segunda-feira, 5 de abril de 2010

Em Cena Glorinha e Mario


"Quando eu era criança no Alegrete, nós falávamos em francês com meu pai..."

Cléber Lorenzoni como Macbeth

Diário de Bordo V - O Castelo Encantado em Capão da Canoa

Pontes que sobem e descem...

O Teatro é absurdamente magnífico, já que é a arte do momento, já que nos surpreende a todo o instante. O que eu vejo hoje, ninguém mais verá amanhã, no outro dia, haverá sobre o palco, outro espetáculo, outras cenas, outras micro-ações, salvo quando os atores são papagaios robóticos que repetem tudo igual dia após dia.
A colcha de retalhos de O Castelo Encantado extende-se pela narrativa até os figurinos, delicadamente desenhados por Dulce Jorge. Os versáteis atores, transforman-se rapidamente apenas com o auxílio de uma cortininha, e de dentro da "carroça" da trupe, saltam porquinhos, elefante, ursinhos, crianças medonhas e uma infinidade de tipos de existência curta que formam a historia da visita de Rosa Maria ao Castelo Encantado.
O espetáculo propõe a viagem de uma menina depois que ela começa a ler um livro, ela se perde no mundo encantado da leitura, das historias infantis e aos poucos vai encontrando várias figuras que povoam a obra infantil de Erico Verissimo.
Hoje eu vi jogo, os atores foram rápidos e tudo parecia colaborar para um melhor entendimento da cena.
Gabriel Wink parece ter encontrado seu lugar e me surpreendeu diferenciando muito bem cada um dos seus quatro personagens. Renato Casagrande começa a estar presente em cena como um ator profissional e Angelica Ertel soube nos apresentar uma coesa Rosa Maria, tão sutilmente diferente de sua personagen infantil anterior.
O Castelo Encantado é um espetáculo delicioso e se seguir pelo caminho que vi hoje se tornará rapidamente um espetáculo inperdível como Lili Inventa o Mundo.

                                           A Rainha



"Os Palhacinhos" de Lili Inventa o Mundo...

Renato Casagrande  -  Cléber Lorenzoni   e   Alessandra Souza

domingo, 4 de abril de 2010

Diário de Bordo IV - O Incidente em Capão da Canoa

Palco Vazio

                    Ainda na marcha dos mortos sobre Capão da Canoa, enquanto o público ia abrindo o corredor humano para dar passagem aos sete atores do Máschara, eu ví o palco. E o palco era frio, nele não subiriam os mortos de O Incidente. Nele não estaría o Barcelona cabeludo de botas marrons interpretado por Rafael Aranha; Nele não estaria o Pudim de Cachaça de Barba preta cerrada e dedos atrofiados de Cristiano Albuquerque; Nem o coronel baixinho com timbre quase certanejo criado por Ezequiel Mattos; ou a Erotildes de longos cabelos soltos composta por Lauanda Varone; a interpretação magistral de Cícero por Alexandre Dill; ou ainda as mãos de Cléber Lorenzoni dedilhando um piano imaginário pelo ar em Menandro Olinda.
                    Não, definitivamente eles nunca mais etariam alí (eis uma colocação dramática digna do teatro).
Que a vida é passageira, que as coisas acontecem depressa demais, e que nada dura para sempre... Isso eu já havia aprendido. Mas precisei me perguntar o que estava fazendo ali se meus companheiros de jornada haviam me abandonado. Como então dar vida, chocar, causar espanto, se só me restavam Dulce Jorge e Gelton Quadros, e arriscaria dizer apenas a Dona Quitéria de 2005. O Teatro é uma arte que se renova a cada encenação, a cada abertura de cortinas. Mas a renovação não pode perder sua linha objetiva.
Quando um ator substitui um intérprete, precisa compreender muito bem a narrativa em que está embarcando... Precisa saber os objetivos de tal montagem, compreender que faz parte de uma engrenagem que deverá estar afiada. Ou estará apenas fazendo a encenação de uma interpretação e isso cheira a cópia e cópia meus queridos, é um dos fantasmas malévolos do teatro.
                      O público aplaude meu melhor e ovaciona com a mesma admiração meu fracasso...
                      Nesse dia não tenho certeza do que foi aplaudido... Ora eu sei, foi o novo, o diferente, foi a morte, a viceralidade da cena, o medo do desconhecido, a sagacidade de Erico Verissimo, foram mil coisas... Mas o ator em cena precisa correr em busca da certeza única de que o aplauzo vem pela sua performance.
                      O verdadeiro ator é como um profeta que recebe um chamado... E ele levanta e vai, não se sabe ao certo fazer o que, ele procura um motivo, as vezes usa como pretexto seu cachê, as vezes sua carencia que corre em busca do aplauso de uma platéia desconhecida, a admiração pelo trabalho de sua equipe, a praia, a festa, o prazer... Mas afinal por que ele vai?
                       No palco ocorre um frenesí, uma vertigem de emoções e sensações que felizmente alguns jamais sentirão. No palco existe um mundo paralelo, repleto de convenções, de signos, de macetes que somente os atores conhecem, de códigos que passam de um para o outro, de microgestos, de olhares que os interpretes cruzam ali, aos olhos da platéia, mas ele, inebriada pela encenação não percebe... Esses códigos são chamados de "jogo". E não há bola ou tabuleiro mais excitante que tal jogo. É uma disputa, quase sempre honesta, pela atenção da assistência, pela sua emoção, pelo seu apláuso.
                       Naquele palco as 20 horas do dia 31 de março, eu reconheci muito pouco desses códigos. E um deles nem mesmo estava no palco comigo, estava sentado junto ao público. De resto eu ví atores robóticos fechados em sí mesmos, eu ví atores a espera de deixas,  eu ví atores preocupados em acertar coisas que eles nem sequer tinham compreensão,eu ví atores que poderiam depois de tantas tentativas acertar a emoção de uma frase,  eu ví interpretações enfadonhas e arrastadas, eu ví confusão de reações. Eu ví um novo Incidente.  E como eu disse, do outro só restou Dona Quitéria Campolargo.

                                                                                                                A Rainha             
                     

Melhor atriz coadjuvante infantil em Erechin - Tatiana Quadros

Recebendo o troféu das mãos de Stela Bento

sábado, 3 de abril de 2010

Diário de Bordo III - O Castelo Encantado em Capão da Canoa

Torre de Babel

"E Ninrode decidiu construir uma torre tão alta que chegasse aos céus. Mas o senhor se enfureceu e fez com que cada homem falasse uma lingua diferente..." Mas se os homens tivesses se olhado nos olhos e por algum momento a corrente chamada jogo tivesse se estabelecido, Babilônia não teria sido um dilema.
E a confusão foi avassaladora. Havia microfones, mas eles estavam assonoros, havia cenário mas ele não se movimentava, havia adereços, mas não estavam coesos; havia sonoridade, mas faltava musicalidade; Nesse dia não estou certa de que houvessem atores, faltavam com certeza personagens e todos se movimentavam quais baratas zonzas.
Há de se perguntar, tenho capacidade para fazer o que me cabe? E mais o desafio não está exatamente em alcançar o que me pedem para fazer?
Da beira do palco o que se percebia era a falta extrema de ensaios, e todo o bom ator sabe que o lugar do teatro é o ensaio, que é lá na concentração diária, na repetição metódica que nasce a beleza que será depois mostrada no palco.
O Remake de O Castelo Encantado fala da obra infantil de Erico Verissimo, e há algo de mágico em cada personagem, em cada cena... Mérito da direção do Máschara, que sempre agrega muita emoção e sensibilidade aos seus espetáculos. No entanto, a ação deste dia era afoita, ríspida, imediativa demais. Se alguem tinha medo de comparar O Castelo Encantado à Lili Inventa o Mundo, pode ficar descançado, os "palhacinhos" de Lili Inventa o Mundo povoam espaço bem distante No imaginário das crianças.
Mas estréias são cheias de perscalços, o que me assusta é ver que há crianças na cena. Aliás a "belle époque" povoa demais o Grupo Máschara atualmente. O que deve ser buscado nos ensaios é o amadurecimento. O saber ouvir, o retrucar menos, o deixar-se tocar pela sutileza e delicadeza dos integrantes mais antigos. Teatro é uma sabedoria que vem com o tempo.
Teatro, como a dança e outras expressões que formam as Artes Cênicas, é a arte do corpo. Da psicomotricidade, da versatilidade dos músculos.
O Teatro está em todo nosso corpo, está onde passa nosso alimento, nosso prazer, nossa dor e nossos dejetos. Será por isso que teimamos que ele deve ser sentido em todo o corpo?
Teatro é uma fogueira que queima por dentro, teatro é a gangrena humana...
Mas se não compreendemos nosso corpo, se não temos controle sobre o que sai dele para esparramar-se pelos figurinos e pelo palco, então como dominaremos a cena  e o público?
Para a intérprete de "Rafael", existe algo  chamado convenção, e essa convenção deveria estar presente no epílogo...
Para o intérprete de "Fernando", quando Stanislavski criou a quarta parede, imaginou que os atores fossem respeitá-la.
Para os atores mais antigos, atuar não é apenas queimar no centro do palco em sua furia, cheios de seu talento, mas ser generosos com os jovens atores.
Enfim, em Babilônia as pessoas falavam todas ao mesmo tempo, gesticulavam confusas, gritavam tentando se fazer compreender em uma cena absurdamente digna de uma farsa. Mas não havia graça, havia o desespero da perda de contato. O medo da estagnação. De ser uma ilha...
E vocês, sentem esse medo?


A Rainha