domingo, 21 de abril de 2019
sábado, 20 de abril de 2019
843- Paixão de Cristo - Salto do Jacuí - tomo (III)
Muito do que se vê em cena é reflexo do que emana da platéia para o palco. A energia que o público envia para os atores, um misto de sua curiosidade, admiração e interesse na historia contada. De qualquer forma, imaginar que tudo o que acontece durante um espetáculo é graças ou culpa do talento dos atores, é na verdade um pouco de ignorância e ingenuidade.
A equipe técnica, delimita e impõe o clima do espetáculo em 30%, o público em 40% e finalmente o trabalho do ator fica com outros 30%. Soma-se aí ainda o ambiente e a intempérie. Sobre o palco, o teatro carrega toda a arte. O que me faz perguntar se a arte-cênica não é a aproximadora de todas as artes, já que uma representação teatral é uma estrutura composta por elementos que pertencem a todas as outras artes: Poesia, arquitetura, musica, dança, artes plásticas, oratória, moda, pintura, etc. Cada elemento traz consigo para o palco uma gama de signos e um grande número desses signos se perde, e há ainda os signos que se transformam em outros signos.
Essa polissemia da arte teatral faz com que uma mesma cena possa ser compreendida diferentemente por espectadores diferentes. Por exemplo, representa-se uma cena de despedida, onde o diálogo é acompanhado por uma música. O espectador que seja músico dará uma importância preponderante à musica, mas para o espectador mais sensível à dicção prevalecerá o elemento declamatório. Esta polissemia da arte teatral que a distingue das outras artes, permite que espectadores com gostos diferentes e com exigências estéticas diferentes compreendam a mesma peça.
A capela erguida no inicio do século passado, deu ao espetáculo o tom perfeito para impulsionar clima das cenas. Fiquei de pé oferecendo meu lugar a uma senhora uns dez anos mais velha que eu. Passei parte do espetáculo cuidando suas expressões. Sempre fui curiosa o que me confere uma capacidade de quase compreender o que se passa na mente das pessoas ao meu redor. Analiso suas reações, seus micro-gestos. Não sirvo para o palco, disso tenho certeza, mas sou observadora avida das posturas humanas. Logo de inicio percebi na senhorinha a curiosidade latente de quem procura compreender o que irá acontecer. Uma placa enorme a impediu de ver em toda a sua plenitude a cena de Maria com Jesus e Madalena. Eu me espichei o suficiente para ver a riqueza de detalhes com a qual Souza e Jorge tentaram melhorar sua cena. Ambas atrizes de anos. Que discretamente adentraram suas cenas com sutileza e vivacidade. La Jorge é a Maria perfeita, e embora em alguns poucos momentos tenha se atrapalhado na dublagem, concedeu ao espetáculo uma expressão corporal lindíssima. Coluna, níveis de deslocamento, equilíbrio de luxo, enfim tudo o que orgulharia o mestre Meyerhold. As cenas que se estenderam pelo palco da direita culminaram com o martírio do cristo, tão, tão triste que a senhorinha de nome Altiva (que vim a descobrir depois), não se conteve e lhe foi alcançado uma garrafinha d'água. Essa possibilidade catarziana foi de extrema importância para que o público não esqueça jamais de tão celebre apresentação. Mas também para revelar que havia algo estranho acontecendo. Eu mesma demorei para perceber os sinais. Mas eles estavam ali. O espetáculo havia sido prejudicado e muito por uma equipe técnica que de toda forma estruturou completamente equivoca a mise en scene. Sombras exageradas dignas de um expressionismo alemão; público muito distante dos atores; tilha sonora extremamente baixa; luzes que não foram acesas. Não sei por que Lorenzoni contratou a equipe de som e luz, mas é necessário conversar com eles. Rever posturas e equilibrar arestas.
Parabéns ao diretor seus atores são muito bem preparados. Com tantas mudanças de níveis, de cenários naturais, ainda assim eles conseguem fazer um grande trabalho.
Dona Altiva levantou-se em pé durante o texto da ressurreição e com as mãos unidas e cabeça baixa, parecia rezar. Foi tocada. Tocada por toda a força de um auto religioso. De uma "Paixão" no sentido teatral medieval da palavra.
Eu voltei para Cruz Alta exausta. Triste por tudo o que a equipe de som e luz e os organizadores do evento promoveram durante o espetáculo, mas muito orgulhosa pelo profissionalismo e energia do Máschara.
Vi grandes interpretações, vi alguns poucos equívocos, mas vi arte!
Nos apóstolos o destaque foi para Gabriel Giacomini que se coloca na cena com toda a postura de um grande ator. Um jovem de tantos talentos Douglas Maldaner as vezes parece preocupado mas vem melhorando a cada apresentação.
Stalin Ciotti da um banho e para quem não viu, interpreta quatro personagens. Talento e instinto.
Ricardo Fnner amadureceu e muito bem como praticamente todos os atores do Máschara. Com o apoio de Vagner Nardes, a cena dos velhos do templo tem um enorme poder critico/politico. Em 2020 espero ver Nardes em outro grande papel.
A noite foi das mulheres, Lorenzoni me disse que Laura Hoover estava abatida durante o dia. Não pareceu-me. Ao contrário, estava ainda melhor que nos dias anteriores. Laura Heger buscando a bacia e quebrando e ainda a capacidade de Antonia Serquevittio de ir crescendo em cena a cada dia me encheram de admiração.
Alessandra Souza (*) muito capaz, mas pode ter ainda mais noção de equipe. Brigas nos bastidores são péssimos exemplos.
Dulce Jorge (***) orgânica e muito intensa, uma dama do palco
Renato Casagrande (*) Menos é mais, status um deve liderar com humildade, brigas nos bastidores são péssimos exemplos.
Douglas Maldaner (*) Um pouco mais de concentração, brigas nos bastidores são péssimos exemplos.
Stalin Ciotti (**) Ótimo ator, mas é necessário ensaiar tudo antes de cenas complexas para ter domínio junto a cenários e adereços.
Laura Hoover (***) Perfeita
Clara Devi ótima como sempre. Sua capacidade de ajudar os colegas merece (***)
Kauane Silva (***) Destaca-se muito na cena do templo
Cléber Lorenzoni (*) Estava magnifico, mas precisa aprender a não deixar os problema técnicos interferirem negativamente em suas cenas.
Ricardo Fenner (**) Maturidade cênica perfeita, pena ter deixado a porta do templo aberta, de onde eu estava enxergava mochilas e bolsas.
Fabio Novello (**) Bom Pilatos, vem crescendo a cada apresentação.
Evaldo Goulart (***) Três papéis, muita energia, muita entrega.
Artistas Convidados:
Antonia Serquevittio - Maria Antonia Silveira Netto - Eliane Alessio - Laura Heger - Ellen Faccin (pela contra-regragem) (***)
Jesmar Peixoto - Antonio Longui - Nicholas Miranda - Romeu Waier - Rick Artemii - Vagner Nardes - Gabriel Barbosa - Felipe Padilha (ser mais atento) (**)
Gabriela Fischer - Respeitar sempre os colegas e professores (*)
Arte é Vida
A Rainha
quinta-feira, 18 de abril de 2019
842- Paixão de Cristo - Ano III (tomo II)
chofer. O assunto em voga, era grenal e eu não tinha como esquivar-me a perguntas tais: -Qual seu time? -Grêmio ganhou mas Inter já havia ganho... etc... -Enquanto a outra falava eu pensava no quanto o ser humano se organiza em torno de ações humanas de grupo. No quanto precisamos de vida em sociedade com assuntos que nos ligam. Afinal se não fosse assim, como nos perceberíamos, como nos reconheceríamos enquanto conjunto humano. Há milênios o homem percebeu que não bastava unir-se para acasalamento ou para aquecer-se à noite. Era preciso mais. Era preciso rituais, mesmo a conversa a volta da fogueira para ouvir historias dos antepassados, era uma maneira de nos organizar socialmente. Liderar, cativar, sensibilizar, exemplificar...
Enquanto retornava a Cruz Alta, de carona com uma amiga, ouvia comentários sobre o futebol, não estava muito interessada, já que saía de uma apresentação teatral e carregava em mim um misto grande de emoções que merecia silêncio e reflexão. Mas como disse, estava de carona, precisava devolver a gentileza em forma de "papo" e atenção para com minha
Duas horas antes, no interlúdio do espetáculo, o hino nacional ecoou pelo ginásio. Um belíssimo ritual, que deve ser respeitado. Um ritual patriótico, que estica seus braços sobre todos que vivem em solo brasileiro. E ainda que alguns torçam o nariz, ou recusem-se veemente a respeitá-lo. Ele nos torneia quanto ao enorme grupo humano a que pertencemos.
Ora o teatro é um ritual. Um ritual que nos recorda quem somos, e de onde viemos. Um ritual que serve para educar-nos, ao menos foi esse o seu princípio ainda na Grécia. Reverenciar os Deuses, elevar o heroísmo, apontar os erros, valorizar a vida. A igreja católica sabia disso e após a queda do Império Romano, usou dos princípios teatrais para controlar a vida dos cidadãos. Os textos encenados pelos membros clericais após as missas ou procissões, tinham como temas as passagens bíblicas, os milagres, os mistérios, os sermões, os autos sacramentais, as biografias de santos e os dramas litúrgicos. Muitos deles eram apresentados em latim. Na época o teocentrismo era o conceito chave, ou seja, Deus era o centro do mundo, ele que regia todo o universo. O homem tornou-se no mundo atual, o centro do mundo. Tudo emana do homem e para o homem. Nossos heróis são rapidamente substituídos, os erros são agora questionáveis, as vezes justificáveis. Mas por que então essa historia continua sendo evocada? Contada?
Por que o principio ritual do humano, sua vontade de evocar a vida ao redor da fogueira nunca irá morrer. Silenciosamente na noite de ontem os pais com filhos no colo repetiam o ato humano de dois mil anos. No palco ancestrais de todos nós eram relembrados e reverenciados, na necessidade humana de se reconhecer, de se espelhar, de contar-se repetidamente como forma de perseverar a espécie.
Foi uma noite extremamente emotiva. Fiquei orgulhosa de poder dizer: Eu sou da mesma cidade desses atores! Como não se orgulhar com tantas técnicas, com tantas sutilezas, nuances, imagens. Cléber Lorenzoni faz de seus atores gato e sapato, em prol do melhor. Tanto é que já saio de casa pensando: o que farão de novidade hoje esses tresloucados?
O teatro era de arena. Bem diferente do formato apresentado em Ijuí. E muito mais interessante. O público posicionou-se em escala social, revelando mesmo no espaço teatral as diferenças de classes. Acentuadas pela postura imposta pela estrutura social e econômica. Nas cadeiras do ginásio a elite, silenciosa, engomada. Nas arquibancadas o povo, dividido entre a cantina e as redes sociais em seus aparelhos celulares.
Logo na recepção o criativo ator Stalin Ciotti em um papel que lhe parece servir qual luva(***). Logo de inicio a atriz Dulce Jorge(***), tão cheia de vigor, usando muita coluna, e planos físicos. A atriz que interpretou tantos papéis marcantes em sua longa carreira teatral, só nos podia dar uma Maria com essa expressividade ímpar. Uma pequena rusga em sua belíssima atuação foi o equívoco em relação ao lado em que seu filho Jesus surgia na cena. No entanto a força com que preencheu o pé do madeiro quase ofuscou o restante do elenco.
No âmbito masculino Vagner Nardes pareceu um tanto atrapalhado com seu figurino de Anaz, mas tirou de letra com sua capacidade de gigante(**), Fabio Novello (**) esteve melhor do que em Ijui, algumas vezes pareceu um pouco perdido, mas a cena de Pilatos compõe-se muito por mérito de seu jogo hoje muito perfeito com Stalin Ciotti e Ricardo Fenner(**). Ricardo Fenner, Fabio Novello e Douglas Maldaner(**) atuam bem, cada um a sua maneira, mas seria bom concentrar-se um pouquinho mais. Respirar, relaxar. Douglas Maldaner como o primeiro homem, o escolhido para cuidar de MAria em sua velhice, triangula muito bem com o messias, mas na cena final não deve dar as costas para o palco, uma dica, estátuas tem apenas um "foco", seus olhos também são estátuas.
Os ladrões nas cruzes estão bem Nicholas Miranda(**) pode ser um pouquinho mais expressivo como Gestas. Na dança está muito bem ao lado dos outros três baixo-demônios. Evaldo Goulart(***) é motivo de orgulho. Com percepção, jogo, ritmo. Interessado, e principalmente disposto a ajudar em prol do todo. Os seguidores do pescador estão muito parelhos em interpretação. Antonio Longhi pode colocar um pouquinho mais de energia nas cenas. Jesmar Peixoto (**) e Rick que não sei ao certo se assina Lanes ou Artemii(**) estão irretocáveis, Barrabás tem crescido e muito. A direção poderia inclusive dar-lhe algumas falas. Romeu (**) esse nome Shakesperiano promete, tem uma presença cênica muito interessante, está aprendendo, e isso é maravilhoso, não compreendo muito bem algumas palavras de seu texto, deve sempre estar atento a melhorar isso, mas de toda forma seu corpo tem muita força na cena da mulher adultera. Gabriel Giacomini (**) está muito bem, pode trabalhar mais o corporal em seu demônio, com mais altos e baixos. Como Pedro ele parece um jovem aprendiz do monstro Renato Casagrande(**), cujo maior mérito, embora brilhante em cena, seja colocar a banda na rua e ainda ser extremamente físico em Judas. Felipe Padilha(**) e Gabriela Fischer(**) são crianças maravilhosas. Ele pode ser mais atento aos sinais e ela é uma princesa que deve ser acolhida e ensinada sempre pelos maiores. É uma futura atriz!
Agora meu maior elogio de hoje precisa ser para aquele rapazinho que atua como o primeiro soldado Romano, Gabriel Barbosa(***). Não é do Máschara, mas devia ser, sua força, seu olhar, sua concentração e ainda seu crescimento nessa ultima encenação foram espetaculares. No quesito técnico, praticamente tudo saiu a contento. Fumaça bem colocada, luzes bem afinadas e trilha impecavelmente administrada. Palamas a Elen Faccin que vem se destacando (***)
Cléber Lorenzoni, não sei se os colegas perceberam, conseguiu fazer um novo Jesus, diferente e mais frágil. Talvez por isso mais cênico, melhora a cada apresentação. Mas como ele diz: Não faz mais que obrigação!! Maluco!!
O melhor- As dublagens melhorando a cada dia e a atuação equilibrada do elenco.
O pior- Talvez o calção preto que Jesus usava por baixo de sua fralda.
Arte é vida, não é aplauso, não é dinheiro, não é especulação. Arte é vida, que corre nas veias...
A rainha
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