terça-feira, 29 de julho de 2014

Esconderijos do Tempo em Marau


Matéria do Jornal Diário Serrano em 27 e Julho de 2014


O Santo e a Porca/665 - Tomo 8 - 64º Cena às 7

O TEATRO UNE AS PESSOAS

                Para alguns, o Suassuna que subiu no palco ficou aquém das anteriores apresentações de O Santo e a Porca. Para mim, nunca antes a trama ficou tão clara. Senti falta sim do personagem Pinhão, uma criação perfeita do dramaturgo. no entanto dentro da nova proposta do Máschara, sua ausência não interfere na compreensão da trama. É preciso entender que o dramaturgo escreveu seu texto para falar algo, e que a Cia. que decide dar vida ao texto, vem contar outra historia, de acordo com sua realidade, necessidade e ação universal a sua volta. Ou seja, não vou ao teatro ver o Shakespeare Elizabetano, vou ver o roteiro escrito por ele mas revivido de outras tantas formas atualmente. 
              A composição de Cléber Lorenzoni era muito autêntica, natural, sem grandes exageros, e praticamente simples, por isso mesmo tão verossímil. Dulce Jorge, atriz dramática, tem de ser lembrada numa Caroba excepcional, esperta, sestrosa e ágil. O espetáculo desenrola-se rapidamente sem cenas monótonas. Na verdade os cortes são muito bem feitos. Sem falar nos improvisos tão orgânicos que o diretor usa e que torna tudo tão claro. Plasticamente também aprecio o trabalho, há um cuidado que parte dos pés dos atores e espalha-se pelo cenário. Embora eu implique com o cabelo proposto para o personagem de Euricão. Alessandra Souza nos dá uma Margarida pouco romântica, coesa com a visão da direção. É conhecida a opção do Máschara em seus trabalhos, pelas mulheres fortes. Caroba, Benona e Margarida são a razão e ação em O santo, enquanto que aos homens, Dodó, Eurico e Eudoro resta o desejo e a vontade. A feminilidade é quem vai decidindo os traçados da historia. Se somarmos aí, a Porca e o disfarce de Dodó (ambos femininos), percebemos que a feminilidade é a vencedora na trama. 
                      A composição de Ricardo Fenner é interessante e oferece contraponto à interpretação de Eurico. Uma construção mais imponente ou bruta, poderia não gerar o efeito que vemos, no entanto não sei até que ponto seria o caminho pelo qual eu me enveredaria. Talvez um verdadeiro "coronel" com todos os arquétipos imaginados, nos ofereceriam um outro olhar a ação. 
                          Angélica Ertel volta ao palco com o Máschara, o que muito me agrada. É uma atriz muito forte, viva. Sua principal qualidade é a rapidez com que descobre na assistência a triangulação e sabe usa-la a seu favor. Ertel substitui outro interprete em Benona, e parte de uma cópia para algo muito seu. No entanto, somente após mais algumas inserções é que descobriríamos que mares navegaria em sua interpretação. 
                    As vezes alguns atores pecam não sabendo ser escada para os "altos comediantes", interessante que em O Santo, como em toda boa comédia, todas as personagens tem seu momento. Muitas piadas se perdem. Algumas escorrem pelas mãos de Souza e de Fenner. Lorenzoni e Jorge criam muitas no decorrer, usando principalmente o recurso fônico para isso.
                          Renato Casagrande e Angelica Ertel carregam as criações mais expressivas dessa montagem de O Santo e a Porca, o Dodó dessa proposta  traz a tona o assunto do preconceito, quando introduz na vida familiar do turrão Eurico uma figura supostamente homossexual. Por um momento a caminhada se complica e parece que vai se embrenhar por uma área perigosa, no entanto cumpre a função. Para Eurico o problema não é ser homossexual, mas não ter caráter. Benona carrega uma plástica quase à parte, que mal administrada pode atrapalhar a trama. 
                                  O cenário é criativo, auxilia e não atrapalha, no entanto o uso de cortinas em relação às portas dos quartos onde os casais são fechados, me incomoda um pouco. Mas é filigrana apenas. Não irei me ater à iluminação ou outras perfumarias, o que posso dizer quando sei que o trabalho acontece em um local adaptado? Apenas que torço para que o Máschara volte com o Cena às 7 para a Casa de Cultura.                                     Preciso elogiar o trabalho de equipe que  merecia uma análise à parte.  Muitos trabalham durante dias, outros durante horas, para que às 19 horas tudo esteja a contento. O Máschara segue lutando e enquanto uma pessoa apreciar o teatro, haverá motivo para se alegrar. 


Cléber Lorenzoni - (***) Pela sempre dedicado trabalho e pela luta em manter o Cena às 7.
Dulce Jorge  - (***) Pelo excelente trabalho que arrancou risadas e marcou como a atriz que é, unificando cenas de Caroba e do ausente Pinhão.
Alessandra Souza - (**) Pelo belo trabalho continuado de Margarida.
Renato Casagrande - (**) Pelo conjunto,  Cena às 7 & atuação como Dodó. Pela capacidade em adaptar-se rapidamente e seu trabalho no cena às 7.
Ricardo Fenner - (**) Por sua divertida atuação como Eudoro Vicente.
Evaldo Goullart - (***) Pela extrema preocupação em acertar como operador colaborando no melhor pelo espetáculo.
Fernanda Peres - (**) Por sua dedicação em mais um dia de Cena às 7.
Fabio Novello - (**) Por seu desprendimento em auxiliar de todas as formas o cumprimento do Cena às 7.
Angelica Ertel - (***) Por sua capacidade em assumir com profissionalismo em pouquíssimos ensaios um personagem complexo e conseguir extrair graça e vida próprias dele.

  Vida longa ao Cena às 7                            


                 A Rainha







quinta-feira, 24 de julho de 2014

A Maldição do Vale Negro -663/664 - Marau

                         O Melodrama é caracterizado pelo exagero das interpretações, o gênero que se espalhou durante o século XIX, foi aos poucos dando espaço ao teatro moderno e outras tantas vertentes da arte. O que nos restou do melodrama foram os textos escritos, e várias formas de tentar explicá-lo. Caio Fernando Abreu tentou fazer uma piada, uma brincadeira em cima do tema, o que causa uma certa confusão junto à atores principiantes. O melodrama enquanto gênero deve e precisa ser encarado com verdade, com fé cênica e com respeito. Sua relação com o público está, é verdade, ultrapassada, mas nem por isso jaz sob o manto do esquecimento. Floresce ainda nas novelas, em alguns filmes e pelos palcos de alguns ousados artistas. 
                            A platéia de Marau/RS foi surpreendida por A Maldição do Vale Negro, um texto ágil, repleto de revelações e momentos farsescos. Tecnicamente falando, o Máschara compilou aí várias linguagens criando uma obra exclusiva e difícil de ser "classificada". Há na peça, recursos do "besteirol", do "pastelão", da "farsa" e etc... Assim sendo, crianças e adultos conseguem se divertir, e prova disso foi o aplauso cheio de energia ao final das duas sessões do espetáculo.
                          Na 21º os atores estavam mais ágeis, rápidos como a farsa pede. CLÉBER LORENZONI parecia querer acelerar o espetáculo. Criou e improvisou muito. O que não se repetiu na segunda inserção, quando talvez tomado pelo cansaço, parecia pesado, lento... (***)(*)Algumas ideias acrescentaram muito, como o buquê de flores, os cortes precisos, e a piada final: "Você me adiciona no Facebook?" 
                               RICARDO FENNER não esteve muito bem na primeira seção, já na segunda sua cigana estava engraçadíssima, embora, por um problema de operação nos volumes dos microfones, tivemos o tom de voz de suas personagens, um pouco acima do que o necessário. Sendo, o intérprete de Jezebel parecia estar sempre agredindo seu texto. (**)(***)
                              RENATO CASAGRANDE tem um vocação para o palco, joga de forma muito agradável e divertida, mas as vezes não percebe o ritmo caindo ou a narrativa se arrastando. (***)(**) É preciso que um ator desenvolva seu cronômetro pessoal, que aprenda a sentir ritmos, energias, tempos... para que em situações complexas posso solucionar, controlar ou apurar um espetáculo no seu decorrer.
                                      A Maldição do Vale Negro foi apresentada em um palco grandioso, com uma iluminação razoável afinada por CLÉBER LORENZONI e ANGÉLICA ERTEL e operada por FÁBIO NOVELLO (**)(***).Que embora tenha assistido ao espetáculo apenas uma vez, conseguiu efetuar um bom trabalho. ALESSANDRA SOUZA atuou junto brilhantemente atras das cortinas, conseguindo sozinha arrumar os três atores em cena. (***)(**) EVALDO GOULLART tem se mostrado a cada dia mais esforçado, mais competente e cuidadoso com suas funções, o que é motivo de orgulho, afinal ele faz parte da nova geração e muito se espera dele para o futuro do Máschara. (***)(***)
                                     O Teatro do Máschara impera por sua versatilidade, consegue chegar ao público de forma facilitada ainda que sem subestimá-lo.  


                                      Teatro é um sacerdócio! Poucos são os vocacionados.


                                       A Rainha