
recusa dos prometidos céleres corcéis62.
Na larga embocadura do Simóis63
tu
detiveste o ímpeto dos remos, |
1015 1020 1025 1030 1035 1040 |
prendeste a popa de teu barco lá e empunhaste o teu arco
infalível para matar o rei Laomedon.
As pedras regulares da muralha
|
velhíssima,
que o próprio Apolo erguera, desmoronaram num clamor de chamas e caiu Tróia
pela vez primeira. Assim, em dois ataques, duas vezes a lança ensangüentada
destruiu os muros de Dardânia imemorável64. Foi em vão, filho de Laomedon65,
que em passos lânguidos, com jarras de ouro foste exercer no Olimpo o ofício
honroso de encher a taça esplêndida de Zeus. O fogo
consumiu a tua terra. O mar bramindo se lançava às
praias. Dir-se-ia que, pairando sobre os ninhos, queixam-se grandes pássaros;
um chora66
o
companheiro, outro chora os filhos, pranteia outro a velha mão perdida. Os
banhos cujas águas apreciavas, tão frescas, e teus campos de corridas tiveram
fim; mas tu, que apenas cuidas de sempre ser o pajem favorito ao pé do trono
de Zeus soberano manténs serenamente belo o rosto enquanto rui o império do
rei Príamo aniquilado pelas lanças gregas. Amor, Amor que visitaste outrora o
palácio de Dárdano insistindo em despertar paixões até no céu67, a que soberba posição fizeste
erguer-se Tróia em aliança insólita que a aproximou ainda mais dos deuses! De
Zeus e de seus atos reprováveis nada mais vou dizer, pois não é lícito. Hoje,
porém, a Aurora de asas róseas, a claridade cara à espécie humana, vê nossa
terra inteira destruída e vê a antiga Pérgamo arrasada. |
1045 1050 1055 1060 1065 1070 1075 1080 |
No entanto, o pai de seus formosos filhos68, o esposo
que em seu tálamo se deita, nasceu aqui em Tróia; uma quadriga ornada de ouro o
transportou aos céus
|
deixando a sua pátria esperançosa, mas Ílion já não tem os
atrativos capazes de encantar as divindades. Entra
MENELAU
escoltado por soldados gregos MENELAU69 Como estás fulgurante, luz do sol,
no dia em que irei rever Helena, minha esposa! Depois de tantas provações
estou aqui, eu, Menelau, tendo comigo as tropas gregas. Não foi uma mulher a
causa — reitero — de nossa expedição a Tróia; foi um homem, odiado e
detestado como nenhum outro, que arrebatou de meu palácio Helena bela. Depois
de muito tempo os deuses castigaram o criminoso e seu país desmoronou com
ele, derrotado por nossos soldados. Quanto à lacônia (não me agrada repetir70 seu nome), vim somente para
capturá-la pois sei que está no acampamento das cativas, à semelhança das
demais, como troiana. Já me outorgaram os guerreiros pertinazes, cessada a
luta, a incumbência de matá-la, a menos que, poupando-a, eu ache melhor
reconduzi-la à terra de Argos. Decidi71 que
a sorte dela não será ditada aqui. Meus remadores a transportarão comigo até
a Grécia; lá tirar-lhe-ão a vida aqueles que têm de vingar entes queridos
sacrificados nas batalhas desta guerra. Avante, meus soldados! Penetrai na
tenda! Trazei-a, segurando-a, se for preciso, por sua longa cabeleira
ensangüentada! E quando os ventos se mostrarem favoráveis |
1085 1090 1095 1100 1105 1110 1115 |
uma de nossas naus levá-la-á de
volta.
Ouvindo as
palavras de MENELAU, HÉCUBA levanta-se lentamente
HÉCUBA72
Erguendo as
mãos para o céu
Ah!
Sustentáculo da terra, que tens nela teu trono eterno, sejas tu quem fores,
Zeus, enigma indecifrável, lei inexorável
|
da
natureza, inteligência dos mortais, eu te venero! Percorrendo sem alarde a
tua via, vais guiando sempre os passos das criaturas todas dentro da Justiça! MENELAU Que ouço? Eis uma prece singular
aos deuses! HÉCUBA Aprovo, Menelau, a tua decisão
agora manifesta de matar Helena, mas inda tens receios de enfrentá-la e vê-la
temendo que te volte o louco amor por ela. Helena atrai o olhar dos homens e
os cativa, arruína povos e países, incendeia, |
1120 1125 1130 |
tantos e
tais são os encantos que possui. Tu mesmo e eu e suas numerosas vítimas a
conhecemos bem pelo mal que nos fez!
HELENA aparece,
trazida para fora de uma das tendas por soldados de MENELAU. Está
cuidadosamente vestida e arranjada
HELENA
Eis uma encenação bem-feita,
Menelau,
para assustar-me; vejo-me agarrada
assim 1135 por teus
soldados e arrastada rudemente de minha tenda afora. Já não tenho dúvidas de
que me odeias, mas desejo perguntar-te: que pensas tu de minha vida? E teus
soldados?
MENELAU
|
Não houve ainda tempo de pensarmos nisso. A tropa unânime
deixou a meu critério, como ofendido, o encargo de tirar-te a vida. HELENA Terei ao menos permissão para expressar minhas razões e
demonstrar que minha morte seria uma injustiça inesperada em ti? MENELAU Não venho debater, Helena, mas
matar-te73. HÉCUBA Deves ouvi-la, Menelau, antes da
morte; é sua última vontade. Ao mesmo tempo concede-me a palavra para
refutá-la. Expondo os malefícios que ela trouxe a Tróia, talvez
inconscientemente minha fala será condenação sem indulgência à morte. MENELAU É perda vã de tempo esse favor. Enfim, Helena poderá
falar, se lhe aprouver, mas é para poder ouvir-te, saiba ela, que lhe concedo
este direito. De outro modo, jamais eu lhe daria tal satisfação. HELENA Talvez não queiras aceitar minhas
razões sem meditar se elas são boas ou são más apenas porque vês em mim uma
inimiga. |
1140 1145 1150 1155 1160 |
Adivinhando, todavia, quais seriam teus argumentos se comigo
debatesses, vou contrapor minhas acusações às tuas.
Dirigindo-se
a HÉCUBA
Para principiar, tu foste a
causadora
|
de nossas desventuras, pois
gerando Páris trouxeste ao mundo a fonte de nossas desgraças. Depois de ti, o
autor da perdição de Tróia e minha foi o velho servidor de Príamo74, que não matou o teu
recém-nascido filho simbolizado em sonho angustioso outrora por lenho
ardente. O infante Páris foi poupado e veio a ser mais tarde o árbitro
escolhido pelas três deusas. Palas logo ofereceu-lhe a Grécia, que ele e as
forças frígias venceriam. A oferta de Hera foi a Ásia e mais ainda o extremo
da Europa muito cobiçado se Páris lhe outorgasse o prêmio da beleza.
Elogiando as maravilhas de meu corpo, anunciou-me Cípris como recompensa75 se fosse ela a vencedora do
concurso. Pondera nos efeitos desse julgamento: Cípris foi
proclamada a deusa mais formosa e eu fui entregue a Páris; graças a tais
núpcias os gregos não caíram sob o jugo bárbaro, salvando-se das lanças e da
tirania. Perdeu-me, todavia, a salvação da Grécia. Custou-me caro a minha
singular beleza e sofro ultrajes aviltantes até hoje com fatos que com mais
justiça me fariam merecedora de ostentar uma coroa. Dirigindo-se a MENELAU Não quererás agora que eu também
descreva como escapei furtivamente de teu lar? É que o demônio nascido desta
mulher, quer o chamemos de Alexandre, quer de Páris, veio mandado pela deusa
irresistível. |
1165 1170 1175 1180 1185 1190 1195 |
E tu, esposo indigno, que fizeste,
então?
Tu o
deixaste em nossa casa e te ausentaste de Esparta para ir em tuas naus a Creta!
Não é a ti, mas a mim mesma que pergunto:
|
em que pensei para seguir um estrangeiro abandonando minha
pátria e meu palácio? Castiga Cípris, mostra-te maior que Zeus, senhor dos
outros deuses mas escravo dela! A mim, porém, perdoa-me; não sou culpada. Silêncio geral durante alguns
instantes. Depois HELENA
continua Agora
poderias contrapor aos meus um argumento capcioso: quando Páris76 morreu
e foi para os infernos, desfizeram-se as núpcias inspiradas pela deusa e eu
teria obrigação de abandonar-lhe a casa e retornar sem mais demora às naus
argivas. Foi isso
exatamente o que tentei fazer. Recorro ao testemunho dos guardiães das torres e
sentinelas dos bastiões; vezes sem número surpreenderam-me pendente de uma
corda em tentativas de fugir pelas ameias. Deífobo, porém, queria desposar-me77 à força e contra os sentimentos
dos troianos. Com que direito, esposo meu, com que justiça queres tirar-me a
vida se meu casamento me foi imposto fatalmente pelo céu e a ele devo em vez
de prêmios e vitórias a escravidão cruel? Se queres sobrepor-te aos deuses,
tua pretensão é temerária. SEGUNDO CORIFEU Dirigindo-se a HÉCUBA Defende os
filhos teus, rainha, e tua pátria! Desfaze
logo os diabólicos efeitos |
1200 1205 1210 1215 1220 1225 |
de sua
justificação persuasiva, pois ela fala bem demais para quem age tão mal e isso
é extremamente perigoso!
HÉCUBA
Alio-me primeiro às deusas. Vou
mostrar
|
quanta injustiça existe nas palavras
dela. Ninguém de boa-fé creria que Hera e Palas78 pudessem comportar-se com baixeza
tal a ponto de em conluio Hera prometer que venderia aos bárbaros a terra
argiva, e Palas que daria Atenas aos troianos, submissa ao jugo frígio. Essa
competição das deusas junto ao Ida certamente foi79 uma frivolidade ou entretenimento.
Por que razão Hera divina nutriria desejo tão insano de ser a mais bela?
Seria para conquistar melhor esposo que Zeus onipotente? Quereria Palas
credenciar-se a esposa de qualquer dos deuses, ela, que obteve de seu pai o
privilégio de ser eternamente virgem, pois as núpcias lhe repugnavam? Não
procures disfarçar a tua perversão atribuindo às deusas tamanha insensatez.
Pessoas ponderadas jamais irão acreditar em tua história. E quanto a Cípris,
tu nos fazes rir, e muito, dizendo que ela foi com Páris ao palácio de
Menelau, como se a deusa, mesmo estando tranqüilamente em seu celestial
assento, não tivesse poder para levar-te a Ílion com toda a cidade de Amiclas
facilmente80! Meu filho era dotado de beleza
rara e foi teu próprio espírito que ao contemplá-lo criou a impressão de
Cípris. As loucuras81
de amor,
que os homens consideram diferentes e imputam a Afrodite, são iguais às
outras. A imagem de meu filho em sua roupa exótica, bordada de ouro
fulgurante, transtornou-te a alma; em Argos tua vida era medíocre; trocando
Esparta pela rica terra frígia, por onde corre um rio de ouro, imaginavas |
1230 1235 1240 1245 1250 1255 1260 1265 |
que aqui terias bens em
superabundância.
O palácio de Menelau já não bastava
às tuas
exigências de excessivo luxo. Senão, vejamos! Foi à força que meu filho
|
— segundo dizes — teve de levar-te
a Tróia. Em toda Esparta ninguém viu a violência? Gritaste apavorada? Mas
Castor, tão bravo82, estava lá com Polideuces, teus
irmãos, os gêmeos que depois seriam astros ígneos! Chegaste então a Tróia, os
gregos perseguiram-te e começou a luta das lanças mortíferas. Naquela época
as notícias de vitórias de Menelau causavam elogios teus apenas destinados a
mortificar meu filho em face da grandeza do rival que disputava teu amor. Mas
se, ao contrário, a sorte fosse favorável aos troianos, nada de ti se ouvia
sobre Menelau. Assim, atenta apenas à fortuna incerta, tratavas de estar
sempre com os eleitos dela, indiferente aos mandamentos da virtude. Somente
agora vens falar-me dessas cordas com que amarravas o teu corpo para fugas e
alegas que eras coagida a estar aqui. Alguém te surpreendeu alguma vez
tentando dependurar-te em laços de cordas suspensas ou afiando algum punhal,
como convinha a uma mulher de sentimentos mais honestos, saudosa do primeiro
esposo? E todavia em quantas ocasiões eu mesma te adverti: “Vai, minha filha!
Parte! Páris casará com outra e eu te ajudarei até chegares às naus dos
gregos para que termine a guerra!” Mas as minhas palavras não te convenceram.
Convinha mais a teu orgulho enorme o luxo em que vivias no palácio de meu
filho e a adoração dos bárbaros, tão ao teu gosto. Causaste tanto mal e
ajeitas teus adornos, sais e te atreves a mirar o mesmo céu que teu esposo
vê! És repugnante, Helena! |
1270 1275 1280 1285 1290 1295 1300 1305 |
Devias vir
aqui humilde e compungida, coberta por andrajos, trêmula de medo e com esses
cabelos aparados rentes!
Por teu passado tenebroso deverias
|
ter muito
mais modéstia e menos impudência! Eis ao que leva a minha fala, Menelau: adorna a Grécia com
a coroa mais sublime matando esta mulher segundo a imposição de tua honra e
firmarás para as demais a regra de que a morte punirá um dia a esposa
descuidosa da fidelidade! SEGUNDO CORIFEU Sê digno, Menelau, de teus antepassados, de teu palácio!
Pune tua esposa! Evita que toda a Grécia te censure a tibieza depois de
haveres demonstrado nas batalhas bravura incomparável diante do inimigo! MENELAU Eu também penso que ela por
vontade própria abandonou meu lar para atirar-se ao leito de um estrangeiro.
É por desfaçatez, Helena, que envolves Cípris em teus feitos vergonhosos! Vai ao encontro dos que te apedrejarão! Irás pagar num
instante os longos sofrimentos de inúmeros aqueus. Aprenderás morrendo que
não devias desonrar o teu esposo! HELENA Lançando-se aos pés de MENELAU Por teus
joelhos que ora abraço, não me punas |
1310 1315 1320 1325 1330 |
por erros
inspirados todos pelos deuses! Não! Não me faças perecer! Peço perdão!
HÉCUBA
Não traias, Menelau, teus muitos
companheiros
mortos por causa desta pérfida
mulher!
|
Imploro-te por eles! Peço por meus
filhos! MENELAU Basta, anciã. As súplicas desta mulher não me comovem.
Determino a meus soldados que a levem logo para a nau em cuja popa será
reconduzida à força para a Grécia! HÉCUBA Não seja a nau a mesma que te
levará83! MENELAU Por quê? Hoje ela é mais pesada do
que antes? HÉCUBA Haverá sempre amor no coração do
amante!… MENELAU Se quem
amamos nos amou com força igual. Mas tudo se fará segundo teus
desejos: não subirá Helena agora à minha nau. É bom o teu conselho. Em Argos
esta infame terá a morte merecida e seu castigo levará as mulheres a ter mais
recato, por mais difícil que lhes seja. Seu suplício inspirará maior decência
às desbriadas |
1335 1340 1345 1350 |
e sensatez até às mais despudoradas.
MENELAU afasta-se
com parte de sua escolta. Alguns de seus soldados seguram HELENA e levam-na
presa
PRIMEIRO SEMICORO
Por fim
abandonaste aos gregos, Zeus, o templo de Ílion e seu grande altar, o perfumado
incenso, o fogo sacro,
|
a mirra que em volutas ia ao céu, Pérgamo santa, do alto
Ida os vales cobertos sempre de hera e as torrentes de gélidas e cristalinas
águas e os píncaros que vêem cedo o sol, refúgio fulgurante caro aos deuses.
Findaram para ti os sacrifícios, os coros e os concertos de louvor. Não
haverá mais festas para os deuses nas noites penumbrosas, nem imagens bem
esculpidas em madeira e ouro; não mais sagradas, ricas oferendas! Ah! Se
pudéssemos acreditar84, senhor, que nas alturas, em teu
trono, te ocupas da infelicidade nossa e vês ainda os vívidos lampejos do
incêndio que destrói nossa cidade! SEGUNDO SEMICORO Ah! Queridos esposos! Vossas
sombras vagueiam nos caminhos dos finados sem sepultura e sem os ritos fúnebres!
E a nau, com o ímpeto de suas asas85,
levar-nos-á por sobre as altas ondas para bem longe, nas planuras de Argos
onde os cavalos pastam e as muralhas erguidas pelos Cíclopes se elevam86. Nas portas se comprimem as
crianças em multidão e todas choram, gemem, agarram-se às aflitas mães.
Escutam-se gritos confrangedores: “Minha mãe! Ai de mim! Estou só! Levam-me
os gregos para confins distantes de teus olhos |
1355 1360 1365 1370 1375 1380 1385 |
em negra nau
que os ventos tangerão no mar até a sagrada Salamina87, o
promontório que separa os mares88 ou mesmo o Istmo, onde estão as portas89
|
de Pêlops!” Quando a nau do rei
argivo90
atravessar
o mar Egeu, que a fira um tortuoso raio fulminante mandado pelos deuses no
momento em que chorarmos abundantes lágrimas por termos de deixar a pátria
amada para viver o fado de cativas na Grécia, enquanto espelhos claros de
ouro — delícia das donzelas vaidosas — refletirão a filha do bom Zeus91. Queiram os céus que Menelau
jamais volte à Lacônia e reveja Pítane92,
nem chegue ao lar de seus antepassados e às portas brônzeas do templo da
deusa93, depois de receber de volta a
esposa, desdouro da altaneira Grécia e ruína |
1390 1395 1400 1405 |
das plácidas ribeiras do Simóis94!
Reaparece TALTÍBIO com
soldados, trazendo o cadáver de Astiânax sobre o escudo de Heitor
PRIMEIRO SEMICORO
Ai! Golpes
sobre golpes se sucedem! Eis que às calamidades desta terra agora vêm juntar-se
novos males!
|
Mulheres infelizes dos troianos! Olhai o corpo lívido de Astiânax,
lançado ao solo do alto das muralhas para morrer por decisão dos gregos. TALTÍBIO Uma só nau com os remadores
prontos, Hécuba, ainda permanece aqui; levando o resto dos despojos entregues
ao filho de Aquiles, ela vai navegar para a costa de Ftia95. Já Neoptólemo saiu de mar afora
ciente da expulsão do velho avô Peleu96 de
seus domínios pelo filho de Pelias. |
1410 1415 1420 |
Por isso sem
maior demora ele se foi levando Andrômaca; não reprimi as lágrimas na hora da
partida, ao vê-la separar-se de seu país, chorando a pátria que perdia
|
em lamentoso adeus ao túmulo de
Heitor. Ela implorava a Neoptólemo o favor de um sepulcro para o filho
recém-morto, que deu o último suspiro — infortunado! — ao pé das altaneiras
muralhas de Tróia. E o terror dos aqueus, este escudo de bronze com que teu
filho protegia sempre os flancos, não mais será levado à casa de Peleu nem
para a alcova nupcial em que Andrômaca, mulher de outro, vê-lo-ia com
tristeza. Seu ataúde não será todo de cedro emparedado num jazigo só de pedra:
o féretro deste meninozinho morto será o escudo de seu valoroso pai. Deponho, Hécuba, em teus braços, o
cadáver para que o vistas e o adornes de coroas se for possível nestas
tristes circunstâncias, pois a mãe dele teve de partir há pouco sem que lhe
permitisse a pressa de seu dono dar sepultura ao filho cruelmente morto. E
quando achares que o cadáver está pronto depois de o recobrirmos com terra
bastante levantaremos âncora e retornaremos. Cumpre
depressa, então, esses deveres fúnebres. De um sofrimento ao menos pude
aliviar-te: quando passava pelas águas do Escamandro97, no meio do caminho, já limpei o
corpo e até lavei os incontáveis ferimentos; só falta abrir a cova para
sepultá-lo. Se formos expeditos em nossas tarefas em pouco tempo a nau
restante partirá. |
1425 1430 1435 1440 1445 1450 1455 |
TALTÍBIO e alguns
soldados começam a cavar a cova a certa distância. Os soldados que seguram o
escudo de Heitor, onde vai o cadáver de Astiânax, permanecem onde estavam
HÉCUBA
Pousai no chão o escudo de meu filho,
guardas!
Os soldados
põem no chão o escudo de HEITOR. HÉCUBA prossegue
Ah! Como
seus adornos são agora tristes e sem encantos para os olhos meus! Ah! Gregos,
tão vaidosos de vossas proezas bélicas!
|
Mas não vos orgulheis de vossa
inteligência após este assassínio insólito! Que tínheis a recear desta
criança? Que ela um dia fizesse Tróia ressurgir de suas ruínas? De pouca monta, então, é vosso
antigo mérito! Nem os feitos de Heitor nos ásperos combates nem outros braços
numerosos impediram que Tróia fosse derrotada, e quando os frígios jaziam
todos, finalmente aniquilados, tivestes medo de uma frágil criancinha!
Merecem só desprezo as almas pusilânimes que não ponderam as razões de seus
temores. Ah! Bem-amado! Como foi triste o teu fim! Se ao menos tivesses
morrido pela pátria após haver gozado a mocidade, as núpcias e a realeza que
nos faz iguais aos deuses, terias sido mais feliz, se pode haver felicidade
para os homens nesta vida! Nem mesmo te foi concedido desfrutar dos bens
acumulados por teus ancestrais. Tão novo, não tiveste consciência deles e
morto não os apreciarás jamais! Pobre cabeça! Como estás ferida! Como! Nossas
muralhas construídas por Apolo para teus ascendentes foram crudelíssimas,
pois arrancaram quase todos os cabelos que tua mãe se comprazia em pentear
caídos sobre a testa e que beijava tanto!… E o belo rosto, deformado,
ensangüentado… Não posso terminar!… Que horror! Quero afastar de minha vista
este espetáculo pungente! |
1460 1465 1470 1475 1480 1485 1490 |
Ah! Mãos em
que eu gostava tanto de encontrar a semelhança das mãos nobres de teu pai!…
Agora estão assim, inertes, mutiladas…
Queridos lábios de onde tantas vezes
vinham
|
alardes infantis, vejo-vos mortos
hoje!… Mentias — coitadinho! — quando prometias pulando em cima de meu leito:
“Hei de cortar, avó, quando morreres, meus cabelos crespos98, e quando for com todos os meus
companheiros dizer-te enternecido adeus jogá-los-ei em teu sepulcro.” Mas não
choraste por mim! Sou eu, a tua avó, sem pátria, sem seus filhos, quem levará
ao túmulo teu tenro corpo tão maltratado!… Ai! Infeliz! Quantas carícias,
meigos cuidados, intermináveis vigílias em que te contemplava!… Tudo está
perdido! E que palavras um poeta escreveria na lápide de teu sepulcro
diminuto? “Aqui repousa uma criança trucidada pelos gregos vitoriosos que a
temiam”. Que enorme opróbrio para a Grécia
essa inscrição!… Enfim, estás herdando de teu pai apenas o escudo brônzeo que
te servirá de féretro!… Escudo, que já protegeste o braço forte de Heitor,
perdeste o teu valente guardião!… Ainda vejo emocionada em tua alça a forma
que deixou seu braço… No contorno de sua copa ainda está a marca nítida do
suor que nas lutas duras e constantes corria sem cessar do rosto de meu filho |
1495 1500 1505 1510 1515 1520 |
quando ele repousava
o queixo sobre ti… Entrai, mulheres, e trazei, se ainda houver, alguns adornos;
quero preparar o morto.
Algumas
mulheres dirigem-se à tenda mais próxima. HÉCUBA prossegue
Não nos deixou a desventura em
condições
|
de te prestar condignas homenagens
fúnebres; receberás, porém, o que inda nos resta. É insensata a criatura que
se alegra com um momento de felicidade e o julga interminável, pois a sorte,
sempre incerta, é igual ao homem delirante que em seus transes |
1525 1530 |
cai para um lado agora, depois para
o outro.
Quem poderá dizer que sempre foi
feliz?
As mulheres
voltam da tenda com adornos fúnebres
PRIMEIRO CORIFEU
Retornam as
cativas tendo em suas mãos os restos miseráveis da opulência frígia
|
que servirão de adorno ao pequeno
cadáver. HÉCUBA Em tua vida breve não tiveste tempo, minha criança, de
vencer teus companheiros nas provas hípicas ou no manejo do arco; pois a mãe
de teu pai depõe sobre um cadáver os galardões que um dia tu conquistarias se
Helena detestada não houvesse antes roubado a tua vida e destruído tudo!… CORO99 Quanta dor! Ah! Palavras pungentes! Desejávamos que te
tornasses o monarca maior desta terra! HÉCUBA Os paramentos que deverias usar
nas festas de teu casamento com a mais nobre de todas as princesas da Ásia
vão cobrir apenas um cadáver, belos trajes frígios!… E tu, escudo triunfante,
proteção de Heitor, conquistador de inúmeros troféus, recebe esta coroa;
segues um defunto; é como se estivesses igualmente morto. Ainda mais que as armas de Odisseu
perverso100
e fértil
em ardis, mereces honrarias. |
1535 1540 1545 1550 1555 |
CORO
Ai de nós! Ai de nós, criancinha!
Esta terra já vai recobrir-te!
Chora e geme, anciã desditosa!
HÉCUBA
Ai de mim! Como sou infeliz!
CORO
|
Entoamos o hino dos mortos! HÉCUBA Quanta dor! Ai de mim! Quanta dor! CORO Sim,
rainha; sentimos por ti! São terríveis os teus sofrimentos! HÉCUBA Mais serena Ocultarei
com faixas os teus ferimentos (sou um funesto médico que nada cura). Teu pai te espera lá onde os mortos se encontram e terá os
cuidados que não pude ter. CORO Mortifica com as mãos a cabeça101,
elevando-as e depois baixando-as! HÉCUBA Minhas
queridas companheiras, escutai-me!… |
1560 1565 1570 |
CORO
Fala,
Hécuba, às tuas amigas, confidentes leais; em que pensas?
HÉCUBA
Os deuses,
em verdade, impõem-me tormentos ininterruptamente e detestavam Tróia
|
mais que qualquer outra cidade; foi em vão que lhes
oferecemos tantos sacrifícios. Se, todavia, eles não nos escolhessem e se
morrêssemos na mediocridade, tragados pela terra sem deixar vestígios, jamais
as doces Musas nos celebrariam nem os poetas no porvir nos cantariam.
Depositai, então, o corpo no sepulcro envolto nestes trajes próprios de
defuntos. Em minha opinião aos mortos pouco importam o fausto e o valor das
oferendas fúnebres; elas apenas alimentam a vaidade dos vivos, sempre
cuidadosos de gloríolas. Os soldados afastam-se levando o
corpo de Astiânax CORO Desgraça! Tua infortunada mãe viu
perecer contigo a esperança de sua vida. Todos exaltavam |
1575 1580 1585 1590 |
a tua sorte
por haver nascido de raça tão ilustre; vais embora tão novo e tua morte foi
tristíssima!
Vêem-se
soldados à distância agitando archotes. O CORO prossegue
Que aconteceu? Que mãos pelos
altares
de Ílion
portam tochas flamejantes? 1595
Que novos males ameaçam Tróia?
TALTÍBIO
aproxima-se, seguido por soldados
TALTÍBIO
Ordeno aos
homens incumbidos dos incêndios: não deixeis descansar em vossas mãos as
tochas.
O fogo deve consumir toda a cidade,
|
até que ela esteja reduzida a cinzas, pois só assim
começaremos a viagem de volta à Hélade com os corações contentes. E vós,
filhas de Tróia — é dupla a minha ordem — tereis de dirigir-vos ao
embarcadouro logo que soem os clarins dos comandantes dando o sinal
definitivo da partida. E tu, idosa Hécuba, segue estes homens; vieram
conduzir-te a mando de Odisseu. Serás escrava dele como quis a sorte, em
terra estranha, longe da vencida Tróia. HÉCUBA Ah! Infeliz de mim! Agora vejo o
cúmulo de minha desventura; deixo a minha pátria, minha cidade toda está envolta
em chamas! Coragem, pobre velha! Num esforço extremo dize o adeus final à tua
terra infausta! Ah! Tróia, que sobressaías orgulhosa entre as cidades
habitadas pelos bárbaros! Perdes num
átimo teu nome glorioso. Destroem-te
com fogo e levam-me cativa! Ah!
Deuses! (Mas, qual a valia de invocá-los? |
1600 1605 1610 1615 1620 |
Já no
passado não ouviram meus apelos…) Seja o que for! Precipitemo-nos nas chamas!
Minha glória maior será morrer aqui nesta fogueira que reduz a cinzas Tróia!
HÉCUBA tenta
correr, trôpega, em direção às labaredas no fundo da cena
TALTÍBIO
|
Estás fora de ti, desventurada Hécuba, em conseqüência de
teus muitos infortúnios. Dirigindo-se aos soldados Depressa! Segurai-a! Não quero perdê-la! Teremos de
entregá-la viva a Odisseu, que espera a escrava conquistada no sorteio. Os soldados seguram HÉCUBA,
que se debate HÉCUBA Entre soluços Quanta tristeza! Quanta desgraça102!
Filho de Cronos, senhor da Frígia103, pai desta raça, vês a desdita, a
sorte inglória que atinge agora a descendência do antigo Dárdano104? CORO Ele a vê, mas a nossa cidade acabou; Tróia, a grande,
acabou! HÉCUBA Ai de mim!
Desgraçada! Infeliz! Minha Tróia é somente um clarão. Sobe o fogo dos tetos de
Pérgamo, da cidade e de seus baluartes! CORO Como o fumo que as asas do vento
num momento dissipam no céu, a cidade se esvai, pois as lanças a venceram nos
duros embates. Os incêndios e as armas adversas |
1625 1630 1635 1640 1645 |
arrasaram os nossos palácios.
HÉCUBA ajoelha-se
e bate no chão com as mãos fechadas105
HÉCUBA
Terra-mãe que nutriste meus filhos!
CORO
Ai de nós!
HÉCUBA
Ai! Meus filhos! Ouvi vossa mãe!
|
Escutai o chamado, meus filhos! CORO Teu lamento soturno os invoca lá no mundo remoto dos
mortos! HÉCUBA Aproximo do chão meus joelhos
doloridos e golpeio a terra com as mãos antes fortes fechadas! |
1650 1655 |
SEGUNDO SEMICORO
Nós também,
de joelhos no chão evocamos no fundo da terra os esposos que a guerra matou!
HÉCUBA
Já nos levam!…
PRIMEIRO SEMICORO
|
Quanta dor! Quantos gritos de dor! HÉCUBA Seremos escravas… PRIMEIRO SEMICORO … muito longe de nosso país! HÉCUBA Meu
rei Príamo, agora finado sem sepulcro e sem um amigo para perpetuar-te a
memória, |
1660 1665 |
não percebes a minha desgraça?
PRIMEIRO SEMICORO
Negra noite
fechou os seus olhos, triste prova da morte cruel!
Ouvem-se
estrondos de desmoronamentos, ainda isolados. Levantam-se as mulheres do
segundo SEMICORO. Todas se voltam para a cidade em chamas
HÉCUBA
Templos todos de Tróia querida…,
CORO
Ai de nós! 1670
HÉCUBA
… desabais na voragem das chamas.
Veio a morte na ponta das lanças!
CORO
Sereis
ruínas sem nome bem cedo na cidade querida dos frígios!
HÉCUBA
|
Logo
as cinzas que seguem as chamas cobrirão inda quentes as ruínas do palácio até
ontem tão belo… CORO Mesmo o nome de nossa cidade deixará de existir. Há
destroços crepitando por todos os lados! Ouve-se o estrondo maior da
cidadela de Pérgamo desmoronando HÉCUBA Percebestes? Ouvistes, amigas? CORO É
o estrondo de Pérgamo antiga desfazendo-se em ruínas! É o fim! HÉCUBA Um tremor já percorre a cidade… CORO … e se
estende como enorme vaga! |
1675 1680 1685 |
Ouve-se o
toque dos clarins chamando as mulheres para o embarque
HÉCUBA
Membros meus
muito frágeis! Levai-me, conduzi-me na marcha forçada. Comecemos a triste
jornada até nosso cruel cativeiro!
CORO
Ai! Adeus,
minha triste cidade! 1690
Caminhemos,
forcemos os pés a marchar para as naus dos aqueus!…
As mulheres
do CORO,
com HÉCUBA
à frente, saem marchando em cadência lenta na direção das naus
FIM
NOTAS ÀS TROIANAS
1.
Mar Egeu — trecho do
Mediterrâneo adjacente à Grécia.
2.
Nereidas —
divindades secundárias, ninfas do mar, do séquito de Poseidon.
3.
Ver a nota 62.
4.
Fatal cavalo — o cavalo
de madeira em cujo bojo os gregos entraram traiçoeiramente em Tróia e a
conquistaram.
5.
Escamandro — rio da
região de Tróia, cujas nascentes ficavam no monte Ida.
6.
Guerreiros
árcades — da Arcádia, região da Grécia. No verso seguinte: Tessália, também uma região da Grécia.
7.
Teseu — rei
lendário de Atenas.
8.
Veja-se o verso 787. Ájax, filho de Oileu, tentara violentar
Cassandra no interior do templo de Atena.
9.
Eubéia — ilha do
mar Egeu.
10.
Litoral
micônio, recifes délios, e nos versos seguintes: Ciros, Lemnos, promontório de Cafareu : acidentes geográficos no
caminho de volta à Grécia.
11.
Olimpo — montanha
da Grécia, morada dos deuses.
12.
Desde este verso até o verso 350 há nas falas de Hécuba uma
mudança de metro no original, que seguimos na tradução. Omesmo procedimento é
adotado no início da aparição de Cassandra, versos 371 a 404, além de outros
trechos. Veja-se a nota 46.
13.
Esposa
pérfida de Menelau — Helena.
14.
Castor — irmão de
Helena e de Polideuces (Pólux na forma latina) — vejam-se os versos 1272 e
1273). No verso seguinte, Eurotas,
rio de Esparta.
15.
Argos e Ftia — regiões
da Grécia.
16.
Ida — montanha
perto de Tróia.
17.
Pirene — fonte em
Corinto, na Grécia.
18.
Note-se a diferença entre o tom soturno do segundo semicoro,
composto de viúvas, e a leveza do primeiro, de virgens sonhadoras, que se
comprazem com digressões geográficas, como se a perspectiva da viagem a lugares
famosos, que só conheciam de nome, ainda lhes causasse alguma satisfação.
19.
Terra de
Teseu — Atenas.
20.
Eurotas — veja-se a
nota 14.
21.
Terra odiosa
da funesta Helena — a Lacônia, na Grécia, onde ficava Esparta.
22.
Peneu — rio da
Tessália.
23.
Olimpo — veja-se a
nota 11.
24.
Etna — vulcão na
Sicília, morada de Hefesto, deus grego do fogo.
25.
Fenícia — a
referência é a Cartago, colônia dos fenícios no norte da África, em frente à
Sicília, também chamada simplesmente de Fenícia.
26.
Mar Jônio — trecho do
Mediterrâneo adjacente à Grécia.
27.
Crátis — rio na
Magna Grécia, perto de Síbaris.
28.
Terra dória — a
Lacônia, onde reinava Menelau.
29.
Terra de
Cadmos — a Beócia, na Grécia.
30.
Lacedemônia — Região da
Grécia.
31.
Santas
vestes — os paramentos da sacerdotisa de Apolo (Febo). No verso
anterior: chaves sacras, insígnias da
condição de sacerdotisa.
32.
Taltíbio, para não revelar a morte de Polixena, fala
enigmaticamente a Hécuba, principalmente nos versos 322 e 325. Veja-se overso
796. Na Hécuba Eurípides altera a
lenda ou segue outra versão; Polixena é sacrificada sobre o túmulo de Aquiles
mas no Quersoneso Trácio, onde as naus gregas teriam parado em sua viagem de
volta. Hécuba dialoga longamente com sua filha, que se comporta heroicamente em
face do sacrifício. Esse episódio é um dos mais belos da Hécuba.
33.
Ítaca — ilha grega
onde reinava Odisseu.
34.
Senhor de
Argos — Agamêmnon.
35.
Senhora dos
partos — Hecate, deusa grega protetora das parturientes.
36.
Alusão ao assassínio de Agamêmnon e de Cassandra por
Clitemnestra, sua mulher, episódio central do Agamêmnon de Ésquilo (primeira peça da trilogia Oréstia, publicada por Jorge Zahar
Editor).
37.
Alusão ao assassínio de Clitemnestra por Orestes, seu filho
e de Agamêmnon, assunto das Coéforas
de Ésquilo e da Electra de Sófocles.
No verso seguinte, Atridas são
Agamêmnon e Menelau, filhos de Atreu. Veja-se o verso 512.
38.
Alusão ao sacrifício de Ifigênia, filha de Clitemnestra e de
Agamêmnon, por ordem do pai. Veja-se o Agamêmnon,
versos 272 e seguintes de minha tradução.
39.
Escamandro — veja-se a
nota 5. No verso 455, Ares, o deus da
guerra dos gregos.
40.
Filha de
Zeus — Helena, que Zeus gerou em Leda metamorfoseado em cisne.
41.
Filho
querido de Atreu — Agamêmnon. Daí o epíteto Atrida pelo qual também era mencionado o chefe dos gregos.
42.
Filho de
Laertes — Odisseu.
43.
Senhora
sensata — a esposa de Odisseu, Penélope, famosa por sua fidelidade.
44.
Loxias — epíteto
de Apolo (literalmente “oblíquo”, alusivo à ambigüidade de seus oráculos).
45.
As peripécias enumeradas nos versos 541 a 554 constituem o
assunto da Odisséia de Homero, onde
são descritas com detalhes. As passagens da Odisséia
em que ocorrem principalmente os lugares, nomes e circunstâncias aludidas
nesses versos são as seguintes: Caríbdis, canto XVII, versos 101 e seguintes; O
Cíclope, XVII, 106; Circe (a feiticeira), XV, 233 e segs.; naufrágios, V, 313 e
segs.; os lotófagos (bárbaros que se alimentavam da folha do lótus, cuja
ingestão produzia estranhos efeitos), XV, 82 e segs.; as vacas do sol, XVII,
262 e segs., 394 e segs.; descida aos infernos, XVI.
46.
A partir do verso 555 e até o 577 há uma mudança de metro,
recurso usado pelo poeta para caracterizar a agitação de Cassandra. Na tradução
deste trecho, como de outros em que ocorrem tais mudanças, usamos também metros
diferentes, tentando acompanhar, na medida do possível, essas particularidades
do original. No verso seguinte: Hades,
lugar para onde iam os mortos, nas profundezas da terra, traduzido geralmente
por inferno.
47.
Chefe
onipotente dos argivos — Agamêmnon.
48.
Vejam-se os versos 1228 e seguintes de minha tradução do Agamêmnon de Ésquilo, em que são
descritos os últimos momentos de Cassandra, morta juntamente com Agamêmnon por
Clitemnestra em Micenas.
49.
Alusão ao assassínio de Agamêmnon por Clitemnestra. Veja-se
a nota 48.
50.
São freqüentes essas manifestações de irreverência de
Eurípides em relação aos sentimentos religiosos da época.
51.
Fazia parte do ritual fúnebre colocar sobre a sepultura
mechas dos cabelos dos parentes sobreviventes (vejam-se os versos1496 e segs.).
52.
Alusão ao chiado do eixo do carro atritando em seus
suportes. Essa ode do coro descreve o conhecido episódio do “cavalo deTróia”.
53.
Ártemis — deusa
grega das florestas e da vida selvagem, filha de Zeus.
54.
A partir deste verso e até o verso 773 há no original uma
mudança no metro, respeitada na tradução.
55.
Segundo a lenda, Príamo, advertido dos males que adviriam a
Tróia se Páris sobrevivesse, entregou o recém-nascido a um velhocriado para que
o abandonasse na floresta, onde esperava que o filho morresse. Um pastor
encontrou Páris e o criou. Passados os anos Príamo, com remorso, resolveu
celebrar jogos fúnebres em honra do filho, supostamente morto. Páris (também
chamado Alexandre) apresentou-se aos jogos e venceu a competição com os nobres
troianos, entre os quais estavam seus irmãos Heitor e Deífobo. Os irmãos
reconheceram-se e Páris voltou ao seio da família. Enquanto Páris estava na
companhia do pastor que o salvara, exercendo o mesmo ofício, foi escolhido por
Hera, Atena (Palas) e Afrodite (Cípris) para decidir qual das três deusas era a
mais bela (vejam-se os versos 1168 e segs.). Desse julgamento teria resultado a
entrega de Helena, então esposa de Menelau, a Páris, acontecimento tido
tradicionalmente como a causa da guerra de Tróia.
56.
Veja-se o verso 96 e a nota ao mesmo. Andrômaca alude à violência
de Ájax para com Cassandra no interior do templo deAtena, sacrilégio que levou
a deusa a tornar-se adversária dos gregos ao invés de aliada que fora até
então.
57.
Veja-se o verso 318 e a nota 32 ao mesmo.
58.
A ambigüidade de Taltíbio neste verso lembra a mesma atitude
nos versos 322 e seguintes, quando procurava encobrir a mortede Polixena.
59.
A presença de uma criança de tenra idade na cena grega era
incomum e certamente a idéia de Eurípides deve ter comovido osespectadores da
época, como até hoje nos comove. Talvez ainda mais patética seja a cena de
Hécuba com o pequeno cadáver nos versos 1482 e segs. Eurípides, que era mestre
na arte de exacerbar os sentimentos da platéia, usou de todos os recursos para
mostrar aos atenienses os horrores da guerra, principalmente para os vencidos,
numa tentativa para demovê-los da expedição à Sicília, que afinal se realizou e
teve efeitos terríveis para os atenienses derrotados.
60.
Odioso amor — esta
figura de retórica, conhecida como oxymoron
ou antilogia, é freqüente nos poetas gregos. No próprio Eurípides ocorre ainda
na Ifigênia em Táuris, verso 500; na Hécuba, 612; na Helena, 690-691; na Ifigênia
em Áulis, 1245-1250. Na nota 81 à sua tradução de Romeu e Julieta Onestaldo de Pennafort cita vários exemplos dessa
figura em Shakespeare e outros poetas.
61.
Telamon — rei
lendário de Salamina (ilha grega onde nasceu Eurípides), era o pai de um dos
Ájax, grande herói grego, e tomou parte, ele próprio, na primeira (e menos conhecida)
expedição dos gregos contra Tróia no tempo do rei Laomedon, juntamente com
Heraclés (o filho de Alcmena a que
alude o verso 1031) e a flor dos filhos
da Grécia (verso 1036), na geração anterior à mais famosa e última guerra
de Tróia (veja-se a nota seguinte).
62.
Laomedon — rei de
Tróia por ocasião da primeira expedição grega; tendo deixado de pagar a Apolo e
a Poseidon o salário combinado para a construção das muralhas de Tróia (versos
5 e 1044), ele teve de expor sua filha Hesione a um monstro marinho mandado por
Poseidon. Heraclés livrou-a do monstro mediante a promessa de obter de Laomedon
os corcéis divinos que Zeus dera a Tros, herói epônimo de Tróia, para
consolá-lo do rapto de Ganimedes, seu filho, por quem Zeus se apaixonara e que
levou para o Olimpo, onde lhe servia de pajem. Mas Laomedon não cumpriu a
promessa e Heraclés organizou a primeira expedição, que saqueou Tróia pela
primeira vez (veja-se Homero, Ilíada,
canto V, verso 641; XX, 145; XXI, 466 e seguintes).
63.
Simóis — rio da
região de Tróia.
64.
Outro nome de Tróia (derivado de Dárdano, seu primeiro rei).
Há certa confusão nas fontes, considerando algumas que aDardânia seria a região
em que se situava Tróia, e não a própria Tróia com outro nome.
65.
Filho de
Laomedon — Ganimedes. Veja-se a nota 62 para o rapto de Ganimedes
por Zeus, que se apaixonara por ele e o fizera seu pajem no Olimpo.
66.
Tratar-se-ia do alcione, pássaro considerado pelos antigos
como extremamente afetuoso com os filhos.
67.
Alusão à paixão de Zeus por Ganimedes. Mesma alusão no verso
1075.
68.
O esposo da Aurora, Títon, era irmão de Príamo. Os filhos de
Títon e da Aurora eram Mêmnon, considerado o mais belo doshomens (veja-se
Homero, Odisséia, VI, 188, e XXI,
522) e Hematíon. A Aurora teria levado Títon para os céus num carro de ouro
puxado por quatro corcéis.
69.
O episódio de Menelau e Helena quebra um pouco o pathos da tragédia, mas é uma concessão
à moda da época dos sofistas, em que se atribuía grande valor a esses debates
(veja-se a discussão entre Electra e Crisôtemis na Electra de Sófocles, onde o poeta se alonga também em debates
sofísticos). Entre as obras atribuídas ao sofista Górgias, contemporâneo de
Eurípides, há um Elogio de Helena.
Isócrates, célebre orador, escreveu também um discurso intitulado Helena, na mesma linha dos sofistas. A
atitude firme de Menelau na versão que Eurípides dá à lenda é oposta à maioria
das versões, segundo as quais Menelau não teria resistido aos encantos de
Helena no reencontro, e ao ver os seus seios nus deixara cair a espada e se
rendera novamente à beleza da causadora de tantas desgraças. Essa versão,
atestada por um fragmento do poema épico anônimo conhecido como Pequena Ilíada (fragmento 17 da
coletânea de T. W. Allen no volume V das obras completas de Homero, Oxford,
Clarendon Press, reimpressão de 1946, página 135), é seguida por Aristófanes,
que no verso 155 da Lisístrata
(página 17 de nossa tradução, Editora Brasiliense, São Paulo, 1988) alude à
capitulação de Menelau diante do espetáculo da seminudez da bela Helena.
70.
Lacônia — ao invés
de dizer o nome de Helena, Menelau menciona o gentílico “lacônia”, natural da
região homônima da Grécia onde reinava o irmão de Agamêmnon.
71.
Argos — veja-se a
nota 15.
72.
A prece de Hécuba é uma sucessão de anacronismos, incluindo
idéias de filósofos anteriores e contemporâneos de Eurípides. Alei inexorável da natureza lembra
Heráclito e a inteligência dos mortais
é o nous de Anaxágoras (a transcrição
de palavras gregas é feita em caracteres latinos para evitar dificuldades na
composição tipográfica). Eurípides incluía em suas peças ensinamentos
filosóficos, tendo-se conservado graças a ele vários fragmentos de obras
perdidas dos filósofos de seu tempo (no volume III dos Vorsokratiker de Diels, págs. 600 e 601 da 6a. edição, Berlim,
1952, estão relacionados em duas alentadas colunas os numerosos versos de
Eurípides em que ocorrem alusões às doutrinas dos pré-socráticos).
73.
Compare-se a frase de Antônio no Júlio César de Shakespeare: “ I come to bury Caesar, not to praise
him” (ato III, cena II, verso 79).
74.
Veja-se o verso 755 e a nota 55 ao mesmo.
75.
Cípris — epíteto
de Afrodite.
76.
Páris teria sido morto por Filoctetes no decurso da guerra
de Tróia.
77.
Deífobo — irmão de
Páris.
78.
Hera — a deusa
protetora de Argos; Palas (ou Atena),
a deusa protetora de Atenas.
79.
Ida — alta
montanha nas proximidades de Tróia, onde Páris apascentava seu rebanho enquanto
vivia desconhecido da família após salvar-se da morte a que Príamo o destinara
para conjurar o perigo que, de acordo com um sonho, representaria para Tróia se
sobrevivesse (veja-se a nota 5).
80.
Amiclas — cidade
antiqüíssima situada a pouca distância de Esparta, onde se venerava
fervorosamente Afrodite.
81.
Há um jogo de palavras intraduzível nos versos 1258-1260.
Eurípides atribui a “Aphrodite” (Afrodite, a deusa do amor), amesma etimologia
de “aphrosyne”, que significa insanidade, loucura.
82.
Castor e
Polideuces — veja-se a nota 14. Os irmãos de Helena teriam sido
transformados em astros (a constelação de Castor e Pólux).
83.
Hécuba não parece muito convencida da firmeza de Menelau e
receia que, indo os dois na mesma nau, Helena use os “argumentos” de seus
encantos para reconquistar o primeiro marido. Segundo a lenda, foi o que
aconteceu. O casal reconciliou-se. A beleza sempre foi a força das mulheres,
seu argumento mais forte.
84.
Outra manifestação do ateísmo de Eurípides, que apesar de
explorar magnificamente o sentimentalismo e a religiosidade (comonas Bacantes, por exemplo) para efeitos
dramáticos, era considerado um racionalista perfeitamente integrado no
movimento filosófico da época.
85.
Asas — metáfora
para significar “velas”.
86.
As muralhas de Argos teriam sido construídas pelos
gigantescos Cíclopes. Daí a expressão “ciclópico” para as obras gigantescas.
87.
Eurípides não perdia oportunidades de introduzir Salamina, a
ilha onde nascera, em seus versos (veja-se o verso 1025).
88.
Ao
promontório que separa os mares — Acrocorinto.
89.
Istmo — o
Peloponeso.
90.
Do rei
argivo — Menelau.
91.
A filha do
bom Zeus — Helena.
92.
Pítane — aldeia
próxima a Esparta.
93.
Um templo famoso de Atena em Esparta.
94.
Simóis — veja-se a
nota 63.
95.
Ftia — região da
Grécia, terra de Aquiles (veja-se a nota 15).
96.
Peleu — pai de
Aquiles e avô de Neoptólemo, velho rei da Ftiótida; ele fora deposto por
Acasto, filho de Pelias, rei da região vizinha de Iolco, aproveitando a
ausência de Aquiles e Neoptólemo.
97.
Escamandro — veja-se a
nota 5.
98.
Veja-se o verso 605 e a nota 51.
99.
Aqui ocorre nova mudança de metro no original, a princípio
somente nas falas do coro, depois nas de Hécuba. Essas mudançassão mantidas na
tradução.
100. As armas de
Odisseu eram famosas por sua beleza e porte.
101. Bater na
cabeça com as mãos fechadas era usual nos funerais como sinal de sentimento.
102. A partir
deste verso ocorrem várias mudanças de metro, mantidas na tradução.
103.
Filho de
Cronos — Zeus.
104. … antigo Dárdano — veja-se a nota 64.
105. O gesto de
bater com as mãos no chão fazia parte do ritual para invocação dos mortos nas
profundezas da terra.
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Capa: Sérgio Campante
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