sábado, 18 de agosto de 2018

815 - Olhai os Lírios do Campo -(tomo 8)

Recomeços

Olhai os Lírios do Campo, são tão lindos, singelos e simples, e o Rei Salomão, em todo o seu poder e riqueza, não poderia igualar-se a eles em beleza...

Mais uma noite de repescagem, o Máschara volta à Olhai Os Lírios do Campo (2015) do romancista Erico Verissimo. Bem verdade que o texto, ou sua versão seja de Cléber Lorenzoni, apenas o mote inicial permanece como de Erico. Em Olhai os Lírios, há uma equipe bastante versátil que reverbera em boas atuações. 
Ainda que com texto melodramático, um gênero já um tanto ultrapassado, Cléber Lorenzoni consegue dar vida a um espetáculo pulsante, ritmado e criativo. 
Já falei da estrutura e da forma em outras análises, por tanto vou me ater aqui à capacidade de construção e adaptação espacial do grupo. Algumas companhias chegam em cidades do interior, mesmo em Cruz Alta, jogam seus trabalhos sobre o palco sem preocupar-se com o conforto da platéia, sem preocupar-se com a moldura do palco, com sua própria iluminação e a forma como isso chegará ao olhar do público. 
É como se alguém fosse fazer um piquenique dentro de uma latrina sem ao menos lavá-la antes. 
O Máschara tem essa capacidade de rapidamente solucionar reveses, de rapidamente tornar o espaço propício à cena.
O palco do centro cultural de Fortaleza dos Valos pareceu tão grande e capaz para Olhai os Lírios. 
Alguns aquéns foram percebidos como o cigarro virado, o conta gotas que quase foi engolido por Angelo Fontes, a cena do tapete que já foi muito melhor orquestrada. Ainda assim o drama emocionou e prendeu a platéia que ali estava. 
Até mesmo a iluminação tão básica prestou-se ao espetáculo de forma funcional e singela. Méritos claro de Cléber e Fábio Novello. 
O importante nessas ocasiões seria as pessoas perceberem que esses são os momentos de aprender, de observar, de levar para a prática as descobertas dos atores e técnicos mais velhos. Assim se adquire bagagem. 
Nessa mesma noite, estreou como atriz do Máschara Kauane Silva. E embora ainda principiante a jovem, mesmo com poucos ensaios consegue chegar longe, mesmo confundindo Seixas com Eugênio.
Mais importante que o simples talento, o importante para fazer teatro, para se dizer artista, é saber olhar ao redor, trabalhar em equipe, estar disposta, correr para auxiliar os colegas que precisam. 
Isso tudo Kauane tem de sobra e vem sendo motivo de assunto e admiração entre os mais antigos da Cia. Quando se pensa em começar uma carreira é preciso pensar onde se quer chegar, que tipo de atriz se quer ser. Atores talentosos mas egoístas, atores criativos mas preguiçosos, são rapidamente esquecidos. Quem fica é quem é sincero e devotado ao palco. Teatro é um sacerdócio. 
Renato Casagrande tornou-se um grande técnico  e como se dizia na era gloriosa de Sarah Bernhardt, o mordomo do teatro. Conseguir vestir a todos, ter noção de tudo a seu redor e ainda estar bem em cena é mérito incalculável. Ao mesmo tempo é preciso ter humildade, saber que tudo são escolhas e que ninguém deve ser culpado por sua exaustão. O ser humano é em seu íntimo pouco agradecido, e sabe aproveitar-se dos outros. Não espere compreensão ou agradecimento. Espere apenas o respeito do público, seu amor e a dignidade que só é dada aos grandes, pelos grandes.
Alessandra Souza é uma atriz dedicada, mas sempre aconselho a jovens atores que se perguntem como querem ser lembrados. Como aquele que faz sua parte, ou aquele que faz o que realmente deve ser feito. Para ser uma grande atriz é preciso ter um olhar... um olhar... um olhar... 
A curva do espetáculo acontece e embora a atriz Dulce Jorge não estivesse em um de seus melhores dias, sua técnica a mantém intensa na cena. As emoções da dobradinha Cléber e Alessandra funciona muito bem. Seus volumes, dicção, emoção e principalmente jogo é vivaz e nos prende.  Ricardo Fenner conseguiu preencher bem a ausência da mãe, embora eu pense que seja uma perda para o espetáculo não termos a figura de Dona Alzira para compor o quadro familiar.
Enfim, foi uma noite de grandes prazeres, muito jogo e principalmente alegria de ver teatro bem feito.

O melhor- a estreia de Kauane Silva bastante razoável ainda que praticamente sem ensaios e a desenvoltura do ator Evaldo Goulart como contra-regra.
o pior - pessoas mexendo em suas mídias tranquilamente enquanto todos correm de um lado para o outro nos bastidores.

Com o público infantil de Fortaleza dos Valos/RS


Cléber Lorenzoni, Douglas Maldaner, Fabio Novello e Evaldo Goulart em O Castelo Encantado


sexta-feira, 17 de agosto de 2018

814 -O Castelo Encantado ( Tomo -134 )


                     Sempre que vou ao teatro para assistir um espetáculo infantil, fico receosa de que talvez esta ou aquela companhia tenham se equivocado e construído um espetáculo direcionado as crianças que exclua os adultos. Eu fui uma criança do meio do século passado. Sem televisão em casa, apenas as famílias mais ricas da cidade podiam se dar ao luxo de ter um aparelho televisivo. Brincava na rua com outras crianças, peteca, rolimã e pique-esconde eram comuns e estavam presentes sempre. Gostávamos de sentar e entre uma cinco marias e outra, cantarolávamos canções, nos imaginávamos como as grandes cantoras estampadas na revista grande hotel. Líamos muito, mas o apelo era de que ler era estudo e não laser como hoje em dia ele é apregoado. Amava ler, mas não tínhamos também acesso a muitos livros. O que posso dizer, é  que mantive em mim, viva a chama da infância, o espirito infantil, a vontade de querer buscar, de conhecer o novo, sem julgamentos, sem preconceitos...
                    O cerne do problema do mundo atual está no julgamento. A infância, mesmo que cada vez mais curta, sendo esmagada pela adolescência, continua como sempre: desprovida de capacidade de julgar. A criança descobre, não julga. Ela experimenta, sente, vive. O adolescente de dez anos de hoje também não julga: ele forma grupo. O que mais me anima, me interessa nos espetáculos infantis do Máschara, é que eles tem tramas fáceis, mas que não subestimam as crianças. A criança é criança, e quer conhecer o mundo, quer descobrir. Nós adultos rotulamos coisas, queremos colocar as coisas em seus supostos lugares.  A crianças conseguem aceitar criaturas com caudas, chifres em coelhos, super-heróis em aviões miniaturas, etc. As crianças querem descobrir. Ah! E descobrir é tão bom, conhecer, aprender, experimentar.
               Conforme as personagens de Erico Verissimo vão aparecendo, nós vamos nos deleitando e divertindo com a sal capacidade inventiva e a criatividade dos atores do Máschara que dão vida, não à cópias, mas a interpretações apaixonantes.
             Rosa Maria me pareceu mais adulta, mais madura que em apresentações anteriores, mas também menos chatinha. O que é ótimo para a personagem. As vezes os atores querem se parecer com crianças e eu sei que a criança original da historia é um bebê, no entanto para o público são outras as percepções necessárias nessa obra.
           Renato Casagrande e Alessandra Souza tentaram conquistar a plateia com a quebra da quarta parede obrigando a criança a falar o tempo todo como se estivéssemos em um programa de auditório, por Deus! O teatro é para se assistir quietinho, concentrado!
         Por sorte, aconselhados por alguém na coxia, ambos, bons atores que são, contornaram suas intenções. O problema é que o espetáculo ficou com dois desenhos. Primeiro espontâneo e quase interativo e depois redondo e fechado.
        Cléber Lorenzoni se divide em muitas figuras e arranca muito riso em quase todas. O ator tem a plateia na mão quebrando a quarta parede em apenas três momentos.  Deve apenas se dedicar mais aos bonequinhos assessores de Capitão Tormenta que quase foram desnecessários ao espetáculo.
       Fábio Novello aparece pouco, parece muito tranquilo e seu Dono do Circo, mas pode nos dar mais, assim como Douglas Maldaner. Na proposta da direção do espetáculo e com o talento dos atores, o espetáculo podia muito bem ser apresentado com cinco atores ao invés de sete. Se há sete atores é por que o diretor quis dar chances e espaços para mais atores. Estes devem portanto fazer por merecer.
           Evaldo Goulart possui muito talento e comunicação com os colegas e público. Uma pena que dedique tão pouco tempo ao palco. Devemos todos aprofundar os dons que a natureza nos oferece. Douglas Maldaner faz tudo direitinho, mas também não nos diz a que veio. Por que merece estar no palco?
           Um trabalho antigo, com doze anos de estrada, maduro, coerente.
           Gabriel Giacomini continua muito bem na cena, mas já o vi muito mais vivo.
         Foi enfim, uma tarde brilhante e a iluminação, e a composição do cenário correspondem a um exímio trabalho de equipe.

                 O melhor – A maturidade cênica de Cléber, Alessandra Souza e Renato Casagrande.
                   O pior: A necessidade em aprender que o público infantil não precisa ser excitado o tempo todo, que as crianças devem ainda muito cedo, aprender a ver teatro em silêncio e concentração.


                    Arte é vida  

                                              A Rainha 

Kauane Silva, Atriz do Máschara como Soror Isolda em Olhai os Lírios do Campo


quarta-feira, 15 de agosto de 2018

813- Esconderijos do Tempo (tomo 87)


                      O público vai ao teatro por causa dos atores. O autor de teatro é bom na medida em que escreve peças que dão margem a grandes interpretações dos atores. Mas, o ator tem que se conscientizar de que é um cristo da humanidade e que seu talento é muito mais uma condenação do que uma dádiva. O ator tem que saber que, para ser um ator de verdade, vai ter que fazer mil e uma renúncias, mil e um sacrifícios. É preciso que o ator tenha muita coragem, muita humildade, e sobretudo um transbordamento de amor fraterno para abdicar da própria personalidade em favor da personalidade de seus personagens, com a única finalidade de fazer a sociedade entender que o ser humano não tem instintos e sensibilidade padronizados, como os hipócritas com seus códigos de ética pretendem.  (Plínio Marcos)
                            Mario Quintana embora um grande poeta, não reside tanto nos palcos como grandes dramaturgos : Nelson Rodrigues , Caio Fernando Abreu Suassuna ou tantos outros. No meu entender  as palavras de Quintana nasceram para o palco, para estar no centro do picadeiro teatral, onde se fala, debate ou filosofa sobre a vida. Teatro e Literatura são duas artes muito diferentes. Enquanto a segunda tem signos próprios (as palavras e suas articulações em frases e em textos), a primeira é feita de tornar seus os signos que são dos outros, amarrando-os em uma estrutura em que um ator interprete um personagem (ou figura) diante de alguém. Foi o que Cléber Lorenzoni e Dulce Jorge fizeram em 2006, ano do centenário de Mario Quintana. Uniram as frases irônicas, perspicazes e por que não dizer explosivas de Quintana, resultando um espetáculo introspectivo e principalmente, recheado de poesia.

                Onde Quintana estiver, certamente deve se orgulhar profundamente por uma Cia. de teatro que valoriza seu texto, sua historia, seu olhar sobre o mundo. O texto é pronunciado de forma bonita, cada palavra é sentida, bem colocada. A intertextualidade logo toma conta e vamos mergulhando em nossas próprias existências, recordando coisas de uma forma tão natural e ao mesmo tempo tão dolorosa. Embora haja muito humor, um olhar repleto da felicidade “quintanares”, há também uma nostalgia e uma coragem de falar de assuntos que não falamos mais, assuntos que nos desconfortam, que nesse mundo atual somos forçados a jogar para baixo do tapete. 
                        Esconderijos do Tempo, completa doze anos de palco, em sua cena dezesseis atores já brilharam, como aquelas seis personagens que exalam tantas emoções. A direção de Cléber Lorenzoni promoveu um espetáculo maduro e inesquecível. Um espetáculo que deve retornar sempre, de onde platéia e público devem saciar a necessidade de arte e reflexão. 
                          A noite do dia 13 de agosto foi uma noite nobre, com presenças politicas, lideranças, e artistas nas fileiras do teatro de Arroio dos Ratos, e lá estava o Máschara, com o espetáculo que tantos troféus ganhou nos festivais, tantos aplausos que o credenciaram para agora ser respeitado por outros colegas da classe. 
                               Foi noite de estreia para a atriz Laura Hoover, que vem se destacando a cada dia. Noite de trabalho em equipe, de correria. Noite também de erros, afinal atores não são máquinas. Ainda assim, deve-se buscar sempre o melhor trabalho já que se dizem profissionais. Um espetáculo como Esconderijos do Tempo não se dar ao luxo de interpretações mornas, de cenário repleto de desleixo, de iluminação ineficaz, trilha mal operada... Trata-se de um espetáculo digno de muita entrega, já que seu elenco e técnicos fazem parte de um dos grupos mais expressivos do estado.
                              No panteão de atrizes, Dulce Jorge, Laura Hoover e Alessandra Souza cumpriram muito bem suas funções. Talvez Dulce Jorge não precisasse começar a cena tão triste, talvez  Souza devesse parecer  mais menina em sua Lili, e talvez Hoover pudesse estar mais relaxada. Por outro lado todas estiveram plenas. Senhorita Hoover preencheu o palco e orgulhou certamente todos os colegas. Assumira uma tarefa difícil, possivelmente sofre comparações, mas compôs uma perfeita partner ao professor e colega de cena Lorenzoni.
                                No hemisfério masculino as interpretações não deixaram a desejar, mas alguns problemas merecem ser detectados. A maquiagem do senhor Gouvarinho não ficou muito coerente com a limpeza do espetáculo, que é tão cuidados quanto uma pintura. A interpretação de Fabio Novello poderia ser mais divertida, mais relaxada. Quanto à Renato Casagrande, sua intensidade preenche muito bem o palco, houve no entanto uma mudança de inflexões que mudou para mim a sonoridade do ato final, nada que prejudicasse a coerência do pré-epílogo. 
                                 Cléber Lorenzoni mais uma vez emocionou a todos com aquele que infelizmente considero seu melhor personagem. Infelizmente por que esse titulo credencia um peso de cobrança em qualquer outro trabalho do ator. Como se seu Mario fosse um monstro de quem devesse correr.
                               Mas a maior crítica que preciso fazer enquanto amante de um lindo espetáculo e de um grupo de pessoas tão dedicadas, tem a ver com o diretor. Cléber Lorenzoni precisa parar de ser ator amigo e ser mais diretor. Dividir personagens sem levar em conta amizades ou pena de ser verdadeiro com algumas pessoas. Os atores por outro lado deve e precisam ser mais maduros e compreender que ou são todos coleguinhas que fazem pecinhas e não querem ser magoados, ou são atores e técnicos que não querem se expor negativamente em suas funções. 
                           Chega de respostas como eu sei, eu sei, ou eu sabia, eu sabia... É necessário aprender a trabalhar em equipe e aprender suas dificuldades, Ter auto crítica e não pensar que fazer teatro é prestar favores. A iluminação de Esconderijos deixou muito a desejar, quem é o iluminador da Cia.? Cada um faz um pouco? Quem criou? Quem montou? Quem executou? Mario deveria ter morrido durante o espetáculo pois houve uma brusca queda de luz no lampião. Ainda que com imagens lindas, os técnicos precisam ser sensíveis em botões. A trilha sonora do espetáculo foi executada categoricamente, em alguns momentos equivocaram-se volumes. 
                               O que é o teatro? Emprego? Passatempo? Um acaso? Nossas ações sobre o palco podem ser feitas de qualquer jeito? Não é necessário sermos perfeitos? 
                            Claro nesse mundo maravilhoso não é preciso ser o melhor profissional, aliás nesse mundo incrível há troféus até o quinto lugar, e ninguém é cobrado. É um mundo sem competições, é o verdadeiro paraíso na terra. E por que cobrar pelos espetáculos? Eles podem ser doados, oferecidos de graça, entradas francas. Assim não haverá problemas e poderão todos os atores ousar e errar e errar e errar... 
                            Há no Máschara uma hierarquia criada não sei por quem, mas se ela fosse levada sempre em conta, o trabalho não correria tantos riscos. 
                         Saí do prédio teatral triste, não pelas palavras no palco, mas com pena do diretor que precisa se dividir em tantos para que tudo aconteça. Amo o ator que em cena tem noção de tudo o que o cerca. Mas tenho pena do ator que em cena não pode relaxar e exercer plenamente sua função já que é amargamente prejudicado pela falta de exatidão ao seu redor. 

Inesquecível: A estreia de laura Hoover e a maturidade e leveza que a Atriz Alessandra Souza conseguiu depositar na musa.
Esquecível: A piscada de luz e o Blak out na cena do senhor Gouvarinho.

Um conselho à direção: Se Fábio Novello fizesse a luz, e Alessandra Souza não interpretasse dois papeis, o espetáculo alcançaria muito mais junto a platéia. 


                                A Rainha